Beda | Não vamos fazer de São Paulo um estado de leitores!

vamos fazer de são paulo um estado de leitores
leitura em movimento

 

Eu me lembro que pouco depois de minha chegada à São Paulo… tomei conhecimento da campanha: “vamos fazer de São Paulo um estado de leitores“… que tinha por objetivo espalhar livros pela cidade e incentivar a leitura.

A campanha — que ganhou espaço nos principais jornais-rádios-televisão — simplesmente desapareceu. Mas a idéia ficou no ar… quem usa o transporte coletivo, certamente já esbarrou em leitores, que usam o tempo gasto para ir de um lugar à outro para, literalmente, viajar.

Não é nada fácil se locomover por essa São Paulo logarítmica… formada por centenas de bairros-vilas-avenidas-alamedas-ruas… norteadas pelos pontos cardeais-e-colaterais. Não é um exagero dizer que a Sampa de Caetano deu novo sentido a palavra ‘distância’.

Portanto, nada melhor que sacar um livro da mochila — durante a viagem —, mergulhar em suas páginas e dar asas à imaginação.

Descobri, no entanto, que mais um projeto de incentivo a leitura vai seguir pelo mesmo caminho, infelizmente. Inventado pelo secretário de cultura Mário de Andrade, em 1936 para levar livros as periferias da cidade… o projeto conseguiu sobreviver a duras penas por oito décadas… até ser suspenso pela Prefeitura nesse ano.

O ônibus-biblioteca não circula mais pela cidade e as desculpas são muitas-conhecidas… como de costume. E, as antigas distâncias, deixaram de ser encurtadas — o caminho do leitor até o livro… agora ficou muito maior.


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BEDA | sempre em movimento…

Há pessoas com quem me encontro na realidade das coisas e causas, que me fazem cair tão dentro de mim, que emergir dessa porção mais funda, leva tempo. Recorro aos passos e dou aos pés o traçado irregulares das calçadas… me desoriento, me perco dos mapas conhecidos e vou desbravando essa ilha de ninguém, enquanto percorro o caminho de volta.

Na noite de ontem… orientada pela Lua Cheia amarelada-imensa, dobrei esquinas, avancei avenidas e tropecei no velho Centro Cultural São Paulo… e sua geografia única-mutante-mutável. Foi como voltar no tempo… regressar aos meus primeiros dias em Sampa.

O Centro Cultural foi um dos primeiros cenários que descobri na Paulicéia. Me senti a casa… em meio aos meios. Nunca me esqueci do cartão de visitas que recebi ao atravessar seus espaços… um signore, om sua voz rouca-cansada-gasta lia Fernando Pessoa. Soube depois se tratar de um morador de rua, que ganhava trocados recitando para os que por ali passava.

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Fazia tanto tempo que não pisava seu chão que me senti estrangeira no meio de artistas-arteiros-humanos.

Ali se pode ser tudo e nada. A turbamulta se ocupa de si e seus movimentos urbanos-contemporâneos-de-vanguarda. Uns dançam. Outros cantam. Há quem encene a própria peça. Quem dirija seu próprio monólogo ou afine seu instrumentos. De um lado são eruditos. Do outros malditos-circenses-mambembes. Artistas e Público se misturam e se confundem numa fusão de matéria que em qualquer outro lugar seria impossível.

Desde que o conhecei… o apelidei de ‘berlim paulistana’… um elegante espaço sem portas, apenas entradas que exibem tudo e nada e conectam as calçadas com seus caminhos internos. Um jardim em suspenso para as noites de lua, salas projetadas para exposições, bibliotecas, anfiteatros e os vãos, onde se pode sentar e ser ninguém. Meditar. Exorcizar. Morrer e viver.

Inaugurado em 1982 com uma Proposta de liberdade…  os arquitetos responsáveis pelo projeto, visavam repetir e fazer jus a fama da cidade Paulista: mutante-mutável-instável-antiga-e-moderna… insana. Nunca pronta. Eternamente inacabada. Sempre disposta a novos moldes.

Centro Cultural São Paulo

Erguido num terreno situado entre a Rua Vergueiro e a Vinte e Três de maio. A região antes de ser permeada por grandes vias de asfalto e construções de concretos… e o próprio centro cultural, inaugurado em plena Ditadura Militar brasileira — era margem da nascente do Rio Itororó, berço de vales, palco de casinhas de taipas e um possível caminho para Santos.

Quando a pedra da ideia do Centro Cultural foi lançada, a região já estava bastante alterada, principalmente graças a construção das estações do metrô que desapropriou o que encontrou pela frente. Era preciso preservar o pouco de verde que havia sobrado na região, para ser um ponto destonante no meio de tanto cinza claustrofóbico.

Centro Cultural Vergueiro — escada vermelha

O Centro Cultural São Paulo — ou Vergueiro como ficou conhecido, graças a estação do metrô que fica ali, bem em sua esquina — segue mutante. Na noite de ontem…um show de Rock começava a ensaiar seus pesados metais. Um grupo de street repetia exaustivamente seus passos não tão sincronizados. No piso superior uma exposição de fotografias te convidava a olhar para si. Turistas se acotovelavam para espiar espantados a realidade múltipla-única, enquanto aguardavam — como eu — o retorno para suas realidades.

 



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BEDA | Sebo praia dos livros

Sebo Praia dos Livros 2

Eu gosto imenso do outono… e isso não é uma novidade para quem me conhece pessoalmente ou através de meus escritos. Espero pelo outono com o mesmo prazer que espero por uma deliciosa xícara de chá, de preferência na companhia de um bom livro.

Dias menos quentes… nublados. Tardes frias… regidas por rajadas de ventos. Madrugadas silenciosas. Manhãs menos azuis… lenços coloridos no pescoço e a cidade para tragar a cada passo.

São Paulo é uma cidade para se andar. Subidas insanas. Descidas perturbadoras… a exibir o inesperado-inusitado. Cada bairro é uma pequena cidade. Um cuore a pulsar acelerado no meio do peito.

No verão eu prefiro o conforto dos carros com ar condicionado… que me leva de porta a porta sem me impor aos desmandos dos trinta e tantos graus que faz a anatomia da cidade turva. É difícil respirar-pensar-existir… o que me deixa alheia aos espaços urbanos e tudo que eles tem para me oferecer. De dentro do carro, a cidade se afasta… se ausenta do olhar, que fica reduzido a mínima emoção.

Se fosse hoje um dia quente… esse cenário teria ficado para trás uma vez mais. Não teria percebido suas cores-aromas-fôrmas-formas-sons-sabores… combinações insólitas. Uma pausa para o passo-olhar-sentir. Aquele tempo precioso de espera, que eu tanto aprecio.

A vitrine do sebo praia dos livros te acena com discos de vinil e alguns livros que narra a vida antiga desse país represado em milhares de esquinas. Um convite para quem veio do século passado. Recordei as manhãs de sábado a vasculhar as melhores lojas de discos em busca do melhor do Rock… e o ritual de passar o pano flanelado nos dois lados do long-play, posicioná-lo no aparelho e conduzir a agulha a primeira faixa. Adorava ouvir aquele chiado gostoso e o som que se espalhava por todos os cômodos da casa.

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sebo praia dos livros


Rua Bernadino de Campos, 33
Metrô Paraíso


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Beda | O velho casarão da ‘du Passe-Mussete’…

Comecei a escrever assim que ocupei o último banco do ônibus 805-L — com suas curvas a direita e a esquerda… até chegar à Avenida Paulista — meu destino de hoje. Vou saltar no ponto em frente ao antigo prédio da Gazeta, com suas escadarias sempre ocupadas por insólitas figuras… não importa a hora do dia.

O ônibus subia pela Topázio (as ruas da Aclimação têm nomes de pedras preciosas) quando eu esbarrei nesse sobrado, com uma placa de madeira presa ao portão de ferro, a determinar a sua condição em demolição: a DEMOLIÇÃO foi autorizada pela Prefeitura.

Não consigo me acostumar com os hábitos paulistanos. Prédios morrem todos os dias… estacionamentos edifícios, e shoppings nascem de qualquer jeito, no meio do caminho, num piscar de olhos. Um instante de distração e você se perde da paisagem de ontem.

O ônibus parou no semáforo e o meu olhar aterrissou na janela balcão de madeira no segundo andar. Foi meu guia… me levou de volta no tempo e fui esbarrar em um velho casarão em Paris, que pertencia a sobreviventes da guerra. O casal trocou de sobrenome, escondeu a origem e sepultou os antepassados. Uma história bastante comum a milhares de famílias.

Descobri esse casarão ao ir para as famosas feirinhas de fim de semana, perto do boulevard, no final da Rue du Passe-Mussete. Estava fechado havia anos e era motivo de discussão dos vizinhos, que gostariam de vê-lo ocupado.

Havia perto dali um café-livraria… e da janela era possível observar a ilustre figura do casarão com seu estilo de casa europeia, com muitas janelas espalhadas ao longo da fachada. Todas fechadas, o que não permitia saber o interior e se tem algo que gosto de experimentar, são os interiores dos lugares.

Soube através do dono do Café que o casarão estava fechado desde a morte do casal, que não tinha filhos… herdeiros tampouco. Foi ele quem me entregou um pequeno flyer, anunciando uma interferência, promovida por um grupo de artista que tinha ocupado o lugar.

A casa virou um grande palco… durante ‘quarenta e cinco minutos’ percorremos os espaços mantidos intactos. O piso estava gasto, os móveis empoeirados. Mas, nos armários da cozinha, as louças permaneciam empilhadas com o cuidado de quem prepara as refeições do dia… e no quarto, as roupas apodreciam nos cabides. A cama estava feita e sobre o tapete, estavam a esperar por pés as chinelas.

A sensação ao percorrer cada um dos cômodos do velho sobrado… era de que as pessoas que ali viviam, tinham feito a mala e saído às pressas. Como se tivessem atendido a um chamado… da morte.

O casal foi encontrado na cama — lado a lado, de mãos dadas. Ela com sua camisola branca e ele com seu pijama marrom. Se despediram um do outro, tomaram seus remédios — em doses exageradas — e se adormeceram.

Ela estava frágil e o resultado dos últimos exames anunciou o inevitável: o sofrimento do corpo e da alma. Ele não estava disposto a vê-la sofrer, tampouco a viver o que lhe restava de vida sem sua ‘menina’. Foi essa a história que os autores contaram — a verdade que nos permitimos e imprimimos às paredes do lugar, que fechou suas portas imediatamente a nossa saída.

Sempre que vejo casas abandonadas, em ruínas — imagino vidas-histórias. Imagino o que não sei e invento o que posso.

BEDA | Cada escritor tem um lugar para chamar de seu…

2017-03-31 17.23.17São Paulo é uma cidade logarítmica… com dúzias de árvores prestes a cair e centenas de portões incumbidos de manter inúmeras pessoas do lado de fora e outras tantas do lado de dentro.

Milhares de carros, passos e olhares passam pelas mesmas ruas todos os dias num atropelo desenfreado de movimentos. Os congestionamentos batem constantes recordes, como um nó impossível de desatar.

Quando chove… litros de água desmoronam em cortinas de gotas furiosas que levam poucos segundos para inundar as ruas, que nascem sobre rios que, enterrados ou não: transbordam… e muitas pessoas “se afogam” em lamentos repetitivos.

O clima mudou: o calor persiste… há tempos não fazia tanto calor — diz a moça do tempo… querendo impressionar, como se já não bastante as altas temperaturas anunciadas por um dos diversos relógios espalhados pelas vias da desorientada Paulicéia.

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Alguém pichou recentemente o muro da casa do prefeito — sampa não está à venda — com a mesma tinta e caligrafia horrenda que pode ser vista em dúzias de paredes dos prédios da cidade, que me faz lembrar a velha Europa em seus piores dias. Mais uma soma nessa metrópole matemática.

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São Paulo sempre esteve a venda — retruco de dentro ônibus — enquanto aprecio os desenhos da Avenida Paulista… essa reta inventada em terras alheias para ser futuro-promessa. Quem aqui vive desconhece a história que cada construção esconde e grita bobagens para meia dúzia de tolos… repetir e se engasgar.

A maioria não sabe absolutamente nada do lugar onde pisam-moram. Aqui é terra de quem paga mais… leva. E foi assim desde o começo. Os portugueses ao desembarcarem no ‘planalto paulista’ cuspiram no solo pantanoso. Não havia o que aproveitar: ‘em se plantando nada dá’. Era um lugar com ‘clima ruim’, solo irregular — entrecortado por dezenas de rios. Foram embora… explorar outros lugarejos. E a ‘cidade’ descoberta em 1554 não conseguiu ser nem mesmo um traço no mapa do país. Esquecida, virou abrigo para os jesuítas e pouco depois… vila de passagem para os Bandeirantes — heróis para uns, vilões para outros. Com o facão em mãos, mataram índios e rasgaram matas… fizeram os primeiros traços do mapa do ‘futuro’ Estado mais rico do Brasil.

Quem estuda a história dessa cidade, talvez se surpreenda ao saber que São Paulo se inventou para o Brasil em pouco mais de cem anos. Ironicamente… soube seguir o fluxo do rio. Aproveitou-se do dinheiro verde… quando foi o maior produtor de Café do país  — se reinventou… investindo na indústria, comercio e entrou para o mundo dos negócios, atraindo investidores do mundo inteiro. São Paulo aprendeu a andar na contramão de si mesmo. Talvez por isso, seja tão estranho esbarrar em tantas pessoas conservadoras… a reclamar-esbravejar das mudanças que emergem desse solo.

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Da Vila de Piratininga, nascida nos arredores do Pátio do Colégio  — pouco resta. São Paulo se transformou num monstro urbano, que se reinventa de tempos em tempos  — mastigando e engolindo o próprio passado, cuspido em forma de futuro.

São Paulo não foi pensada para ser uma cidade… foi o sonho individual de alguns. Um belo punhado de milho atirado aos pombos — que dividem espaço com os pardais. Cada bairro da cidade é um pequeno país. É delicioso ouvir tantos idiomas, provar de tantas cores e saber que aqui ser estrangeiro é um prazer que divido com muitos, curiosamente somos mais paulistanos. Conhecemos a cidade, como se repetíssemos nossos antepassados.

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Quando cheguei… São Paulo era cinza-quase-incolor, o verde estava em extinção. As ruas eram sujas. Os prédios envenenados e as pessoas viviam engessadas numa pressa insana de ir e vir, sem saber o lugar. À primeira vista foi ódio-desconforto — quis ir embora e fui… voltei quase dez anos depois para me apaixonar por esses traços irregulares, essa realidade perturbadora, que não cansa de gritar com os nossos olhos. E me saber a casa, porque cada escritor tem um lugar para chamar de seu… aqui é minha ilha, ‘minha pequena porção’ de mundo-realidade.

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