BEDA | Sylvia…

— Um raio súbito de luz azulada cruza oblíquo o assoalho do quarto vazio.
E eu sei que não foi a luz da rua, mas o luar. O que é mais maravilhoso do que ser virgem, pura, primorosa e jovem numa noite assim?… (ser violada)

— pág. 20 — diários de Sylvia Plath


 

Puxei a última página do livro. Bebi o último gole de chá. Quase meia-noite no relógio da parede da cozinha — quase outro dia. Vida e morte se cumprimentam. Alongo os músculos e nervos. Passo a limpo a leitura dos últimos dias…

A morte, quase sempre, é um elemento definitivo na vida de muitos escritores. De Cecília Meireles — que tinha obsessão por esse tema — à Virginia Woolf… a lista é longa. E inclui-se nela a poeta Silvia Plath que perdeu o pai — o herói Otto Plath — aos oito anos de idade e jamais se recuperou. Nadou mar a dentro… até onde pode, mas o mar recusou seu corpo… devolvendo-o para a praia.

A menina já tinha sido tocada pela morte. Nunca mais seria a mesma porque ninguém encara a morte nos olhos e continua sendo o mesmo.

Misteriosa… conhecê-la não foi a mais fácil das tarefas — mesmo ao ler as páginas de seu diário. Ela se esquiva em frases bem arquitetadas. Diz tudo-e-nada. Nos conduz por um mundo-particular.

Dá para dizer, no entanto, que quem percebia sua bela figura atravessando ruas, dobrando esquinas, entrando e saindo de casa… não imaginava as tempestades que pesavam sob o semblante amável da jovem de gestos pequenos e movimentos poucos. Se alguém desconfiou, esse alguém foi Hughes, mas ele também se cansou e escapou de suas tormentas.

A admirável Sylvia estudava-escrevia e publicava seus artigos em revistas-jornais. Desde a infância escrevia em seus diários chamados por ela de “mar de sargaço“…

“A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida”, — escreveu em seu diário.

Não é primeira vez que folheio esse livro… a primeira vez foi imediatamente a compra. Um achado na Saraiva na Rua São Bento. Grudei o livro no peito e foi difícil me desprender dele por alguns instantes apenas para entregá-lo a moça do caixa, que se espantou com o peso e a quantidade de páginas. Eu já tinha lido Ariel — o meu favorito — uma coletânea de poemas e um livro de cartas. Faltava-me, no entanto, debruçar o olhar por cima dessas linhas.

Eu sabia das inúmeras tentativas de suicídio. Li, durante a faculdade, inúmeros textos que a descreviam como mulher neurótica, intempestiva… que criava enquanto destruía a si, com a mesma fúria que parecia ser um argumento tão necessário quanto respirar.

“Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar”.

Soube que Ted deixou Sylvia… mas ela nunca o deixou… continuou a viver para ele. E pouco antes do derradeiro fim… da última página — escreveu Ariel, como se fosse seu último fôlego. Era uma narrativa baseada em seu estado de espírito… sua crescente solidão e sobreviver em meio as obrigações cotidianas de uma dona de casa separada.

“Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quatro da manhã — naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas”

A última página de vida foi escrita na madrugada de 11 de fevereiro de 1963. Sylvia preparou o pão e o leite das crianças… as agasalhou e se despediu. Cena descrita no filme onde foi interpretada por Gwyneth Paltrow. Um ensaio repetido centenas de vezes. Elas os beijou e vedou a porta do quarto. Foi até a cozinha.

Tinha planejado em sua mente cada pequeno detalhes… como faz um escritor ao preparar seu livro. Ela planejou o seu fim. Limpou a mesa, a pia… abriu o forno e deitou a cabeça dentro.


— Hoje é o primeiro de agosto. Um dia quente, fumegante, úmido. Chove. Estou tentada a escrever um poema. Mas lembro-me do que consta num dos evitar: após o aguaceiro, poemas intitulados CHUVA caem no país inteiro.

— pág. 21 — diários de Sylvia Plath


beda

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13 | o luto que não vivi…

Publicado pela Companhia das Letras, em 2009


 

Ao ler-te no meio dessa tarde… me lembrei de quando comprei o diário de Susan Sontag. Era apenas um livro — em meio a tantos outros — esquecido na prateleira da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, no qual resvalei e fiquei. Havia tempos que não consumia a literatura de Sontag — com quem dialoguei durante minhas meninice-aguda.

…comecei a ler as páginas ali mesmo — uma depois da outra — e me vi a percorrer a vida-realidade da pessoa-personagem que era para mim. Voltei ao ‘nosso discurso’ silencioso-quieto-morno de leitora-autora. Ouvi sua voz de mulher-firme-forte-às-vezes-fraca-frágil-alquebrada-contraditória. Me vi em seus círculos… a participar de suas trocas. Provei de sua raiva-dor-medo. Me envolvi com suas mulheres. Me vi de mãos dadas com seu menino-filho-estranho-e-conhecido. Fui passo a passo pelos países que visitou…. e sei como se sentiu porque foi exatamente como me senti ao pisar o chão estrangeiro.

A última página da história de sua vida foi escrita no dia 28 de dezembro de 2004. Tento, enquanto escrevo, me lembrar do lugar onde estava… o que fazia. Mas nada me ocorre. Sei, no entanto, que a notícia não chegou a mim nesse dia… veio mais tarde. No ano seguinte. Uma pequena nota de jornal, lida a caminho de algum lugar, dentro do trem. Uma nota rasa-pequena. Como um sopro na chama de uma vela. Um sopro e pronto… apagou-se. Não dei importância, foi como saber da missa de sétimo dia de um estranho a se rezada numa das muitas capelas existentes no mundo.

Enquanto degusto mais um pesado gole de café… recordo o instante em que tive o prazer de estar sob o julgo de seu olhar. Primavera em Nova Iorque. Primeira viagem para as terras do tio Sam. Eu tinha um mapa secreto de lugares — com base nos livros e filmes que passavam pelo meu olhar —, em que queria estar. E aquele café na parte ‘mais escura’ da cidade era um deles… de frente para um velho hotel, onde residia G.T.S — com quem Sontag adorava ‘discutir-discordar’.

Tomei um susto ao vê-lo no balcão, bem ao meu lado. Quase cutuquei-me para ter certeza da realidade. Demorei a reagir e vislumbra-la enquanto pessoa em um café. Me lembro de seu quase não sorriso. A maneira como povoou o seu cenário preferido, na cidade. A idade visível em sua pele branca. Sua fala-pouca. Seus idiomas-muitos. E seu silêncio-imenso. Seus contornos pesados-rudes. Ela era linda-e-horrível. Aparência fechada. Parecia mal-humorada. Olhar certeiro-definitivo. Me encantei com seus pesados goles — pareciam lentas tragadas — de café.

Que mulher! — pensei, sem dizer palavra. Não foi nada fácil estar a míseros centímetros daquela entidade que influenciou minha escrita-fala-movimentos. E sabê-la ausente de nós ainda me causa alguma estranheza, afinal, seus livros se acumulam ao meu redor, teço longos diálogos com ela, pontuando as minhas incertezas amadoras e ainda espero pelos lançamentos do que ficou por publicar…

Brinca-se com o passado… alguém quer jogar?

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não é bastante não ser cego 
Para ver as árvores e as flores. 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

— Fernando Pessoa —

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Já devo ter dito aqui o quanto gosto de andar de Coletivo pela cidade… principalmente a bordo de um Trólebus — conhecidos por suas pausas no meio das ruas paulistanas — e foi ao voltar para casa, pouco antes da tempestade de verão dessa tarde que ao ocupar meu lugar e me distrair com a paisagem do bairro de Higienópolis, em movimento… percebi que tenho passado um bom punhado de tempo com o olhar detido à janela —  seja de um Coletivo, seja do quarto ou de algum outro lugar.  Há muitas vidas lá fora e não nego meu interesse por aqueles humanos fantasiados de pessoas.

A minha paixão por janelas começou na infância… quando ao sair de casa, me deparava com figura folclórica de dona M., que a bordo de seus setenta anos e tantos anos — tempo demais para uma menina de quase seis compreender — , se dedicava a sua tarefa favorita: tomar conta da vida dos vizinhos a partir de sua janela. Ela sabia das chegadas-partidas. Ouvia conversas inteiras, pela metade e inventava possibilidades que, às vezes, determinava o caos em nossa rua.

Eu era a única a me divertir com aquela “figura mística”… que sabia se fazer ouvir. Sua voz alcançava as duas esquinas de nossa rua e invadia qualquer cômodo da nossa casa. Sempre acreditei que ela adorava quando um ou outro vizinho ralhava com ela. Tinha para mim que ela era solitária. Os dois filhos viviam em outro país e nunca a visitavam. O marido tinha morrido havia alguns anos — o coração simplesmente parou. E ela ocupava a mesma casa-grande desde os anos quarenta… pela manhã limpava os enormes cômodos e fazia bolinhos para ninguém. Sua casa era a única da rua a não receber visitas durante o ano. Era sempre quieta-e-silenciosa. Sem sons de criança no quintal… apenas um velho gato-branco-folgada passeava por cima do muro, mas não era dela, embora o alimentasse com bolinhas de carne, que ela mesma preparava.

Nas vezes em que me sentava no portão de casa para esperar pelo babo… tinha vontade de ir até ela e dizer ‘olá’… mas C., não a suportava por causa das fofocas que fazia. Tinha horror a língua felina dela, embora nunca tivesse sido alvo de suas fofocas. Nunca atravessei a rua… apenas lhe sorria e sentia qualquer coisa de empatia em seus gestos menores… qualquer coisa de sorriso em seus lábios, qualquer coisa de lágrimas em seus olhos.

Ela — rapidamente —, fechava as cortinas com as duas mãos num gesto rude…  e desaparecia. Eu ficava a observar o formato da janela, as cortinas em movimento de vento e o sol a resvalar sorrateiro na parede da casa com os três números bordados na fachada.

Ela foi a minha ‘primeira tela de Hopper’… e, às vezes, como hoje… lamento não ter lhe dito ‘olá’… de não oferecer a ela um instante de companhia. Foi estranho me deparar com a janela de sua casa: fechada… o lugar abandonado e uma placa de ‘vende-se’ amarrada no portão… mas, com ela aprendi a espiar realidades, imaginando-as a partir dos personagens que vez ou outra se precipitam ao olhar.

No caminho de casa, esbarrei nas janelas da Santa Casa, no alto… e graças ao sinal fechado pude observar atentamente a fisionomia do velho prédio e avistar um grupo de pessoas em abraços de ‘nunca mais’…

BEDA | Queimávamos madrugadas de fio a pavio…

wazemmes

Caríssima AA.,

A tarde começa a cair lá fora, por cima da cidade com suas ruas em “movimentos” de sexta-feira. Passa das cinco e eu ainda não aconteci para o mundo. Sempre que chove fico dentro da pele — em suspenso. Minha alma se equilibra em desacordo com os ritmos da realidade… faço chá, reviro caixas, abro antigos cadernos-diários, arranco folhas para rascunhar o momento e me perder — como se estivesse a arrancar de mim alguma coisa indevida.

Faz dias que não chove por aqui… uma vida inteira-imensa e me incomoda essa falta de previsão de trovões e nuvens. O ar pesado me causa cansaço e há tanto por fazer e viver.

Ainda há pouco… antes de me sentar aqui para escrever-te — abri meu velho diário e um envelope antigo saltou lá de dentro… foi ao chão. O detive em minhas mãos por alguns segundos — enquanto espiava o passado contido em seu avesso. Recordei tudo que foi e não foi…

Senti a textura na ponta dos dedos… o resto de perfume que o papel guardou. Provei de sua cor opaca — já reparou como envelhecem os papéis? É tão poético acompanhar o efeito do tempo.

Mergulhei pouco depois… nas duas folhas de papel, onde adormecia a conhecida caligrafia descuidada-irregular-indócil… difícil de ser lida. E uma fotografia, que traz a data e o lugar onde foi tirada: Wazemmes — 2003.

Fiquei em suspenso por alguns segundos… provei da falta de coisas não vividas — como propõe um poema escrito por Simone Teodoro, em seu livro ‘astronautas’.

Viajei para dentro do cenário… conduzida pelas linhas de Pr., que falava da vida, de seus medos e vontades, incertezas, sonhos, ilusões. E confessava escrever do segundo andar de um prédio velho e escuro — em Wazemmes.

Nas primeiras linhas… reclamava de um jovem músico, que se repetia em notas — todos os dias, no mesmo horário. Dizia rezar — mesmo sendo ateu — para que ele aprendesse a dominar o instrumento e as notas… já que estava a gostar do lugar, que levou semanas-meses — uma vida inteira — para ser encontrado.

Ele era o tipo de pessoa, que precisava vestir os cômodos… uma espécie de barco encalhado… a convocar ventos e marés. Não era qualquer lugar que lhe servia e se dizia amaldiçoado por ser assim, mas não fazia o menor esforço para ser diferente do que era. Nunca foi bom em conjugar certos verbos. “Mudar era movimento para ir de um lugar ao outro, não um feitiço para impor ao próprio corpo’… e eu tinha verdadeira paixão por essas frases, que saltavam — suicidas — de sua boca.

Ele era uma pessoa exigente… o quarto precisava receber sol pela manhã — a melhor hora do dia para se aquecer os lençóis… segundo ele.  A sala tinha que ficar no meio — caminho de algum outro cômodo. Fazia questão de uma varanda para as ruas e janelas grandes onde pendurar cortinas brancas.

Não cheguei a conhecer a morada… não houve tempo — apenas vontade-desejo. O imaginário, no entanto, foi e voltou de lá inúmeras vezes — a cada missiva que chegava, com novidades. Acompanhei a escolha dos móveis. As inúmeras visitas a lojas. A primeira compra de ingredientes num desses empórios antigos. O ajudei a preencher os armários. A escolher a louça… pratos azuis, canecas amarelas e talheres pesados. Eu lhe enviei um mensageiro dos ventos, que levou meses para atravessar o oceano e ser pendurado na janela do quarto para as noites-manhãs-tardes de ventos. Ouvimos juntos a primeira ventania enquanto tomávamos uma xícara de chá de anis com folhas de laranja — o nosso favorito.

E hoje — passado tanto tempo — visitei novamente o espaço… como se para lá tivesse me mudado no último minuto. Habitei por alguns segundos a fotografia. Converti a minha figura em personagem-transeunte… e vivi dentro de um fim de tarde, quase noite… a suturar levemente o cuore. Sentei-me no sofá, ao lado dele. Encostei a minha cabeça em seu ombro e lhe contei as novidades — sobre meu novo romance — enquanto esperávamos o apito sonoro de sua chaleira prata…

Ocupei todo o espaço… colei novos cartazes de filmes nas paredes. Grudei uma bandeira inglesa atrás da porta do quarto de hóspede. Espalhei os nossos livros russos por cima do tapete de linhas, no chão da sala. Pendurei algumas peças de roupa no armário. E o lugar pequeno-escuro, com poucos móveis, calmo e lúcido aos poucos se moldou a minha anatomia.

E no quase fim de tarde… vi o sol lamber a pequena janela da frente… a resvalar no vidro, deixando aquele rastro de poeira solar no ar… e ir embora len-ta-men-te pouco depois. Todo o cenário se converteu em sombras… a escorrer na parede de meus olhos fechados.

Voltei para cá… amparada pelo breu e o silêncio de quem lê uma missiva, observa uma fotografia e conversa com alguém, que talvez compreenda o silencio do meu corpo em suspenso nessa primeira-última hora.

À tout à l’heure!

 


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