Diário das minhas insanidades, 06

“Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor”

T.S.Eliot

 


Faltava quinze minutos para as dezenove horas quando entrei no elevador. Comecei a acompanhar a progressão dos números no visor, mas logo me distrai. A mente anda a tecer longos diálogos internos-desorientados-confusos… uma verdadeira caixa de abelhas. Respiro fundo. Tento uma rota de fuga. Chego atrasada aos diálogos. Assusto-me com a chegada de pessoas, que acenam com os olhos-boca-nariz-braços-mãos e eu não sei como reagir.

Ocupei a cadeira na antessala, sinalizei a recepcionista, que pousou o olhar em mim rapidamente. Ainda bem que não me importo com o que penso sobre mim. Reparei que nunca tinha dado atenção a essa figura-pálida que nos recebe, enquanto W., se prepara os cinquenta minutos de cada um de seus pacientes.

Abre aspas. nunca soube me relacionar com a palavra: paciente. Fecha aspas. 

Ela é jovem. Não tem trinta… ou tem (?). Aposto como lixa as unhas quando está sozinha. Os cabelos mudam de cor com frequencia. Gostei disso… vou guardar para usar em algum lugar. Ela destoa do cenário. Mas é atenciosa e sabe como lidar com a agenda. Remanejar pessoas. Organizar pastas. Arquivar documentos. E o essencial: é confiável. Nada diz. Parece muda. Ouço um ‘boa noite‘ num sem-voz quando passo pela porta… e isso é tudo. Ao telefone, sua voz soa como praia deserta. Diz tudo-e-nada. É breve. Parece um personagem saído de um dos filmes de Wood Allen.

Pontualmente as sete horas noturnas — como de costume —, W., abriu a porta. Nos cumprimentamos rapidamente e fui ocupar minha pequena porção de espaço… na poltrona. De frente para ela, que tinha passado lápis nos olhos, dado brilho a maçã do rosto e aos lábios. Estava inquieta. Reparei pequenos tremores nos pés — habilmente controlados.

E depois de quinze minutos de silêncio, W., ajeitou o corpo na poltrona, rabiscou algo em seu caderno. Respirou fundo e disparou uma pergunta, como se carregasse uma arma e apontasse para mim:do que você se lembra?’. Não sei onde estava. Mas a alma voltou ao corpo rapidamente — como naqueles sonhos dos quais despertamos sem consciência do sono-sonho-corpo. Fiquei sem ar… incapaz de proferir palavras, que chegavam aos meus lábios dormentes. Havia movimento de fala, mas o ar não passava pelas cordas vocais, portanto, não havia som.

Olhei para dentro e fora. Olhei ao redor… para W., que esperava por uma resposta — que iria descortinar uma verdade: “falta-me memória” — conclui, sem dizer. Lembro-me de coisas espaçadas, quase nada. Alguns humanos-lugares-momentos. Uma coisa aqui… outra ali. Peças soltas-frágeis. Nada se sustenta ou ampara. Minha realidade é como um espelho pós-banho.

W., consciente da minha dificuldade… me propôs esse insólito exercício. Fechar os olhos. Respirar fundo. Esvaziar a mente (sério?) e permanecer na escuridão por alguns segundos. Ela parecia saber que uma luz se acenderia em instantes em mim. Sou propensa a queda — foi o que lhe disse em um de nossos encontros.

…me ocupei de sua contagem, feita em voz alta. Era como os números do elevador, em progressão. Ela chegou a cinco… o mesmo time do elevador. Abri os olhos e ela me perguntou: “qual a primeira lembrança que vem a sua mente?”…

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Diário das minhas insanidades, 05

Magma transmudado em cinza, / Fóssil na noite da cripta,
O vaivém milenar da água viva, / Líquido momento de sentir
E estar sozinho. / Fazer silêncio.

Mariana Ianelli

 


 

Fazer terapia — ainda que seja uma decisão consciente — não é fácil. Você se senta diante de uma estranha e oferece tudo de si numa bandeja de prata. Há pacientes que fingem-subvertem-escondem, mas não é produtivo. É uma perca de tempo para ele, até porque o profissional pode até demorar para identificar os processos, mas em algum momento isso acontecerá…

Eu sempre optei por desnudar-me…até por saber os pontos de conflitos. Assuntos não resolvidos e questões sem respostas… acumuladas nessas três décadas de vida.

As primeiras sessões com W., no entanto, foi um jogo de cartas marcadas. Eu não perco a mania de traçar o outro, de analisar o que é verso-avesso. Dentro e fora. Não sei existir sem imaginar o que há por trás da armadura-humana.

Ela também é uma observadora de pássaros. Já permanecemos mudas por mais de quinze minutos. Silêncio absoluto-agudo… delicioso. Fechei os olhos e ouvi o ressoar do velho carrilhão em minha amalgama. O que me fez sorrir.

E diante de meu sorriso-aceno e consciente de que não sou dada a diálogos, indagou-me: “quanto tempo costuma permanecer aí dentro?

Abri os olhos. Apreciei a anatomia esbranquiçada de W. — tal qual o gato da fotografia em sua mesa —, e respondi… de maneira breve-curta-rápida. Quatro palavras bastaram. Ela não demonstrou surpresa. Anotou alguma coisa em seu bloco de papel… e o silêncio voltou a existir entre nós.

Reparei que não há relógio na parede e seu olhar não busca pelos ponteiros em seu pulso. Não sei se ela é regida por Kairos ou Chronos, mas sempre sabe o tempo que se passou desde a minha chegada. Cinquenta minutos depois, ela pergunta: “próxima semana? Mesmo dia e horário?

O que eu ainda não sei dizer… é se ela espera ouvir: “adeus-até-nunca-mais” ou “até a próxima terça“. (?)

Diário das minhas insanidades, 04

“O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar”.

Charles Baudelaire

 


 

Em São Paulo… depois de algumas tentativas frustradas de retornar à terapia, recebi uma indicação e agendei o ‘encontro’. Sai de casa pouco depois das cinco. Terça-feira de sol quente e chuva forte no meio da tarde. Caminhava a passos curtos, enquanto desviava dos humanos apressados que, certamente, me consideravam um obstáculo. .

Cheguei ao meu destino… um luxuoso prédio na Avenida Paulista com seus vidros azuis. E me lembrei da canção de Chico Buarque “Luz, quero luz, Sei que além das cortinas / São palcos azuis / E infinitas cortinas / Com palcos atrás / Arranca, vida Estufa, veia / E pulsa, pulsa, pulsa / pulsa mais”…

Enquanto o elevador subia ao vigésimo segundo andar, observava meus movimentos de vida. Encher o peito de ar. Fazer silêncio — dentro — sempre que possível. Não é fácil, mas é preciso tentar. Fechar os olhos e lembrar que a vida é feita de muitos caminhos, mas nem todos são para os nossos pés.

Passei pela porta às dezoito horas e cinquenta e sete minutos. Fui recebida por uma senhora que conferiu meu nome em sua agenda e sumiu pela porta a esquerda, com uma conhecida plaquinha prateada e nome de W., seguida por seu sobrenome e a profissão: psicanalista.

Revisitei meu passado enquanto esperava. Tudo tão rápido-breve. Adentrei ao espaço de análise pouco depois. Decoração clássica… com móveis escuros, pesadas cortinas igualmente escuras, tapetes pelo chão… alguns vasos a preencher os cantos com galhos secos-artificiais. Tudo coisa alheia… pensada para ser parte da psicanalista, não da mulher, que fica do lado de fora.

O divã foi colocado perto da janela — para os que gostam de se deitar enquanto narram seus dramas. Duas poltronas de couro preto foram posicionadas de frente uma para a outra… bem no meio do ambiente, com uma mesa de centro entre elas. Distância necessária para que o paciente se lembre de sua condição e não se atreva a ultrapassar os limites. Na teoria: funciona. Na prateleira, atrás de uma mesa de vidro, há um punhado de livros em estado in-to-cá-vel.

W. é uma senhora elegante… seu nome se exibe — seguido de dois sobrenomes — nos cinco diplomas espalhados pela parede cor de creme. Tem os cabelos bem cortados… usa roupas caras e um punhado de jóias douradas nos dedos-braços-pescoço-e-orelhas. Tem o olhar atento às coisas frágeis. Sua fala é cuidadosamente planejada e, às vezes, deixa existir um sorriso ávido-arisco em seus lábios vermelhos.

Sua especialidade é saber ouvir o outro, sem interrompê-lo. Toma nota de tudo. Nada escapa de sua file companheira: uma caneta Parker, que foi dada a ela pela mesma pessoa — o marido, certamente — que lhe deu um dos brilhantes que ostenta na mão esquerda.

Escolhi a poltrona por razões óbvias… coisas que eu trouxe da infância. Gosto da maneira como meu corpo se acomoda e relaxa. Nunca gostei de divãs… que me coloca de frente para o teto e seu branco nada singular.

Eu gosto de conversar com o teto quando acordo-abro-os-olhos pela manhã, e espio as ranhuras e ralho com elas. Com uma pessoa o diálogo tem que ser olho-no-olho para que eu possa compreender a porção humana que há em mim e no outro.

W. se sentou imediatamente à minha frente, com seu bloco de notas e caneta em mãos. Olhou-me por alguns segundos, numa espécie de varredura da minha matéria, o que me fez sorrir. Parecia esperar que eu dissesse alguma coisa… e como não o fiz, ela se precipitou a mim: “a pessoa que te indicou me disse que tem apego pelo abismo. Mas não entendi se você é propensa ao salto ou a queda“…

Não sorri, apenas olhei para dentro e repeti a deliciosa frase de Baudelaire, que escrevi nas paredes de meu corpo ainda na primeira década de vida: acredito desde sempre que, se uma pessoa vai abandonar o silêncio e se dedicar ao barulho… é preciso ser como o Albatroz na poesia de Baudelaire “busca a tempestade e ri da flecha no ar“…

trilha sonora  |

Diario das minhas insanidades, 03

“Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro as coisas acabadas”.

Manuel António Pina

 


 

 

…durante os anos vividos em Coimbra, conheci D., — homem de quase cinquenta. Dono de um olhar enigmático. Figura obscura-abstrata. Seu desenho não cabia dentro do corpo que habitava. Era um homem de poucas palavras… com talento para ouvir o outro…

Seu ambiente de trabalho era o porão de sua casa, onde os cheiros se multiplicavam. Do café que ele bebia antes de começar a sessão — ao uísque que o ajudava com as notas que deitava em um caderno de couro marrom…

Em suas prateleiras enfileiravam-se livros de grandes pensadores… clássicos da literatura — velhos e gastos. Os mais novos eram de autores desconhecidos do público, que ele recebia para cinquenta minutos de conversa. Cheguei a pensar em ‘moeda de troca’ durante as sessões.

D., foi indicação de um professor, depois de comentar que precisava urgentemente retomar a terapia — estava prestes a perder a sanidade (novamente).

Assim que me sentei na velha poltrona de couro gasto… ele se posicionou em seu lugar, cruzou as pernas e disse “vamos primeiro as respostas porque as perguntas sempre chegam depois, como as aves que voltam para casa no final da tarde”

Reconheci de imediato a fala — um verso de Manoel Pina. Foi o que me fez ficar!
D., tinha um cão — um Labrador negro chamado Jerry — que se sentava ao seu lado e ganhava afagos durante as sessões. Os dois me espiavam com atenção e cuidado, mas confesso que era com o cão que eu traçava o meu diálogo. Era em seu silêncio-canino que eu confiava minhas falas…

Me despedi de D., e de seu cão… no verão de dois mil e dois. Ele me disse com sua voz rouca-pouca: “eu sei o que você procura, mas lhe aviso: não existe cura, tratamento ou remédio… para a loucura. O mais saudável é se deixar enlouquecer. No entanto, é preciso algum cuidado: são poucos os que são de fato capazes de se permitir a loucura. A maioria de nós teme enlouquecer porque não é todo mundo que consegue sonhar no escuro”…

Guardei a frase no bolso e, atravessei o oceano!

Diário das minhas insanidades, 02

“Nós somos os homens ocos Os homens empalhados
Uns nos outros amparados O elmo cheio de nada. Ai de nós!”

T.S.Eliot

 


 

Em minha primeira sessão… deitei-me no divã de uma estranha, com quem não simpatizei. Disse duas ou três frases inteiras que  me vieram à boca e me perdi no limbo — também conhecido como: teto branco.

Até me sentir segura… entrei e saí de vários ambientes. Recusei vários olhares que pareciam se afundar na lama de minha existência… e soube que não seria fácil encontrar alguém com quem partilhar minhas misérias.

Se na “vida real das coisas demasiadamente humanas” esbarramos em milhares de pessoas todos os dias e, não nos oferecemos a elas — por falta de empatia ou porque temos nossos caprichos… imagina quando saímos desse “conhecido recinto” para nos aventurar em solo estranho — onde um único ser é Rei e também Senhor.

Convivo com pessoas que me “conhecem” desde a infância a quem nunca contei absolutamente nada sobre mim — entregando pouco ou nada: um sorriso pequeno, um olhar estreito. E outras — recém-chegadas — à quem destrinchei minha realidade comum-inteira: livros lidos, lugares onde estive, lembranças antigas, pesadelos recorrentes, sonhos, ilusões…

Há pessoas que não nos querem saber-conhecer… esperam que a gente se deite no molde que trazem. E se não o fazemos… esperam dia após dia, pela tal mudança, que devemos prover em proveito de tal abençoada amizade-amor — ou seja lá qual nome dão a isso…

Fazer terapia é antes de tudo ser ouvido e como na realidade há poucas pessoas dispostas a esse gesto raro. Optar por um profissional é a melhor maneira de conquistar um direito ao próprio eco…