Não perdi o hábito de escrever missivas, 03

…quarta-feira

lugar comum

Carissima T.

Passa das três horas de uma tarde nublada… bebo uma xícara de chá de camomila, enquanto tropeço nas aflições cotidianas, desejando frear as minhas próprias confusões. Encontro repouso – estranhamente – em pessoas a quem entrego abraços imaginários. Gosto de abraços, embora não os ofereça a qualquer um… gosto do movimento por detrás do gesto. A ebulição que fica na pele quando o corpo do outro se soma ao meu…

Ouço diálogos entrecortados por esta música que é silêncio e tormento, apenas aqui em meu íntimo… desencontro possibilidades, como se eu fosse uma caixa de sapato cheia, cujo conteúdo se necessita esparramar sobre a cama.

Há um mar de sensações em minha pele… coisas antigas, que reverberam feito os sinos da Catedral de Praga, onde, às vezes, eu gostaria de estar para apreciar as formas – que ainda existem em minha memória – como se apenas essa visão fosse capaz de renovar meus olhos. Praga – estranhamente – se limita à imagem que preservo, como se não houvesse mais nada por lá: as ruas, o rio, as pessoas…

Ah… hoje eu estou cansada, tal qual nos versos de Campos – é preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas – então, olho lá pra fora e sou como um emaranhado de linhas… desejo horizontalizar meu corpo, embrulhando-o nas cobertas de ontem. Quero fechar os olhos, apagar este dia… que se apresenta cinza, com rajadas de vento incessantes.

É primavera lá fora… dizem, mas já não é mais como antes.
Não vejo flores, apenas folhas… como se a estação fosse outra!
Os pássaros desistiram de seu canto dentro da madrugada ou no meio da tarde, como se não fizesse mais sentido para eles cantar o que não é estação da alma, do corpo… é apenas confusão dentro e fora. E o pior é que me vejo imersa nessa mistura, afogando-me…

Se pudesse, viajaria para fora de meu corpo, mas às vezes me sinto presa… totalmente incapaz dessa liberdade que almejo. Quando fecho meus olhos, a vida sinaliza suas vontades e, quando os abro, as mesmas cenas se repetem ao longo das horas, dos dias… perfilando-se como uma pilha de livros que – eu já sei – não terei tempo de ler…

E eu volto a Campos, como quem vai à frente de um espelho decorar o próprio rosto -  “acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se | seja de que maneira for, é preciso continuar a viver | arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente | estou no caminho de todos e esbarram comigo”.

Bacio
L.

Não perdi o hábito de escrever missivas, 02

…tarde de terça-feira

Celular Lunna 130

Boa tarde Z.

…esvazie-me das atribulações do dia, numa tentativa vã de não pensar. Às vezes preciso disso – não ter imagens dentro da mente – mas é tão difícil não ir a algum lugar, visitar paisagens inteiras nesse tempo anterior a mim, que se orienta sempre a partir de frases, que os olhos recolhem como se fossem sementes futuras.

Deixei de lado o livro de Ana Cristina Cesar que trouxe comigo, mas insisti no gole agudo de café… o que bastou para mergulhar nessa realidade tão minha, com seus muitos matizes. Sei que em meus lábios qualquer coisa de sorriso existiu e sei também que, fechei os olhos por alguns segundos…

Lembrei-me repentinamente desse gesto raro: chegar a casa antes deles… as janelas e as portas fechadas e aquele falso silêncio a impor junto as paredes. Era dessa maneira que eu sabia que eles não estavam… chave no buraco da fechadura – uma volta inteira, duas – e aquele barulho de ferro em atrito – porta aberta – e eu me misturando ao espaço. Descalçando meus pés e – lentamente – percorrendo o cenário conhecido. Os moveis em estado de abandono, a casa toda imersa nesse silêncio diferente… a pulsar, mesmo estando sozinha. As paredes a cochichar qualquer coisa agradável, diretamente ao coração, numa espécie de diálogo… no canto da memória canta o carrilhão com seu som de tempo a dizer-se embriagado! Sem pressa… pares de degraus para cima, pares de degraus para baixo. A água na chaleira e as sombras do caminho…

O vazio não é algo verdadeiro, dura pouco e nos brinda com aromas e tons surpreendentes. Eu percebia o vento junto as cortinas, um raio de sol ensimesmado atravessava pequenos espaços encontrados – frestas – junto as cortinas, deixando no ar poeiras espectrais… os caminhos – em meio as passadeiras – acusavam pegadas, que eram os nossos mapas, por guardar destroços do que somos e do lugares por onde andamos.

E de repente, com o barulho da porta em movimento – o coração acelerava – o tempo de espera acabava e tudo voltava ao estado anterior onde existir é um verbo que se conjuga a dois ou três, talvez até mais…

E eu volto a mim mesma, para esse lugar entre esquinas, mesa do canto, café em mãos e a realidade a dizer-me suas linhas, a resposta as suas linhas demorou porque os dias estão indóceis, aquecidos. Roubaram uma hora do meu dia… quase afanaram a minha alma, quase fiquei nua dentro do dia… mas meus pés ainda vestem meias e eu ainda articulo caminhos.

“O calendário, Lunna, muita vez, não sabe de nada, é inocente.
Nossa alma, sim, sabe quando é hora de flores, quando é tempo de amores,
quando a fase é de sorrir. E também todos os contrários”.
>> Zélia Guardiano

Bacio en tuo cuore
L.

Não perdi o hábito de escrever missivas, 01

…noite de segunda-feira,

Celular Lunna 142

Caríssima M.

…ando com todos os meus espaços: preenchidos. A cabeça está cheia. A alma transborda e os dedos das mãos vazios de páginas… todo aquele barulho aqui dentro de mim, que se transformava em palavas, esvaiu-se!

Tentei escrever-te, sem sucesso, nos últimos dias… busquei me sentar numa mesa mais ao canto, mas todos os lados compunham presenças e, há dias em que é preciso ausentar-se da vida alheia… Contudo, para onde quer que eu vá, encontro figuras desejosas de se atracar à minha matéria. Estou exausta… e, quando o corpo mostra-se cansaço, preciso da solidão de um quarto escuro e vazio, onde possa ficar a sós com meus pensamentos. Tudo que eu quero hoje é um teto branco a me afrontar com sua quietude máxima…

Eu já lhe disse que, às vezes, apenas a solidão me salva de mim mesma? Eu sou diferente das outras pessoas… não coleciono medos. Nem mesmo rebobino meu passado em busca de pesares para o dia seguinte. Eu vivo o exato momento das coisas… gosto de olhar para trás, apenas para encontrar qualquer sensação de conforto.

Gosto de me lembrar que, em outros outubros… eu escrevi linhas inteiras dentro de um quarto, onde aconteciam velhos móveis junto aos meus contornos de menina. Gosto de espiar a mim mesma em movimentos conhecidos, seguros e confortáveis… tanto para a alma quanto para a pele.

Eu esperei por respostas que nunca chegaram! Saber disso não me incomoda – pelo contrário – me eleva a uma condição única. Existe qualquer coisa de satisfação em saber dessa espera. O silêncio dentro do gesto alheio. Dentro de mim mesma… naqueles dias, eu nem sabia o que era ansiedade, mas gostava imenso de espiar a caixa de correspondência vazia.

Gosto igualmente de me lembrar das pessoas que se foram nos dias passados, e recordar seus traços. Acredite… eu quase posso tocá-las e, se fechar os olhos, consigo ouvi-las a dizerem suas frases completas… e responder, numa espécie de diálogo calmo, lúcido, lúdico. Pouco real… alguém há de dizer.

Gosto, sobretudo, de sentar-me numa mesa de café entre esquinas, diante da cadeira vazia, com o olhar a vislumbrar o que é vida alheia. Apreciar as presenças, ouvir os diálogos pela metade, trazer para mim a anatomia do outro, enquanto eu tenho consciência plena de minha condição. É nesse momento – imersa em melancolia, já sendo outra – que eu vou esvaziando-me. Deixando de lado essa pessoa que sou, para ser um punhado de palavras.

Eu coleciono – há muito tempo – tudo que os outros abandonam…

Mas, ando tão imersa em presenças, que me falta a solidão… já nem mesmo consigo caminhar sem que alguém conte os meus passos pelos lugares que, antes, pertenciam apenas a mim….
Enquanto voltava para casa – contando as horas seguintes, esta pessoa que me chama de amiga, como se tal palavra fosse um soluço – esbarrou em mim… caminhamos lado a lado até o ponto de ônibus. Foi então que me perdi do desenho da Avenida que me fascina desde o primeiro encontro. Me perdi de mim mesma e, com as mãos no bolso, tentei ouvir o que era palava-diálogo-desabafo, mas consegui apenas pensar em você…

Esbarrei em suas sombras… imaginei seu muro branco, o verde das folhas de suas árvores, o latido de seus cães, o verão antecipado fazendo aquecida a sua atmosfera, o vermelho do sol a se despedir  mais tarde que nos outros dias… e a noite tropeçando em seus olhos.

Vi quando se debruçou sobre a paisagem e pensou em mim, ao buscar rapidamente pelo céu sem luar. Seu sorriso chegou até aqui… por alguns instantes, caminhamos juntas e, tirei do bolso um envelope imaginário, no qual lia sua missiva, escrita a ‘tua Bambina’…

Meu tempo, tão contado em minutos nesses dias loucos,
avesso às minhas poesias, reverbera em mim vontades,
que planto e amadureço em mim. Vontade plantada de ver esse riso solto,
de lamber focinho do cão… de pular as poças d’ água
e de ficar apenas em silêncio… é impossível eu ficar
em silêncio diante de tantas impossibilidades.
(…) Mariana Gouveia

Boa noite cara mia
L.

um castelo de cartas…

castelo de cartas

“Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono”.

>> Nadine Stair <<

Com o olhar preso ao seu próprio infinito… ela engoliu o nojo que sentia de suas lembranças! O sangue ferveu em suas veias e os idiomas – estrangeiros – se misturavam todos em sua boca, onde sentimentos se condensavam… o mais forte de todos ardia feito pimenta malagueta: ódio.

Revirou suas memórias todas… encontrando qualquer coisa de conforto no som das músicas que lhe conferiam cafunés imaginários. O tempo fez uma pausa… foi quando um sorriso floresceu em sua mente, desenhando um gesto comum a duas pessoas. Não foi fácil rever seu menino-homem ao longe, tal qual a cena de um filme assistida pela milésima vez. A pele foi resfriando-se, como se a temperatura lá fora deixasse de acontecer entre somas exageradas. Em seu íntimo se precipitou o inverno…

Não demorou até que as lágrimas se atrevessem para fora dos olhos – sendo contidas em movimentos ariscos – e, entre suspiros demorados – cada vez mais espaçados -, ela o teve de volta, como se ele nunca de fato a houvesse deixado.

Caminharam lado a lado pelas calçadas da cidade – Avenida Paulista – em silêncio… como era costume entre eles: com os olhos grudados aos pés, como quem conta passos-histórias-verdades-definitivas-mentiras-absolutas…

Quando o traço acabou – frente a frente, como num espelho – ela lhe contou suas novidades e ele apenas sorriu sua atenção devotada… deixou em seu corpo um abraço e lhe pediu para não mais ir embora.

Ela consentiu, assim como concordou também em não mais deixar de escrever, ainda que ele não esteja mais lá para escutar sua voz a dizer suas histórias fantásticas… será sempre, para ele, a última frase – não é uma promessa… porque ela sabe, desde sempre, que promessas não existem para serem cumpridas – é apenas uma nota mental, dessas que ela traça enquanto caminha pelas ruas da cidade…

É tudo coisa para  depois – mais tarde – quando a noite acontece dentro de sua pele e as pessoas voltam para suas casas, deixando-a em paz… com a solidão de que ela tanto necessita!

Tempestade a vista…

 

“Um escritor é, antes de tudo, um leitor [...]
É pela leitura, mesmo antes de escrever, que
me torno parte da comunidade — a comunidade da literatura —
que inclui mais escritores mortos do que vivos”.

Susan Sontag

2013-01-05 15.04.47

 

Com a vida toda organizada – as frases no lugar certo, o humor em seu estado ácido – nada acontece a minha volta. Preciso do caos. Porque as coisas em seus devidos lugares, acabam comigo… me destroem a pele, me sufocam a alma. Me matam!

Preciso de um pouco de desordem – tempestade – desconforto… preciso de alguém do outro lado dos olhos para observar, tragar, degustar…

Mas há fases assim, de uma paz aterradora… tudo objeto comum! Não me acontece uma única frase – nem dita e muito menos escrita – porque não sei escrever assim em silêncio. Preciso de barulho. Do outro com sua dor aguda, seu sangue a jorrar depois do corte… preciso de um borrão de tinta no canto da folha e, a ponta dos dedos… a misturar-se com a tinta!

Eu preciso de um nevoeiro denso, dos olhos encobertos – em busca de riscos-rasgos – da vida em estado de putrefação. Quero os sons da cidade dentro a minha cabeça. Os olhos poluídos com imagens destorcidas, mas está tudo tão quieto. Quero um personagem. Alguém que salte da paisagem e me desorganize. Alguém que me incomode e não me dê respostas.

Quero um bramindo. A mão em riste… qualquer nunca mais. Dias onde a leitura seja interrompida e a escrita seja um norte para onde eu vá sem saber estar em movimento.

Mas por hora esse silêncio – tudo que tenho – me revolta… não vejo como sobreviver aqui dentro. Estou chateada com as vírgulas do dia.

Naqueles dias, eu só queria saber – inevitavelmente – do dia seguinte!

first love

Ele tinha belos olhos, agudos, infantis… eram de uma pureza deliciosa. A., com seus cabelos castanhos – a cair sobre os olhos – era gentil, como apenas os meninos sabem ser.

Ele me trazia flores arrancadas de jardins por onde passava… entregava o botão de margarida branca em minhas mãos – com a timidez típica de um garoto – e ia embora, deixando-me com o alegre cheiro de primavera… às vezes, olhava rapidamente para trás, apenas para provar de minha imagem junto à flor e, seguia seu caminho de passos, paisagens e sorrisos – tudo misturado…

A. me brindava com sorrisos brancos – sem falas – e, quando sua mão tocava a minha, um mar em fúria acontecia aqui dentro. Eu ficava sem graça, convivendo com um sem-fim de pontadas na boca do estomago… o coração disparava e as comichões se multiplicavam pela pele, espalhando-se rapidamente pelas veias, nervos e músculos…

Eu me alegrava facilmente em sua presença – o corpo todo era uma festa – mas, quando ele ia embora, deixava em mim o desespero do fim do mundo. Revia seus traços em minha mente… e me via imersa num confronto alucinado contra o tempo.

Naqueles dias, eu só queria saber – inevitavelmente – do dia seguinte!

Amizade a primeira vista…

friends

Aprendi através de uma menina de olhos amendoados que existe: "amizade a primeira vista" e que é mais ou menos como um “amor a primeira vista”: a gente se reconhece, se estremece e, pronto…

Eu ainda me lembro do nosso primeiro encontro… ela com suas agitações e precipitações várias a me dizer um punhado de coisas impossíveis e eu, a oferecer o que eu sempre oferecia as pessoas: indiferença…

Ela foi minha primeira tempestade em muito tempo… seu sorriso se misturava ao meu e, seu olhar as vezes não sabia outra direção, que não os meus olhos. Eu a amei com afinco, mas a odiei um sem fim de vezes…

Certa vez, ao ler “orgulho e preconceito”, ela me disse: somos uma espécie de Lizzie e Darcy… ela me enlouquecia com suas frases tolas -  a parte disso, ela reclamava com frequência da minha seriedade… me tirava do sério com suas atitudes insensatas.

Ela era uma tormenta e, eu… naqueles dias, era apenas calmaria. Eu gostava de dias de chuva e ela de dias de sol. Amava janelas fechadas e, ela as escancarava na primeira oportunidade que tivesse…

Ela dizia com alguma frequência, que eu precisava sorrir mais e, talvez por isso, hoje o sorriso seja uma espécie de marca registrada em meu rosto, sendo uma espécie de eco desses dizeres que ainda reverberam em mim…

Recentemente, fez dez anos que nos vimos pela última vez… ela vestiu meu corpo, naquele meio de tarde, com seu abraço demorado-pesado no qual eu aprendi a me deixar ficar… sem restrições. Depois… deitou em meu rosto um beijo e ao olhar no fundo dos meus olhos disse que me amava.  Eu que tinha dificuldade em acreditar em pessoas, acreditei nela sem restrições… sorrimos juntas pela última vez… e depois disso, foram muitas as vezes, em que desejei, que fosse apenas a primeira!

Ela se foi… desde então, há dias – como hoje – em que eu sinto falta da acidez de seus comentários ruidosos. De seu olhar junto as minhas laterais… de seu passo lado a lado ao meu. De seu silêncio durante minha fala sem entusiasmo… de sua quietude junto a minha anatomia quando a melancolia era minha única pele. E de seu entusiasmo canino ao me encontrar pelos caminhos que partilhávamos… ela estava sempre de braços abertos pra mim!

Éramos duas… mas fomos apenas uma muitas vezes! E sempre que tropeço em figuras pelo caminho, encontro algo dela nas pessoas que observo e, talvez por isso eu me afaste gradativamente.

Eu sei que são figuras estranhas e, jamais serão diferentes disso… eu não as amo e jamais amarei… não por não serem ela, mas por serem apenas elas mesmas… e nada mais!

Alinhavar…

costurando ilusões

Sou uma pessoa apaixonada por livros – não os coleciono – mas tem alguns que são objetos tão meus, que levo comigo como se fosse parte da minha geografia… Tenho uma paixão indócil por certos livros: poesia de Alvaro de Campos, Orgulho de Preconceito de Jane Austen, Correspondência de Ana Cristina Cesar, Irmãos Karamazov de Dostoivski e, os diários de Sylvia Plath… citando apenas alguns, porque faltou nessa relação: Borges, Eliot, Mia Couto e outros tantos mais…

Um livro é um objeto curioso, que reune elementos vários: a palavra do autor, do editor, do amigo, do estranho… o papel tem suas muitas nuances, aromas e texturas. A tinta que marca (fere) a folha produz um desiquilibro… e, o desenho que ilustra a capa, que diante dos olhos, pode ser: janela, porta ou horizonte e, os acabamentos… tudo isso é um livro!

Exemplos 03

Foi pesquisando Wirgina W. que eu me interessei por conhecer o universo do livro… ela teve uma editora em sua garagem, sendo responsável pela produção de diversos exemplares, lançando no cenário literário, alguns nomes desconhecidos e, que hoje figuram junto as prateleiras como figuras favoritas. Se posso ler as linhas de Eliot, devo isso a essa dama e também senhora das letras…

Exemplos 04Exemplos 05

E foi através dessa pesquisa que descobri os cursos de encadernação e o “mundo do livro artesanal”… feitos a mão – muitas vezes por seus próprios autores – o livro leva em si, o detalhe de seu criador e, quando entregue em mãos, causa espanto, desconforto, fascínio. Causa o inesperado… eu me lembro muito bem do primeiro livro artesanal que tive em mãos. Tiragem pequena – cinquenta exemplares – costurados a mão e, com detalhes que mudavam de livro para livro… apaixonante!

revista plural

Da pesquisa ao curso… foram dois anos! – conheci diferentes tipos de encadernação e, acabei encantada pela “costura artesanal” que escolhi para  compor os meus livros inicialmente… hoje, linha, agulha, papel e tesoura são meus objetos de trabalho. Já não confecciono apenas livros pra mim… o faço para quem deseja ter em mãos um objeto diferenciado, que seduz não apenas pelo conteúdo, mas também pelo objeto maior: o livro, esse personagem singular!

 

Para conhecer os livros artesanais que eu produzo, acesse:
www.scenariumplural.wordpress.com

Sobreviva se puder…

“Deixa-me só, vegetal e só,
Correndo como rio de folhas
Para a noite onde a mais bela aventura
Se escreve exactamente sem nenhuma letra”.
Eugênio de Andrade

sobreviva

 

Preciso dizer – correndo o risco de ser apenas um sopro do vento – que um gesto seu me machucou muito – por dentro – você não sabe, nem poderia! Talvez você nunca venha a saber: eu sangrei…

No momento… é como estar diante de uma janela, pronta para o salto, sabendo que não existe fim. É para dentro do precipício que me jogo, mas não é exatamente isso que existe dentro da gente?

Um gesto seu… algo tão simples: um abraço inesperado e, um punhado de palavras ditas depois de um beijo ruidoso… em meu rosto!  

Foi como ser sugada para dentro do dia de ontem – esse meu abismo profundo – onde fui atropelada por uma lembrança, que eu guardava em algum canto de mim e, julgava até então esquecida-perdida…

Eu sou assim, há coisas que eu não ofereço a ninguém… nem mesmo a mim! – há coisas que eu deixo para depois, apenas para não ter que lidar com elas. 

Você não sabe o que fez. Não sabe o que destampou… foi apenas um gesto seu – aparentemente comum – que me levou pra longe, em segundos! Me pôs perdida nesse infinito que sou…

E quando voltei, já não sabia onde estava, quem eu era… não reconheci seus traços! Me desajustei por inteiro e, voltei pra casa pensando palavras, reunindo-as em frases imperfeitas-imprecisas-indigestas. Coisas sem sentido, que me agrediram como se fossem golpes agudos contra a carne: a rasgar, a cortar, a fazer sangrar.

Revirei minha metáfora em desassossego, provando do que era realidade e, agora não passa de um sonho-tormento-pesadelo… jurei pra mim mesma que não voltaria a você. Bati o pé e disse em voz alta: “nunca mais”. Como se a vida fosse exatamente uma coisa definitiva.

Mas quando dei por mim… na manhã seguinte, lá estava você se oferecendo em abraços, sorrisos e buscando por mim como se fosse uma tempestade… justamente num momento em que eu me sentia novamente calmaria!

Diário das minhas insanidades, 11

doors


(…) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Carlos Drummond de Andrade

Hoje eu te vi rapidamente… percorria meus caminhos de sempre, de volta pra casa, dentro de um fim de tarde, quase noite – quando você veio em minha direção com seus desenhos de ontem e seus contornos de sempre – não acenei – apenas abracei o silêncio que se esparramou entre nós, sem porém… num dia qualquer.

Recordei rapidamente suas falas – eu gostava da ousadia que percebia em seu discurso – revisitei um a um os nossos parágrafos. Foram tantas madrugadas juntas. Tantas linhas minhas se originaram em seus diálogos sisudos, agudos… Tantas vezes me encontrei dentro de suas frases incompletas.

Eu não tomei nota – do horário, tampouco do dia ou da estação do ano – simplesmente porque há coisas, que eu quero esquecer – não me lembrar, descartar – porque eu já tenho tanto em mim para medir-pesar-inundar… me recuso a me deixar a mala mais pesada do que já esta.

Rasguei as missivas escritas ao longo dos últimos anos… foram muitas! Um sem fim de palavras deixou de existir e todos os significados se esvaziaram. Eu não penso mais em você, nem mesmo quando o seu nome é pronunciado em voz alta junto a mim. Nada se orienta aqui dentro – é como falar de um estranho – a sua lembrança, no entanto, é como uma manhã imersa em neblina, vez ou outra vem o sol por entre as nuvens e, é quando cubro os olhos para apreciar um avião cruzando os ares e, tenho a sensação de que você esta a fazer o mesmo gesto em algum canto seu do mundo… são apenas alguns segundos, como agora, que você passou por mim e acontecemos dentro da nossa condição imutável: duas estranhas – mas é melhor que seja assim – porque eu nunca gostei de ruínas…