Ser escritor,

Faz alguns dias que anotei o título desse post num pedaço de papel. Desde então penso numa espécie de resposta. Naveguei por aí. Andei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e saí de estações. Encontrei pessoas. Mergulhei em olhares vazios-cheios. Admirei o céu de Abril e sua lua cheia num falso amarelo. A poluição da cidade muda a cor e a forma das coisas.

Li Al Berto e lhe roubei a frase: “passei o dia como quem dá tropeções“.

Pensei minha vida-realidade e percebi que minha visão das coisas sempre esteve intimamente ligada a escrita. Existe uma espécie de dependência natural. Nada de fato existe ou acontece em minha realidade sem que frases inteiras — notas de poemas, pequenos ensaios, artigos — se rendam ao papel. Tudo se explica, origina ou termina com pontuações.

Não falo de livros publicados — isso é recente e cabe dentro de um ontem qualquer. Falo do ato de escrever — deitar a caneta sobre o papel e riscar símbolos que dê sentido ao silêncio que impulsiona o meu existir.

Quando me calo… escrevo — por escrever somente, como disse Al Berto “num recanto inacessível do meu próprio corpo” — esse abismo onde todas as coisas caem comigo. Sem corpo ou matéria, sem sentimentos ou desejos-vontades. Quando tudo misteriosamente finda… e o som do tempo, em forma de carrilhão — na infância — também se cala, se recolhe em um sono mortal. Surgem as palavras. Sem forma, fôrma, sem tinta ou papel, mentiras ou significado. Uma espécie de linguagem própria, desconhecida, indecifrável.

Escrevo dentro… pelas paredes do corpo. Risco. Rabisco. Rasgo. Sangro. Verto. Derramo. Transbordo. O que chega ao lado de fora é o que restou de tudo que sou-fui — o soluço da alma.

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Das polêmicas que surgem e eu coleciono…

Há sempre algumas pilhas de livros sobre a minha mesa de trabalho porque sou dessas leitoras inquietas que, salta de livro em livro — romances, poesias, novelas, crônicas, contos — tudo depende do momento que a pele atravessa.
Há também os livros que chegam — inacabados-rasos-rarefeitos, raramente prontos — através do correio eletrônico… e os que são entregues em mãos por algum humano atrevido-abusado que quer a minha opinião. A maioria espera uma análise positiva… que afirme sua condição de escritor.
O curioso é que na infância, quando questionada — o que vai ser quando crescer? — uma criança dificilmente diz: escritor. Escolhe-se as engenharias, as medicinas ou o Direito. Algumas pensam em ser astronauta, outras cientistas malucas. Raramente dizem: escritor. Eu mesma, não me lembro de ter ouvido essa resposta na turma da qual fiz parte, aos sete anos, quando o questionamento foi feito. Eu disse sem pestanejar: quero ser marinheira… e ouvi o riso crescer solto-alto pelo espaço da sala de aula.
Pois bem, segue-se a vida e uma vez Advogado, a pessoa se senta diante do notebook e escreve o seu livro porque escrever não é profissão… é um hobby para horas vagas.
Li certa vez que não se é escritor porque se quer, mas porque se pode. Eu respirei fundo para não dizer meia dúzia de impropérios. Do lado de dentro, no entanto, conjuguei todos os verbos no futuro do subjuntivo…
Há muitos livros nas prateleiras das livrarias de pessoas que decidiram que a pele de escritor… lhes servia. E até vendem porque, infelizmente, nem toda pessoa é um leitor. Todos nós aprendemos a juntar as letras, mas isso não quer dizer que sabemos ler.