Diário de minhas insanidades, 12

‘As palavras não tinham importância. Falava pelo prazer de falar,
como se fala depois do amor, o corpo ainda sensível,
a cabeça um pouco vazia’.

— quarto azul — Simenon

la chambre bleue

As palavras, às vezes, parecem almofadas e servem de conforto para o corpo todo… são como abraços demorados, afagos dentro de uma tarde de chuva”… — foi o que disse W., pouco depois que me sentei em meu lugar comum.

…sua fala completamente inesperada, dita sem pausas, de maneira direita, me calou completamente. Cruzei os braços a frente do corpo e mergulhei no branco de seus olhos — uma espécie de mar revolto. Ela parecia ausente-distante… tive a sensação de ser um diálogo inconsciente. Uma frase solta, que escapou da boca, como se saltasse num precipício sem autorização.

Tive certeza de que se tratava de uma de suas ‘notas mentais’ quando sua voz ressoou pelo cenário novamente: ‘o silêncio não serve para todos, há pessoas que precisam do barulho‘…

Pensei imediatamente no traço que, às vezes, me permito junto ao papel… está cada vez mais raro esse gesto. Mas, às vezes, recorro ao movimento comum à minha infância, porque a escrita motivada pela lapiseira é mais lenta, e leva mais de mim… para fora. É diferente quando deito frases inteiras junto ao teclado. O papel pede tato… o computador nos é — quase — indiferente. É como se não se importasse com o que lhe entrego. O papel é mais aconchegante, uma espécie de noite de outono, com vinhos e queijos.

W., fechou rapidamente o seu caderno de notas — como se repentinamente retomasse a consciência. Exibiu um pequeno sorriso e pouco depois de um suspiro — que quis dizer muito — buscou por um livro, que eu tentei descobrir o título e autor — sem sucesso. Disse num sem voz que estava a ler pouco antes de minha chegada.

Nada me inquieta mais, que um livro desconhecido. Me comporto como os cães, viro a cabeça de um lado para o outro, como se o livro fizesse estranhos ruídos — indecifráveis.

W., consciente da atenção que o objeto em suas mãos despertou em mim, falou do livro… com singular euforia. Salientou que suas mil e uma palavras, de tão sutis e gentis, é de fácil compreensão. Se trata de 1iteratura francesa — a minha favorita, nessa seara de publicações.

Respirei fundo levando uma gama maior de ar até os meus pulmões. Sentindo atentamente todo o caminho percorrido pelo ar levemente gelado do ambiente de temperatura controlada…

W., me olhou rapidamente de soslaio, enquanto seu discurso acontecia: ‘é uma primorosa lição de bem escrever. Nem se trata de um policial, no sentido mais vulgar do género. Sobretudo, falta-lhe a presença de qualquer investigador. Ao invés, estamos perante um par de amantes que se encontram, regularmente, no quarto azul de um hotel de província’.

Nem sempre ouço as falas, que se aglomeram ao meu redor… mas, dessa vez, não apenas ouvi, como tentei entender quem lhe atribuiu a condição de crítica literária. Levantei os olhos em meio a um sorriso irônico, e me distrai com a capa do livro. Uma edição nova, recém-lançada. Uma tradução de La Chambre Bleue… “o quarto azul” de Georges Simenon.

…’conhece?’ — eu apenas sorri… e ela não ousou recomendar a leitura, apenas escondeu o livro imediatamente abaixo de seu caderno lilás, onde toma nota da vida alheia — incluindo a minha. E, onde o meu imaginário ousou escrever um pequeno trecho do livro: ‘era verdade. Naquele momento era tudo verdade, uma vez que ele vivia a cena em estado bruto, sem se fazer perguntas, sem tentar compreender, sem suspeitar que um dia haveria alguma coisa a ser compreendida. Não era tudo verdade, como real: ele, o quarto, Andrée, que permanecia deitada na cama desarrumada, nua, as coxas abertas, com a mancha escura do sexo, de onde escorria um fio de esperma‘.

Eu diria ‘cheque‘… mas não seria nada elegante, afinal, ela usou o livro — argumento infalível, no meu caso — para desviar a minha atenção de sua figura em ruínas. Ela é uma mulher interessante, não permite em momento algum que eu cruze a linha. Me mantêm distante para a segurança de ambas. E eu aprecio esse jogo de movimentos poucos. O tabuleiro sobre a mesa. Peças brancas e negras e os olhares acesos…

Diário das minhas insanidades, 10

“existir à sombra de alguém é a mais difícil das artes — porque significa que estamos a olhar constantemente em um espelho”
Lacan

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A caminho de meu encontro semanal com W., observava o chão onde minha sombra perfazia seu traço comum, enquanto relembrava a conversa da sessão anterior, quando sutilmente — de seu canto de mundo-vida, ocupando seu papel comum na realidade que lhe cabe — me questionou: “quem é a sua sombra?”… 

Eu fiz silêncio, respirei fundo e visitei minha vida inteira — trinta e cinco anos — em poucos segundos… e de imediato, me lembrei de um sonho dentro da noite passada, que me fez sentir imensa falta dos diálogos-abraços-olhares de C.

Recordei as manhãs de sábado, vividos em sua companhia, as caminhadas pelo bairro até o mercado. A vi preparar os vasos da casa, com suas flores favoritas. Ouvi sua voz imersa em pequenas pausas, a narrar seus contos favoritos. A tomar nota de sua realidade nas páginas de amarelecidos tons de seu moleskine. A escrever missivas, em brancas folhas… e esperar pelo babo, no final de mais uma tarde, sentada no último degrau da escada, com um livro de poesias em mãos.

Voltei, por um breve instante, às ruas de Gênova, onde certa vez, percebi que nossas sombras eram uma mesma coisa no chão: um desenho uno, uma mistura perfeita… uma espécie de treva espessa…

Conclui que somos sempre a sombra de alguém, para alguém… e por um milésimo de segundo… quis devolver a pergunta à W., mas não o fiz — não sou dada a perguntas… mas por alguma estranha razão sempre tenho as respostas — reais ou imaginárias.

Gosto imenso de observar o desenho — estranhamente — humano, que se forma a partir de mim… como se um espelho fosse, a refletir a realidade que sou, sem artifícios mil.

A sombra é o que temos de mais verdadeiro… uma noite inteira se impondo dentro das luzes do dia. Um intervalo de tempo e espaço entre as coisas demasiadamente humanas. Uma coreografia capaz de nos fazer perceber o quanto nossos movimentos no mundo são limitados. Julgamos existir acima de tudo e todos e, no entanto, somos incapazes de alguma coisa ser de fato, sem a luz do sol, o ar que respiramos, as pessoas a quem abraçamos… absolutamente tudo depende da maneira como nos posicionamos no mundo. É preciso a luz natural-artificial para que essa pintura no chão seja esse reflexo que não se apaga, tampouco se recusa.

W., é figura sarcástica, mas é um humano contido… a luz da luminária que mantêm em seu espaço não permite um desenho dela junto ao chão, e como seus movimentos são poucos – quase inexistentes — pouco de si se espalha. Acho fascinante como o sorriso dela costuma determinar o impacto que minhas falas causa em sua figura humana.

…e hoje, ao medir meus passos e a realidade pela Paulista, concluo: nem todos sabem ser sombra ou existir à sombra! A maioria dos humanos não está preparada a confessar sua escuridão… prefere acreditar que é apenas luz… e o que fica no chão é qualquer coisa menor-sem-importância-ou-substância — qualquer coisa que se apaga, como se fosse uma palavra escrita a lápis, cuja existência se limita ao efeito da borracha…

Diário das minhas insanidades, 09

 

ela gostava de sofás compridos, e eu de longos navios ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés eu gostava de saltar e gritar nas ruas e, apesar de tudo, os meus braços vastos como o universo estão à espera dela.

Muhammad Al-Maghut

 

reallity

Comentei com W. que recomeçar me causa cansaço… numa obvia referência a maldita mania de festejar o ano novo, que tem os humanos. Ela se acomodou na cadeira num movimento novo, como se soubesse que a observo enquanto falo — antes ela apenas cruzava as pernas, acomodava o cotovelo  no braço da poltrona e o queixo sobre a mão.

Exibi uma espécie de sorriso nos lábios e continuei minha fala segura: “eu não gosto de deixar certas coisas para trás, de maneira definitiva. Gosto de levá-las comigo para os lugares que visito: a mesa do canto do café entre esquinas”…

Trocamos olhares silenciosos sometimes… e, como se fôssemos espelho uma da outra, nos encaixamos dentro dos mesmos movimentos sometimes. Aprendemos muitas coisas sobre nós duas nesses meses de visitas – sempre nas noites de terça – mas nem sempre ela me brinda com falas — curtas ou longas — às minhas introduções. Isso não me incomoda… pelo contrário, prefiro o silêncio à intromissão… porque sou como um velho e bom livro! Preciso de uma epígrafe antes de começar a contar a história, mas não de um prefácio, que eu nunca leio… se fossem como uma missiva, mas são apenas o que são, uma espécie de mapa impreciso e totalmente desnecessário…

W., pela primeira vez olhou para o relógio em seu pulso – presente de natal – com seus ponteiros pontuais a dizer as horas, os minutos e também os segundos. Foi um olhar rápido, sem qualquer ansiedade, como quem observa a certeza… e não o tempo. O relógio estava no lugar certo, assim como os móveis, as paredes e seus quadros, a estante, os livros e seus porta-retratos.

Nada mudou naquele cenário bucólico depois desses meses… eu continuo a ocupar o meu lugar e ela o dela, que segue a fazer pequenas anotações, em seu caderno de capa cinza-chumbo. E vez ou outra, o meu sorriso arisco, põe um ponto final em algum pensamento seu…
Passados alguns minutos… um novo olhar para o relógio dourado… a dividir espaço com uma pulseira onde adormece seu nome, desde os quinze anos… igualmente dourada. Ela passa mais tempo no conserto, que em seu pulso… graças a um fecho, que vive a causar problemas. É tão frágil quanto suas vontades.

E depois de conferir as horas, W. levantou a sobrancelha esquerda e se pronunciou: ‘você tem tanta coisa guardada dentro de si, que me faz pensar constantemente em uma tarde de chuva, xícara de chá e em uma velha caixa de sapatos escondida embaixo da cama

Suspirei, sorri… e me lembrei, quase que instantaneamente, do primeiro baú, que ganhei do nono… onde costumava guardar meus cadernos, diários, folhas avulsas e uma caixinha com folhas, gravetos e pedras recolhidas durante a caminhada. Mas eu nunca tive uma caixa de sapato embaixo da cama… não é o tipo de argumento que combina comigo.

Cinquenta minutos concluídos em mais uma noite de terça… soubemos que o tempo e as palavras vêm à boca, mas guardamos tudo em nós duas para a próxima semana…

Diario das minhas insanidades, 07

“In the name of the Bee — And of the Butterfly
And of the Breeze — Amen!”

Emily Dickinson


“vamos na mesma direção” anunciou para meu desconforto quando eu passava pela porta.  Precisei respirar fundo para não dispensar o convite e seguir meu caminho de passos estreitos e lentos. Chovia fortemente na cidade — chuva de verão dentro da noite — e eu lhe causaria preocupações desnecessárias — foi o que me fez ficar e esperar. Conheço bem tais alegações… elas gritam em meu íntimo: ‘leva guarda-chuva, vai chover’ — ‘não esquece a blusa de frio’…

Enquanto esperava… apreciei o céu da Paulicéia ‘nada’ desvairada… que se iluminava de tempos em tempos — com seus múltiplos relâmpagos, seguidos de agudos trovões. Um belo espetáculo da natureza para os meus olhos mas, principalmente para a minha alma.

A bordo do carro, seguimos pelo Corredor Norte e Sul — caminho de casa.  W., fez questão de dizer em voz alta e com um sorriso sarcástico nos lábios “não se preocupe, não seremos amigas e você nunca irá para a sua cozinha preparar um daqueles pratos típicos, como presente de aniversário para mim”.  — ela parecia satisfeita por, supostamente, se antecipar o meu pensamento.

Ela ligou o rádio como se o movimento fosse uma continuidade de sua fala, permitindo que Turandot se precipitasse entre nós… e foi o bastante para o silêncio se acomodar em nossos corpos — enquanto nos apoderávamos do que acontecia ao nosso redor: o asfalto molhado, poças largas pelo caminho, os veículos em alta velocidade, os faróis vermelhos de um lado e brancos do outro……

W., dirige com calma e segurança… segura firme o volante com as duas mãos. Não tira os olhos da pista e do retrovisor. É atenta a si mesma e aos outros… e não se importa de ser ultrapassada por outros veículos. Ela não gosta de dirigir, mas também não suporta a idéia de que alguém conduza seu carro do ano — com cor e modelo escolhidos de acordo com o seu perfil.

Vinte e dois minutos depois… ela estacionou em frente ao prédio em que moro. Segundos antes de eu me despedir, ela fez a pergunta que embalou em seu íntimo durante todo o percurso: “ainda não sei por que a noite é tão importante para você! Pode me dizer?”…

W., me olhou com seus olhos de águia no escuro… tudo muito rápido — e esperou. Uma vida inteira atravessou a minha matéria. Pensei em Cecilia Meireles, que esperava o filho dormir para escrever suas linhas. Em Jane Austen que aguardava pelos últimos instantes da madrugada para começar a escrever… porque gostava de amanhecer. Em Emily Dickinson, que saboreava o silêncio da casa, dentro das noites insones.

Investiguei a mim mesma rapidamente: lembrei-me da falta de sono… dos livros-palavras — e do fascínio pelo silêncio-escuro-embriagado que a noite sempre me ofereceu e sorri ao recordar a fala de uma personagem que reinou em minha infância ‘é quando caí a noite que a realidade vai dormir‘. Respirei fundo e me abriguei na canção…

W., fez questão de ressaltar que não tinha pressa, logo, esperaria por minha resposta — entreguei a ela um sorriso em sépia, abri a porta do carro, agradeci pela carona e destilei meu veneno: “cada um de nós reza para o ‘deus’ que melhor lhe convém. Amém”.

Diário das minhas insanidades, 06

ORAÇÕES E POEMAS SÃO A MESMA COISA:
PALAVRAS QUE PRONUNCIAMOS A PARTIR DO SILÊNCIO,
PEDINDO QUE O SILÊNCIO NOS FALE.

Rubem Alves


Atravessei a Paulista com meus passos lentos — sem pressa — como tanto gosto… a galope — como sempre digo… ou imagino! Alcancei o edifício de vidro com suas figuras múltiplas — janelas sempre azuis… quarenta minutos depois.

Adentrei o elevador no térreo e pouco depois cheguei ao último andar, onde eu era esperada  para cinquenta minutos de diálogo… mas o que gostaria mesmo era de pagar por cinquenta minutos de silêncio…

É tão difícil permanecer muda, calada… todos me pedem palavras, às vezes, até eu mesma me cobro diálogos inteiros: absolutos-únicos… definitivos! Me cobro pelo que não suporto ou tolero. Se eu pudesse permaneceria em meu íntimo — calada… durante dias-semanas-meses-anos… talvez!

Mas o silêncio incomoda, fere… obriga o outro ao lado de dentro — esse lugar estranho, impossível de permanecer para as pessoas contemporâneas, que emitem todos os tipos de sons. E de tão acostumadas aos sons, já não são capazes de ouvir ao outro, tampouco a si mesmas — como se tivessem desaprendido a arte de ouvir…

Quer enlouquecer alguém? Fique muda… o humano a sua frente se converte em um prédio de cinco andares e desmorona. Comumente acontece comigo. Causo incômodo nas pessoas a minha volta, que não se detêm em perguntar : ‘por que está tão quieta, hoje?’… e eu apenas exibo o meu sorriso de sempre que parece perguntar ‘hoje?’…

Eu pagaria com imenso prazer por ‘cinquenta minutos de silêncio‘…para permanecer na sala de W, em silêncio… a observar seus gestos e tomá-los para mim, como fez Hopper ao apreciar suas paisagens urbanas para traçar seus ensaios de solitudine.

Mas assim que me sento na velha poltrona de couro ouço a pergunta: ‘como você se sente, hoje?‘… eu sempre respiro fundo, observo o cenário, os espaços entre os móveis, me certifico que os porta-retratos estão nos mesmos lugares. Verifico os títulos dos livros e quase me esqueço da pergunta feita….

onde gosto de permanecer a salvo da realidade diária das pessoas e suas tolices… a colecionar imagens, paisagens… aglutinar frases inteiras e, quando em movimento pelas calçadas da cidade… notas mentais se organizam em linhas retas — deliciosamente imaginárias… entrego a ela meu tradicional sorriso branco-morno… que vai num crescente agudo pelos meus lábios, acomodando-se num canto qualquer da pele-alma… e, embora deseje permanecer em silêncio… respiro fundo e, me arremesso nesse mar bravio de palavras…