“Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviços”
(…)

Poema Manhã à janela
T.S.Eliot

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Hoje fui a feira e, lembrei-me de algumas pessoas enquanto escolhia os legumes… não sei o motivo. Sei apenas que certas figuras se precipitaram à minha anatomia… Andamos juntas por entre as barracas de legumes. Traçamos diálogos silenciosos enquanto eu escolhia os legumes. Comprei tomates para fazer um molho… Estão caros, quase os deixei lá – mas adoro molhos vermelhos… Eu gosto de tomate em pedaços porque gosto igualmente de picá-los sobre a tábua. De afiar a faca entre um corte e outro… e bebericar uma taça de vinho enquanto os diálogos crescem. Gosto de cozinhar para os que amo porque me entrego a eles em aroma e sabor.

Gosto de escolher os talheres, por a mesa… de servir o vinho, passar os pães (que eu mesma faço) e lembrar-me de um verso ou outro enquanto vejo o movimento dos lábios. Faço pausa entre as garfadas para perceber os devaneios a minha volta… Eu sou feita de pausas. Reticências – por isso o nome do meu primeiro livro não poderia ser outro que não esse – porque eu faço pausas o tempo todo… entre a escolha de um tomate e outro. Entre um gole de café e outro… Entre um olhar e outro…  Eu sou um conjunto de pausas e, as invento de tempos em tempos quando a vida não me oferece uma – ou quando tudo vai rápido demais – é exatamente quando eu mesma puxo o freio de mão e, insiro reticências nas coisas a minha volta apenas para pontuá-las como tanto gosto. Adoro o som da lapiseira se repetindo junto a folha, no meio ou ao final da linha… lentamente. Primeiro ponto. Segundo ponto. Terceiro ponto… Depois o sorriso escorre pelos lábios e tudo é outra coisa…

Comprei cenouras também. Cebola e alho. O azeite e a manteiga eu tinha em casa. A massa italiana veio do mercado na esquina…

Não gosto de fazer compras do mês… gosto sim, de escolher o cardápio e sair para buscar os ingredientes. Contando os passos na ida e na volta. Gosto de escolher o vinho. Andar entre prateleiras e, lembrar-me de receitas antigas, escolhendo os ingredientes e surpreendendo com novos sabores…

Não suporto armários cheios – me causa desconforto na pele e na alma – nunca sei o que fazer. Odeio dispensas lotadas por não suportar o cheiro de coisas acumuladas se misturando. Nem mesmo gosto do cheiro da comida amanhecida… Gosto do cheiro que se precipita das panelas, se espalhando pelos ambientes conhecidos… Gosto quando alguém chega e diz “que cheiro bom é esse?” E gosto quando alguém me diz “quero comer aquela massa que só você faz”. É onde se precipitam as minhas reticências…

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(…)

>> Álvaro de Campos <<

tarde de inverno

Dentro da noite a esperar pela xícara de chá que ainda não fiz… com o corpo em suspenso e a mente medindo distancias que insistem. Quase fechando os olhos – sem sono – apenas para olhar dentro e acariciar essa saudade que cresce se espalhando pelos cantos da pele que segue inebriada pelas figuras cotidianas. Ainda observo janelas. Ainda percebo ruas vazias como antes. Ainda insisto em me ausentar dos lugares como se nada de fato tocasse o meu íntimo que é esse baú a repetir os versos de Pessoa na figura de Campos que "deixou para mim" sua "passagem das horas"…

…acontece que hoje estou com saudades da menina que eu era quando deitava a minha cabeça no colo de C. –– eu era sua menina e sei que em seus olhos eu jamais cresceria… e lá se vão os anos. Não os conto. Não sei dizer quanto tempo se passou. Quando olho para trás, preciso usar os dedos para somar esse tempo que não se orienta aqui em mim. Faz tempo… é tudo que eu gostaria de dizer, mas as pessoas querem mais… Querem saber quando, onde e sempre há uma pergunta guardada para mais tarde…

Da minha parte, eu escolheria apenas continuar a ser aquela criatura mínima que tinha lugar cativo nos braços de C. nos dias de tristeza porque eu fui uma "menina triste"… em mim o silêncio se impunha entre pesados goles de suspiros e a alegria era uma coisa reservada. Entregue apenas a um punhado de pessoas…

Lembro-me que aos nove anos uma professora indagou meu olhar "vazio-distante-ausente" e eu entreguei a ela o meu melhor sorriso e uma resposta que a deixou inquieta "acontece que quando estamos felizes todas as coisas são azuis e, a minha cor favorita é o vermelho". Lembro-me bem do olhar dela e da minha satisfação dentro daquela fração de segundo… O mundo fez uma pausa e eu fui em frente…

É tão poética a tristeza – tão intensa e maravilhosa – quando tristes somos atentos a todas as pequenas coisas do mundo. É justamente quando absorvemos o que há de melhor ao nosso redor… Feito as cores depois de incontáveis dias de chuva ao toque do sol que deita suas pinceladas de dourado sobre as figuras e suas formas cansadas…

…nesse dia torto, seria agradável voltar a ser criança – deitar minha cabeça no colo de C.  –– ouví-la "cantar" seus contos indianos e, adormecer sem a consciência do sono… livre e incapaz de perceber esse futuro que me abraçou – sou esse alguém indefinido – que ainda sente conforto na tristeza porque é quando o sorriso manso se deixa existir em meus lábios e o passado faz brotar no corpo a saudade de dias em que o mundo não pesavam demasiadamente sobre os meus ombros e, escrever era apenas uma maneira de dialogar comigo mesma…

 

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

Passagem das Horas – Alvaro de Campos

 

 

“Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar”.

>> Jesús Jiménez Domínguez <<

Lunita e Thelma
Uma das minhas muitas atividades no meu cotidiano alucinado é ser a Editora de uma Revista Artesanal intitulada Plural que vem alcançando olhares diversos e se sobressaíndo não apenas pela qualidade, mas também pelo contorno inusitado que surpreende aos que deitam seu olhar sobre suas páginas…

Outra atividade que vem exigindo muito de mim é um projeto que saltou do meu imaginário para a realidade nos últimos dias para dar vida a livros em formato artesanal é o “Selo Artesanal Scenarium

Com projetos vários – dentre entre um novo livro intitulado “lua de papel” escrito em português do Brasil – acabam surgindo perguntas várias numa espécie de curiosidade natural sore o que fazemos visando levar ao outro um pouco das nossas experiências… Acostumada que estou a fazer perguntas, agora, preciso me acostumar também a rotina de responder perguntas…

 

selo

 

Tha: Lunna como começou seu interesse em tornar-se escritora?
Lunna:
Minha lembrança mais antiga é junto a um caderno: escrevendo na terceira pessoa do singular. Sempre gostei da palavra e de suas variáveis. Em inglês, francês, italiano e português. Sempre gostei de ter diversos sons dizendo uma mesma palavra. E sempre gostei de desenhar uma realidade a partir do meu eu interior – esse imaginário que sorri vilanias e maldições como quem constrói castelos de areia e fica a observar a força das ondas…

Tha: Qual a dica que você daria para aqueles que sonham em tornarem-se escritores assim como você?
Lunna
: Dedicação – a escrita é a mais solitária das artes e, mesmo assim você lida com uma multidão dentro de você porque do lado de fora existe um palco onde você encena seu monólogo, mas sem público para aplaudir no final. E quando você conclui um escrito o que resta é o silêncio e um vazio sem fundo que talvez nunca mais venha a ser preenchido novamente. Você morre milhares de vezes e, sem saber se voltará a viver novamente… Ser escritor é estar em constante estado de coma…

Revista PluralTha: Quais os autores que você mais gosta? Quem é sua maior inspiração?
Lunna
:Tenho os meus pares. Amo Zafon. Tenho essa paixão por Jane Austen. Leio muito, mas não levo tudo que leio comigo. Já deixei muita coisa do lado de fora. Mas minha inspiração vem da escrita inglesa e francesa.

Tha: Como foi a ideia de criar seu próprio selo literário? Qual a expectativa do Plural Scenarium para 2014?
Lunna
: A ideia surgiu em conversa com meu parceiro-amigo-leitor-amante-amado Marco Antonio Guedes depois que lançamos o "diário das quatro estações" em formato artesanal. O primeiro livro deu bastante trabalho. Eu tinha feito um curso de encadernação, mas não estava pronta para fazer um livro, mas fui lá e fiz. Não foi o melhor. Não ficou bom, mas eu não desisto das coisas. Quando estava a pensar o formato do segundo livro li um artigo sobre Virginia Woolf e sua editora "de quintal". Me encantei com a ideia. Com esse passo na contramão da modernidade e principalmente com a possibilidade de dar ao meu leitor um livro todo feito por mim. Seria único, exclusivo e com uma pequena tiragem o que me permitiria saber o CEP de cada livro. Me apaixonei pela ideia porque iria de encontrou a essa frase de Fernando Pessoa que me acompanha desde sempre "primeiro estranha-se – depois entranha-se".

A ideia foi amadurecendo e esse ano finalmente aconteceu. Ainda estamos engatinhando – estamos dando os primeiros passos, mas queremos ter uma lista de autores que irão compor nosso selo com uma escrita aguda que faça silêncio e barulho ao mesmo tempo no leitor que escolher nossas publicações…

Tha: O que você pensa sobre o Brasil em que vive? Como estrangeira qual conselho você se atreveria a dar para os brasileiros?
Lunna
: Sobre o Brasil em si eu não tenho um pensamento pronto. Eu penso São Paulo que é meu país, meu estado, minha cidade. Hoje me considero paulistana de corpo e alma. Essa cidade é minha melhor metáfora. Eu sinto que fui adotada por essa cidade. Sei suas ruas, seus cenários. Sei seus tumultos e me inspiro quando caminho por suas vias. Vez ou outra eu escrevo a Mario de Andrade agradecendo a ele por ter me apresentando São Paulo. Me lembro de seus versos sempre que entro na Biblioteca que leva o seu nome ali na Consolação. Me lembro dele sempre que cai a tarde e vejo a tal "garoa" paulistana…

Mas eu acho, sinceramente, que falta coração a quem vive aqui. E quando eu digo coração, não falo de amor. Falo de entrega. Dedicação. Falta parar de culpar a cidade. De desgraçá-la com atos de vandalismos, reclamações. Falta fazer mais pelo lugar que te acolhe e, que as vezes te manda embora. Eu digo sempre reticencias por lunna guedes"não é o lugar, somos nós".

Tha: Como a natureza, a chuva e o tempo inspiram a sua escrita?
Lunna: Preciso de dias de chuva para escrever – mas também preciso de dias de sol para caminhar pelas calçadas e perceber as sombras. Preciso de dias frios para sair de casa e de dias quentes para permanecer fechada. Eu tenho fases como a lua, como disse Cecília Meireles e sou todas estações da alma como disse Eliot.

 

 

 

Serviço:
Lunna Guedes – Editora – Revisora e Escritora
Revista Plural e Scenarium Publicações

* Entrevista concedida por Lunna Guedes para o blogue da Tha Lopes.

“Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros 
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal 
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga”.
 

>> Sophia de Mello Breyner Andresen <<

lua de papel - terceiro capítulo

 

 

 

 

 

 

 

 

…e em meio a tantas anotações desorientadas – preciso costurar um capitulo – que simplesmente se recusa em existir. A memória ou coisa que valha anuncia o cansaço e diz com sua sonoridade comum "vá fazer outra coisa" – contra tal argumento pesa a falta de tempo já que o capitulo esta com seus atrasos. Duas semanas. E abril já grita seus dias para dentro de minha pele imersa em desorientações máximas.

Aqui dentro eu sei o que quero, mas o papel não aceita minhas vontades e, as palavras completam esse ato de rebeldia – não se orientam junto ao branco da página do Word – lembrando que dias atrás falei que há coisas que pertencem ao amanhã, como tão bem disse Tara no fatídico "e o vento levou" – mas como orientar-se no depois quando sabermos não existir amanhã possível?

Adoraria sentar-me no canto do sofá e por lá permanecer com um livro em mãos, mas sei que não conseguiria avanço algum na leitura já que não me afasto de fato do capitulo teimoso e sua trajetória inexistente…

Às vezes minha casa fica em nenhum ou qualquer lugar. É só ela, ilha, e eu, nela, náufraga.
Mas daqueles que já estão a muito perdidos em si e temperam com esperança, sossego
e desalento o jantar e não mais estranham o agridoce. Fico aqui, um aqui que tem comida
na hora da fome, cama na hora do sono e janelas que o sol reluta em atravessar…

>> Luciana Nepomuceno, blog Borboleta nos olhos…

2 Oui-Oui-Buenos-Aires-Cafe

Meia dúzia de passos até a varanda. Uma xícara de chá em mãos. Um silêncio no canto da pele – um sentir que não se orienta – os olhos parecem não reconhecer as paredes que compõe os cenários ao meu redor. Vejo quadros, o sofá que pertence mais ao cão que a nós dois. As cortinas e sua cor de terra. Meus livros e suas prateleiras improvisadas em caixas de feira… Vou sentindo tudo junto a ponta dos dedos – perfazendo uma espécie de traço – como se a vida e suas formas variáveis pudessem ser reinventadas!

Voltei há pouco – a mala ainda nem foi desfeita – voltei, mas como sempre –, mas parte de mim ficou pelo caminho, atravessando a Corrientes de um lado ao outro. Entrando e saído de teatros. Descobrindo cenários que não estavam lá no ano passado e, se estavam – meus olhares não perceberam – porque é preciso deixar um pouco para depois para não beber de uma só vez os lugares ou então eles se esvaziam… Gosto de tragar as geografias, sorvendo-as lentamente para que no dia seguinte exista qualquer coisa de saudade.

Ainda estou sentada no meio da tarde naquele jardins dos fundos com suas mesas coloridas degustando um doce chá de maçã enquanto “abano” o calor e desejo o que existe de ameno no outono. Risco linhas numa folha de papel e penso em alguém – uma missiva que Borges guardou junto com suas poesias a dizer Buenos Aires – e, quando a noite cai são os aromas de uma cidade que se multiplica como se fossem pequenas vilas a dizer sua gente que desconhece pressa… Eles sabem degustar o café, o tango, o cenário e talvez por isso Borges foi embora para voltar para casa no dia seguinte…

Mas ao voltar? Será que inteiro ou pela metade?

 

1964

Já não serei feliz. Não sei se importa
Há tantas outras coisas neste mundo;
um instante qualquer é mais profundo
E variado que o mar. A vida é curta
E, embora as horas sejam longas, uma
escura maravilha nos espreita,
a morte, esse outro mar, essa outra flecha
que nos liberta do sol e da lua
e do amor. A ventura que me deste
e me tiraste será cancelada;
o que era tudo precisa ser nada.
Resta-me apenas o gozo de estar triste,
esse costume inútil que me inclina
para o Sul, à certa porta, à certa esquina.

pág. 159 – “o outro o mesmo”, Borges

Elogio a sombra,

Publicado: março 27, 2014 em Caderno Vermelho
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As ruas de Buenos Aires / já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas, / incômodas de turba e de agitação,
mas as ruas entediadas do bairro, quase invisíveis

>> Jorge Luiz Borges

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…tenho pra mim que todas as cidades são iguais – com suas ruas estreitas ou longas. Suas vitrines iluminadas e seus muitos cafés "presos” às esquinas. Uma cidade tem casas, prédios e nesse cenário milhares de janelas se perfazem. Os diálogos se proliferam. As luzes foscas vão se acendendo quando a noite diz seu abstrato surreal… Tudo são sombras a escorrer junto aos olhos. Os humanos deixam de ser tão assustadores porque dentro da noite há esse aconchego inusitado…

Todas as cidades são iguais – guardam estranhezas em cada rua que os pés descobrem – guardam simpatias em cada aceno que nos alcança.

E o que mais me toca são os anciãos que me ensinaram a guardar as mãos nos bolsos da calça e caminhar com os olhos pregados ao chão numa lentidão natural. Tenho pra mim que ouço acordes clássicos em meu íntimo. Percebo as irregularidades de calçadas com seus rasgos-riscos-rasos-retos – sorvo um gole de ar – semeio nos lábios um sorriso e vou dando por essa nostalgia natural que se esparrama em minha derme… Dou por eles nos caminhos que faço. Dou por suas rugas e imagino seus anos. Não que faça alguma diferença saber o que pesa sobre a pele, mas é delicioso imaginar as alegrias e tristezas que se amontoam em suas superfícies. Eu tenho tão pouco e já tenho cá comigo um punhado de coisas…

As cidades são todas iguais – mudam os nomes das ruas, dos bairros e o próprio nome que elas nos oferecem, mas no fundo são um combinado de símbolos que alinhavados faz de nós personagens que por agora denomina-se Buenos Aires e tem prefácio de Borges…

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(…) É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.
Rui Pires Cabral

levando na mala

 

 

 

 

 

 

 

Fiz a mala na última hora – tentei fazer de qualquer jeito – jogando tudo dentro para evitar os mapas que desenho em minha mente. Não deu certo. Incomodava-me aquela estranheza… fingi não ver aquela desordem de roupas-livros-agendas-tablets-cabos-folhas-canetas-e-outros…

Fingi por cinco ou seis minutos se tanto – a desordem das coisas me incomoda de tal forma que parece bobagem da minha parte tentar não perceber os desarranjos – uma vez que existe a consciência de que não conseguirei evitá-los. É uma espécie de maldição que carrego comigo. Maltrata-me o caos.

Claro que tenho minhas próprias desordens naturais – não ouse por exemplo olhar minha mesa de terça a domingo – por lá as coisas se acumulam numa ordem natural. Sei o lugar das coisas e se dali movê-las as perco para nunca mais… Preciso daquela confusão de coisas e causas para formular minhas frases em linha reta.

Mas para fazer as malas preciso de uma ordem natural – coisas devidamente acomodadas sobre a cama – naquela espécie de ordem alfabética blusa-boinas-cabos-calça-camiseta-folhas-lapiseria-livros-meias-necessaries-notebook-tablets… Eu deixaria boa parte de tudo isso em casa, levando apenas um bloco de notas e um punhado de livros. Borges e Eliot – Dickinson e Alejandra – mas há sempre C. a me lembrar do fundo de minha memória "não se esqueça a blusa de frio, nunca se sabe. E leve os documentos e passagem. Você nunca se lembra deles"… e lá se vão um bom punhado de coisas e, certas coisas permanecem exatamente onde estavam ontem. Mas eu tento mudar alguma coisa – dizem os deuses da psicologia que só é preciso quebrar uma rotina – uma única rotina. Tão simples. Fácil – impossível…

Confesso que até o presente momento não tive sucesso nesse sentido. Certas coisas não devem mudar de lugar. Devem permanecer como são para que a gente não se sinta demasiadamente perdido em nos mesmos! Isso dito por uma sagitariana como eu – soa muito estranho – o único consolo é não ter ouvido minha própria voz…

“E agora ela precisava escrever!
Não podia mais recuar”. – pág. 197
Os olhos amarelos do crocodilo
Katherine Pancol

 

18:00h – finalizando um texto iniciado na tarde de ontem e, que ficou no canto da tela junto com todas as outras coisas que tenho por fazer porque às vezes é preciso "deixar para amanhã" – mesmo que se diga por aí “nunca deixe para amanhã o que se pode fazer hoje”…

Não gosto de deixar coisas inacabadas – tenho um histórico não muito agradável quanto a isso – já foi tema de discussões infinitas naquela sala escura com seu sofá marrom e, sua decoração enfadonha. A única coisa que me agrada naquele cenário é a pesada cortina cobrindo as venezianas. Fico a imaginar seus contornos quando os quarenta e cinco minutos aos quais tenho direito a cada quinze dias me deixa imersa em cansaço… Quando isso acontece me prendo as figuras comuns que trago na memória. A casa pouco depois da esquina, com seu muro baixo-antigo-de-pedras e seu portão insosso sempre aberto… com um caminho de pedregulhos por entre verdes bem cuidados até a porta de entrada… A decoração do lugar com seus tapetes vários pelo chão e a mobília antiga a preencher todos os espaços deixando apenas um ou outro caminho para os pés. A figura branca-sem-graça da mulher que faz suas anotações com base no que ela pensa que sou…

Não é raro a mente desistir de urdir a trama. Também não é incomum o cotidiano gritar tão alto junto a minha pele que me obrigue a abandonar minhas atividades porque há dias em que tudo me incomoda, até os passos de alguém no corredor…

Eu aprendi que insistir não é uma boa idéia – quando a mente não quer, melhor não obrigá-la – nas vezes em que insisti, o resultado foi enfadonho. C. certa vez me disse “toma um banho, uma xícara de chá. Se afaste dos livros um pouco. Volte depois de meia hora” – mas a teimosia me deixou lá, sentada junto à mesa com o corpo todo a fracassar. A mente a desmoronar. E a insistência a impor-se sob minhas ruínas…

Sem um resultado convincente – terminei por desistir – não sem me odiar por isso. Mas já dentro do dia seguinte com a alma mais leve, a mente descansada tudo fluiu com uma estúpida naturalidade. As frases se organizaram. Os verbos foram todos conjugados e tudo isso em poucos minutos – obrigando-me a concordar com a sabedoria daquela mulher cujo sorriso às vezes era incrivelmente cruel porque vinha imerso em certezas…

Mas não pensem que não mais insisti porque às vezes aquela velha teimosia volta a minha pele – acho que apenas para que ouça a voz branda de C. e veja uma vez mais aquele sorriso que curiosamente é o mesmo que habita meus lábios nos dias de hoje. (sometimes)

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Enfim, aconteceu o outono lá fora – foi no meio da tarde de ontem, disseram-me e eu dei de ombros porque o dia de ontem foi um dia igual a todos os outros. Nada de diferente. Dia quente com chuvas fortes lembrando que o verão ainda se fazia presente junto a paisagem com “suas águas de março fechando o verão” que finalmente apareceram para nos fazer pensar no poeta-maestro-jobim…

Mas aqui dentro de mim o outono só aconteceu hoje nas primeiras horas da tarde dessa sexta-feira… Senti a brisa junto ao alpendre com seus aromas conhecidos e suas vontades antigas. Ir para a cozinhar – por água para ferver – dar passos pela casa. Ficar em silêncio. Aguardar pelo aroma de morango. Acender velas – incensos. Descer o edredom. Aninhar nos braços do meu menino e ver aquele mesmo filme de sempre. Separar os livros de poesia. Ler “orgulho e preconceito” novamente. Ser sombra junto a calçada. Ser o que sou todos os dias… E sorrir aquele sorriso pequeno-estreito-que-fica-no-canto-dos-lábios quando alguém te pergunta “você está tão quieta” sabendo que você finalmente voltou pra casa porque é outono e as nuvens estão no céu da cidade a dizer a famosa “garoa paulistana” junto aos meus olhos…

O poeta Drummond já dizia “que o outono é uma estação mais da alma que do coração”. Então deve ser por isso que eu me sinto assim “como quem volta pra casa e, encontra tudo no mesmo lugar”..

Eu gosto do som da palavra “outono” seja em português-inglês-francês-ou-italiano. São bem próximas na pronuncia. Se misturam. Se confundem. Só se diferenciam no inglês usado no Estados Unidos e no Canadá que preferem o Fall – algo como “fall of the leaf” numa tradução literária “queda da folha” – poético – me remete aos meus dias de menina, mas eu prefiro o “auttumn” do inglês britânico que vem do francês automme – ou ainda o “autunno” do italiano.

 

Uma névoa de Outono o ar raro vela, (5-11-1932)
Fernando Pessoa

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta 

“Imaginei o mínimo que uma cidade possa ter no México: praça, igreja e algumas poucas casas.
A imaginação me sugeriu depois que na praça devia existir uma estátua de um herói desconhecido”
– David Toscana, autor do romance “Santa Maria do Circo” que inventou
uma cidade abandonada que é povoada por um grupo de artistas circenses

20_ObidosImagem daqui…

 

18:01 – finalizado o segundo capítulo de “lua de papel”…
Claro que ainda há leituras a serem feitas – há uma série de olhares para frente e para trás – há de se corrigir palavras –, refazer diálogos… mas, a medida em que escrevo, percebo a personagem em sua rotina de libertar-se das teorias que bebeu ao longo dos anos em que viveu na pequena cidade de Teodoro – cidade fictícia, inventada a partir de minhas visitas a lugares muitos. É uma mistura de tudo que provei ao longo desses anos em viagens curtas, inesperadas. Às vezes, descia do trem no meio do caminho apenas para saber um lugar que se precipitava junto aos meus olhos ao ler o nome da cidade na placa da estação de trem. Naquele tempo, obviamente, eu não pensava em “inventar” uma cidade… Mas acho que em algum lugar do meu inconsciente existia a possibilidade!

Teodoro tem um pouco de Óbidos – cidade ao norte de Lisboa – que exibe aos nossos olhos o que restou de um castelo feudal: torres e muros – nada mais… Ali, ao redor desses “restos” cresceu uma charmosa vila com restaurantes, lojas, um punhado de casas e uma igrejinha – tudo no melhor estilo português.

Tem um pouco de Batalha – a caminho de Coimbra – onde um mosteiro com sua construção milenar se destaca junto a paisagem e, confesso que ao caminhar por aqueles “corredores” daquele lugar uma sensação de “não existir” preencheu minha alma – sensação revisitada agora que escrevo essas lembranças – eu me lembro de ter ficado um bom tempo a observar a estátua de um gárgula presa a parede. Ele tinha as duas mãos presas  junto aos ouvidos. Um misto de horror e terror ao mesmo tempo. A estátua exibia o desgaste dos tempos e, uma espécie de cansaço estranho – por estar lá há tento tempo talvez – risos.

Mas foi justamente nessa sensação de desconforto que me apoiei para “construir” Teodoro – a todo o momento me via percorrendo aquele velho mosteiro com suas sombras baixas e abóbodas milenares. Os sons distantes e alguns mais próximos (dentro da pele) como se olhos pesassem sobre cada um dos meus movimentos…

Mas a população da cidade de minha história é toda ela brasileira e, a “peguei” (como num ato de empréstimo) de uma cidadezinha no interior de São Paulo onde senhoras se apressam junto as janelas que dão para as ruas – característica italiana. O lugar comum (ponto de encontro) é a Igreja para onde toda a população se volta aos domingos – sendo que as mulheres mais velhas da cidade vão para lá todo final da tarde para a novena e a confissão. 

Inventar uma cidade é interessante – às vezes necessário – porque a realidade nem sempre nos permite o que precisamos para alinhavar as narrativas ficcionais. Percebi isso ao ler “O Aleph de Borges” onde a narrativa nos leva de encontro a todas as cidades construídas pelo homem e, essa sua “gente de pedra” a se espremer entre suas construções e edificações. Foi melhor inventar uma cidade que dar ao homem a certeza de seu próprio fracasso.

“nessa cidade de pedra, que parecia anterior aos homens, anterior à terra
e que tinha sido construída por deuses que estavam loucos não havia qualquer atividade econômica
ou política e o homens, convertidos em feras, desprovidos de linguagem
e da noção do tempo, dedicavam-se à mera sobrevivência”…

No caso de “lua de papel” – eu precisava mostrar o quanto a cidade de Teodoro interferiu de fato na construção de minha personagem para em determinado momento alguém lhe dizer “não é o lugar minha cara, somos nós”.