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11. Entre o dia e a noite… há sempre um sol que se põe

‘Parece o movimento de uma serpente,
este caminho que percorro todos os dias
ao encontro do cansaço’.
Henrique Fialho

 

Caríssimo,

 

…esvazie-me das atribulações do dia, e sai para um passeio de ruas. Você sabe o quanto eu gosto de caminhar sem destinos, dobrar esquinas, atravessar ruas… esbarrar nas muitas silhuetas de prédios e casas — guardando qualquer coisa para depois.

Organizo meus pensamentos a cada passo… visito minhas paisagens particulares-secretas, como se fosse uma caixa de sapato, que precisa ter seu conteúdo esparramado por cima do lençol branco.

Hoje, me lembrei — ao esbarrar numa pitoresca cena de casa-e-jardim — de uma cena antiga… aconchegante, que me fez sorrir e suspirar: chegar a casa antes dos meus. Era um de meus momentos favoritos.

Gostava de colocar a chave no buraco da fechadura — uma volta inteira, duas — e aquele barulho de ferro em atrito. Porta aberta. Eu me misturava ao espaço. Descalçava os pés e — lentamente — percorria o cenário conhecido…

Janelas e as portas fechadas… um falso silêncio a se impor as paredes. Os móveis paralisados-mudos… e um único som a se repetir, como se fosse o cuore da casa… o velho carrilhão a dizer os segundos-minutos-horas-inteiras-e-pela-metade, como quem resmunga-reclama das ausências.

O vazio não é algo verdadeiro… dura pouco e nos brinda com aromas e tons surpreendentes. Eu percebia o vento passar pelas frestas das venezianas… resvalando suave nas cortinas. Um raio de sol ensimesmado a atravessar os vidros — deixando no ar… poeiras espectrais. Os caminhos — onde adormeciam passadeiras — acusavam pegadas-rastros — nossos mapas particulares… onde ficavam registrados os destroços do que éramos e dos lugares por onde andávamos.

Gostava imenso daquele instante… era a minha tela particular de Hopper…

A bientôt

 

Os cafés da cidade…

Passa da uma — a cidade arde — e tudo parece banhado por um falso dourado, que desenha sombras pelas calçadas do bairro. Arrastei o meu corpo para fora, levando-o até o café entre esquinas… aquele com sua sereia de duas caudas, que herdou o nome do personagem de Moby Dick.

Ocupei a mesa próxima da porta — lugar que escolhi na primeira visita — e passei a apreciar os movimentos do lugar… até me distanciar totalmente deles. Algo em mim, de repente, se desliga… e, as palavras povoam todos os meus hemisférios.

É sobre esse ato de escrever em cafés… a matéria da Revista literária Plural… tornou-se um hábito comum na cidade da garoa: trabalhar-estudar-escrever nos famosos cafés descolados, que ocupam as principais esquinas da cidade.

Mas ainda há pessoas que não compreendem a “nova mania”, que desembarcou na Paulicéia do Mário… ainda que tardiamente. Quando cheguei por aqui, trouxe esse ‘velho hábito’ na bagagem…era comum me sentar à mesa do Delfin — também entre esquinas — para finalizar minhas ‘notas mentais’.

Na Europa… é comum os escritores terem uma cadeira para chamar de sua… e ‘os donos’ — como cães abanar a cauda — anunciam eufóricos os livros, escritos-concebidos entre um gole e outro de latte e exibem eufóricos as fotografias de seus ‘clientes famosos’.

Eu ainda me lembro do desconforto demonstrado por alguns garçons por aqui… que se incomodavam com a minha presença. Eles passavam inúmeras vezes pela minha mesa e pareciam contar as inúmeras xícaras de café — machiatto, ristreto, com ou sem gengibre… sempre sem açúcar, que eu consumia. Havia alguns mais abusados que chegavam a me questionar — visivelmente inconformados: ‘mas só vai tomar café, não vai comer nada?’

Passado algum tempo, a minha ausência passou a ser motivo de preocupação. Se mostravam aliviados quando eu ultrapassava a porta. Não demorou para se mostrarem satisfeitos em antecipar-se ao meu pedido. Bastava levantar o dedo para ouvir  a voz rouca-satisfeita do rapaz indagar: ‘machiatto?’ — como se houvesse uma sequência natural em meus atos de degustadora de café.

Certa vez um deles — ao trazer minha xícara de café — quis saber: “o que tanto escreve nesse computador?”… e, a resposta espalhou-se pelos quatro cantos do lugar — trazendo a gerente a minha mesa. Acabou o sossego…

Em formato artesanal, meu primeiro livro foi lançado ali mesmo… os “amigos do café” receberam exemplares em mãos e diziam, com estranho prazer, que iriam ler e comentar. Eu me divertia ao tentar imaginar o que seria pensamento a meu respeito depois disso. Era apenas um experimento. Um escrito para agradar a mim e a ninguém mais. Não tinha preocupação com absolutamente nada…

A gerente do lugar… já não é mais a mesma, mas antes de embarcar para sua viagem, fez questão de me apresentar ao ‘novo diretor’… e, dizer a ele, que a minha mesa (reservada) é a do canto junto a janela — de onde posso observar as pessoas, colher pedaços de diálogos e, descobrir personagens…

E sempre que alguém me pergunta: ‘como consigo trabalhar em um lugar assim’… recordo esses momentos singulares. Minha escrita pressupõe movimento e me pede essa ‘viagem atemporal’, que me leva de encontro a esse lugar confortável que trago em meu íntimo-memória: a mesa da cozinha nas férias de verão, com seu horizonte particular e o cheiro delicioso do café feito pelo nono a transbordar sensações.

Me organizo por inteira… dou rumo aos meus personagens, escrevo minhas linhas em pares, traço diálogos entre nós duas — a criança que eu fui e a adulta que finjo ser.  Tudo isso… entre um gole e outro de café…

Virginia Woolf disse, em suas linhas, que todo escritor precisa de um quarto para organizar suas palavras — mas eu vou na contramão de sua voz aguda, porque eu só preciso de um café numa das esquinas da cidade…

4. Dentro de uma sexta-feira, a promessa se cumpre…

Que ruas melancólicas! Quarteirões e quarteirões de escuridão de um e de outro lado, não de casas; aqui e ali um lampião que parece uma vela tremeluzindo sobre um túmulo. A essa hora da noite do último dia da semana, aquele bairro da cidade estava totalmente deserto. Mas afinal me aproximei de uma luz fumarenta procedente de uma construção baixa e larga cuja porta se encontra convidativamente aberta. Seu aspecto era descuidado, como se fosse destinada ao uso do público; assim que entrei, a primeira coisa que fiz foi tropeçar em uma caixa de cinza, colocada no saguão. Ah! pensei enquanto as partículas voadoras quase me sufocavam. Serão essas as cinzas da destruída cidade de Gomorra?
Trecho de Moby Dic

 

Caríssima R.

A manhã é essa coisa esbranquiçada a gritar movimentos desatentos por todos os lados… o cão, como de costume… dorme ao lado no sofá, indiferente aos movimentos do dia que segue sua sina de sexta-feira.

Eu não  sou uma pessoa de sextas-feiras… é um dia de excessos-enganos-desaforos. Eu vou para o canto do corpo, da casa… para ficar quieta, alheia a essa realidade. Prefiro as segundas-feiras… sol ameno nas manhãs coloridas, nuvens esbranquiçadas pouco depois do meio dia, um livro de poesia sobre a mesa do canto, um latte bem feito, servido no famoso copo branco com a sereia verde de duas caldas.

Sou uma pessoa comum, que gosta de ir mais devagar… acordar aos poucos… percorrer pequenas distancias, sentir as superfícies que o pé tateia… passo a passo. Tomar conta dos espaços. Sentir as texturas das paredes ou apenas me perder nas arquiteturas dos prédios e casas… enquanto o cão faz suas visitas aos postes e árvores.

Eu gosto imenso de um fim de tarde com sabores de chá silvestre… uma canção a se repetir: o som crescente e rouco de um velho blues, pouco antes das seis. A página de um caderno de capa vermelha vazia, a espera das palavras que irão moldar ‘memórias futuras’.

Gosto de ir até a prateleira e voltar com um livro… e, dessa vez, foi Moby Dick que saltou para as minhas mãos. Já li esse livro incontáveis vezes ao longo dessa minha vida, contada em um punhado de anos, devidamente acumulados nos cantos da pele. Gosto imenso das sombras que ele desenha em minha superfície. Não sei se você sabe, mas o nome do café onde trabalha é uma homenagem ao senhor Starbuck, personagem desse romance, escrito por Herman Melville…

“Ainda podemos desistir, mesmo hoje sendo o terceiro dia.
Vê! Moby Dick não te procura. És tu, que loucamente, busca por ele!”

Esse trecho me fez recordar a sua figura… em fuga, indo em direção as calçadas. Lembro-me de ter ficado alguns minutos a espiar seus movimentos de um lado ao outro… indócil e incrédula, a tragar pesado seu cigarro, como se esperasse algo diferente do que teve para si, em nosso breve encontro. Você falou de si… e eu fiz o que gosto de fazer… ouvi as palavras que soltava no ar num quase-sem-voz.

Depois que deixou comigo um abraço, rascunhei qualquer coisa sobre o momento numa folha de papel e guardei dentro de um livro… porque a minha escrita é sempre para depois. E, mesmo sem saber, você me brindou com promessas futuras, a mais preciosa de todas… a sua amizade — minha Moby Dick.

bacio

 


 

São Paulo, 31 de janeiro de 2014…

Ruas para andar…

Tenho saído muito as ruas desde que me mudei para Moema — zona sul de São Paulo… onde as ruas e as pessoas te convidam para um exercício comum: caminhar — de uma esquina a outra.

As ruas são grandes retas… sem as conhecidas subidas e consequentemente descidas paulistanas — que reinventam distâncias, cenários.

Aqui os cenários repetem as vilas que trago na memória… vira-se uma esquina e uma sorveteria acena com seus sabores conhecidos: fragolone, dulce de leche, stracciatella. As cadeiras — dispostas ao ar livre, com seus ombrelones imensos — acenam e você cede… e os diálogos  avançam  tarde a dentro…

Há um sem fim de vitrines coloridas… com suas roupas de grife, frascos de perfumes e o cão é bem-vindo em quase todos os lugares. Ele gosta e agradece com gestos em pares. Aceita o petisco, a água, o carinho e se esparrama pelos lugares que o recebe.

As casas, no entanto, são poucas… as que sobreviveram aos investimentos imobiliários exibem placas de ‘aluga-se e vende-se’ como se o bairro estivesse sendo descartado por sua gente. Os moradores mais antigos contam a história do lugar que teve seu córrego de águas ferozes… o percurso foi soterrado, mas dizem as lendas do lugar que, em dias de chuvas de verão… ele se reinventa contra a vontade dos humanos.

“aqui já foi um bairro de casas” — foi o que me disse uma senhora, que me aconselhou a avançar até a ‘praça dos cachorros’ com o meu menino de quatro patas. Ela suspirou as mudanças acompanhadas de perto ‘sou tão veglia quanto essa árvore’ — disse, apontando para uma frondosa árvore prestes a derramar sua primavera…

Hoje o bairro pertence ao comércio e seus prédios altos… que são constantemente ‘atropelados’ pelos aviões que cruzam os céus — em movimento de pouso ou decolagem. Depois de alguns meses por aqui… o barulho se aquieta e você nem se lembra mais dos “vôos artificiais”. Só dou  por eles quando os aviões se mostram aos seus olhos num desses passeios diários…

Numa dessas simpáticas esquinas descobrimos um Café… aquele com seu nome estrangeiro, sua sereia de duas caldas e o bom e velho aroma de sempre. Mais um punhado de horas escorre, só não sei dizer se para dentro ou para fora.