Pessoas são personagens…

Na noite de ontem, durante uma diálogo entre esquinas-e-cafés… um autor me disse — quase como quem se confessa —, ‘não quero encontrar personagens em todas as pessoas‘. Eu ri — como sempre faço nessas horas —, enquanto observava em paralelo a ele e a mim.

É só o que vejo… pessoas são personagens — figuras únicas-turvas-abstratos. Um punhado de linhas que se puxadas forma alguma coisa… um novelo, talvez.

Não me lembro se ele disse alguma coisa depois disso, mas eu guardei sua frase num dos bolsos da calça, para acariciar enquanto caminhava pelas ruas da cidade. E lá estava eu, sentada em minha mesa ao canto, a degustar o meu tradicional latte quando a mesa foi ocupada por esse casal — estranho-imaturo —, com suas filosofias de botequim. Discutiam o que não existia: a relação. Dois estranhos a dizer silogismos nada categóricos.

Ela insistia… ‘você não me ouve’. Ele, com sua cara de homem-de-meia-idade… cansado-das-coisas-que-não-vê-não-ouve-não-sabe, retrucou… muito mais por estar acostumado a fazê-lo… ‘claro que ouço’. E ela continuou seu diálogo solitário-pardo. Um pássaro sem azul. Beberam o café… e foram embora exatamente como chegaram. Ele estava muito mais preocupado com o jogo do Barcelona que com a parceira. Ela… talvez arrumasse um amante mais jovem, homem bonito e sorridente, sem dinheiro e que precisasse dela para ser Homem algum dia.

Pouco depois, um casal de senhoras ocupou a mesa para falar dos netos que nada fazem-sabem. Tem idade pouca. Vontade nenhuma. Passam os dias com os olhos grudados nas telas de seus smartphones e comem no automático de seus gestos, cada vez menores. São figuras sem vida, que nomeiam as coisas sem, no entanto, identificá-las. Não olham… não ouvem… não sabem… um dia serão velhos — pensei. Ops! Essa era a outra cena.

Enquanto isso, no sofá da área externa, duas meninas se descobriam entre provocações singulares. Tudo era toque. Pressa. Uma queria mais. A outra queria menos. Beijaram-se depois de um divertido duelo. Ninguém se ocupou das duas figuras. Não houve reclamação-queixa-palavra. As duas estavam livres… confortáveis no meio de uma tarde que não sabia se sol-chuva-nuvens. Sabia apenas que era preciso passar.

…e passou!


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BEDA | MAL DITO SEJA…

Tarde de sábado… dia de sol… pouco depois das quatro horas e o lugar reservado (para o crime) entre esquinas-alamedas, também conhecido por Starbucks… começou a ser ocupado por curiosas figuras — movidas a Café, impulsionadas por abraços e completamente apaixonadas por livros…

 

 

 

 

 

 

O que o café lhe faz lembrar?

“AMANTE DA LITERATURA acreditou que bastavam: caneta, moleskine e uma xícara de café durante horas sobre a mesa do bar. Ela, ambiciosa, exigiu-lhe a vida inteira em troca de um bom livro. Foram felizes para sempre”.

— pág. 13 – amor expresso, Adriana Aneli

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O AROMA E O GOSTO DO CAFÉ DESPERTAM A MEMÓRIA
E PROJETAM NA IMAGINAÇÃO ANTIGAS SENSAÇÕES…


Ainda que o relógio não despertasse… ele acordava mesmo assim. A tarefa que o despertava toda manhã, o mio nono dominava como poucos: preparar o café. Era sua Arte favorita!
Antes de o sol apontar o dia, a chaleira cantava na cozinha e o cheiro ia levantando um por um da família. Alguns afobados, a correr contra o tempo. Para estes, ele deixava o café com leite pronto em cima da mesa. Enquanto havia os desprovidos de pressa, a meditar as primeiras horas sonâmbulas da manhã, numa calma invejável que apenas a infância permite… para esses, o café ficava um pouquinho de tempo a mais no bule.
A gente se servia à vontade da bebida fresquinha e ficávamos ali, se bobeasse o dia todo, de gole em gole, a papear a vida e suas coisas demasiadamente humanas…
De tudo fica um pouco, disse Drummond em sua poesia… e do café fica muito mais… porque assim como minha lembrança tem cheiro de café e me transporta para dentro de um tempo que segue a acontecer cá dentro, o mesmo acontece para muitos de nós.
Pergunte a qualquer um: o que o café lhe faz lembrar? E a resposta virá lentamente… tanto no paladar quanto na memória.
E ao ler o livro de Adriana Aneli — amor expresso — que tive o prazer de editar e costurar… comecei a folhear sensações conhecidas, mas não da pessoa e sim da autora, que descobriu nos Cafés entre esquinas das cidades, um lugar para o corpo, a alma, a memória e também as palavras. Quando dei por mim estava a fazer uma singular lista dos Cafés que ficaram em mim:

Em primeiro… Café de Flore, em Paris, na companhia dos meus pais… minha primeira viagem para a cidade de Baudelaire. Descobri que o que eles serviam em xícaras não era exatamente café… e era horrível. Eu tinha apenas nove anos. Fiz careta e cuspi fora!
E mesmo assim eu voltei algumas vezes ao Café de Flore para conversar-rascunhar e conhecer personagens… menos para beber a “chicorée”, uma bebida à base de raízes de chicória, que tem gosto similar ao do café, introduzida no país no período de grande desabastecimento provocado pelas duas guerras mundiais.

Starbucks Broad street
Em segundo… Starbucks Broad street, com Pr durante as férias de verão de noventa e sete… ele me apresentou a famosa ‘sereia de duas caldas’… “você que adora a baleia branca de Dick Herman, vai amar esse lugar”…
Para variar, ele estava certo: me apaixonei pelo que veio a se tornar o meu lugar favorito em muitas cidades. O meu eterno “café entre esquinas”. Amor no primeiro latte…

Café Búho, BarcelonaEm terceiro… certo dia C., me disse “hoje você não vai à escola, temos coisa melhor para fazer” e fomos a Barcelona — onde compramos um tapete para a porta e depois nos sentamos à mesa do “café búho”…e degustamos o café era servido na companhia de biscoitos de gengibre e gotas de chocolate.

Em quarto… São Paulo, uma padaria antiga no velho bairro do Bixiga… imediatamente ao dia seguinte a minha chegada a Paulicéia do Mário…
Eu e “meu menino” saímos para um café, caminhamos pelas ruas do velho bairro, esbarrando num punhado de curiosas anatomias… e enquanto tentava saber de onde o conhecia (totalmente clichê, mas e daí?) caminhamos até esse lugar que tinha as paredes revestidas por velhas fotografias da Metrópole antiga.
O café não era dos melhores, mas a companhia…

Café Cartola, CoimbraEm quinto… Café Cartola, em Coimbra… na companhia da minha eterna Mestra das letras, que me disse certa vez “a psicanalise entrará em ti, mas você não viverá para ela”… gostávamos de caminhar lado a lado até o velho na Praça da República com nossos livros, em silêncio… com os olhos a dizer o que os lábios não eram mais capazes. Sorriamos a cada gole e, depois fazíamos o caminho de volta… a passear por entre uma multidão inconsciente de nós duas. Ela fazia como o nono, provava o primeiro gole de café como se fosse sopa, para sorver melhor os aromas…

Café de France,MarrakeshEm sexto… estávamos todos à casa e quase que ao mesmo tempo, decidimos em conjunto, como se fosse combinado… ir a Marrocos. E lá fui eu na companhia dos meus. Foi a última vez que estivemos todos juntos…

[ para respirar fundo ]

Brindamos o pôr-do-sol — o mais lindo que eu já vi em toda a minha vida — com uma caneca de café requentado (horrível) e prometemos nunca nos perder. Nos esquecemos, contudo, que promessas são feitas para não serem cumpridas.
Entre sorrisos espaçados-entrelaçados… silenciamos um a um, e guardamos para todo o sempre o momento. Foi a nossa promessa mais sincera. E queríamos que fosse uma conquista, mas não foi…
Não acredito que haja arrependimento, afinal, o momento sobreviveu. E nós também. Mas eu não mais voltei ao Café de France — o mais famoso da cidade, cosmopolita de Marrakesh.

starbucks pavão
Em sétimo, [estou em dúvida] — mas fico com São Paulo (novamente) — era uma tarde de terça e eu me preparava para deixar o lugar, quando uma figura recém-saída de uma tempestade adentrou o recinto do café entre esquinas.
Ela fugia da chuva que caia forte pelas ruas… estava toda molhada e reagiu como um cão ao entrar. Acho que fui a única a não esbravejar dos respingos da chuva. Nos olhamos a distância. Eu sorri suas fisionomias inteiras: provei-devorei-e-a-decorei… ela devolveu o sorriso.
E eu que estava de saída, com a desculpa de esperar a chuva passar: fiquei um pouco mais. Acabei surpreendida com um gesto. A estranha me propôs um brinde — ao erguer seu copo de latte no ar — e eu embarquei no gesto. Brindamos uma a outra… à distância.
Duas estranhas numa tarde-quase-noite… e, ela nunca vai saber o que me deu. Parte dela foi embora… mas uma parte-inteira ficou comigo para todo o sempre — e a chamei de Raissa.

25 | lua de papel

20140807_WillPrado_0076.jpg…entre esquinas, numa noite de quinta-feira úmida e com nuvens a anunciar uma tempestade. A atriz Carla Martelli leu trechos da história… escrita aos poucos, reescrita muitas vezes.

lua 15…os livros tem seus próprios processos — escrevem-se! Nunca no tempo dos homens. E nem sempre é possível dizê-los prontos-acabados.

lua 9As histórias desenham personagens… alguns, escapam da realidade e saltam direto para as páginas. Outros se deixam inventar…

lua 14 …a trama, que se orienta em trezentas e poucas páginas, é vidro feito em pedaços, esparramado no chão. Eu quis partir redomas, ao escrever… para convidar o leitor, a andar descalço!

20140807_WillPrado_0021.jpg[  …assim o que me resta é lua cheia a / transbordar de tridimensional. A paz a falhar toda / e eu resolvida em causa a insistir papel. E amor. Ana Luisa do Amaral  ]

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Lua de Papel – Scenarium livros artesanais
encomenda: scenariumplural@gmail.com

7. Entre o dia e a noite… há sempre um sol que se põe

‘Parece o movimento de uma serpente,
este caminho que percorro todos os dias
ao encontro do cansaço’.
Henrique Fialho

la chambre bleue

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Caríssimo,

…esvazie-me das atribulações do dia e sai para um passeio de ruas. Você sabe o quanto eu gosto de caminhar sem destino… dobrar esquinas, atravessar ruas, esbarrar nas muitas silhuetas de prédios e casas — guardando qualquer coisa para depois. Organizo meus pensamentos a cada passo… visito minhas paisagens particulares-secretas, como se fosse uma caixa de sapato, que precisa ter seu conteúdo esparramado por cima do lençol branco.

Me lembrei — ao esbarrar numa pitoresca cena de casa-e-jardim — de uma cena antiga-aconchegante, que me fez sorrir e suspirar: chegar a casa antes dos meus — era um de meus momentos favoritos. Gostava de colocar a chave no buraco da fechadura — uma volta inteira, duas — e ouvir aquele barulho de ferro em atrito. Porta aberta e eu me misturava ao espaço. Descalçava os pés e — lentamente — percorria o cenário conhecido…

Encontrava as janelas e portas fechadas… um falso silêncio se impunha pelas paredes. Os móveis paralisados-mudos… e um único som a se repetir, como se fosse o cuore da casa: o velho carrilhão a dizer os segundos-minutos-horas-inteiras-e-pela-metade — como quem resmunga-reclama das ausências.

O vazio não é algo verdadeiro… dura pouco e nos brinda com aromas e tons surpreendentes. Eu percebia o vento passar pelas frestas das venezianas… resvalando suave nas cortinas. Um raio de sol ensimesmado a atravessar os vidros — deixando no ar… poeiras espectrais. Os caminhos — onde adormeciam passadeiras — acusavam pegadas-rastros — nossos mapas particulares… onde ficavam registrados os destroços do que éramos e dos lugares por onde andávamos.

Gostava imenso daquele instante… era a minha tela particular de Hopper…Acho que sempre que volto para casa, esbarro nessa lembrança, mas foi a primeira vez que ela floresceu pelo caminho, a afastar-me para longe.

A bientôt