BEDA | * a quem vê o rosto teu…

Cara Senhora,

…encerrei nessa semana o mês de abril. Ainda faltam alguns dias no calendário, mas já não mais me ocupo de sua realidade. Fechou-se em minha pele. Devolvi o livro de Eliot — que me acompanhou nesses dias — à prateleira. Preparei uma xícara de chá de morango, comi alguns biscoitos de chocolate e preparei os envelopes para as missivas escritas nesses dias secos.

Sentei-me aqui na mesa da cozinha pouco depois da meia-noite de sábado, o último. E, enquanto apreciava os formatos conhecidos do lugar, me lembrei das despedidas vividas nos últimos dias-semanas-meses.

A minha vida-realidade —  desde a infância —  é feita de chegadas e partidas. Sempre me lembro — como se tivesse acontecido há pouco —  da cena na estação de Nervi. Era tão menina. Sabia tão pouco. Conhecia menos ainda. Vivia tão sem consciência das coisas e causas. Com os olhos atentos a tudo… tentava guardar o máximo de coisas possíveis.

Eu suspirava saudade inexistentes… tramava futuros impossíveis e quando ouvia o apito sonoro da locomotiva — que crescia na curva e se agigantava por toda a extensão da Estação —  meu cuore disparava dentro do peito. Eu tinha pressa. Queria ocupar meu lugar e apreciar as pessoas na Plataforma.

Naquela manhã um signore estava sozinho no meio da plataforma, com o olhar vazio, cabisbaixo. Esperava por alguém que não veio. Provei de sua solidão. Dividimos por um instante — tempo de um aceno, que ele recebeu-e-devolveu —, a mesma emoção. Fui sua chegada e ele a minha partida. Doeu vê-lo sem força-vontade-ânimo no passo. Grudei minha anatomia inteira no vidro do vagão. Ele era apenas um estranho, uma pessoa, um homem. Hoje eu sei que era muito mais… o primeiro personagem — a se oferecer a mim.

Quando algumas pessoas vão embora… eu aceno à ele — no tempo de ontem — e aguardo que olhe para mim com seu sorriso empalhado-fraco, olhar vago-opaco e partilho da mesma emoção-conhecida-antiga. Tenho plena consciência de que nada dura para sempre.

Receba o meu aceno!

Au revoir…

 



* verso de Emily Dickinson, 1882


 

beda

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