BEDA | O velho casarão da ‘du Passe-Mussete’…

lugares na paulicéia

Comecei a escrever assim que ocupei o último banco do ônibus 805-L — com suas curvas a direita e a esquerda… até chegar à Avenida Paulista — meu destino de hoje. Vou saltar no ponto em frente ao antigo prédio da Gazeta, com suas escadarias sempre ocupadas por insólitas figuras… não importa a hora do dia.

O ônibus subia pela Topázio (as ruas da Aclimação têm nomes de pedras preciosas) quando eu esbarrei nesse sobrado, com uma placa de madeira presa ao portão de ferro, a determinar a sua condição em demolição: a DEMOLIÇÃO foi autorizada pela Prefeitura.

Não consigo me acostumar com os hábitos paulistanos. Prédios morrem todos os dias… estacionamentos edifícios, e shoppings nascem de qualquer jeito, no meio do caminho, num piscar de olhos. Um instante de distração e você se perde da paisagem de ontem.

O ônibus parou no semáforo e o meu olhar aterrissou na janela balcão de madeira no segundo andar. Foi meu guia… me levou de volta no tempo e fui esbarrar em um velho casarão em Paris, que pertencia a sobreviventes da guerra. O casal trocou de sobrenome, escondeu a origem e sepultou os antepassados. Uma história bastante comum a milhares de famílias.

Descobri esse casarão ao ir para as famosas feirinhas de fim de semana, perto do boulevard, no final da Rue du Passe-Mussete. Estava fechado havia anos e era motivo de discussão dos vizinhos, que gostariam de vê-lo ocupado.

Havia perto dali um café-livraria… e da janela era possível observar a ilustre figura do casarão com seu estilo de casa europeia, com muitas janelas espalhadas ao longo da fachada. Todas fechadas, o que não permitia saber o interior e se tem algo que gosto de experimentar, são os interiores dos lugares.

Soube através do dono do Café que o casarão estava fechado desde a morte do casal, que não tinha filhos… herdeiros tampouco. Foi ele quem me entregou um pequeno flyer, anunciando uma interferência, promovida por um grupo de artista que tinha ocupado o lugar.

A casa virou um grande palco… durante ‘quarenta e cinco minutos’ percorremos os espaços mantidos intactos. O piso estava gasto, os móveis empoeirados. Mas, nos armários da cozinha, as louças permaneciam empilhadas com o cuidado de quem prepara as refeições do dia… e no quarto, as roupas apodreciam nos cabides. A cama estava feita e sobre o tapete, estavam a esperar por pés as chinelas.

A sensação ao percorrer cada um dos cômodos do velho sobrado… era de que as pessoas que ali viviam, tinham feito a mala e saído às pressas. Como se tivessem atendido a um chamado… da morte.

O casal foi encontrado na cama — lado a lado, de mãos dadas. Ela com sua camisola branca e ele com seu pijama marrom. Se despediram um do outro, tomaram seus remédios — em doses exageradas — e se adormeceram.

Ela estava frágil e o resultado dos últimos exames anunciou o inevitável: o sofrimento do corpo e da alma. Ele não estava disposto a vê-la sofrer, tampouco a viver o que lhe restava de vida sem sua ‘menina’. Foi essa a história que os autores contaram — a verdade que nos permitimos e imprimimos às paredes do lugar, que fechou suas portas imediatamente a nossa saída.

Sempre que vejo casas abandonadas, em ruínas — imagino vidas-histórias. Imagino o que não sei e invento o que posso.

 


 

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BEDA | Cada escritor tem um lugar para chamar de seu…

DSC00848.jpgSão Paulo é uma cidade logarítmica… com dúzias de árvores prestes a cair e centenas de portões incumbidos de manter inúmeras pessoas do lado de fora e outras tantas do lado de dentro.

Milhares de carros, passos e olhares passam pelas mesmas ruas todos os dias num atropelo desenfreado de movimentos. Os congestionamentos batem constantes recordes, como um nó impossível de desatar.

Quando chove… litros de água desmoronam em cortinas de gotas furiosas que levam poucos segundos para inundar as ruas, que nascem sobre rios que, enterrados ou não: transbordam… e muitas pessoas “se afogam” em lamentos repetitivos.

O clima mudou: o calor persiste… há tempos não fazia tanto calor — diz a moça do tempo… querendo impressionar, como se já não bastante as altas temperaturas anunciadas por um dos diversos relógios espalhados pelas vias da desorientada Paulicéia.

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Alguém pichou recentemente o muro da casa do prefeito — sampa não está à venda — com a mesma tinta e caligrafia horrenda que pode ser vista em dúzias de paredes dos prédios da cidade, que me faz lembrar a velha Europa em seus piores dias. Mais uma soma nessa metrópole matemática.

São Paulo sempre esteve a venda — retruco de dentro ônibus — enquanto aprecio os desenhos da Avenida Paulista… essa reta inventada em terras alheias para ser futuro-promessa. Quem aqui vive desconhece a história que cada construção esconde e grita bobagens para meia dúzia de tolos… repetir e se engasgar.

A maioria não sabe absolutamente nada do lugar onde pisam-moram. Aqui é terra de quem paga mais… leva. E foi assim desde o começo. Os portugueses ao desembarcarem no ‘planalto paulista’ cuspiram no solo pantanoso. Não havia o que aproveitar: ‘em se plantando nada dá’. Era um lugar com ‘clima ruim’, solo irregular — entrecortado por dezenas de rios. Foram embora… explorar outros lugarejos. E a ‘cidade’ descoberta em 1554 não conseguiu ser nem mesmo um traço no mapa do país. Esquecida, virou abrigo para os jesuítas e pouco depois… vila de passagem para os Bandeirantes — heróis para uns, vilões para outros. Com o facão em mãos, mataram índios e rasgaram matas… fizeram os primeiros traços do mapa do ‘futuro’ Estado mais rico do Brasil.

Quem estuda a história dessa cidade, talvez se surpreenda ao saber que São Paulo se inventou para o Brasil em pouco mais de cem anos. Ironicamente… soube seguir o fluxo do rio. Aproveitou-se do dinheiro verde… quando foi o maior produtor de Café do país  — se reinventou… investindo na indústria, comercio e entrou para o mundo dos negócios, atraindo investidores do mundo inteiro. São Paulo aprendeu a andar na contramão de si mesmo. Talvez por isso, seja tão estranho esbarrar em tantas pessoas conservadoras… a reclamar-esbravejar das mudanças que emergem desse solo.

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Da Vila de Piratininga, nascida nos arredores do Pátio do Colégio  — pouco resta. São Paulo se transformou num monstro urbano, que se reinventa de tempos em tempos  — mastigando e engolindo o próprio passado, cuspido em forma de futuro.

São Paulo não foi pensada para ser uma cidade… foi o sonho individual de alguns. Um belo punhado de milho atirado aos pombos — que dividem espaço com os pardais. Cada bairro da cidade é um pequeno país. É delicioso ouvir tantos idiomas, provar de tantas cores e saber que aqui ser estrangeiro é um prazer que divido com muitos, curiosamente somos mais paulistanos. Conhecemos a cidade, como se repetíssemos nossos antepassados.

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Quando cheguei… São Paulo era cinza-quase-incolor, o verde estava em extinção. As ruas eram sujas. Os prédios envenenados e as pessoas viviam engessadas numa pressa insana de ir e vir, sem saber o lugar. À primeira vista foi ódio-desconforto — quis ir embora e fui… voltei quase dez anos depois para me apaixonar por esses traços irregulares, essa realidade perturbadora, que não cansa de gritar com os nossos olhos. E me saber a casa, porque cada escritor tem um lugar para chamar de seu… aqui é minha ilha, ‘minha pequena porção’ de mundo-realidade.

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Projeto fotográfico 6 on 6 | minha cidade

São Paulo não é uma cidade… é um cenário-universo-mundo… com suas contradições de espaço-pessoas-figuras. Tudo aqui se mistura. O diferente se iguala-nivela. O igual se atropela-desespera. As cores se apagam. As luzes se acendem.  Janelas se abrem. Portas se fecham. Estações começam e terminam (no mesmo instante). A lua muda de fase. A rua troca de nome-sentido.  Prédios sobem. Casas descem. Ruas mudam de mão. Pessoas chegam e partem. A paixão nasce intensa em uns. Em outros é ódio que se amplia. Em mim é caminho-casa-pedaço… uma cidade…

 

‘Meu São Paulo da garoa, | — Londres das neblinas finas — | Um pobre vem vindo, é rico! | Só bem perto fica pobre, | Passa e torna a ficar rico’.  — Mário de Andrade

 


 

babilônia— São Paulo! Comoção de minha vida… | Os meus amores são flores feitas de original!…
Arlequinal!… 

DSC_0162— Trajes de losangos… Cinza e ouro…  | Luz e bruma… Forno e inverno morno…

2017-04-25 17.42.58— Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…

sampa— Perfume de Paris… Arys!  | Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…

2017-05-11 19.57.53-1— São Paulo! Comoção da minha vida…

IMG_20140503_164550— Galicismo a berrar nos desertos da América.


 

Participam desse desafio
Frasco de MemóriaO lado de dentro 

Um lugar para a minha escrita…

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Minha escrita é mais ou menos como eu… uma criatura indócil que precisa de movimentos dispares-urbanos-contrários, qualquer coisa de passado-presente-e-futuro devidamente misturados e um canto seguro-confortável para existir-acontecer — Ser.

Não consigo escrever em lugares comuns… organizados para esse fim. E sei disso graças ao fracasso após inúmeras tentativas.

Na casa onde cresci, havia uma biblioteca-escritório… com mesa de madeira feita unicamente para esse fim. Com prateleiras bem merecidas espalhadas pelas quatro paredes a equilibrar centenas de livros… quadros de artistas conceituados e objetos cuidadosamente escolhidos para dar ao espaço-cenário um ‘toque especial’. Nunca escrevi uma única linha ali. Era tão aristocrata-impróprio-inadequado.

Quando ultrapassava a porta, sentia esvaziar-me… era um fantasma em busca de paredes brancas, onde habitar. As palavras fugiam da pele, da ponta dos dedos, da mente-memória… atravessavam a rua e se escondiam atrás de um poste a zombar dos meus vazios.

Gostava mesmo era da mesa da cozinha, dentro das manhãs de sábado ou depois do jantar, quando todas as coisas eram devolvidas ao seu lugar, restando o som da chaleira a apitar a água quente e a xícara a me servir de chá. Nessas horas brotavam frases prontas em minha mente e era tão simples poluir o papel…

Ao chegar a São Paulo… o primeiro pouso que encontrei para a minha escrita foi a Biblioteca Mário de Andrade e seu imenso salão, povoado por mesas brancas e enormes janelões… por onde passava a luz do dia e a realidade da cidade.

Era o que precisava… do lado de dentro acontecia um silêncio impressionante. Dezenas de pessoas se apropriavam da mesa para pesquisar ou apenas ler um livro qualquer. E do lado de fora — por mais que os sons não atravessassem o vidro — era possível ouvir os ruídos da cidade… freadas bruscas, restos de diálogos, passos, gritos, uivos, discussões ácidas, apitos sonoros dos ‘marronzinhos’, o som da britadeira a romper o concreto…

Escrever ali era um exercício bastante simples… bastava me sentar, espalhar os pertences por cima da mesa e escolher os livros que me acompanhariam (porque eu nunca soube escrever sem livros por perto, é meu refúgio para os instantes de quebra).

Mas, para se conseguir um livro tinha que se submeter a insólita burocracia do lugar. Preencher um formulário de requisição… com os dados pessoais, o título do livro e sua localização. Preciosas informações escondidas em um computador tão antigo quanto a ‘velha Mário’ — como era carinhosamente chamada a Biblioteca… que estava morta, mas não enterrada. Pelo que se via, no entanto, faltava pouco… o estado físico do prédio era deprimente. Pisos rachados, paredes trincadas, infiltrações por todos os lados, mobiliário quebrado, falta de pessoal. Tudo acontecia numa espécie de improviso… através do conhecido e estranho: ‘jeitinho brasileiro’.

Uma suposta reforma era anunciada pelos quatro cantos do lugar… o que fazia o fantasma do velho Mário de Andrade e o espírito de Ranganathan gargalharem de dentro da velha torre do prédio, onde ficava o acervo da Biblioteca — zona proibida para nós leitores-frequentadores.

Mesmo com toda o caos da ‘Mário’… descobri preciosidades ali: ‘cartas a Anita Malfatti‘… e o delicioso livro ‘80 poemas de Emily Dickinson‘, com tradução de Jorge Sena.

Sentada em suas velhas mesas… escrevi vários ensaios imaturos-amadores… participei de uma oficina de poesias, que me fez perceber que não sou e nunca serei poeta, apenas uma eterna admiradora do estilo. Participei de um laboratório de Teatro, que desorientou alguns conceitos enraizados em minha anatomia errática. Fiz alguns amigos surreais… e descobri que Bibliotecários são criaturas incríveis, sempre dispostos a contar histórias absurdas que lhes aconteceram no exercício de suas funções… e a te ajudar, quando percebem que você é um ávido leitor.

Às vezes, quando passo em frente a ‘nova Mário’… penso em entrar e ocupar uma de suas poucas mesas. Mas, pesa contra… a ausência de café. Não se pode levar um copo ou garrafa com o líquido companheiro de todas as escritas.

Então aceno e recordo os dias em que tudo que levava comigo era um velho caderno de capa vermelha e a velha lapiseira — parceira de tantos textos — que, às vezes, eu deixava sobre a mesa — sem perigo algum —, enquanto ia ao Bar do Estadão degustar minha dose preciosa de ‘ristreto al vetro’… e de diálogos retalhados que, às vezes, resultava em ensaios-amadores.

É hora de navegar outros horizontes…

a cidade que habito

Hoje nenhum sol brilha e é provável que chova até o final desse dia… o cão me faz companhia nessa vitrine urbana, onde a paisagem da cidade deixa seus traços de casas, ruas, árvores em fila, um emaranhado de prédios e um sem-fim de pessoas em seus passeios de minutos… na companhia de seus bichinhos de estimação e monstrinhos de criação…

E com o olhar detido nessa tela particular de Hopper… percebi, que São Paulo não serve como cenário para a minha escrita atual… e isso é como uma morte lenta-e-incomoda. Não me agrada, em absoluto, abandonar a premissa de escrever a partir dessa cidade, afinal, todo escritor é uma ilha e essa cidade é sem dúvida parte de minha anatomia — a minha ilha particular. Aqui  nascem e morrem todos os meus argumentos.

Gosto de percorrer suas calçadas na contramão do fluxo, com o passo mais lento e o olhar detido nas fisionomias, que não se repetem de uma esquina a outra — e se misturam e se confundem e se fazem ser uma nova figura, que se oferece ao espanto-gozo. São sempre outros e outros e mais outros…

Os prédios são sempre inéditos… uma casa antiga vai o chão hoje e amanhã sobe outra edificação monstruosa-nova-moderna-modorrenta. O passado tomba — exausto e a memória aos poucos se desfaz do que é ‘o mesmo velho’. Se acostumar não é um verbo em voga. Não há tempo para conjugá-lo.

São Paulo se reinventa em cada um de nós de tal maneira que fica impossível saber que raios de cidade é essa. Com seus milhões de habitantes espalhados por cada um de seus insanos pontos cardeais…  é necessário dizer que existe uma Sampa para cada um de nós e não existe Sampa alguma.

Contudo, não devo e não posso negar a realidade-condição de minha personagem, que não cabe nesses contornos imensos… ad infinitum. Ela é figura pequena-mínima-encolhida. E com certeza não conseguiria crescer-existir aqui. Seria engolida-devorada antes e acabaria morta por asfixia… antes dos quinze. E por ser assim é que terei que encontrar um território que seja para ela… uma espécie de segunda pele!

É hora de navegar outros horizontes em busca de possíveis geografias…