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BEDA |abril… ‘o mais cruel dos meses’…

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Aproveitei as últimas hora de março e o feriado para ficar a casa… e dedicar um par de horas a uma das minhas arrumações preferidas: a dos livros. Gosto imenso de desfazer as pilhas que se formam ao longo dos dias em cima da mesa, ao lado da cama… descer os exemplares das prateleiras, tirar o pó que se acumula diariamente. E aproveitar para folhear, cheirar e dialogar com os Autores que permanecem ao alcance das mãos com seus diálogos prontos — como se estivesse a minha espera num dos muitos Cafés da cidade.

Eliot novamente me disse ‘abril é o mais cruel dos meses’. E eu sorri ao perceber que ontem era ‘ano novo’… os fogos espocavam no céu e as pessoas faziam suas promessas de sempre.  E lá se foram três meses inteiros.

De posse do novo exemplar do homem-autor-poeta (ainda sem marcações nas páginas) fui para a cozinha colocar a água para ferver, e escolher um saquinho de chá e a xícara.

Li novamente — enquanto esperava pelo apito agudo da chaleira —, ‘the wast land‘, considerado por muitos, como o mais importante poema do século XX…

Tentei recordar — após terminada a leitura e o chá a esfriar na xícara — os ‘abrils’ passados mas, não fui muito longe. O máximo que alcancei foi o ano de nossa mudança de casa. Era mais um Abril quente. No mais… são ausências temporais que não se deixam prender… lembranças soltas, como folhas do calendário — arrancadas em meio a um gesto mecânico e pronto.

Nesse ano, no entanto, ficará marcado pelo B.E.D.A — blog every day august… um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues, incentivar as postagens criativas e comemorar o Blog Day.

É a segunda que vez que participo… da última vez me surpreendi com a dificuldade em postar diariamente. Algo inusitado, afinal, quando comecei a fazer uso dessa ferramenta, os posts se multiplicavam facilmente. Escrevia duas-três-quatro vezes ao dia, sem preocupação — eis a diferença. Me tornei mais exigente e foi justamente o que me motivou a participar novamente. E um desafio tanto para o blogue quanto para a Catarina que sou…


 

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5. Tenho uma almofada feita de memories…

“Nós somos os homens ocos
os homens empalhados
uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca”

— T.S.Eliot —

Caríssima M.,

Essas linhas surgiram durante o ‘nosso pequeno diálogo entre janelas’ — é o que seu blogue é para mim: uma janela aberta para a sua realidade, que daqui… me parece singular e deliciosa… eu tenho paixão por janelas, desde a infância. Não para espiar realidades alheias, e sim para imaginá-las. Lembro-me que na infância, certa vez… um forte vento fez voar as cortinas pelos ares e essa cena me encantou. Fiquei a observar aquele movimento enquanto pude, arrastada que eu era pelas ruas por A., sempre ligeira em seus passos.

Enquanto lia suas linhas, em movimento pela cidade — dentro do ônibus — embaralhei as realidades… e, me pus a tatear algumas de minhas lembranças. Recordei, e não sei dizer a razão, duas personagens ‘folclóricas’ de minha infância.

Elas eram irmãs-vizinhas-e-tagarelas… abriam suas janelas para as ruas — todas as manhãs — sempre no mesmo horário… para fazer o que mais gostavam: tomar conta da vida alheia. Eu acenava para elas — sempre que passava por lá — com minha mão direita e seus cinco dedos pequeninos. E elas devolviam — em pares — o aceno. Pareciam felizes por ter a quem acenar.

C., por sua vez, não se dignava a fazer movimento… não tinha nenhum tipo de sentimento pelas “velhas alcoviteiras”. Fingia não percebê-las em seus espaços particulares. Olhar reto, passos mais firmes e no ar a indiferença de quem não se importa com a figura do outro. Eu, enquanto menina de meio metro — se tanto — achava aquelas duas senhoras, muito engraçadas. Mas, era a única na rua a me divertir com elas.

Elas causaram muitas desavenças… por ouvir o que lhe interessavam e contar apenas o que que desejavam. Muitas de suas falas eram inventadas-aumentadas… e os estragos contabilizados na vizinhança.

Eu gosto de me ocupar dessas lembranças, como se estivesse a transitar pelos espaços urbanos, a caminho do cinema para mais um filme no melhor estilo ‘sessão da tarde’. Aliás, adoro ir ao cinema no meio da tarde… como se nada mais tivesse eu para fazer, apenas tomar o meu lugar numa confortável cadeira. O cinema praticamente vazio. A realidade guardada no bolso… e a ilusão a se propagar a estibordo.

Quando vier a Sampa, vou te levar para essas caminhadas… será como refazer os passos, numa espécie de re-viver. Você vem?

Bacio