6 ON 6 | Passos

Gosto imenso de andar porque o passo avança no mesmo sentido da pena-lapiseira e o chão é uma espécie de papel onde escrevo. Tomo nota das coisas que vejo-sinto-percebo…

dsc_00321  — gosto imenso quando o passo é pausa e eu posso fechar os olhos, descansar os pés e beber pequenos goles de ar-vida-quietude-serenidade… 

Outono - estação favorito do ano— quando meu passo é ultrapassado por outros passos… a caminho de minha porção de mundo, o porto onde ancorar meus pés. 

img_20180811_141417_948— quando as distâncias se reinventam e na melhor das companhias, eu alcanço outras paisagens… que mesmo inéditas, sempre estiveram em mim…

dsc_00911— quando o passo do outro se encontra com o meu e avançamos por caminhos urbanos, dessa metrópole que me convida as suas vias…

perceber o dia— de chegar a casa e despir os pés… sentir as ranhuras do chão, os aromas conhecido do lugar e reconhecer que o melhor verbo a se conjugar é: voltar…

DSC_0135— e não importa o caminho que eu percorra, quando na companhia dele, ainda que a gente vá até a cozinha para brincar de ‘nós dois’ é o melhor destino possível. 

 


 

Ana Claudia | Anália BossClaudia Leonardi  | Fernanda Akemi  Luana de Sousa
Mari de Castro | Maria VitóriaMariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega

 


 

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Beda | SESC vinte e quatro de maio…

 


 

São Paulo é essa cidade que se reinventa a partir das medidas alheias. Impossível precisa-las. Sabê-las tampouco. Você vai para a cama num dia, com todas as coisas no seu devido lugar… e acorda com desenhos e recortes onde se equilibram tudo e nada.

Um desses espaços reinventados… é o prédio do Sesc 24 de maio, que parece fazer parte de um projeto maior… que visa recuperar o famoso centro velho, entregue — durante muito tempo — as traças.

Poucos meses após a minha chegada à cidade… soube que o frondoso edifício iria se torar mais uma unidade do Sesc e desde então o edifício ficou ‘embrulhado’ por tapumes por bem mais que uma década.

Antes de iniciar as obras, no entanto, o prédio resgatado foi palco de uma mostra inusitada… do que era São Paulo. E causou espanto-susto em quem passou por lá… e presenciou o lixo que somos — escancarado, sem cuidado. A maioria não entendeu a ideia da exposição viva e saiu praguejando a própria sorte. Nada que se assemelhe ao ‘homem nu de Lygia Clark’… recentemente. O tempo era outro… as pessoas estavam dispostas a serem incomodadas e removidas de sua zona de conforto.  Ainda se cultivava o hábito de pensar… e não ofender quem via na arte um pouco de ar. Nesse tempo ainda se esperava que a arte cortasse os fios que nos mantinha atrelados a nossa maldita zona de conforto.

Levou algum tempo para o projeto deixar o papel e o lugar se oferecer a nós — criaturas sedentas por espaços… numa cidade que tanto nos oferece e ainda assim é pouco ou nada — acostumados que estamos-fomos a essa reinvenção constante, que parece acontecer apenas para afrontar aos tolos portugueses… que ao aterrissar em solo paulistano… equivocadamente anunciaram sem cuidado: ‘aqui, em se plantando, nada dá’.

A sensação que tenho é de que São Paulo ouviu o insulto… e decidiu soluçar contrários. Ficou para Caetano — em sua famosa canção, quase um hino para a Paulicéia de todos os Mários — anunciá-la em versos:  ‘e fosse um difícil começo’… para o Sesc vinte e quatro de maio também foi assim.

Mas, nesse ano de dois mil e dezoito, finalmente o status de promessa foi abandonado e virou premissa de mais um lugar para se ocupar, na cidade.

Beda | Não vamos fazer de São Paulo um estado de leitores!

vamos fazer de são paulo um estado de leitores
leitura em movimento

 

Eu me lembro que pouco depois de minha chegada à São Paulo… tomei conhecimento da campanha: “vamos fazer de São Paulo um estado de leitores“… que tinha por objetivo espalhar livros pela cidade e incentivar a leitura.

A campanha — que ganhou espaço nos principais jornais-rádios-televisão — simplesmente desapareceu. Mas a idéia ficou no ar… quem usa o transporte coletivo, certamente já esbarrou em leitores, que usam o tempo gasto para ir de um lugar à outro para, literalmente, viajar.

Não é nada fácil se locomover por essa São Paulo logarítmica… formada por centenas de bairros-vilas-avenidas-alamedas-ruas… norteadas pelos pontos cardeais-e-colaterais. Não é um exagero dizer que a Sampa de Caetano deu novo sentido a palavra ‘distância’.

Portanto, nada melhor que sacar um livro da mochila — durante a viagem —, mergulhar em suas páginas e dar asas à imaginação.

Descobri, no entanto, que mais um projeto de incentivo a leitura vai seguir pelo mesmo caminho, infelizmente. Inventado pelo secretário de cultura Mário de Andrade, em 1936 para levar livros as periferias da cidade… o projeto conseguiu sobreviver a duras penas por oito décadas… até ser suspenso pela Prefeitura nesse ano.

O ônibus-biblioteca não circula mais pela cidade e as desculpas são muitas-conhecidas… como de costume. E, as antigas distâncias, deixaram de ser encurtadas — o caminho do leitor até o livro… agora ficou muito maior.


beda interative-se

BEDA | sempre em movimento…

Há pessoas com quem me encontro na realidade das coisas e causas, que me fazem cair tão dentro de mim, que emergir dessa porção mais funda, leva tempo. Recorro aos passos e dou aos pés o traçado irregulares das calçadas… me desoriento, me perco dos mapas conhecidos e vou desbravando essa ilha de ninguém, enquanto percorro o caminho de volta.

Na noite de ontem… orientada pela Lua Cheia amarelada-imensa, dobrei esquinas, avancei avenidas e tropecei no velho Centro Cultural São Paulo… e sua geografia única-mutante-mutável. Foi como voltar no tempo… regressar aos meus primeiros dias em Sampa.

O Centro Cultural foi um dos primeiros cenários que descobri na Paulicéia. Me senti a casa… em meio aos meios. Nunca me esqueci do cartão de visitas que recebi ao atravessar seus espaços… um signore, om sua voz rouca-cansada-gasta lia Fernando Pessoa. Soube depois se tratar de um morador de rua, que ganhava trocados recitando para os que por ali passava.

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Fazia tanto tempo que não pisava seu chão que me senti estrangeira no meio de artistas-arteiros-humanos.

Ali se pode ser tudo e nada. A turbamulta se ocupa de si e seus movimentos urbanos-contemporâneos-de-vanguarda. Uns dançam. Outros cantam. Há quem encene a própria peça. Quem dirija seu próprio monólogo ou afine seu instrumentos. De um lado são eruditos. Do outros malditos-circenses-mambembes. Artistas e Público se misturam e se confundem numa fusão de matéria que em qualquer outro lugar seria impossível.

Desde que o conhecei… o apelidei de ‘berlim paulistana’… um elegante espaço sem portas, apenas entradas que exibem tudo e nada e conectam as calçadas com seus caminhos internos. Um jardim em suspenso para as noites de lua, salas projetadas para exposições, bibliotecas, anfiteatros e os vãos, onde se pode sentar e ser ninguém. Meditar. Exorcizar. Morrer e viver.

Inaugurado em 1982 com uma Proposta de liberdade…  os arquitetos responsáveis pelo projeto, visavam repetir e fazer jus a fama da cidade Paulista: mutante-mutável-instável-antiga-e-moderna… insana. Nunca pronta. Eternamente inacabada. Sempre disposta a novos moldes.

Centro Cultural São Paulo

Erguido num terreno situado entre a Rua Vergueiro e a Vinte e Três de maio. A região antes de ser permeada por grandes vias de asfalto e construções de concretos… e o próprio centro cultural, inaugurado em plena Ditadura Militar brasileira — era margem da nascente do Rio Itororó, berço de vales, palco de casinhas de taipas e um possível caminho para Santos.

Quando a pedra da ideia do Centro Cultural foi lançada, a região já estava bastante alterada, principalmente graças a construção das estações do metrô que desapropriou o que encontrou pela frente. Era preciso preservar o pouco de verde que havia sobrado na região, para ser um ponto destonante no meio de tanto cinza claustrofóbico.

Centro Cultural Vergueiro — escada vermelha

O Centro Cultural São Paulo — ou Vergueiro como ficou conhecido, graças a estação do metrô que fica ali, bem em sua esquina — segue mutante. Na noite de ontem…um show de Rock começava a ensaiar seus pesados metais. Um grupo de street repetia exaustivamente seus passos não tão sincronizados. No piso superior uma exposição de fotografias te convidava a olhar para si. Turistas se acotovelavam para espiar espantados a realidade múltipla-única, enquanto aguardavam — como eu — o retorno para suas realidades.

 



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BEDA | Sebo praia dos livros

Sebo Praia dos Livros 2

Eu gosto imenso do outono… e isso não é uma novidade para quem me conhece pessoalmente ou através de meus escritos. Espero pelo outono com o mesmo prazer que espero por uma deliciosa xícara de chá, de preferência na companhia de um bom livro.

Dias menos quentes… nublados. Tardes frias… regidas por rajadas de ventos. Madrugadas silenciosas. Manhãs menos azuis… lenços coloridos no pescoço e a cidade para tragar a cada passo.

São Paulo é uma cidade para se andar. Subidas insanas. Descidas perturbadoras… a exibir o inesperado-inusitado. Cada bairro é uma pequena cidade. Um cuore a pulsar acelerado no meio do peito.

No verão eu prefiro o conforto dos carros com ar condicionado… que me leva de porta a porta sem me impor aos desmandos dos trinta e tantos graus que faz a anatomia da cidade turva. É difícil respirar-pensar-existir… o que me deixa alheia aos espaços urbanos e tudo que eles tem para me oferecer. De dentro do carro, a cidade se afasta… se ausenta do olhar, que fica reduzido a mínima emoção.

Se fosse hoje um dia quente… esse cenário teria ficado para trás uma vez mais. Não teria percebido suas cores-aromas-fôrmas-formas-sons-sabores… combinações insólitas. Uma pausa para o passo-olhar-sentir. Aquele tempo precioso de espera, que eu tanto aprecio.

A vitrine do sebo praia dos livros te acena com discos de vinil e alguns livros que narra a vida antiga desse país represado em milhares de esquinas. Um convite para quem veio do século passado. Recordei as manhãs de sábado a vasculhar as melhores lojas de discos em busca do melhor do Rock… e o ritual de passar o pano flanelado nos dois lados do long-play, posicioná-lo no aparelho e conduzir a agulha a primeira faixa. Adorava ouvir aquele chiado gostoso e o som que se espalhava por todos os cômodos da casa.

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sebo praia dos livros


Rua Bernadino de Campos, 33
Metrô Paraíso


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