Diário das minhas insanidades, 05

Magma transmudado em cinza, / Fóssil na noite da cripta,
O vaivém milenar da água viva, / Líquido momento de sentir
E estar sozinho. / Fazer silêncio.

Mariana Ianelli

 


 

Fazer terapia — ainda que seja uma decisão consciente — não é fácil. Você se senta diante de uma estranha e oferece tudo de si numa bandeja de prata. Há pacientes que fingem-subvertem-escondem, mas não é produtivo. É uma perca de tempo para ele, até porque o profissional pode até demorar para identificar os processos, mas em algum momento isso acontecerá…

Eu sempre optei por desnudar-me…até por saber os pontos de conflitos. Assuntos não resolvidos e questões sem respostas… acumuladas nessas três décadas de vida.

As primeiras sessões com W., no entanto, foi um jogo de cartas marcadas. Eu não perco a mania de traçar o outro, de analisar o que é verso-avesso. Dentro e fora. Não sei existir sem imaginar o que há por trás da armadura-humana.

Ela também é uma observadora de pássaros. Já permanecemos mudas por mais de quinze minutos. Silêncio absoluto-agudo… delicioso. Fechei os olhos e ouvi o ressoar do velho carrilhão em minha amalgama. O que me fez sorrir.

E diante de meu sorriso-aceno e consciente de que não sou dada a diálogos, indagou-me: “quanto tempo costuma permanecer aí dentro?

Abri os olhos. Apreciei a anatomia esbranquiçada de W. — tal qual o gato da fotografia em sua mesa —, e respondi… de maneira breve-curta-rápida. Quatro palavras bastaram. Ela não demonstrou surpresa. Anotou alguma coisa em seu bloco de papel… e o silêncio voltou a existir entre nós.

Reparei que não há relógio na parede e seu olhar não busca pelos ponteiros em seu pulso. Não sei se ela é regida por Kairos ou Chronos, mas sempre sabe o tempo que se passou desde a minha chegada. Cinquenta minutos depois, ela pergunta: “próxima semana? Mesmo dia e horário?

O que eu ainda não sei dizer… é se ela espera ouvir: “adeus-até-nunca-mais” ou “até a próxima terça“. (?)

Anúncios