Oração para esse dia em catarse

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A mesa ao canto a minha espera… o livro que carrego comigo para as horas em que a mente já não deseja mais organizar uma única frase. O copo branco de café. A esquina a dizer a pressa dos homens que nada sabem de si mesmos e tampouco dos caminhos que tem para os pés.

O azul cru no céu… com suas nuvens esbranquiçadas a chegar – promessa de chuva? Talvez – o vento frio, vindo do norte a espalhar folhas da estação pelo chão… E as flores? Pelo visto ficaram para depois. O outono finalmente resolveu se aconchegar, mas pode ser coisa de momento… tudo muda tão rapidamente por aqui.

A jabuticabeira – atrapalhada com o desmando das estações – não fez frutos esse ano, mas permitiu um ninho em seu galho. A futura mamãe espia de longe os movimentos humanos de um lado para o outro. Parece tranquila-segura…

Hoje eu fumaria um cigarro se tivesse vícios… culpa da autora que insiste em mim com sua figura esfumaçada. Vontade que passa… Amém!

As lembranças que se amontoam em minha anatomia…

Quinta-feira, um dia depois do outro.

…“quanto a mim, sigo aqui nesse meio de vida, meio sem rumo, meio escritora,
meio atriz, meio cansada, meio feliz, meio sem terra, sem laços,
com meios amigos, meio fechada par dentro de mim”…

>> uma vida inventada, pág. 209
Maitê Proença

 

Minha cara M.

…as horas passam em pares por aqui, e eu ouço C. a dizer: “o tempo é um menino travesso” e o sorriso se apressa em meus lábios. A vida ensaia alguns movimentos, mas eu os recuso… fico aqui dentro dessa casca, com uma janela aberta e uma porta fechada… no canto, a televisão ligada apenas para fazer algum barulho, e o livro – recém fechado – foi por mim deixado junto ao travesseiro, que guarda os contornos do meu menino… que saiu cedo para as ruas, mas sua risada ecoa junto as paredes dessa casa, como se desde sempre ele habitasse esse cenário miúdo…

A leitura – uma vida inventada, de Maitê Proença - está quase no fim, mas não posso negar: ainda existo/aconteço dentro daquelas páginas, com suas linhas a dizer uma realidade, que talvez tenha sido inventada por sua autora, que é também a personagem desse livro.

O título é quase uma provocação… como se ela deixasse pra mim – na condição de sua leitora – decidir a condição real de sua escrita: real ou imaginária? – o que sabemos ser um risco, já que eu prefiro delirar. A realidade me parece pouca-insuficiente-sem-graça… a oferecer sempre os mesmos elementos, que eu sigo recusando dentro dos dias, que tenho pra mim. Como disse Lacan: “a realidade das coisas já está pronta, é definitiva. Basta usar. Sentimos fome, frio, sede, o dia amanhece. Faz sol. Chove… essa é a nossa verdade, imutável, tudo o mais pode ser substituído”.

A roupa suja já está no cesto… mas as lembranças estão todas espalhadas pelo canto da casa, do corpo e, também (principalmente) da alma – tudo em desordem. No momento, dizem bem mais do que eu preciso… e eu as ouço como se fosse uma música agradável – de versos conhecidos -se repetindo dentro dos meus ouvidos.

Retomei a edição de um material antigo, que venho há tempos ensaiando reescrever… revi cenários dos quais já não mais me lembrava. Escutei diálogos inteiros e, percebi que a história em si, está a se reescrever aqui dentro de mim…

Ah minha cara, acontece que o amanhã acena e, eu recebo esse gesto no fundo dos meus olhos… é quando deixo meus escritos em estado de abandono no fundo de uma gaveta qualquer, porque o dia é esse excesso de luz a me por cansada. Prefiro a escuridão, a quietude das noites, e seus filetes de luzes amarelecidas a desenhar sombras nos cantos do meu corpo-alma-memória…

No entanto, quando o dia cinza se impõe – com suas chuvas – desperto… e saio espalhando por cima da cama todas as minhas coisas acumuladas, amontoadas em meu íntimo, que tem consciência plena de que é preciso medir o tempo pelas horas que valem e, que de fato, podem ser medidas… é quando ouço o som do velho carrilhão direto de minha infância e a consciência se esparrama como se fosse grãos dentro de um saco furado!

{uma pausa}
A casa está silenciosa minha cara, com suas “sombras noturnas” a escorrer pelos cantos e, ainda não é meio dia… o cão ronca no canto do sofá, que há tempos, é apenas seu… e eu acendo uma vela branca, perfumada para abraçar qualquer coisa de luz dentro da escuridão que sou. Em minhas mãos, uma xícara de chá e, no ar, a fumaça do incenso a desenhar as primeiras linhas dessa missiva, que pode ou não existir junto a uma folha de papel, porque faz tempo – confesso – que escrevo primeiro no avesso da pele – lado de dentro – para somente depois buscar pela folha-de-papel-lapiseira-e-envelope…

Faz algum tempo que nada se perde de mim, acontecendo – inevitavelmente – no momento seguinte… as coisas somente se apagam de minha memória quando a confissão é entregue ao papel – e, como punição recebo o esquecimento! Amém…

Então sabes, que se escritas essas linhas, amanhã pela manhã, serei abandono e esquecimento, existindo entre as labaredas de um dia onde cansaço e descaso rimam e se ajuntam em minha matéria desguarnecidas… eu vivo no passado/pretérito, sou antigo e sigo envelhecendo. Sou esse baú de perdidas chaves, essa gaveta que de tão cheia, não fecha.

Abraços

L.

O teu peito, a minha casa

Terceiro capítulo…

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…"as mãos não acompanhavam aquele traço irregular — escuro — forjado pelo calor das chamas de uma casa que era seu próprio corpo. Ela evitava saber-se. Lembrava apenas que dormia em seu pequeno quarto dos fundos quando um sonho aconteceu dizendo um dia quente de verão, com as águas do mar alcançando seus pés.

Justamente ela, que nada sabia de mar. Mas, ao acordar, percebeu que só havia sobrado de seu próprio corpo meros destroços. Nunca mais gostou do verão.

Durante o que restou de sua infância, sentia-se um inseto a se esborrachar contra um pára-brisas. De hospital em hospital — perdeu os dias na escola — desaprendendo o pouco que sabia. Preservando tão somente as letras que compunham seu nome, que ela seguia soletrando ‘entre demoradas pausas’ para não esquecer: l-y-g-i-a. Era quando se lembrava de que seu nome havia sido escolhido pelo pai que lhe dizia: ‘Lygia, minha bela, a que pensamos ser flor para só depois descobrir ser uma cidade’.

Seus dias a obrigavam a tropeçar em semelhantes com corpos a irradiar a morte, mas que insistiam em vida. O cheiro deles era o que mais lhe incomodava, pois a fazia reviver as labaredas que tentaram apagá-la, como se fosse uma simples folha de papel, que se despreza por conter apenas equívocos — não bastando amassá-la — sendo preciso também fazê-la desaparecer entre chamas!

Ela não se lembrava de ter gritado por socorro naquela noite, em que tudo mudou para sempre. Recordava apenas de se sentir como uma vela… a derreter-se lentamente até a última gota de cera. De repente viu-se dentro de um casulo a metamorfosear — mas antes do fim do processo rompesse a casca — esvaindo-se pelas frestas um ser incompleto impreciso, sem substância. Imperfeito. Irregular que jamais chegaria a ser.

Diante do espelho, uma verdade que não se recusa tampouco se aceita. Duas faces. Uma frágil e bela. Outra forte e horrorosa. Uma a dizer o passado. Outra sem saber qualquer coisa de futuro.

O seu único momento de paz era quando aquela voz rouca e forte lhe dizia suas origens. Contava-lhe os primeiros anos, quando tudo era mágico e as novidades se inauguravam junto aos seus olhos, num aspirar constante de coisas e suas causas. Ele era todo sorriso para sua menina e ela lamentava em silêncio não conseguir imitá-lo já que os músculos e nervos do lado esquerdo da face não lhe permitiam movimentos tão fáceis e amáveis. Sorrir lhe causava dor”…

Lua de Papel
Pág. 77

Somos duas… Três ou mais!

 

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Escrevemos uma para a outra, uma sobre a outra… em linhas retas, porque gostamos da ideia de que tudo se organiza exatamente como da primeira vez: em finas linhas perfeitas de um caderno em branco – pequeno – a esperar por palavras.

Ouvimos ao mesmo tempo aquela frase: “escreva a primeira frase que vier a sua mente” – a figura a nossa frente vestia seu avental branco, com dois grandes bolsos, onde ficavam o apagador, o giz branco e as chaves dos armários… por cima da roupa feminina. Em seu tablado, era uma das pessoas mais importantes do mundo. Não era a mãe, a filha, tampouco a mulher de alguém. Era apenas a nossa professora… a pessoa para quem olhávamos – inicialmente – com paixão e devoção. Ela sabia de tudo que nós queríamos saber, ao menos, naquele primeiro dia…

Na primeira folha, eu escrevi meu nome com suas vogais e consoantes em pares, o que me parecia uma combinação perfeita… mas a menina que se sentava ao meu lado – estranha apenas dentro dos primeiros olhares – escreveu uma frase inteira.

Ela já sabia ler e escrever muito mais que o próprio nome… escrevia frases incompletas, imprecisas… cheias de efeito. Sob sua anatomia, pesavam sonoridades muitas com as quais nunca se importou. Ela vivia alheia, distante, dentro de seu próprio mundo, que denotava ser muito mais encantador e lúdico, como se a vida conspirasse para que tudo fosse um eterno faz de conta; enquanto, para mim, acontecia exatamente ao contrário.

Nós nos encontrávamos diante do espelho – as duas – ela gostava de molhar o rosto com água fria – tinha febre e sentia a fronte arder – e eu de me pintar… com cores quentes, alegres e festivas. Ela não aceitava nem mesmo um batom para os lábios cor de pele. Somente mesmo a água fria – repetidas vezes – molhando até os fios de cabelos, que ela queria ver esbranquiçar. Eu ainda me lembro da festa que fez ao se deparar com um mísero fio branco em meio a todos os outros: era o primeiro de muitos…

Acabamos nos perdendo quando ela decidiu ser um objeto comum… eu segui enlouquecendo, vivendo pelas beiradas, equilibrando-me no meio-fio… quando a encontrava, nos raros momentos em que o espelho nos aproximava, eu não a reconhecia, em suas roupas de adulto e seus pensamentos lacanianos.

Nossos olhos se encaixaram dentro de um fim de tarde comum, com ventos frios a anunciarem a chegada do inverno – anos mais tarde – elas estava cabisbaixa… o passo cansado e a mente confusa… mas exibiu seu velho sorriso amigo e me estendeu a mão: “comprei um caderno vermelho com linhas brancas”. Voltei a existir, a escrever, a ser quem eu sou… e, ela, voltou a molhar o rosto com a água fria. Catarina… vez ou outra, ainda diz suas frases de Lacan que eu ouço, mas não entendo.

Escrevemos, desde então, uma para a outra, uma sobre a outra… eu vivo por aí! Envelheci – estranhamente – todos os anos que ela recusou… e ela abocanhou todo o silêncio que antes era meu.

Somos assim. Duas… três. A mesma. Outra. Somos avessas, parte de uma mesma figura… andamos sozinhas, com as mãos dentro do bolso, pelas calçadas da cidade. Mudamos de país, de identidade. E nos misturamos tanto que já não sabemos quem inventou quem, mas às vezes penso que sou aquele fio de cabelo branco.

Às vezes, ela é Lua no céu.
Às vezes, eu sou Catarina na terra.

Escrevo o meu passado para não perdê-lo de vista…

…”uma memória tão clara, tão linda, tão além das possibilidades.
Sei disso.
Minha mente é clara como vidro”…
Sebastian Barry, os escritos secretos

veronica petrova

 

A casa ficou vazia pouco depois das seis, quando – finalmente – todos os destinos já estavam definidos. Foram saindo um a um, com olhares apertados e cabeças baixas – a maioria: desgostosa… não acenou, tampouco disse uma única palavra de afeto! Apenas foi embora, sem ao menos olhar para trás.

As malas estavam prontas: calças, camisetas, meias, lingeries… tudo em pares. Janelas e portas trancadas, móveis cobertos por finos lençóis brancos  – como se fazem nos filmes antigos – onde vivem os fantasmas… sobraram apenas duas pessoas, as últimas a deixarem o lugar na manhã seguinte, imediatamente no primeiro horário.

Ficaram para trás os rastros… deixados pela família, que viveu no velho casarão ao final da rua – alguns gostam de dizer ser o começo, mas, como sempre vieram da outra ponta, era para eles o fim… contudo, para quem vem de outros caminhos, é mesmo o começo, afinal, a casa guarda o número quatro…

Restaram também as inúmeras vozes… Dizem sorrisos aos montes, frases entrecortadas por sons de beijos, abraços… dizem uma alegria infinita e também uma tristeza miúda. Dá para ouvir o toque fino dos cristais em brindes festivos, músicas antigas se repetindo num sem-fim que agrada e páginas sendo viradas em certos cantos encantados, onde poltronas velhas sabem ser o destino de corpos dentro da noite. Na cozinha, há o som das panelas, xícaras e talheres. Há um sem-número de sons que se pode ouvir se deixar as orelhas grudadas junto às paredes por um só minuto… mas ninguém se aventura a fazer tal coisa!

Existe um medo de que a doença que assolava a família se espalhe… eram todos loucos os que ali viviam, porque estranhamente viviam sorrindo. Eram pessoas satisfeitas… que repetiam rituais estranhos, como se sentar à mesa da cozinha para as refeições… ocupar a varanda para o café da manhã e, nos finais de semana, quando recebiam parentes e amigos – a casa estava sempre cheia – e eles celebravam como se a vida fosse uma grande festa.

A matriarca da família se sentava nos degraus da casa ao final da tarde para ler contos indianos e esperar por aquele que vinha assobiando do norte, como se fosse o próprio vento… as crianças voavam pelos ares nos braços do homem da casa… e encontravam biscoitos coloridos nos potes de alimentos. Nos jardins se brincava de roda e jogos de amarelinha. Todos os membros da família da casa número da quatro da Via Cantore esperavam pelas mudanças das estações com euforia, reconhecendo os aromas dentro dos dias. Certa vez, foram surpreendidos em pleno outono, esperando pelo voo de uma folha. Ninguém – obviamente – compreendia essas coisas.

Mas, passado tanto tempo, ainda consigo encaixar meus pés nas pegadas que seguem grudadas no chão… percorro os mesmos espaços da casa, como se o dia de ontem continuasse existindo – em segurança – aqui dentro de mim. Eu ainda consigo ouvir as mesmas vozes a dizerem conselhos comuns: “não esqueça a blusa, vai esfriar…” – “leva o guarda-chuva, porque vai chover…”. Frases que não foram consideradas nas primeiras vezes, mas que hoje são ecos sonoros a conduzirem meus movimentos, aonde quer que eu vá… ainda ouço as mesmas perguntas seno feitas, como se o tempo tivesse feito uma pausa: “chá de menta ou camomila?” – “qual livro vamos ler hoje?” Vez ou outra, ainda vejo passar por mim uma menina-miúda-risonha com seus sons de infância feliz… ela para, olha para mim e sorri, estende a mão e faz o convite: “você não vem?”…

… é quando me lembro de que alguém disse – no dia seguinte – que eu iria esquecer… seria apenas uma questão de tempo. Foi o bastante para o pânico grudar em minha anatomia. Já havia tanta coisa esquecida-perdida dentro de mim e tinham se passado tão poucas horas. As coisas já não estavam mais onde costumavam estar. Minha mente estava uma bagunça… um tremendo caos – cartas embaralhadas – um tabuleiro sem damas –, porta-retratos sem fotografias, paredes sem quadros… absolutamente tudo fora de lugar!

Repetia a frase alheia, incansavelmente: “será apenas uma questão de tempo”… e, como promessa que se cumpre, as feições foram perdendo a nitidez, cobertas por uma fina camada esbranquiçada – neblinas vindas de algum canto de minha própria existência – eu já não sabia seus traços e, no fundo do espelho, acontecia um rosto que não dizia os meus. De repente, havia me transformado em uma estranha com olhos pequenos, cabelos castanhos encaracolados e a pele branca… objeto impróprio, verbo que não se conjuga, substantivo comum.  Desapareci de mim mesma naquela manhã de agosto!

O medo é uma catarse definitiva, aguda… que sepulta vivos no lugar dos mortos e deixa os mortos à deriva, como se estivessem confusos com sua condição.

Foi preciso atear fogo em meus diários, rasgar todas as fotografias e cruzar o oceano. Foi preciso acabar, desfalecer e me desorganizar inteira… para saber se tratar de uma falácia.

Certas coisas a gente não esquece!

Leia quem eu leio para saber-me…

“Como se alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora”.

(…) Whalt Whitman

folhas da relva

 

 

 

 

 

 

 

 

Lembrei-me há pouco, da primeira vez que li Whalt Whitman… não era um livro comum lá por casa. Cheguei à poesia dele anos mais tarde… depois de ler Campos que "citava-o" em seus versos.

Comprei o livro velho-gasto-e-mau-cuidado em um desses sebo que o mundo me apresentou. Lugares depois de escadas velhas, portas com sinos e prateleiras prestes a sucumbir ao peso dos livros amontoados em desordem, cumprindo uma espécie de ritual…

Foi um desses encontros que o destino parece ter previsto.
Li "flores da relva" dentro de uma tarde de setembro, numa espécie de gole único que entorpece, atordoa, nocauteia primeiro o corpo e depois a alma.

Encontrei nas linhas do homem "que conversava" com Campos aquele que seria um dos "poemas da minha vida" e, obviamente, o entendimento não aconteceu imediatamente.. dentro de uma única e mísera tarde. Foi preciso outros contatos, outras tardes tantas…

Desde aquele dia – digo, como quem confessa seus pecados – já li inúmeras versões do mesmo livro… a mais recente, adquiri na Livraria Cultura (São Paulo) numa dessas minhas aventuras entre prateleiras, feitas como quem procura por um reflexo diante do espelho e só se vê feliz quando o braço acusa o desconforto de carregar dúzias de livros que denunciam seu peso quando o passo já vai longe, pela longa Avenida.

O livro… segue comigo desde então: sobre a mesa, no criado mudo, no braço do sofá, na mochila a cumprir sua sina de viajar comigo… com seus versos sempre junto aos olhos.

A loucura e eu!

— “Cada um de nós tem seu pequeno grão de loucura. Lacan anunciou no seu seminário: “todo mundo é louco”. É este grão de loucura que faz com que cada um de nós tenhamos um modo próprio de ser,
de abordar as coisas, de reagir”. — Lacan

coisas de tati

 

A primeira vez em que tive contato com a loucura foi em sala de aula… eu era a menina do canto, quieta e, que não tirava os olhos das páginas ainda em branco do meu caderno. Queria vê-lo cheio de palavras, mas o que menos fazíamos era escrever.

Me sentia frustrada, amarga, triste… e o caderno permanecia em branco – me olhando com suas linhas muitas – e eu tinha, dentro de mim, uma história inteira para escrever.

Enfurecida… apoiava o queixo entre as mãos e chorava.
Achavam que era saudade de casa, dos meus e das coisas que lá deixei… e eu nunca fiz questão de tentar dizer o que ia dentro de mim. Acontecia em mim qualquer coisa de aceitação porque o cansaço de explicar-me junto as pessoas a minha volta deixava-me sem fôlego… por isso, deixava pensar o que quiserem acerca das minhas frustrações!

A professora dizia: "daqui a pouco a aula acaba e você volta pra casa, agora é tempo de aprender"… eu dava de ombros, olhando-a com indiferença. Dava de ombros. Respirava fundo o meu desconforto. Enxugava as lágrimas… imaginando todas as palavras que eu tinha em mim e, que poderiam habitar o branco, que já naqueles dias me perseguia, me afrontavam.

As paredes da escola, de casa, da vizinha onde ficava, nas noites de sextas – todas brancas – e meus olhos – teimosos – desenhavam letras conhecidas naquele caminho para os olhos: vogais e consoantes formando frases e mais frases…

Certa vez – anos mais tarde – eu soube que C. acalentava um segredo, sempre que abria a porta de casa, ao voltar do trabalho, no final da tarde, abria a porta com cuidado e espiava atentamente as paredes, percebendo-as junto a ponta de seus dedos. Repetiu tal gesto, todos os dias, durante muitos anos… ela esperava chegar a casa e encontrar as paredes todas pintadas com as letras de meu nome! Nunca aconteceu… a loucura não chegou a tanto – então penso que desistiu ou simplesmente se cansou – mas eu preenchi muitos cadernos – menos aquele da escola, onde só tinha meu nome escrito na primeira página, bem lá no alto… e eu ainda me vejo junto aquela carteira primeira, de frente para o quadro negro. Ainda vejo os olhos nada azuis da professora e seu sorriso enlatado a dizer-me suas palavras tolas.

Ela nunca soube, mas eu nunca sai de casa, que é esse meu corpo, onde habita a minha alma… porque eu nunca deixei esse lugar porque enlouqueci imediatamente ao desbravar esse mundo branco, onde para se estar basta saber as consoantes e vogais e como misturá-las, combinando-as!

Duas pessoas sentam-se à mesa de um café entre esquinas,

 

missiva

Tarde de setembro, não mais a primeira, nem mesmo a segunda

Caríssima T.

…ainda sinto reverberar em minha pele as suas palavras e, as imagens por trás de suas falas ainda estão todas aqui. Fui e voltei de uma centena de lugares, mas meu corpo permaneceu junto a mesa do canto, dentro do café entre esquinas, onde comumente escrevo e, onde sentou-se para dizer-me coisas suas…

Ainda estamos as duas – indiferentes ao mundo – com nossas confissões sonoras… você a dizer-me seu mundo, onde as cores nem sempre foram perceptíveis aos seus olhos… oferecendo-se em lembranças que emolduram essa realidade prestes a eclipsar… e eu a embriagar-me das coisas que se aconchegam em meu íntimo, certa que de irão permanecer aqui dentro por algum tempo.

Sinto-me agora… como se estivesse soprando achas velhas, a fim de fazer o fogo permanecer aceso por mais tempo. Gosto de ver a madeira em vermelho – ardendo – como se eu própria fosse a acha e você – com sua fala – o sopro.

A bientot

Lua de Papel { lançamento }

 

Por Tatiana Kielberman

 

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07 de agosto de 2014. Quinta-feira… 20h.
Noite aparentemente comum nas ruas de São Paulo. Trânsito, caos, trabalho, assuntos rotineiros, compromissos, cansaço, cara amassada, chega-logo-por-favor-final-de-semana!

Mas… não era este o clima que envolvia os amigos mais próximos de Lunna Guedes, que se reuniram para conferir e prestigiar o primeiro livro da escritora – “Lua de Papel” – lançado pelo selo Plural Scenarium, em modelo artesanal, com costura oriental.

O cenário escolhido não poderia ter sido mais próprio: a Starbucks da Alameda Santos – sua segunda casa – onde grande parte do enredo foi pensado, idealizado e construído… sempre com café, é claro!

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Ao adquirirem o livro, os presentes receberam um “misterioso” pacote envolto por papel branco, que só poderia ser aberto em instante posterior – diante da Lunna, para o tão esperado autógrafo…

Ao desfazerem o embrulho, qual a surpresa? O livro não estava costurado… Mas é possível dizer que grande parte dos convidados já aguardava algo surpreendente assim.. afinal, se tudo já viesse pronto, não seria mesmo uma obra de Lunna Guedes…

Enquanto costurava cada um dos livros – de maneira personalizada, como já é praxe em seu trabalho -, Lunna aproveitou para tecer diálogos, trocar sorrisos e sentir a emoção contagiante em seu entorno. Olhares e abraços denunciavam o calor do momento – único não apenas para Lunna, mas para todos que acompanharam os detalhes do projeto, desde o início…

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A atriz Carla Martelli também marcou presença no evento, interpretando um belíssimo trecho da novela, que deixou os presentes ainda mais curiosos para degustar as páginas de “Lua de Papel”…

Foi, enfim, uma noite de completude, onde estivemos ali, como fãs e admiradores de Lunna – e agora de Lua – para aplaudir mais uma conquista.

Quando virei aquela esquina…

em certos dias,nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
aquelas coisas que buscamos muito
e continuam,no entanto,perdidas
dentro da nossa casa

{ josé tolentino de mendonça }

amore mio 7

 

…lá fora as janelas e a cidade dentro da noite e, aqui dentro apenas eu mesma, percebendo as sombras dentro da noite – observando o copo de café em paralelo ao livro de Yeats que tem seu lugar junto aos meus olhos, que navega realidades outras.

Eu ainda sinto em mim os aromas da última terça-feira – agosto – e cada um de seus movimentos: o último gole de café no fundo do copo, a mesa no canto do café entre esquinas -Alamedas – as ruas e seus passos… o mundo inteiro acontecendo com seus movimentos de sempre e nós dois vestindo nossas indiferenças… distraídos com nossas figuras! Acontecendo dentro dos olhos um do outro, entre sorrisos: premissas-promessas-afagos-inconstâncias… o tempo a dizer suas sílabas e a gente a dizer coisas nossas.

Foi em agosto que nos encontramos, foi onde tudo começou, aconteceu! Nós dois… dentro desse ontem que já vai longe! Quando foi que aconteceu todos esses anos entre nós dois? Quando parei para fazer a conta – um susto abraçou minha matéria – e eu soube, que não foi ontem à tarde…

Mas agora já é setembro… agosto se liquefez – ficou para trás uma vez mais – e eu aqui dentro da noite… rememoro esse mês que, para mim, até você aparecer era sem sentido, meio bobo, vazio… que não se define por ser um tempo entre tempos e, mesmo assim, acontecemos nós dois.

Quis o destino que nossos olhares se encontrassem naquele dia vinte e seis, que é também o dia seguinte a minha chegada. Você se lembra? Você sorriu, tocou meu rosto com os seus lábios, segurou meu braço e por fim, como se nos conhecêssemos desde sempre, você simplesmente me abraçou e, desde então eu sei onde é o meu lugar.

E agora, enquanto escrevo, questiono a realidade: por que não em Julho? – que para mim, desde sempre, é o mês das andanças, dos lugares vazios, das paisagens por se descobrir. Ou setembro? Que é o mês dos inícios, das celebrações, das lembranças. Outubro!!! O mês das missivas e dos envelopes coloridos. Novembro não serviria porque é o tempo das minhas memórias e das minhas saudades mais antigas. É o meu tempo… meu baú de perdidas chaves, álbum de retratos, não seria aconselhável! Dezembro (?) nem pensar… é silêncio, um tempo em branco, embora por aqui tudo aconteça em dourado. É espaço que não se preenche, tampouco se ocupa, é para ser apenas um olhar pela janela… janeiro é tempestade, fevereiro é carnaval… março é outono. Abril é para o Mário e maio é para as ausências sentidas de todas as coisas. Junho é pra você! O que restou mesmo foi agosto… é como se o destino soubesse disso!

 

Celebremos mio amore.
Bacio