Amizade a primeira vista…

Aprendi através de uma menina de olhos amendoados que existe: “amizade a primeira vista” e que é mais ou menos como um “amor a primeira vista”: a gente se reconhece, se estremece e, pronto…

Eu ainda me lembro do nosso primeiro encontro… ela com suas agitações e precipitações várias a me dizer um punhado de coisas impossíveis e eu, a oferecer o que eu sempre oferecia as pessoas: indiferença…

Ela foi minha primeira tempestade em muito tempo… seu sorriso se misturava ao meu e, seu olhar as vezes não sabia outra direção, que não os meus olhos. Eu a amei com afinco, mas a odiei um sem fim de vezes…

Certa vez, ao ler “orgulho e preconceito”, ela me disse: somos uma espécie de Lizzie e Darcy… ela me enlouquecia com suas frases tolas –  a parte disso, ela reclamava com frequência da minha seriedade… me tirava do sério com suas atitudes insensatas.

Ela era uma tormenta e, eu… naqueles dias, era apenas calmaria. Eu gostava de dias de chuva e ela de dias de sol. Amava janelas fechadas e, ela as escancarava na primeira oportunidade que tivesse…

Ela dizia com alguma frequência, que eu precisava sorrir mais e, talvez por isso, hoje o sorriso seja uma espécie de marca registrada em meu rosto, sendo uma espécie de eco desses dizeres que ainda reverberam em mim…

Recentemente, fez dez anos que nos vimos pela última vez… ela vestiu meu corpo, naquele meio de tarde, com seu abraço demorado-pesado no qual eu aprendi a me deixar ficar… sem restrições. Depois… deitou em meu rosto um beijo e ao olhar no fundo dos meus olhos disse que me amava.  Eu que tinha dificuldade em acreditar em pessoas, acreditei nela sem restrições… sorrimos juntas pela última vez… e depois disso, foram muitas as vezes, em que desejei, que fosse apenas a primeira!

Ela se foi… desde então, há dias – como hoje – em que eu sinto falta da acidez de seus comentários ruidosos. De seu olhar junto as minhas laterais… de seu passo lado a lado ao meu. De seu silêncio durante minha fala sem entusiasmo… de sua quietude junto a minha anatomia quando a melancolia era minha única pele. E de seu entusiasmo canino ao me encontrar pelos caminhos que partilhávamos… ela estava sempre de braços abertos pra mim!

Éramos duas… mas fomos apenas uma muitas vezes! E sempre que tropeço em figuras pelo caminho, encontro algo dela nas pessoas que observo e, talvez por isso eu me afaste gradativamente.

Eu sei que são figuras estranhas e, jamais serão diferentes disso… eu não as amo e jamais amarei… não por não serem ela, mas por serem apenas elas mesmas… e nada mais!

O silêncio aumentou tanto que o relógio se calou!

 

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Caríssima A,

 

…os ponteiros do mio cuore desaceleraram ao ler tuas linhas — quase pararam. Fechei os olhos e sem me mexer, viajei no tempo… regressei a uma geração distante, mas minha. Agarrei as memórias com as duas mãos e sem as largar, senti a textura da mesa quadrada da cozinha, onde aprendi os meus rituais-rotinas de vida.

No ar o cheiro de pão quente — recém-saído do forno… o aroma de ervas maceradas e e, em mim, um tempo que, embora longe, segue dando corda nesse mio cuore… que, às vezes, para… acelera… volta a parar…

Em suspenso — tive em mãos uma vez mais… o meu primeiro envelope vermelho comprado numa das papelarias da cidade. Repeti na companhia de C., aquele gesto pequeno — uma pequena dobradura. Papel sobre a mesa, pontas unidas, marcas feitas com a ponta dos dedos e vincadas com as unhas… outra dobra ao meio. O aproximo das narinas para provar do aroma da combinação perfeita: papel, grafite, palavras, vazios e carinho. Por fim, nova e última dobra…que segundo C., deveria ser feita com um gesto particular… a representação de um abraço. Trocar correspondência é abraçar alguém através das palavras, é ir de encontro sem deixar o canto do corpo, é chegar-partir-e esperar… o tempo da espera é precioso — dizia ela.

Ela fazia uma pequena dobra em uma das extremidades do papel, com toda delicadeza que trazia em sua matéria-deliciosamente-humana.

C., era uma mulher que apreciava a simplicidade dos gestos. Nunca me cansei de admirá-la e sigo a repetir nossos rituais. Gosto de voltar aquelas manhãs de sábado e partilhar de nossos gestos comuns. Reconhecer movimentos de lápis e papel, pequenos goles, sorrisos e olhares cúmplices a quem sempre agradecerei…

É como abrir a janela para uma manhã cinza, céu imenso, mar gigante, gaivotas a arrulhar em seus vôos longínquos e a chuva em busca de vidraças.

Au revoir

 

 

 

{TAG: MISSIVAS DE PRIMAVERA}

Adriana Aneli | Chris Herrmann | Emerson Braga | Ingrid Morandian
Mariana Gouveia | Manogon | Tatiana Kielberman

Esta é a hora das minhas confidências,

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A você, meu menino…

 

…amanheceu junho por aqui, com todo o cuidado possível. Dia cinza, suavemente esbranquiçado, com vento agradavelmente frio a percorrer os hemisférios de nós dois.

Por entre as nuvens — lá no alto, distante — o sol insiste em aparecer, mas o dia não parece se interessar pelos raios do astro rei… que não demonstra força  nesse momento, para se fazer prevalecer. Coisas do outono/inverno… essa estação da minha alma!

Reparou que nós dois nascemos no outono? Cada qual ao seu tempo e lugar… você em junho e eu em novembro! Você cá… e eu lá! Com um oceano inteiro entre nós dois…

Quando cheguei a São Paulo na primeira vez e provou do hálito insuportavelmente quente da cidade, acusei o desespero e passei, a escrever a frase: “hoje eu só queria fechar os meus olhos e despertar dentro das manhãs de junho” em todos os cadernos e também na pele e na alma, feito tatuagem que não se apaga. 

Era uma espécie de desejo que eu acalentava dentro, como se fosse um presságio… a vida me avisando que você era o meu destino… o meu norte! Um eco, se pronunciando a partir de minhas entranhas… 

Eu  me lembro da nossa primeira vez… você desceu a ladeira, vindo em minha direção… e, enquanto caminhava, vindo ao meu encontro, com as mãos imediatamente dentro dos bolsos da calça jeans, os passos lentos, o olhar cabisbaixo e nos lábios um sorriso miúdo, quase inexistente… eu viajava — estranhamente — em minhas próprias lembranças, em busca de sua figura.

Eu o sabia muito antes daquele encontro, mas não havia memória bastante para sustentar a certeza, que eu acalentava em minha epiderme. Procurei por você… em ruas intrépidas, calçadas irregulares, esquinas várias… revisitei em poucos segundos, todos os lugares onde estive! Eu o sabia… muito antes de vê-lo mergulhar no fundo de minha pele, com seu abraço imenso… mas você não estava em lugar algum de minha matéria.

Eu insisti… revirei todas as minhas coisas. Fiz do avesso o verso… e nada! Confessei à você… em voz alta — eu te conheço de algum lugar”… foi exatamente quando vi o seu sorriso dobrar de tamanho. Seu olhar vigiar cada traço do meu rosto e ir fundo no castanho dos meus olhos. — “de onde seria?” — você quis saber, porque existíamos dentro da mesma certeza.

Ficamos em suspenso… a calcular nossos passos, movimentos, lugares, paisagens!
Eu recordei, as muitas vezes, em que estando sozinha, sentia uma sombra passar por mim, com seu perfume suave de vento e seu movimento de nuvem. A pele rasgava-se em arrepios contínuos. O coração acelerava e o ar percorria caminhos outros… eu sentia saudades, mas nunca soube de quem!

Eu  confesso: nunca acreditei em destino… mas depois de tropeçar em tua imagem — estranha e conhecida — guardar todos os teus traços em minha alma para sabê-lo mais tarde. Pensar em você durante dias inteiros, no silêncio de minhas frases, na solitudine de meus passos, no barulho das multidões, nos cantos onde eu me escondia e nos degraus onde me sentava… reconheci que existe esse lugar, onde tudo é fim e começo ao mesmo tempo… esse lugar que nos espera, como se tivéssemos partido dali, para correr o mundo, cientes que um dia retornaríamos…

Talvez o mito grego faça sentido… somos duas partes de um mesmo ser, fatiados por um Deus e (re)unidos por outro…

Hoje, a sua matéria alcança os setenta anos e eu só consigo pensar que cheguei faz pouco tempo… não me ocupo dessas somas, nem mesmo gosto de matemática. Gosto apenas de olhar para você e reconhecê-lo enquanto mar onde eu navego. O abraço no qual me deixo ficar, um pouco mais a cada novo dia. Eu não me lembro  quando o amei pela primeira vez… talvez tenha sido quando nos sentamos para festejar seu aniversário na padaria da Bela Vista, com uma fatia de bolo e uma vela que terminou por queimar os seus dedos. Ou não! Talvez tenha sido quando caminhamos de braços dados pela Liberdade, a caminho do Sesc Carmo para um almoço não planejado… sendo eu a menina a tagarelar premissas e você a recusar promessas. Você tinha um olhar triste naqueles dias e o mesmo se passava comigo. Mas quando nos encontrávamos, o mundo não se atrevia a conjugar distrações. Estávamos aprendendo, só não sabíamos ainda, a ser apenas nós dois…

Não sei como aconteceu para você, mas eu… quando dei por mim, já o amava, mas não esse amor de corpo, pele… de estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas… que aproxima e distancia, que se satisfaz com o pouco que, também é muito — tudo.

Gosto imenso quando seu olhar encontra o meu e quando seus dedos reinventam meus traços… gosto quando você abre os braços para eu me encaixar e adoro quando seu sorriso reflete em mim, pouco antes de sentir seus lábios junto aos meus. Fecho meus olhos, como a primeira vez e sei quem sou, mas nunca onde estou…

Amanheceu junho, amore mio… e nós dois amanhecemos juntos!
E cá estou eu, amando-te com o sabor imutável da primeira vez.

 

Bacio en tuo (mio) cuore

Não existe segunda-feira sem poesia, 5

“Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro”.

Al Berto

manhãs de junho

 

O vento entrou pela janela, numa espécie de voo sem asas… levou ao chão as folhas, causou tumulto nas páginas dos livros, tocou minha pele de maneira arredia… misturando sensações, fazendo arder o íntimo — essa acha sempre acesa. Me deixou em suspenso — por alguns segundos — com a lembrança de “certos dias de dezembro”… e foi embora, da mesma maneira como chegou…

Acontece que, quando estou por lá — dentro dos dias de dezembro — sinto dentro, esse desejo crescente de fechar os olhos — coisa que faço — e despertar dentro das manhãs de junho… exatamente onde estou agora!

É junho… repito num sem voz, com um sorriso pequeno a se liquefazer em meus lábios enquanto aprecio a chama da vela vermelha — acesa por meu menino — arder.

Junho é o mês das chamas, dos mastros com fitas coloridas, dos pães de ervas sobre a mesa no final da tarde, e das preces, que são poesias para os ares… é o mês das danças circulares, que levantam poeira nos quintais…

Por aqui será inverno em breve… e as quermesses vão aquecer as noites com o forte de pinga e gengibre. Mas em algum lugar será verão, dias azuis, noites menores, horas cheias… férias no campo, potes com biscoitos no alto dos armários, banho de rio, árvores para escalar… o trem a anunciar a partida, oferecendo qualquer coisa de destino aos “navegantes”…

Como vês, aqui dentro de mim é essa mistura de estações, países, cidades, paisagens…  é esse poema por ser escrito — amanhã ou depois! Por hora, vou devolver tudo ao seu devido lugar e visitar a prateleira para saber que poeta viverá junho comigo!

 

Al Berto, Borges, Eliot, Bishop, Mário…

A poesia de Emily Dickinson…

“Escrevo-te para que estas cartas possam ser os galhos das tuas árvores de silêncio, onde podes encontrar algum refúgio. Um ninho feito por pássaros. Árvores de silêncio –, como tanto gostas. Árvores de silêncio para guardar junto aos teus vãos. O silêncio no meio das palavras, a comunicação primeira. A tua carta… Com linhas perfeitamente silenciosas. A tua carta que eu beijo como se fosse a tua boca – que eu toco como se fosse a tua pele.”
— Lunna Guedes, In: ‘Emily: esta é minha carta ao mundo’ —

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Eu ainda me lembro do espanto que senti — em minha pele-alma — quando tive contato pela primeira vez com a poesia Dickinson. Encontrei o livro em cima da mesa da cozinha, ao lado de um velho diário e uma xícara de chá pela metade.

Com o livro em mãos, passei a folhear suas páginas onde adormeciam aproximadamente 100 poemas da autora-poeta-estadunidense.

E foi como olhar o mundo de novo, pela primeira vez… tomei para mim sua voz, seu sopro, suas medidas. Olhei ao meu redor e, vesti um belo combinado de ousadias deliciosas. Nenhuma abelha foi a mesma depois disso. As cores se redefiniram. Tudo que eu sabia até então, foi se tornando rarefeito até nada mais restar…

Me apaixonei completamente pelo estilo da poeta… tão a frente de seu tempo, tão inadequado-impróprio-fora-do-comum. Devorei cada um de seus poemas. De uns gostei mais que outros. Meu inglês ainda não permitia grandes leituras, sendo necessário, em alguns versos, o uso de um dicionário e, em outros, o auxílio de C.

Soube então, que ela havia nascido-crescido-e-existido em uma Cidade conservadora dos Estados Unidos — Amherst — onde começou a escrever a partir de 1850… totalizando pouco mais de mil e quinhentos poemas, que foram encontrados após sua morte — ocorrida em 1886 —, por sua irmã Lavínia.

Emily era uma mulher que se vestia de branco, que não se casou e pouco saia de casa… fato esse atribuído a um sem fim de possibilidades, que ajudaram a compor o grande mistério que foi essa mulher em vida. O que serviu, após a sua morte, para imortalizá-la…

Infelizmente há quem discuta muito mais a sua vida, que sua poesia… a mulher que Emily foi, para mim, é a que está em cada uma as linhas que deixou — e que me fazem sentir como se estivesse diante de uma janela aberta para a noite, onde meu olhar vai esbarrar em um cenário de infinitas possibilidades.

Eis a minha carta ao Mundo
Ele, que a Mim nunca escreveu —
Singelas Notícias que a Natureza deu —
Com Majestade e ternura

Sua Mensagem entrego em Mãos —
Mãos de uma era futura —
Por amor a Ela — doces concidadãos —
Julgai-me — com brandura