Os dias de julho…

“e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio… e a difícil arte da melancolia”

al berto

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…eu não me lembro de ter escrito — em momento algum — meia dúzia de frases sobre o mês de Julho e seus trinta e um dias. Revirei a minha mente-diários-notas-mentais… fiz avesso da minha matéria: e, nada!
.…o mês de julho sempre foi o tempo de fazer as malas e partir. Pôr o cuore nos trilhos. Os olhos à janela do comboio para vigiar os vilarejos e cada uma de suas estações — pequenos pontos em um mapa feio à mão numa folha de papel de pão..
Antigamente — como essa palavra é linda — era o tempo de estar do lado de fora — da pele-casca-casa — das pausas… de desacelerar e de se aventurar por dias dourados de nada-tudo fazer…
Eu costumava levar um ou dois livros comigo. Mas, os cadernos ficavam guardados-esquecidos no fundo de alguma gaveta para depois do verão.
Eu não escrevia naqueles dias… e não sei dizer se a escrita não acontecia na ponta dos meus dedos, nas paredes do meu corpo ou se eu simplesmente não pensava palavras.
Me lembro dos dias cheios de realidade e todas as suas coisas e causas — subir em árvores e colher as frutas nos galhos mais altos, pular em rios e deixar o corpo secar ao vento, dormir no meio da relva verde, sentir fome de biscoitos, doces, compotas e pães caseiros, escalar muros, pular cercas, correr rumo ao horizonte certa de que conseguiria alcançá-lo… rir até sentir dores abdominais e desmaiar de cansaço…
Houve um tempo em que julho era dourado de sol e era verão, a melhor das estações… e eu não escrevia palavras, apenas fazia as malas, mudava de cidade-casa e sem saber, construía memórias.
Mas, isso foi ontem —  no templo da minha infância. Hoje, os dias julho mudaram de forma-cor-aroma-estação e há uma soma a comemorar. Catarina faz sete anos, uma espécie de infância primeira — um ciclo cheio…

 

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