28 |quarto capítulo do meu Scenarium

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Ao final do primeiro ano da Scenarium, eu não tinha certezas. Tinha inventado meia dúzia de projetos de livro — exemplos de poesias e contos. Vinte disso, cinquenta daquilo. Capas e miolos iguais — tudo feito no Word, em caráter experimental.
Tinha investido uma pequena soma para viabilizar o projeto. Desde o começo eu não queria me envolver em disputa por prêmios e editais. Conscientemente eu sabia que o Artesanal não seria para todos. E esse era o principal motivo para eu acreditar e investir no formato-ideia.
Eu teria liberdade para escolher o que e quem publicar. O que evitaria o aborrecimento de ter um catálogo com tudo e todos — algo que sempre considerei um erro.
Vocês sabem o que acontece com os livros que não viram Best Sellers? Qual o destino dos livros que encalham nas livrarias? E existe outra categoria… os livros de vendas meteóricas. Vendem milhões em um dia e depois nem os sebos os querem mais. São livros de momento que causam alvoroço devido a publicidade. Em poucos dias viram filmes, com atores que conquistam corações. Mas o destino desses exemplares é o limbo.
Obviamente que somos nós — Editores independes ou não, de livros — os responsáveis por esse cenário de livros esquecidos. Somos nós que preparamos a cilada e armamos a arapuca. Obviamente que nem todo autor-leitor se deixa atrair por esse tipo de armadilha.
O fato é que a grande maioria dos Editores não se preocupam com isso, ao publicar mais um livro-autor. E os próprios leitores-contemporâneos andam apressados… e alguns chega a cobrar autores — em redes sociais — o próximo livro-história.
Pois, eu pensei em tudo isso no final daquele primeiro ano… e nos dias seguintes. Foi bom fazer uma pausa para melhor observar o meu cenário. Foi o que me permitiu compreender o chão que piso e o lugar que habito….

21 | terceiro capítulo do meu Scenarium…

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O primeiro projeto literário que tramei foi o diário das 4 estações… que aconteceu, devido a uma vontade que emergiu de minhas estranhas: escrever um diário. Coisa antiga… da minha infância, que foi norteada por cadernos vermelhos.

Escrever diários era coisa de C., e sua disciplina sensorial. Ela acordava para as manhãs de sábado e depois de se dedicar aos seus rituais matinais de corpo-mente-alma… migrava para a cozinha com seus livros-cadernos-canetas-coloridas e um velho baú onde guardava suas miudezas.
A partir dos meus sete anos passei a acompanhá-la… munida de meu primeiro caderno vermelho e de uma caixa de lápis de cor. Eu era toda verão naqueles dias e gostava de ver as cores se misturarem nas páginas. Mas não foi algo natural-imediato. Levou dias para eu encontrar um caminho e compreender-me enquanto pessoa que escreve na primeira (ou terceira) pessoa do singular.

Me lembro que ao comentar com algumas pessoas sobre a idéia… fui aconselhada a escolher outro caminho inicial — não há espaço para a escrita confessional no mundo literário.
E eu que havia acabado de devorar os diários de Kafka e Susan Sontag… decidi ignorar os comentários. Dei de ombros e tratei de construir minha própria trilha de tijolos. Convidei algumas escritoras e três aceitaram embarcar comigo nesse comboio.

A Scenarium inexistia… e eu buscava por um lugar no universo paralelo-underground. Aprendia a arte da encadernação em cursos que levavam rumo aos modelos convencionais de livro. Não era o que eu queria-pretendia. Eu flertava com o formato das fanzines. Não queria ser mais um livro nas prateleiras das livrarias.
Durante muito tempo eu seguia às cegas… sem entender absolutamente nada de papel, textura, tintas ou relevos.
Eu desconhecia completamente os bastidores do mundo literário… mas, estava disposta a desvendar todos os segredos que envolviam a confecção de um livro. Em meio a malabarismos muitos… o projeto-primeiro veio ao mundo — em caráter experimental de formatos.

Repeti a fórmula a bordo da Scenarium livros artesanais… com o conhecido formato de cadernos impressos a casa, apertados-furados-e-costurados, com o cuidado de quem aprendeu de quantas muitas páginas-palavras-segredos-e-mistérios é feito um livro.

E, nesse ano, para comemorar tudo isso… decidi mais retomar o projeto-dança das 4 estações e lá vamos nós (de novo) por essa trilha de tijolos.

14 | Segundo capítulo do meu Scenarium

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Hoje, no meio da tarde, recebi mais um manuscrito para apreciação… é comum chegar aos meus olhos um sem-fim de páginas do Word, com textos autorais de pessoas que querem uma avaliação profissional (dessa que vos escreve) para eventual publicação na Scenarium ou apenas para saber a qualidade do material antes de apresentá-las para alguma Editora.

Ao ler as primeiras linhas.. recordei os dias de ontem. O cenário era outro… havia diante de mim duas enormes janelas com vista para o Pico do Jaraguá que, muitas vezes, sequestravam a minha atenção, muito mais que o texto exibido na tela.

Era um lugar emprestado… para onde fui para viver um par de dias, na companhia de meu menino. Cômodos grandes-estranhos, com escadas para baixo e para cima. Eu imprimia os manuscritos e saia com eles em mãos, a percorrer as distâncias da casa, com o cão no meu encalço.

Os primeiros textos com os quais trabalhei… vieram em caixas que foram deixadas em meu endereço, por um entregador — duas caixas bem cheias.

Eram os meus primeiros dias de trabalho… e eu nada sabia sobre riscos e rabiscos. Cada frase lida no papel era um desconforto. Recorri ao amigo-mestre… consciente de que ele apenas iria repetir a sua conhecida frase de efeito: ouvir o cuore. Perguntei a ele depois de quase amassar uma das folhas de papel: como eu digo a um autor que o texto dele não serve? E tive um ataque de risos quando ele respondeu com sua voz rouca-de-homem-de-quase-oitenta-anos: você não vai dizer absolutamente nada. Apenas vai recusar o manuscrito e alguém da Editora fará o descarte com uma daquelas cartas de praxe...

Isso facilitou bastante o meu trabalho inicial. Não havia compromisso com o Autor do manuscrito… apenas com o sim e o não anotado na primeira página. Mas, ao assumir a Scenarium… não havia outra pessoa que não eu para fazê-lo. Lembro-me de que escrevi e reescrevi um sem-fim de vezes um e-mail/carta para enviar a um determinado Autor… e, mesmo com todo o cuidado, ele respondeu de maneira grosseira, deixando bem claro que: se não te interessou, há de interessar a outro. Você é quem sai perdendo.

E o livro dele acabou publicado com os mesmos erros e pouquíssimos acertos. Não era um bom livro. Daria muito trabalho para lapidá-lo e, ao ouvir o mio cuore, reparei que não valeria tal esforço. Meu projeto artesanal era algo miúdo, precisava encontrar os meus pares e, ele não seria um deles.

A vida é feita de escolhas! Eu já recebi muitos nãos em meus movimentos de vida-arte. No entanto, reparei que no atual tabuleiro…. as peças andam melindrosas. Penso que, talvez falte a toda essa gente, o velho ensinamento materno que me foi dado na infância: o não você sempre terá

Primeiro capítulo do meu scenarium…

dsc_0002Passei um par de minutos a pensar nos tempos de outra senhora — como se diz em Portugal — quando eu decidi que a edição de livros era uma bela muda de roupas para vestir o meu corpo.

Não tinha experiência alguma nessa área. Embora estagiasse aqui e ali… e vivia no meio de pessoas literária, participando de saraus, encontros, debates e embates, palestras, oficinas e cursos — na tentativa de compreender a escritora que C., enxergou em meu invólucro.

Depois de um sem-fim de cursos e muitos rascunhos… cheguei à conclusão de que seria muito mais fácil lidar com a produção alheia que com a minha própria. Afinal, os meus rascunhos careciam de uma maturidade que eu não sabia se alcançaria.

Diante de um signore conhecido pela bela coleção de livros que deu ao mundo, que eu inspecionava com os olhos sempre que me sentava em sua mesa para o diálogo matinal (nunca antes das nove, dizia ele) e, dada a calmaria do momento, me senti à vontade para questioná-lo — como encontrou o Norte de cada um desses livros?

T., acomodou seu corpanzil na cadeira, o cotovelo esquerdo na mesa e me olhou com atenção, pouco depois abriu um sorriu-branco-gostoso, bebeu um pesado gole de café e disparou a fala bem pontuada, com uma calma natural de quem aprecia seus feitos — o único Norte que temos é o que pulsa dentro (disse, apontando para o peito e continuou). Mas, nem sempre o ouvimos. E ele insiste. Acelera e, às vezes, quase para. Faz qualquer coisa para que a gente o ouça. É apenas um músculo involuntário, dizem. Enquanto acreditei nessa premissa, cometi erros, senti medo de errar e até mesmo de acertar. Mas, quando eu apontei a Bússola para o lado certo… os resultados vieram. Eu cometi erros e eu espero que você os cometa também. Não aprendemos grandes coisas com os acertos. São os nossos erros que nos forjam.

O primeiro livro que eu editei — anos mais tarde — fez parte de um projeto inventado para ser o ponto de partida da Scenarium: exemplos de poesias, composto de cinquenta poemas. Recebi dezenas de escritos… lidos um por um. Comecei a compreender ali, o que me disse T.

Separei os que gostei… imprimi e li poema por poema, dentro de um fim de tarde. Gostei e não gostei. Li de novo e fiz tímidas anotações com a minha velha lapiseira. Li de novo e  risquei algumas palavras. De novo… e inverti alguns versos. De novo e de novo… até ouvir um trovão do lado de dentro e concluir: está feito…

Me lembrei das revisões feitar por Mário, em sua Paulicéia Desvairada. As “cirurgias” feitas por Higginson, na poesia de Emily Dickinson. E tantas outras intervenções. Me questionei sobre o meu gesto e a possível reação dos autores. Mario buscava pelo seu melhor verso. Mas a poeta estadunidense Dickinson, jamais aceitou os cortes e recortes.

Guardei o meu trabalho primeiro de edição na gaveta… e sai para andar a cidade. Pensar o lugar dos meus pés. Sentir as ondulações do caminho. Observar as silhuetas de casas e prédios. Provar da brisa paulistana, na pele. Degustar um latte entre esquinas e, ao voltar para casa, preparei um e-mail para a Autora, que respondeu no mesmo dia… e que resultou em meu primeiro material editado e consequentemente publicado pela Scenarium (plural) livros artesanais.