01 | Um ano inteiro para dizer-te: novembro!

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Olhei de soslaio o calendário — em cima da mesa — e reparei que outubro se foi. Revisitei os dias em minha mente-pele… apenas os que alcancei. Não sei quantos vivi. A soma foi injusta-confusa. Trinta e um dias… algumas segundas. Duas ou três terças. Uma quarta. Duas quintas. Um ou outro sábado e dois domingos inteiros — intermináveis domingos…

É insuportável se pôr a medir as vivências… o que fiz e não fiz… o que foi desejo-angústia-sofejo-melodia-vontade-desânimo… e o que nada foi. Amém.

Amassei a pequena folha, com a insólita combinação de números — que são dias, um mês inteiro, uma vida inteira (?) — e nada são. Como se o gesto e o som do papel a se deformar em minha mão, tivesse efeito anestésico. Não teve…

Coloquei a água para ferver e enquanto esperava… fechei os olhos, escavando-os com as mãos. Atravessei o oceano. É outono por lá… tempo de biscoitos no forno, meias para os pés e os cantos da casa às escuras, sem a incidente luz dos dias azuis.

Passei pela porta, toquei os móveis-paredes e tudo retornou para mim, numa espécie de abraço: os aromas, as pessoas, um outro-eu… porque há momentos que tudo que precisamos: é voltar para casa — esse lugar confortável-agradável, que preservamos em algum lugar de nós para momentos críticos. E nem sempre é real.

Eu chamo de “casa do pensamento” — esse cenário-desenho-lugar que antecede a realidade dos enquadramentos. Não existe paredes-retratos-mobília. Só existe o desejo que se esparrama pelo corpo, como missangas por cima do vidro.

Outubro foi ausência-recusa, me deixou sem visto-país. Pela primeira vez, desde a minha chegada a São Paulo — e lá se vão dezesseis anos — eu quis juntar minhas coisas e ir embora. E uma parte de mim — fugiu… de algumas pessoas-lugares-cenários. Se foi — e (ainda) não voltou.

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23 | velhos hábitos

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setembro. outro lugar. realidade. recordei a lista de material escolar. a escola não era o meu lugar preferido-favorito. era apenas um lugar. causa maior de meus cansaços. gostava mesmo era do ritual de papelarias. escolher os cadernos. adquirir os livros. sentir o cheiro de papel intocado. provar do sabor de linhas a preencher. saborear o virar de páginas ainda desconhecidas. encadernar os cadernos com folhas de jornal e plástico transparente.
livro novo de poesias. era nosso ritual de setembro. esperava ansiosamente para saber qual seria o poeta escolhido. pessoa. t.s.eliot. borges. dickinson. cecília. sexton.
a leitura acontecia sempre da mesma maneira. sentava-me na cama à noite. acomodava o corpo entre cobertas-travesseiros. abria o livro sem escolher página. abria por abrir somente. e lia em voz alta para os meus. o que se sorteava ao acaso.
escolhi no dia de ontem. sábado. setembro. retomar um velho hábito. voltar a escrever um diário. comprei um molesquine. capa vermelha. senti o aroma do novo. a textura das folhas. a nudez das páginas.  como antes.
setembro. primavera. aroma de outono. o ontem a arrulhar. e eu a concordar com o velho poeta-eliot. aceitar que, sometimes, é bom percorrer o mesmo caminho de novo e de novo e de novo….

 


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17 | s e g u n d a

dias de setembro

Dia cinza. Segunda feira. Ainda inverno. Quase primavera. Ainda setembro. Quase outubro. O ano ainda não acabou, mas falta pouco. Impossível não se espantar com a voracidade dos dias-horas quando a gente se dá conta de que restam poucas folhas no calendário de 2018 e ainda da para sentir todos os meses anteriores na pele.

Alongo os músculos. Coloco a água para ferver. Dou passos pequenos pelos cômodos ainda escuros. Escuto o som agudo da chaleira a gritar — desesperada — na cozinha. Café na xícara. Um poema de Ginsberg para esse dia-momento.

Lista de coisas a fazer-cumprir na mente: organizar as horas desse dia-semana. Organizar-me. Começar a ler outro livro… dos escolhidos: três já se foram. Organizar-me. Ler e responder os e-mails antes que se acumulem. Tramar os dias seguintes. Organizar-me.

Deixei todas as coisas à deriva nos últimos dias. São os meus processos. Preciso esvaziar-me do ontem para alcançar o hoje-amanhã. Encher o peito de ar. Fechar os olhos e sentir-me dentro. Consciente de que tudo que era para dar certo: deu… e tudo que era para falhar: falhou.

Eu gosto desse equilíbrio… de saber que irei errar-acertar muitas vezes. Que irei sorrir-chorar… amar-odiar… ser feliz-triste. É vida… e pulsa… pulsa… pulsa. E eu gosto imenso de como tudo acontece.

Dois mil e dezoito não está sendo fácil… os movimentos humanos estão tensos. Os ânimos acirrados. Verbos conjugados de maneira equivocada… pela esquerda-direita. Por todos nós.

Não me misturar é difícil. Tento me preservar dessa falta de modos social. Nem sempre consigo. Ainda mais quando não entendo certas falas machistas-preconceituosas que insistem em reverberar. Como é difícil mudar…

Me concentro em respirar… ainda que o ar esteja pesado-envenenado. Me concentro em meus afazeres. Em organizar-me. Ler meus livros… e a planear novos ‘cadernos artesanais’ e providenciar ingredientes para a hora do almoço.

Coloco Chopin no toca-discos… palavra antiga que repito com gosto. E me Lembro que a Scenarium abriu as portas para novos autores. E começo imediatamente a imaginar as palavras que serão enviadas para nós… por escrevinhadores-contemporâneos.

No ano passado… pouco me seduziu. Sou uma escritora-editora-Leitora… exigente-difícil… que gosta de, ao ler, sentir aquele aconchego da infância — ‘encostar a cabeça no peito e ouvir o ressonar do cuore‘. tum tum… tum tum…

 


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05 | Sarà Settembre

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Escolhi começar o dia com uma pausa nas coisas da vida-realidade-mundo. Preparei uma xícara de chá e andei pelos cômodos da casa… com o dog a seguir-me com seus passos miúdos. Gosto imenso do som de suas patinhas a tocar o chão. Faz lembrar o trotar dos equinos, no haras… e me faz rir esse eco do passado que pulsa em mim.

Ainda não escrevi o novo mês em lugar nenhum… significa — para mim — que ainda não aconteceu. Não é mais agosto… mas, ainda não é setembro. Eu sigo dependente do movimento da lapiseira no papel… para que as coisas aconteçam. Caso contrário ficam a deriva, a flutuar — perdidas — no espaço…

Ainda não escolhi os livros para fazer companhia aos meus olhos. Mas, enfileirei no ar uma porção de coisas que pretendo-quero escrever… a começar por um texto sobre o silêncio. Mas há também outros tantos escritos a alinhavar — premissas-promessas-ensejos… ensaios futuros! Um cuore a crepitar aos solavancos dentro do peito.

Agosto findou-se! — isso eu sei-senti… no canto dos pássaros na madrugada-fria. Ainda aconteciam os trinta e um dias do mês, mas não era mais agosto. Era outra coisa… espaço em branco-vago — tempo entre pausas.

Agosto passou depressa! Mas há muito a fazer para sepultar seus dias — definitivamente — em mim. Há coisas a guardar… esquecer…. e repensar — porque ainda deixo tudo acumular em caixas imaginárias.

Por ora, preciso conjugar o verbo ‘desacelerar’ e ter-viver dias comuns. Pensar lugares para os pés-mãos-olhos. Re-inventar cenários. Encenar abraços-beijos. Providenciar ingredientes para refeições-tardias, no meio da madrugada. Me sentir a casa… e pronta para novos desafios-dificuldades-surpresas. E consciente de que tudo começa com o primeiro passo: ascuitar o cuore!

 

| Andrea Boccelli canta |   

Aconteceu setembro?

(…) “Não gosto de agosto, como os antigos, embora comigo mesmo
costumasse repetir que os agostos haviam invadido setembro,
avançado sobre outubro até descobrir o novembro que ia em meio.
Me veio numa tarde de sábado, em novembro.
Em comum com os agostos de antes, a chuva.
E bateu à porta, essa mesma que pintei inteira de amarelo
para dar uma ilusão de luz às sombras desta casa”. (…)

Triangulo das águas — Caio Fernando Abreu

 


 

Agosto passou depressa… como um livro conhecido que se lê de novo e de novo, sabendo-se as falas, o destino dos personagens e, mesmo assim… eu vibro, como se fosse a primeira leitura. E, mesmo estando o livro fechado, e de volta à prateleira, tudo continua a acontecer: dentro e fora desse quarto escuro, que sou.

Os ipês floresceram, na última semana do mês, celebrando o dia seguinte… esse setembro, que por aqui, acena com sua “estranha promessa” de flores.

É isso: setembro — septem — floresceu! E, daqui a pouco será primavera… os dias serão cada vez mais longos e as noites mais curtas… temperaturas cada vez mais altas e falsas promessas de chuva, ao longo das semanas sempre azuis-ensolaradas. Mas, haverá um ou outro minuto cinza, de nuvens e breu, a nos fazer recordar os dias de outono.

A moça do tempo informou ainda há pouco — com alguma satisfação — que, vivenciamos o “inverno mais quente dos últimos anos”. Notícia velha. Me lembro de ter ouvido a mesma coisa, no ano passado. E, aposto como se repetirá, no ano que vem.

Enquanto isso — do lado de dentro da pele-alma —, continuo a viver lá pelas bandas de agosto, onde acumulei euforias, abraços… e comemorei mais um ciclo.

Preciso, no entanto, começar a tramar o próximo.
Setembro combina com inícios… me faz pensar os dias de estudos, livros novos. Gostava imenso daquela rotina de papelarias-livrarias, que me obrigavam a organizar a realidade, depois de dias sem norte, despertar livre e passos desorientados.

Hoje, setembro é um mês sem rotinas… passo por ele em marcha lenta, desacelerando, como se meu corpo não coubesse mais, dentro de antigas roupas.