BEDA | Eu me lembrei de você… em mim!

Imaginar não é lembrar-se. Certamente uma lembrança,

à medida que se atualiza, tende a viver numa imagem:

mas a reciproca não é verdadeira, e a imagem pura e simples

não me reportará ao passado a menos que seja

efetivamente no passado que eu vá buscá-la,

seguindo assim o pregresso contínuo que

a trouxe da obscuridade à luz

Henri Bergson

 

 

08 DE AGOSTO

 

Caríssima C.,

Fui para a cozinha preparar um pão na chapa… e enquanto cortava o pão ao meio e passava a manteiga, para em seguida debruçá-lo na frigideira quente dourando-o dos dois lados, como me ensinou a fazer… me lembrei de nossas conversas no meio da tarde, do seu silêncio e seu olhar agudo-guloso-sempre-atento.

Gosto quando você chega sem avisar, com seus rituais de vida — que repito no automático — e se mistura a minha realidade… feito tempestade — a me ocupar-povoar… sem escolher dia-hora-lugar. Apenas me pega pelo braço e me leva pelos seus caminhos primaveris… caminhar a sua cidade, espiar suas pessoas, tragar do ar úmido e perfumado por suas flores de laranjeira. Te ouço falar em mar, céu azul enquanto planeja o fim de semana e aprecia os movimentos humanos-urbanos.

Recordo nós duas… sentadas à mesa daquela padaria na rua de seu trabalho… e, você a pedir dois pães na chapa. Foi preciso desprender tempo e palavras para explicar como deveria ser feito. O rapaz em seu primeiro dia de trabalho se atrapalhou todo… e você, com sua paciência rotineira ensinou a nós dois a ser sempre gentil com as pessoas: “não importa o quanto elas te desafiem, sempre ofereça o seu melhor sorriso. Do lado de dentro você esbraveja e, pronto”.

Nunca consegui imaginar o seu interior em estado de fúria. Raiva nunca foi uma palavra sua. Seu corpo sempre transbordava paz… e seus movimentos uma calma invejável. Enquanto eu era tempestade, você sempre foi calmaria. Até o meu silêncio fazia imenso barulho perto de ti, que sorria… como se reconhecesse todos os meus tumultos herdados de ‘seu menino’. Você me dizia com a voz, os gestos e o corpo inteiro: ‘menos’ e eu latejava fúria — bufava.

Sempre que estou prestes a perder a calma e transbordar… me lembro de sua lucidez e acabo por me perder em incontidos sorrisos. Me reorganizo em míseros segundos. Acho que você acharia graça de meus movimentos dentro do dia e por saber-me: ‘menina das palavras’, como disse que eu seria, e eu retrucava — insistia no contrário. Você tinha razão… mas, não me arrependo por ter tentado outros caminhos — porque aprendi com você que o importante é caminhar… e foi exatamente o que eu fiz. Aprendi lugares. Desaprendi pessoas… fui barco a deriva, em busca de cais. E sempre que atraco em algum porto, me lembro de ti…

 

À tout à l’heure!

 

selo para o BEDA

Amizade a primeira vista…

Aprendi através de uma menina de olhos amendoados que existe: “amizade a primeira vista” e que é mais ou menos como um “amor a primeira vista”: a gente se reconhece, se estremece e, pronto…

Eu ainda me lembro do nosso primeiro encontro… ela com suas agitações e precipitações várias a me dizer um punhado de coisas impossíveis e eu, a oferecer o que eu sempre oferecia as pessoas: indiferença…

Ela foi minha primeira tempestade em muito tempo… seu sorriso se misturava ao meu e, seu olhar as vezes não sabia outra direção, que não os meus olhos. Eu a amei com afinco, mas a odiei um sem fim de vezes…

Certa vez, ao ler “orgulho e preconceito”, ela me disse: somos uma espécie de Lizzie e Darcy… ela me enlouquecia com suas frases tolas –  a parte disso, ela reclamava com frequência da minha seriedade… me tirava do sério com suas atitudes insensatas.

Ela era uma tormenta e, eu… naqueles dias, era apenas calmaria. Eu gostava de dias de chuva e ela de dias de sol. Amava janelas fechadas e, ela as escancarava na primeira oportunidade que tivesse…

Ela dizia com alguma frequência, que eu precisava sorrir mais e, talvez por isso, hoje o sorriso seja uma espécie de marca registrada em meu rosto, sendo uma espécie de eco desses dizeres que ainda reverberam em mim…

Recentemente, fez dez anos que nos vimos pela última vez… ela vestiu meu corpo, naquele meio de tarde, com seu abraço demorado-pesado no qual eu aprendi a me deixar ficar… sem restrições. Depois… deitou em meu rosto um beijo e ao olhar no fundo dos meus olhos disse que me amava.  Eu que tinha dificuldade em acreditar em pessoas, acreditei nela sem restrições… sorrimos juntas pela última vez… e depois disso, foram muitas as vezes, em que desejei, que fosse apenas a primeira!

Ela se foi… desde então, há dias – como hoje – em que eu sinto falta da acidez de seus comentários ruidosos. De seu olhar junto as minhas laterais… de seu passo lado a lado ao meu. De seu silêncio durante minha fala sem entusiasmo… de sua quietude junto a minha anatomia quando a melancolia era minha única pele. E de seu entusiasmo canino ao me encontrar pelos caminhos que partilhávamos… ela estava sempre de braços abertos pra mim!

Éramos duas… mas fomos apenas uma muitas vezes! E sempre que tropeço em figuras pelo caminho, encontro algo dela nas pessoas que observo e, talvez por isso eu me afaste gradativamente.

Eu sei que são figuras estranhas e, jamais serão diferentes disso… eu não as amo e jamais amarei… não por não serem ela, mas por serem apenas elas mesmas… e nada mais!

O silêncio aumentou tanto que o relógio se calou!

 

writing in a coffee 2


Caríssima A,

 

…os ponteiros do mio cuore desaceleraram ao ler tuas linhas — quase pararam. Fechei os olhos e sem me mexer, viajei no tempo… regressei a uma geração distante, mas minha. Agarrei as memórias com as duas mãos e sem as largar, senti a textura da mesa quadrada da cozinha, onde aprendi os meus rituais-rotinas de vida.

No ar o cheiro de pão quente — recém-saído do forno… o aroma de ervas maceradas e e, em mim, um tempo que, embora longe, segue dando corda nesse mio cuore… que, às vezes, para… acelera… volta a parar…

Em suspenso — tive em mãos uma vez mais… o meu primeiro envelope vermelho comprado numa das papelarias da cidade. Repeti na companhia de C., aquele gesto pequeno — uma pequena dobradura. Papel sobre a mesa, pontas unidas, marcas feitas com a ponta dos dedos e vincadas com as unhas… outra dobra ao meio. O aproximo das narinas para provar do aroma da combinação perfeita: papel, grafite, palavras, vazios e carinho. Por fim, nova e última dobra…que segundo C., deveria ser feita com um gesto particular… a representação de um abraço. Trocar correspondência é abraçar alguém através das palavras, é ir de encontro sem deixar o canto do corpo, é chegar-partir-e esperar… o tempo da espera é precioso — dizia ela.

Ela fazia uma pequena dobra em uma das extremidades do papel, com toda delicadeza que trazia em sua matéria-deliciosamente-humana.

C., era uma mulher que apreciava a simplicidade dos gestos. Nunca me cansei de admirá-la e sigo a repetir nossos rituais. Gosto de voltar aquelas manhãs de sábado e partilhar de nossos gestos comuns. Reconhecer movimentos de lápis e papel, pequenos goles, sorrisos e olhares cúmplices a quem sempre agradecerei…

É como abrir a janela para uma manhã cinza, céu imenso, mar gigante, gaivotas a arrulhar em seus vôos longínquos e a chuva em busca de vidraças.

Au revoir

 

 

 

{TAG: MISSIVAS DE PRIMAVERA}

Adriana Aneli | Chris Herrmann | Emerson Braga | Ingrid Morandian
Mariana Gouveia | Manogon | Tatiana Kielberman

Esta é a hora das minhas confidências,

DSC00324

 

A você, meu menino…

 

…amanheceu junho por aqui, com todo o cuidado possível. Dia cinza, suavemente esbranquiçado, com vento agradavelmente frio a percorrer os hemisférios de nós dois.

Por entre as nuvens — lá no alto, distante — o sol insiste em aparecer, mas o dia não parece se interessar pelos raios do astro rei… que não demonstra força  nesse momento, para se fazer prevalecer. Coisas do outono/inverno… essa estação da minha alma!

Reparou que nós dois nascemos no outono? Cada qual ao seu tempo e lugar… você em junho e eu em novembro! Você cá… e eu lá! Com um oceano inteiro entre nós dois…

Quando cheguei a São Paulo na primeira vez e provou do hálito insuportavelmente quente da cidade, acusei o desespero e passei, a escrever a frase: “hoje eu só queria fechar os meus olhos e despertar dentro das manhãs de junho” em todos os cadernos e também na pele e na alma, feito tatuagem que não se apaga. 

Era uma espécie de desejo que eu acalentava dentro, como se fosse um presságio… a vida me avisando que você era o meu destino… o meu norte! Um eco, se pronunciando a partir de minhas entranhas… 

Eu  me lembro da nossa primeira vez… você desceu a ladeira, vindo em minha direção… e, enquanto caminhava, vindo ao meu encontro, com as mãos imediatamente dentro dos bolsos da calça jeans, os passos lentos, o olhar cabisbaixo e nos lábios um sorriso miúdo, quase inexistente… eu viajava — estranhamente — em minhas próprias lembranças, em busca de sua figura.

Eu o sabia muito antes daquele encontro, mas não havia memória bastante para sustentar a certeza, que eu acalentava em minha epiderme. Procurei por você… em ruas intrépidas, calçadas irregulares, esquinas várias… revisitei em poucos segundos, todos os lugares onde estive! Eu o sabia… muito antes de vê-lo mergulhar no fundo de minha pele, com seu abraço imenso… mas você não estava em lugar algum de minha matéria.

Eu insisti… revirei todas as minhas coisas. Fiz do avesso o verso… e nada! Confessei à você… em voz alta — eu te conheço de algum lugar”… foi exatamente quando vi o seu sorriso dobrar de tamanho. Seu olhar vigiar cada traço do meu rosto e ir fundo no castanho dos meus olhos. — “de onde seria?” — você quis saber, porque existíamos dentro da mesma certeza.

Ficamos em suspenso… a calcular nossos passos, movimentos, lugares, paisagens!
Eu recordei, as muitas vezes, em que estando sozinha, sentia uma sombra passar por mim, com seu perfume suave de vento e seu movimento de nuvem. A pele rasgava-se em arrepios contínuos. O coração acelerava e o ar percorria caminhos outros… eu sentia saudades, mas nunca soube de quem!

Eu  confesso: nunca acreditei em destino… mas depois de tropeçar em tua imagem — estranha e conhecida — guardar todos os teus traços em minha alma para sabê-lo mais tarde. Pensar em você durante dias inteiros, no silêncio de minhas frases, na solitudine de meus passos, no barulho das multidões, nos cantos onde eu me escondia e nos degraus onde me sentava… reconheci que existe esse lugar, onde tudo é fim e começo ao mesmo tempo… esse lugar que nos espera, como se tivéssemos partido dali, para correr o mundo, cientes que um dia retornaríamos…

Talvez o mito grego faça sentido… somos duas partes de um mesmo ser, fatiados por um Deus e (re)unidos por outro…

Hoje, a sua matéria alcança os setenta anos e eu só consigo pensar que cheguei faz pouco tempo… não me ocupo dessas somas, nem mesmo gosto de matemática. Gosto apenas de olhar para você e reconhecê-lo enquanto mar onde eu navego. O abraço no qual me deixo ficar, um pouco mais a cada novo dia. Eu não me lembro  quando o amei pela primeira vez… talvez tenha sido quando nos sentamos para festejar seu aniversário na padaria da Bela Vista, com uma fatia de bolo e uma vela que terminou por queimar os seus dedos. Ou não! Talvez tenha sido quando caminhamos de braços dados pela Liberdade, a caminho do Sesc Carmo para um almoço não planejado… sendo eu a menina a tagarelar premissas e você a recusar promessas. Você tinha um olhar triste naqueles dias e o mesmo se passava comigo. Mas quando nos encontrávamos, o mundo não se atrevia a conjugar distrações. Estávamos aprendendo, só não sabíamos ainda, a ser apenas nós dois…

Não sei como aconteceu para você, mas eu… quando dei por mim, já o amava, mas não esse amor de corpo, pele… de estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas… que aproxima e distancia, que se satisfaz com o pouco que, também é muito — tudo.

Gosto imenso quando seu olhar encontra o meu e quando seus dedos reinventam meus traços… gosto quando você abre os braços para eu me encaixar e adoro quando seu sorriso reflete em mim, pouco antes de sentir seus lábios junto aos meus. Fecho meus olhos, como a primeira vez e sei quem sou, mas nunca onde estou…

Amanheceu junho, amore mio… e nós dois amanhecemos juntos!
E cá estou eu, amando-te com o sabor imutável da primeira vez.

 

Bacio en tuo (mio) cuore

Não existe segunda-feira sem poesia, 5

“Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro”.

Al Berto

manhãs de junho

 

O vento entrou pela janela, numa espécie de voo sem asas… levou ao chão as folhas, causou tumulto nas páginas dos livros, tocou minha pele de maneira arredia… misturando sensações, fazendo arder o íntimo — essa acha sempre acesa. Me deixou em suspenso — por alguns segundos — com a lembrança de “certos dias de dezembro”… e foi embora, da mesma maneira como chegou…

Acontece que, quando estou por lá — dentro dos dias de dezembro — sinto dentro, esse desejo crescente de fechar os olhos — coisa que faço — e despertar dentro das manhãs de junho… exatamente onde estou agora!

É junho… repito num sem voz, com um sorriso pequeno a se liquefazer em meus lábios enquanto aprecio a chama da vela vermelha — acesa por meu menino — arder.

Junho é o mês das chamas, dos mastros com fitas coloridas, dos pães de ervas sobre a mesa no final da tarde, e das preces, que são poesias para os ares… é o mês das danças circulares, que levantam poeira nos quintais…

Por aqui será inverno em breve… e as quermesses vão aquecer as noites com o forte de pinga e gengibre. Mas em algum lugar será verão, dias azuis, noites menores, horas cheias… férias no campo, potes com biscoitos no alto dos armários, banho de rio, árvores para escalar… o trem a anunciar a partida, oferecendo qualquer coisa de destino aos “navegantes”…

Como vês, aqui dentro de mim é essa mistura de estações, países, cidades, paisagens…  é esse poema por ser escrito — amanhã ou depois! Por hora, vou devolver tudo ao seu devido lugar e visitar a prateleira para saber que poeta viverá junho comigo!

 

Al Berto, Borges, Eliot, Bishop, Mário…