A vida é talvez esse momento fechado

missivas-de-dezembro

Lendo-a fiquei a imaginar o meu dia a dia — em meio à multidão… que vai na contramão do meu passo, sempre mais lento. Recordei as caras feias que enfrento quando caminho, com as mãos confortavelmente acomodadas em meus bolsos, enquanto o olhar saboreia tudo o que é paisagem…

Certa vez, ao percorrer as calçadas da Avenida Paulista, onde uma multidão de estranhos se esbarra… ouvi uma dessas pessoas terrivelmente ansiosas dizer, como forma de desaforo-ofensa: “Sai da frente! Em que planeta você vive? É cada maluco que me aparece pela frente… Tenha dó!”…
Eu observei a ‘tormenta’ como se estivesse diante de uma tela de cinema, a assistir uma cena comum-conhecida… de certo modo, divertida. Não dei corda ao meu passo. Mantive o ritmo de antes… as mãos no bolso. Abaixei os olhos para apreciar o lugar pelo qual caminhava — e sorri… enquanto pensava nos movimentos insanos da realidade.
O outro ia longe, mas ainda o ouvia a esbravejar seu desconforto…  a acelerar o passo ao máximo, a desviar dos “obstáculos humanos”. E, certamente atrasado — distribuía toda a sua impaciência para com tudo e com todos, numa revolta que me fez lembrar o Monte Vesúvio, no Golfo de Nápoles, que é monitorado de perto… mesmo estando adormecido.
O rapaz tropeçava em seus movimentos erráticos por entre os carros, com o sinal ainda vermelho para os seus passos… e os motoristas, impacientes, cuspiam buzinadas agudas e meia dúzia de palavras grosseiras — que eram como flechas disparadas contra o infeliz, que ousava atrapalhar a marcha. E ele a correr contra o tempo…
Quando caminho pelas calçadas da cidade… crio meu mundo fantástico e me desconecto dessa gente, que observo em seus momentos de ausência. São fantoches de uma realidade que eles mesmos inventaram… e não sabem como cortar os malditos fios que os mantêm reféns de si mesmos…
Nem mesmo quando esbarram em minha figura, — infelizmente visível —, afastam a minha paz… porque a realidade é qualquer coisa fora de foco — inventada para meu uso e transformada para o meu prazer… aprendi, nas aulas de ‘filosofia’ com o velho Fausto, — que foi ser Frei Franciscano —, a louvar Dioniso, mito grego. Um vagabundo e sedentário… que representa, entre os deuses gregos, segundo a fórmula de Louis Gernet, a figura do outro — do que é diferente, desnorteante, desconcertante. É, também, como escreveu Marcel Detienne, um deus epidêmico. Como uma doença contagiosa, quando ele aparece em algum lugar onde é desconhecido, mal chega e se impõe… e seu culto se espalha como uma onda.
É como se Dioniso fosse uma entidade, que eu pudesse incorporar ao caminhar pelas calçadas da cidade… a maioria dos meus escritos surge à medida que avanço de uma esquina à outra — enquanto me perco e tento achar o meu caminho de volta para casa.
Gosto imenso de me perder e de me saber perdida… é como se cada prédio-pessoa-rua-avenida fosse o vinho de Baco, oferecido ao meu imaginário — que se embriaga em pesados goles… e, em meio a essa insanidade particular, construo os elementos da minha realidade, que são como o jogo da infância, em que se intercala o barbante entre os dedos. Somadas as frases, nem tudo se salva… mas nem tudo se perde.
Tudo tem um sabor ainda mais especial quando sei que estou a incomodar essas pessoas, que vestem pressas nos pés e na alma… e, por mais que tentem, nunca saem do lugar. Movimento os dedos dentro dos bolsos… e sinto os ‘seus fios’ presos — atados à minha vontade… e só consigo sorrir.
Irônico, não?

No interior do silêncio mais silêncio

latte para dois


Carissima A,

…sento-me aqui nesse ‘meu canto de mundo’ — esse lugar entre esquinas — para onde fujo quase que diariamente em busca de paz. Aqui sinto minha alma ser povoada com todos os elementos que preciso para existir nesse meu espaço-tempo.

Um halo se forma na realidade e eu mergulho — a cada gole — nesse abismo que sou! Na pele acontece essa simbiose de tudo que me tocou até chegar aqui. Sou uma substancia que sofre alterações a cada novo segundo: o que eu era ontem já não sou mais.

Hoje me sinto impulsionada por uma emoção que não me pertence e, no entanto, arde-pulsa-se-agiganta-e-me-reduz-a-nada. Ouço Mercedes Sosa: ‘todo cambia’…enquanto visito novamente suas linhas — ainda frescas em minha memória.

Faço uma pausa aqui dentro e penso seu discurso: “acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro…  e não seus autores é que contam“… repito incontáveis vezes essa frase, preciso ouvir-me dentro dessa fala que é sua.

Me disperso por alguns segundos… os olhos se fecham, a alma e o corpo se fecham e fico com o refrão da música que parece suor a varar os meus poros: ‘cambia, todo cambia – cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’…

Volto a realidade dos dias e suas coisas… repouso em meus vazios. Passei algum tempo sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse espaço, que é parte da minha anatomia. Meu Lado B., escreve aqui… sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural, como quem sai para uma caminhada pelas calçadas e encontra um amigo — real ou imaginário — pelo caminho e aceita o convite para um gole de café… aqui mesmo: entre esquinas, onde servem latte em copos brancos de papelão.

De gole em gole… uma frase escapa e eu refaço meus mapas particulares. Conto de meu dia, meus desafios de dar sentido as frases alheias. No momento trabalho em quatro livros… que me conduzem por viagens insólitas. Vou de São Paulo à Americana, do Rio à Amsterdã em poucos segundos. Deliro e me perco de mim mesma — sem saber se voltarei a me encontrar.

Gosto do impossível… do não saber, de não estar e, de voltar a mim apenas quando a ponta da  lapiseira repousa sobre o papel como quem caminha calçadas, atravessa ruas, dobras esquinas…

Há pouco, eu percorria as páginas de Auster — ‘diário de inverno’ — onde ele escreve como quem conversa e me deparei com esse diálogo ‘para fazer o que você faz, é necessário caminhar. São as caminhadas que trazem as palavras até você, que lhe permitem ouvir os ritmos das palavras à medida que as vai escrevendo mentalmente. Um pé para a frente, depois o outro, a batida dupla do coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isso, depois aquilo. Aquilo, depois isso. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham sentido, ainda que as palavras possam, às vezes, ter sentido, a música das palavras é onde os sentidos começam‘.

E volto ao meu silêncio, ao meu gole de latte, aos meus olhos fechados, ao refrão da música, a sua missiva e a minha resposta…

Au revoir

{TAG: MISSIVAS DE PRIMAVERA}

Adriana Aneli | Chris Herrmann | Emerson Braga | Ingrid Morandian
Mariana Gouveia | Manogon | Tatiana Kielberman

14 – E lá se foi a minha hipótese de paz…

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles

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Caríssimo…

Quase cinco horas de uma dessas tardes febris… e eu vim me sentar aqui nesse canto de mundo, para escrever-te. É algo que tento fazer há dias, mas as horas de janeiro foram um desespero de ruas-lugares-paisagens-e-pessoas… não era para ser assim porque janeiro costuma ser um mês calmo-pacato-ameno… para dentro! Mas esse ano foi o contrário disso.

A cidade não se esvaziou como nos anos anteriores… embora tenha esbarrado em muitos estrangeiros, a transitar seus idiomas pelas ruas… mas, também tropecei em muitos humanos — aqueles de sempre — em movimentos erráticos pelas esquinas. Os lugares estavam todos cheios… e o sol tocou fortemente o asfalto, que ardeu como nunca antes. Foi tão cansativo existir dentro dos primeiros dias do ano de dois mil e quinze… que quase me arrependi da pausa a qual me obriguei.

Mas era preciso parar… ponderar, sobretudo, desacelerar, mas senti falta da cidade com seus traços comuns, sendo apenas uma pincelada do que costuma ser.

Gosto imenso de São Paulo e seus movimentos desarticulados… amo sua bagunça, confusão e todo o seu exagero! Adoro transitar suas alamedas, tragar seu ar equivocado e beber um pesado gole de café a qualquer momento do dia. Ter para aonde ir na hora em que quiser. Atravessar ruas, tropeçar em figuras inusitadas… mas gosto também quando tudo deixa de ser o que se é. Esse ano, contudo, foi como se janeiro tivesse se esquecido de acontecer… foi atípico, estranho, desagradavelmente pesado.

Choveu pouco esse ano… os relâmpagos e trovões aconteceram, mas foi tudo tão carregado de angústias e desesperos, que se tornou impossível apreciar.

Senti falta de existir dentro da poesia de Mário de Andrade, que me oferece em seus versos essa cidadela, habitada por seus mil e poucos habitantes… um punhado de casas e ruas… a vida parece ser mais palpável em seus versos…

Em outros janeiros meu caro, até mesmo o verão foi mais ameno – suportável. Senti falta do crepúsculo se impondo fortemente sobre a aurora de repente – sem avisar – da manhã a cair, a tarde a morrer e a noite a ser uma coisa gigantesca-imensa-quase-sem-um-fim (possível).

Não li Borges, Eliot, tampouco Emily… também não tomei xícaras de chá vermelho. Café tampouco! Foi tão difícil ler-escrever em janeiro. Foi angustiante e mesmo me propondo a quietude dentro de um isolamento pensado, foi muito difícil ser palavra na folha. Travei inesquecíveis batalhas e tudo se resumiu a pesados desaforos… com os sons agudos a prevalecer na derme-anestesiada!

E agora que janeiro se foi… respiro fundo e me lembro que depois de amanhã será carnaval. Seria tão bom se eu pudesse fechar os meus olhos agora e só acordar quando essas falsas alegrias já tivessem se liquefeito. Mas como não é possível, sigo a existir dentro desse estranho janeiro, que parece ter avançado sobre o fevereiro, numa insistente permanência…

Ao menos escrevo-te dentro dessa tarde esbranquiçada! Ainda há esperança de chuva para essa quase noite…

L.

Das coisas que eu gosto…

tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto… Creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui

Al Berto

De palavras sonoras e fim de tarde com sol resvalando sem força na silhueta dos prédios vizinhos. De vento frio junto a pele causando arrepios. De chuva branda dentro da noite. Da primavera e seus tapetes de flores pelo chão. Do outono e seus ventos frios no final da tarde deixando nus os galhos… Do verão e suas tempestades insanas. Do inverno e suas mantas vermelhas, canto do sofá e meias brancas nos pés…

Da cidade e sua Avenida Paulista em linha reta a dizer sempre coisas modernas. Da pressa de sua gente e da lentidão dos meus movimentos. Das esquinas. Alamedas. Cafés e Boulevares. Das vitrines sem graça. Dos amigos que não reconheço, mas que estão lá em meio aos humanos em movimento. Da volta pra casa… Das janelas entreabertas e dos carros parados nas grandes avenidas. Das sombras que crescem com a noite e da solidão que percebo quando olho para cima…

De barba roçando minha pele e a xícara de chá quente entre as mãos nos dias frios. Envelopes vermelhos, amarelos em cima da mesa ao lado das folhas esperando palavras e janelas abertas pela manhã. Ingredientes sobre a mesa. Taças cheias. Gargalhadas dentro da noite. Brindes. Diálogos inteiros – pela metade até a madrugada alta – escura. Densa… Picar cebola, alho, tomates. Ouvir a chaleira apitar. Mesa posta. Olhares. Os muitos cantos da casa. Da cama. Do sofá. A noite inteira. Meia noite – a alma em repouso e o relógio gritando as horas junto com os pássaros cantando dentro da madrugada.

Livros espalhados em cima da cama. Filme antigo na televisão – tabuleiro de xadrez – as peças em movimento. Cheque mate. Os últimos instantes da tarde. A lembrança sonora de um velho carrilhão dizendo as seis horas. Mesa posta. A noite se precipitando pelas ruas. As luzes acesas no alto dos postes. As sombras se espalhando ao longo das alamedas. Semáforo vermelho… Lembranças. Saudades. Baús antigos. Chaves perdidas. E o refrão de uma música se repetindo aqui dentro “maybe in the future, you´re gonna come back, you´re gonna come back”. Ficar parada no mesmo lugar, equilibrando-se. Observando pessoas. Sabendo-as. Imitando-as – deixando de ser o que sou, para ser o que nunca fui…

Meia noite. Meia vida. Meio dia. Meia hora. Metade da laranja. Metade de mim. Metade do filme. Metade – apenas metade… Nunca inteiras.

Diario das minhas insanidades, 07

“In the name of the Bee — And of the Butterfly
And of the Breeze — Amen!”

Emily Dickinson


“vamos na mesma direção” anunciou para meu desconforto quando eu passava pela porta.  Precisei respirar fundo para não dispensar o convite e seguir meu caminho de passos estreitos e lentos. Chovia fortemente na cidade — chuva de verão dentro da noite — e eu lhe causaria preocupações desnecessárias — foi o que me fez ficar e esperar. Conheço bem tais alegações… elas gritam em meu íntimo: ‘leva guarda-chuva, vai chover’ — ‘não esquece a blusa de frio’…

Enquanto esperava… apreciei o céu da Paulicéia ‘nada’ desvairada… que se iluminava de tempos em tempos — com seus múltiplos relâmpagos, seguidos de agudos trovões. Um belo espetáculo da natureza para os meus olhos mas, principalmente para a minha alma.

A bordo do carro, seguimos pelo Corredor Norte e Sul — caminho de casa.  W., fez questão de dizer em voz alta e com um sorriso sarcástico nos lábios “não se preocupe, não seremos amigas e você nunca irá para a sua cozinha preparar um daqueles pratos típicos, como presente de aniversário para mim”.  — ela parecia satisfeita por, supostamente, se antecipar o meu pensamento.

Ela ligou o rádio como se o movimento fosse uma continuidade de sua fala, permitindo que Turandot se precipitasse entre nós… e foi o bastante para o silêncio se acomodar em nossos corpos — enquanto nos apoderávamos do que acontecia ao nosso redor: o asfalto molhado, poças largas pelo caminho, os veículos em alta velocidade, os faróis vermelhos de um lado e brancos do outro……

W., dirige com calma e segurança… segura firme o volante com as duas mãos. Não tira os olhos da pista e do retrovisor. É atenta a si mesma e aos outros… e não se importa de ser ultrapassada por outros veículos. Ela não gosta de dirigir, mas também não suporta a idéia de que alguém conduza seu carro do ano — com cor e modelo escolhidos de acordo com o seu perfil.

Vinte e dois minutos depois… ela estacionou em frente ao prédio em que moro. Segundos antes de eu me despedir, ela fez a pergunta que embalou em seu íntimo durante todo o percurso: “ainda não sei por que a noite é tão importante para você! Pode me dizer?”…

W., me olhou com seus olhos de águia no escuro… tudo muito rápido — e esperou. Uma vida inteira atravessou a minha matéria. Pensei em Cecilia Meireles, que esperava o filho dormir para escrever suas linhas. Em Jane Austen que aguardava pelos últimos instantes da madrugada para começar a escrever… porque gostava de amanhecer. Em Emily Dickinson, que saboreava o silêncio da casa, dentro das noites insones.

Investiguei a mim mesma rapidamente: lembrei-me da falta de sono… dos livros-palavras — e do fascínio pelo silêncio-escuro-embriagado que a noite sempre me ofereceu e sorri ao recordar a fala de uma personagem que reinou em minha infância ‘é quando caí a noite que a realidade vai dormir‘. Respirei fundo e me abriguei na canção…

W., fez questão de ressaltar que não tinha pressa, logo, esperaria por minha resposta — entreguei a ela um sorriso em sépia, abri a porta do carro, agradeci pela carona e destilei meu veneno: “cada um de nós reza para o ‘deus’ que melhor lhe convém. Amém”.