BEDA | que tal um café?

Meio da tarde. O vento. Qualquer coisa de sol. Folhas avulsas-alheias. O futuro acena. Espero pela noite… para ver as sombras escorrerem pela parede. A xícara sobre a mesa. O último gole. Sempre café… preto-forte-denso. Observo o desenho de Mário preso a parede e me lembro que há um projeto sobre ele na gaveta.  Respiro fundo… ligo o com. Andrea Bocelli me devolve a paz por alguns instantes. Volto para casa. Viro páginas de livros.  Escrevo um texto pequeno sobre o movimento desse dia. Caderno vermelho. Folhas amarelas. Pés descalços. Vou até a janela. Fecho cortinas. Água na chaleira. Fogo aceso. Pó de café. Xícara. Passos pequenos por cômodos de ontem. Certos diálogos que trago na memória emergem. Me devolvem à realidade das coisas-horas-dias. Penso em Whitman. Mas o calendário me lembra que é abril… dias de Eliot. Releio ‘manhã à janela’. Tic tac. Ainda é dia-tarde-pelo-meio. Tenho uma última missiva a escrever. Já se foram três! São quatro. Os autores com quem trabalho já estão acostumados aos convites que faço — cartas para abril — foi um chamado, mas eles chamam de provocações. É sonoro… eu gosto. Me faz rir, como se alguém me fizesse cócegas. Escrevemos à Baudelaire, Ana C., Borges… falta escrever à Sophia… qual escritor recusaria esse convite? Escolher o lugar, a hora, a cidade, o poeta… chegar antes, esperar. Que tal um café?


 

Manhã à janela
T.S.Eliot

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

Tradução: Ivan Junqueira


beda

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BEDA |abril… ‘o mais cruel dos meses’…

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Aproveitei as últimas hora de março e o feriado para ficar a casa… e dedicar um par de horas a uma das minhas arrumações preferidas: a dos livros. Gosto imenso de desfazer as pilhas que se formam ao longo dos dias em cima da mesa, ao lado da cama… descer os exemplares das prateleiras, tirar o pó que se acumula diariamente. E aproveitar para folhear, cheirar e dialogar com os Autores que permanecem ao alcance das mãos com seus diálogos prontos — como se estivesse a minha espera num dos muitos Cafés da cidade.

Eliot novamente me disse ‘abril é o mais cruel dos meses’. E eu sorri ao perceber que ontem era ‘ano novo’… os fogos espocavam no céu e as pessoas faziam suas promessas de sempre.  E lá se foram três meses inteiros.

De posse do novo exemplar do homem-autor-poeta (ainda sem marcações nas páginas) fui para a cozinha colocar a água para ferver, e escolher um saquinho de chá e a xícara.

Li novamente — enquanto esperava pelo apito agudo da chaleira —, ‘the wast land‘, considerado por muitos, como o mais importante poema do século XX…

Tentei recordar — após terminada a leitura e o chá a esfriar na xícara — os ‘abrils’ passados mas, não fui muito longe. O máximo que alcancei foi o ano de nossa mudança de casa. Era mais um Abril quente. No mais… são ausências temporais que não se deixam prender… lembranças soltas, como folhas do calendário — arrancadas em meio a um gesto mecânico e pronto.

Nesse ano, no entanto, ficará marcado pelo B.E.D.A — blog every day april-august… um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues, incentivar as postagens criativas e comemorar o Blog Day.

É a segunda que vez que participo… da última vez me surpreendi com a dificuldade em postar diariamente. Algo inusitado, afinal, quando comecei a fazer uso dessa ferramenta, os posts se multiplicavam facilmente. Escrevia duas-três-quatro vezes ao dia, sem preocupação — eis a diferença. Me tornei mais exigente e foi justamente o que me motivou a participar novamente. E um desafio tanto para o blogue quanto para a Catarina que sou…


 

beda

Ano novo… de novo!

Doze horas | Pelos caminho das rua
A sussurrar encantos lunares
Dissolvem-se os assoalhos da memória
E suas relações claras | Divisões e precisões,
Todo poste que passo | Bate como um tambor fatalista,
E pelos espaços do escuro
A meia-noite chacoalha a memória
Como um louco chacoalha um gerânio morto

T.S.Eliot
Tradução de Adriano Scandolara

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Novamente janeiro… com seus dias quentes de verão e suas tempestades inesperadas no meio da tarde. Novamente Ano novo e um punhado de promessas — que jamais serão cumpridas. Pula-se ondas, veste-se de branco, mesa pronta, ceia servida e as mesmas velhas gafes de sempre se sucedem.

Gosto mesmo é de sair de casa com as mãos afundadas no bolso da calça… indiferente da hora que o relógio acusa, do dia que o calendário aponta para apreciar as ruas vazias-escuras, ouvir o eco das euforias flutuantes, tropeçar no que é resto-sobra do Ano que envelheceu e caducou. De repente? Acho que não…

Gosto imenso de escrever no ar, sentir as palavras nos olhos-pele-passo. Sou a personagem de Carrol e a noite é o Coelho de colete, com bolso e seu relógio maluco a avisá-lo de que está atrasado.

Corro atrás dele e de repente estou em queda.

— “Caindo, caindo, caindo. A queda nunca chegaria ao fim?”

A noite sempre chega ao fim… e o mesmo acontece com a vida, as histórias vividas-contadas e o ano que, por enquanto: é novo.

Mas, não se iluda… depois de amanhã caduca de novo!

 

Filme | Philomena…

Em meu principio está o meu fim

T.S.Eliot

philomena


Philomena… personagem brilhantemente interpretada por Judi Dench, é uma mulher que pecou — se deixou seduzir por um jovem… que elogiou sua beleza e lhe ofereceu uma cerveja. Se rendeu as carícias e sensações. Se entregou e como Eva, o pecado culminou em ‘bendito fruto’.

Na condição de pecadora… teve que pagar o preço. Afinal, na igreja… pecado é moeda de troca. Ela devia pelos ‘serviços prestados a ela’ — ser acolhida dentro das paredes sagradas, após ter pecado contra deus — o montante de 100 libras ou o equivalente a quatro anos de trabalho ‘escravo’…

Enquanto pecadora-devedora — o que na igreja é a mesma coisa — não tinha o direito de contestar as decisões tomadas dentro das paredes sagradas do Convento de San Ross, na Irlanda e nada pode fazer para evitar que seu fosse entregue para adoção.

A igreja sempre usou da culpa e do medo para manter seus fiéis na linha… aterrorizando as pessoas submissas as suas regras.

Depois de confessar ‘suas vergonhas’ à filha anos mais tarde… uma humilde-humilhada Philomena consegue a ajuda de um ardoroso ateu Martin — jornalista que não se interessa por ‘histórias humanas’ e que parece entrar em cena para representar a nossa indignação.

Brilhantemente interpretado por Steve Coogan… o homem, que devido a um momento delicado de sua vida profissional — não tem outra opção que não seja, investir na história de Philomena e revelar toda a cruel realidade por trás da ‘venda de crianças’ no velho convento irlandês.

E depois da verdade escancarada… não surpreende a postura da velha-madre — em fase decrépita e miserável. Ela se mantém ‘fiel ao seu deus e a todas as premissas’ e do alto de sua arrogância, invoca o direito de ser julgada apenas por Deus… a quem se diz fiel, ao contrário de Philomena, que sucumbiu aos desejos primários da pele. Coisa, que ela nunca fez e lutou ‘bravamente’ para se manter fiel ao seu amor-de-deus.

É uma das cenas mais indigestas do filme… que nos põe diante do olhar azul de Judi, as rugas em seu rosto… onde desfila uma dor ímpar por tudo que lhe foi roubado, em contraponto ao da mulher-freira… cruel e indiferente, como se ela própria fosse o deus-todo-poderoso.

A essa altura do filme, já sabemos que a busca de Philomena, não era solitária… seu filho também buscou por ela, recebendo o mesmo tratamento — de indiferença. Mas, é ele quem encontra um meio de voltar para os braços de onde foi arrancado.

A interpretação de Judi Dench e Steve Coogan é repleta de contrapontos… ele esbraveja, se revolta, cobra explicações, exige um pedido de desculpas — nos coloca em cena. Martin se veste da mais fina ironia para afirmar em voz alta, que ele, no lugar de Philomena, não a perdoaria. E é a voz dele, que traz para o filme o verso-frase-prece de T.S.Eliot… que de certa forma explica toda a trajetória dessa mulher.


“O fim de toda busca será chegarmos onde começamos
e ver o lugar pela primeira vez”

T.S.ELIOT


Abril | …o mais cruel dos meses

 

“Abril é o mais cruel dos meses, concebendo
Lilases da terra entorpecida, confundindo
Memória com desejo, despertando
Lerdas raízes com as primeiras chuvas”.

T.S.Eliot


 

Senti os ventos de abril em meu imaginário inquieto! Fechei os olhos para sentir dentro a dança das estações. Lá fora o dia seguia sua marcha comum de leste a oeste… sem se incomodar com as insanidades temporais que invento para me guiar-orientar porque desde sempre que calendários-ponteiros só conseguem me perturbar-incomodar.

O sol segue a pulsar forte e nada de ceder. Quero dias frios — repito dentro… sem esperança alguma.A ‘moça do tempo’ insiste com as mesmas previsões de ontem: sem chuva, apenas o sol do verão a avançar seguro por este abril, que nada sabe de trovões.
Amassei a folha do maldito calendário humano com seus dias em fila. Coloquei a água para ferver e fiquei por um instante — breve — a espiar as paredes, como quem faz uma prece e se esquece de todas as coisas do mundo.

Enquanto aguardava por um dos meus sons favoritos… recordei Rubem Alves e sua escrita certeira-antiga. Ele brinca com as lembranças e eu gosto desse jogo proposto por ele em suas linhas. Quase fui a prateleira buscar por um livro dele, mas a chaleira apitou e interrompeu o pensamento-movimento… me permitindo recordar a pilha de livros que tenho para ‘devorar’ nesses ‘insanos’ dias de abril.

Os livros acumulam-se desde janeiro porque cada vez que desço os livros as prateleiras… volto a navegar por páginas antigas-conhecidas… lidas em outras estações. Há autores-e-livros que uma única leitura é pouco ou nada. É preciso apreciar as nuances da vida-realidade. A gente muda… os livros também — somos todos mutantes: pessoas e livros.

E por isso o inevitável acontece… algo fica pelo caminho e a pilha cresce. Mas quero nesse abril — em que pretendo voltar as poesias de Eliot, que marcou esse mês para todo o sempre com sua linguagem-feroz-de-homem-poeta ao anunciá-lo como: ‘o mais cruel dos meses’ — colocar a leitura em dia. Nada de arrumar prateleiras, ficarei atenta à mesa e sua pilha de livros, que faz alguns dias me olham furiosos. Daqui a pouco começam a esbravejar… há qualquer coisa de fúria nos livros não lidos — já repararam?