Cecília e café

 

 

 

 

 

 

 

 

A madrugada – depois de um diálogo com A. – me levou até a prateleira numa evidente tentativa de compreender ciclos e presságios. Não é nada fácil lançar-se no abismo, dar o passo seguinte, quando não somos nós que estamos em queda – e sim o outro… deixar-se cair é uma aventura, primeiro para  a mente e, depois para a alma! E nesse caso, a poesia é o fio condutor e, Cecília Meireles oi meu timoneiro…

 

Vens sobre noites sempre. E onde vives? Que flama
pousa enigmas de olhar como, entre céus antigos,
um outro Sol descendo horizontes marinhos?

 

A poesia não entrou em minha vida por acaso. C. a introduziu lentamente através de suas leituras, que sempre me alcançavam nos meus dias de menina. Cresci tropeçando em poetas, esbarrando em poesias, ouvindo versos dentro das horas e suas rotinas de ritmos.

Tudo isso, obviamente contribuiu para que a vida do lado de fora, fosse, aos poucos escorrendo para dentro de mim com uma singularidade única… a realidade chegava aos meus olhos com suas figuras múltiplas, deliciosamente divididas entre céu e mar. As ondas caminhavam até a costa, onde resvalavam em pedras onde o cais se dividia em boas vindas e despedidas… As gaivotas sobrevoavam a paisagem com seus sons agudos, agradáveis aos ouvidos… zombando da nossa condição de humanos com os pés presos ao chão, incapazes de se lançar no infinito azul… E, em fila, os telhados vermelhos se sobrepunham um sobre o outro até a minha janela… As ruas estreitas “carrogi” desenhavam seus caminhos junto aos meus pés, afastando-me daquele lugar conhecido… os lugares se ofereciam a mim na medida exata de meu crescimento.

Cecília Meireles foi uma das poetas que eu descobri dentro da infância, através de A. nas aulas particulares que passei a ter depois que descobriu-se a minha incompatibilidade para com uma sala de aula… foram dias produtivos em que tudo era precipitação natural, medida de acordo com os meus impulsos.

Enfim, conheci Cecília enquanto poeta e “navegadora”. Soube de sua obsessão pelo mar, pela solidão e anos mais tarde, pela morte…  tudo devidamente fragmentado como se a realidade fosse assim também.

Solombra” cuja pronúncia me encantou de imediato, chegou bem mais tarde, quando eu já era outra…  ao contrário do que muitos pensam – solombra – não é um livro e, sim um combinado de poesias com suas sonoridades muitas. Os poemas estão publicados no livro que exibe na capa o título dos poemas,  exatamente como a poeta os concebeu e, mesmo assim, é uma espécie de “navegar” sem bussola, mapa ou constelações… restando apenas ao corpo ir.

A sequencia de poesias nos obriga a respirar fundo, sentindo os espasmos, e se deixando tocar por essa navalha disposta ao corte, mas eu não percebo essa “sequencia obrigatória”… sei apenas o tema por trás dos versos: a morte.

A palavra sombra é uma evolução de “solombra”…
É como se tivessem tirado o peso da palavra, deixando-na mais simples, menos poética… bem menos aguda. Pequena e encolhida. Incapaz  de denominar essa região escura que se forma devido à ausência parcial de luz… Cecília Meireles parece se antecipar a morte da palavra, preservando “solombra” – evitando assim o seu completo desaparecimento.

Volto para a realidade, refeita – mas ainda sem certezas – precisando encontrar um ritmo para o meu “trabalho” árduo de encontrar o que ainda é ausência no combinado de poemas que leio e re-leio dentro das horas que se despedem de mim feito a sequencia de poemas de Cecília, que de alguma maneira resvala no combinado de palavras que entregaram-me para compor a série “exemplos”. Um poeta sempre herda a “poesia” alheia!

 

É que morremos – e num lúcido segredo –
sabendo, ouvindo – atravessados de evidências –
que somos de ar, de adeuses de ar… E tão de adeuses
que já nem temos mais despedidas.

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…ela me disse tão pouco. Duas ou três palavras apenas… mas foi o bastante para roubar o meu sono e, me deixar dentro da noite, a deriva em minhas próprias emoções! 

Marcamos um encontro para o dia seguinte… ali mesmo, entre esquinas — como sempre — não temos lugares para nós duas nessa cidade porque não somos duas; somos coisa alguma… uma espécie de papel de parede, colado de alto a baixo apenas para esconder dos olhos o que é memória — coisa alheia…

Nos esbarramos em tempo e espaço, às vezes deixamos com a outra um olhar, um abraço… mas, às vezes, vamos embora sem nada deixar uma com a outra, porque tudo é pressa para sua alma e, só de pensar nela com suas linhas em mãos, todas as horas fogem de mim… e eu não sei dizer pra onde vão.

Ela é tão inquieta quanto esta lua minguante, que parece querer se acabar, antes mesmo de o calendário dizê-la “minguante” junto ao céu de junho… vejo seus olhos riscados como um traço pela metade — uma meia lua, meia taça, meia hora — metade que ela mesma vive recusando a conclusão… preferindo-os assim mesmo, como são: inacabados.

E, dentro da noite, com avessos tantos, ela inventa uma realidade, que cabe apenas em seus moldes… olha pra fora, através das frestas da janela, que mantêm fechada para não saber-se “Cecília” e, abusar do mar que ouve do lado de dentro!

…segundos depois, o sono tenta convencê-la de que a noite é para os outros — e não para ela… mas em seu íntimo, ainda existe um naufrago a dizer que a noite são verdes ondas que nunca chegam a praia, perdendo-se dentro do mar, a caminho de nada… ali, os ventos que os ares não fabricam gritam sonhos, onde uma realidade é o que se inventa.

E ao despertar, ela se vê com a mão estendida e, seus versos pedindo… o que ela nem sempre entrega!
Me disse tão pouco, nada, mas era tudo o que tinha e agora cabe a mim reinventá-la.

— Não posso fixar a hora ou o lugar. Isto já foi há muito tempo.
Eu já estava no meio e ainda não sabia que tinha começado. >> Mr. Darcy

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Abro o livro, primeira página… a narrativa me apresenta essa figura que nada sabe de mim, mas eu a sei como se fosse uma pessoa que atravessa o caminho durante um passeio por ruas, calçadas, esquinas, outra rua e, mais outra. Seu tempo, contudo, é outro… isso se evidencia na maneira como a autora a apresenta. Jane foi feliz em suas escolhas… não a descrevendo de imediato, o que nos permite ir conhecendo-a aos poucos, numa lentidão típica de quem gosta de saborear as ousadias de um personagem e nele, se identificar como sendo um igual ou alguém próximo…

Assim a sabemos jovem e apaixonada pelo mundo a sua volta, com uma personalidade marcante, o que julgo ser fruto de sua convivência com o pai… seus embates com o jovem forasteiro — que surge na história apenas para realçar suas características — são eloquentes e repletos de significados. Ela conseguia se impor, mesmo sendo para a época um desafio, afinal as mulheres não tinham voz e, talvez por isso, ela cometa erros de julgamentos, impedindo-a de perceber que o homem a sua frente era reservado e não orgulhoso como suas falas dão a entender “nem se ele fosse o ultimo homem na face da terra eu dançaria com ele” — a recusa imediata nos faz perceber que suas palavras são na verdade um presságio… fosse diferente, talvez ela não fosse a personagem que é aos olhos dos milhares de leitores que, como eu, se apoderam das páginas de "orgulho e preconceito"…

Gosto, sobretudo, quando diante do erro de julgamento, Elizabeth Bennet se encolhe, evitando inclusive o olhar de Darcy. Tímida, como ainda não tinha se mostrado na trama até então e, já sem a segurança de antes, Lizziê chega a temer seus próprios passos e, numa sociedade onde bons casamentos são o desejo de toda e qualquer moça, ao saber-se diante da enorme casa  daquele que é, sem dúvida alguma, o personagem mais apaixonante da literatura inglesa, não é de espantar, que ela tenha engasgado… no que considero ser a melhor cena escrita por Jane Austen. Imagino sempre que passo por aquelas linhas,  que Elizabeth Bennet tenha ouvido a própria voz recusando ao homem, a quem seu pai mais tarde afirmará "ele é um tipo de homem a quem não se deve dizer não" – mas ela o fez, corajosamente, dirão uns… talvez se não existisse a recusa, a história tivesse outro rumo. É apenas confabulação, afinal, a escrita aí está para o nosso deleite.

E o fechar o livro, pela centésima vez, só consigo imaginar uma estranha felicidade de almas, que só existem em meu íntimo e, por ser assim são minhas, mas um dia, pertenceram a Jane Austen para nunca mais, é claro…

 

“Tenho a certeza de que é generosa demais para fazer pouco caso
dos meus sentimentos. Se os seus são ainda os mesmos
que manifestou em abril passado, diga-o imediatamente.
Minha afeição permanece inalterada; basta porém
uma única palavra sua para fazer com que me cale
para sempre.” >> Mr. Darcy,

 

* esse texto foi escrito há tempos para compor as páginas da revista plural da qual sou editora
e como figura severa que sou, não o aprovei para publicação, mas o deixo aqui
por puro capricho e sinal de protesto contra mim mesma!

mudanças

 

 

 

 

 

 

 

Meu primeiro rascunho, no sentido de produção literária – estranhamente – aconteceu em sala de aula… o lugar mais impróprio para essa figura que, de certa forma, se deixou forjar dentro daquele espaço irregular com suas cadeiras em fila, um quadro negro e aquele espaço mal definido como sendo uma espécie de tablado que fazia dos professores que ali desfilavam, uma espécie de ator, a encenar suas performances equivocadas.

Eu era uma daquelas meninas que ficam no canto, desejando não ser notada, passar despercebida. Cumprindo o papel de sobrevivência dentro do esquecimento que sempre me pareceu infinitamente poético. Pitoresco… sempre soube que ser sombra no chão era muito mais atraente que ser um holofote a se projetar por cima das figuras inertes – alheias…

Como nunca usava meu caderno de geografia porque P. preferia os chatos livros didáticos com seus escritos enfadonhos e mal elaborados… pude ocupar aquelas linhas perfeitas com o que considerava ser uma espécie de romance policial baseado na menina loira que vivia a enrolar os cabelos entre os dedos e as mascar goma com a boca sempre aberta,  ocupando a fileira ao lado. Ela tinha fala azeda. Repetia sempre o mesmo diálogo e escrevia dúzias de vezes o seu nome, tomando o cuidado de adicionar o sobrenome do jovem por quem se dizia apaixonada. Ele era mais velho, fazia parte do time de futebol do colégio e, para ele, as garotas eram exatamente como uma goma de mascar…

Aprendi dentro daqueles dias – hoje eu sei – a domar a figura alheia, a desbravar a anatomia, e a compreender o outro como sendo um reflexo para o dia seguinte… aprendi a ser outra – uma espécie de esponja – que a tudo absorve…

O tal romance, foi lido pelos colegas de escola após ser surrupiado… dias depois, após vagar de mão em mãos, acabou na mesa de minha professora de gramática, que o entregou para o diretor do jornal do grêmio, que o publicou em capítulos durante as semanas seguintes…

O anonimato, ao qual eu era grata, se evaporou… e eu me vi, imersa na realidade de olhares atentos a todo e qualquer movimento feitos por mim. Foram dias de fúria… todos queriam saber qual seria meu próximo passo. Sobre o que e quem eu escreveria.

Por causa de “certe cose” – título do tal romance – acabei “convidada” a escrever uma peça teatral para a festa de final de semestre no colégio –, com a prerrogativa de não poder refutar tal convite… entrei em pânico, e fiquei “doente”. Uma semana inteira em casa, sofrendo “tudo e nada”. Fiquei sem chão, sem mundo, sem mapas, em aspas, sem sossego…

Me amaldiçoei por dias inteiros…
Mas não resolveu. Não fui esquecida, tampouco abandonada em meus cantos. Não desistiram de minhas linhas… e, eu acabei por escrever dúzia de linhas, que foram exaustivamente ensaiadas e apresentadas numa noite de presenças… todas as cadeiras do auditório da famosa “sala vinte e um” foram ocupadas: pais, professores, alunos; menos a mim que tive "uma forte dor de cabeça" inventada no último minuto, que deve ser entendida como: "uma enorme vontade de ficar sozinha em meu quarto ouvindo Chopin sem que ninguém se lembrasse de mim"… soube depois que os aplausos se multiplicaram pelos espaços, sendo ouvido ao longe. Grande coisa…

Não participei – obviamente – me ausentei, alheia aquela realidade tosca e sem graça –, não sou capaz de dizer o que foi que escrevi… me lembro apenas da vergonha, do desconforto, do cansaço por sentir a atenção alheia cobrindo minha anatomia. Foram dias difíceis aqueles. Sofri o suficiente por uma vida inteira…

…e, no ano seguinte, escolhi cursar psicologia!

Como se alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.

Flores da relva (leaves of Grass)
Walt Whitman

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Acho que entendo porque Pessoa, enquanto Álvaro de Campos encontrou uma espécie de eco próprio nos escritos de Whitman – eu  mesma me vejo ali em suas linhas – percebo uma espécie de espelho a dizer-me certas “ousadias”… eu deveria dizer “verdades”,  mas essa palavra tem um estranho peso; por isso, não me agrada carregá-la junto aos meus lábios e tampouco detê-la junto aos olhos alheios…

Li “folhas da relva” de um fôlego só na manhã de hoje… o poema é imenso e imagino que a escrita tenha sido demorada. Talvez Whitman tenha levado uma "vida inteira" para escrevê-lo e isso é algo que eu posso imaginar com certa facilidade…

Há coisas que nos custam uma vida inteira: o olhar para o vazio, a idéia em ebulição, a folha de papel em branco, as primeiras palavras. Um rascunho riscado, remendado dezenas – talvez milhares – de vezes. O estranhamento… o abandono porque as palavras precisam de um tempo a sós… precisam de um tempo para maturar.

E nós precisamos nos esvaziar completamente até não sobrar mais nada de nós, em nós mesmos… então posso imaginar os muitos passos dados pela sua cidade. Sua dúvida quanto ao discurso. Sua incerteza quanto ao sentir. A reescrita. A fragilidade das palavras. A lentidão a discursar dentro e fora da pele… Posso imaginar o vazio diante da conclusão e a tentativa (insana) de dizê-lo “inacabado”…

Não é fácil deixar-se escorrer em linhas retas. Não é nada fácil sair das cavernas onde habitamos – em segurança – para ir ao encontro do outro –, expondo-se à luz de um olhar. Também não é fácil – dizer-se “pronto” – acabado, concluso… não é fácil inserir aquelas duas consoantes e uma vogal ao final de si mesmo. 

Porque a escrita somos nós mesmos a escorrer, como estivéssemos a rir, a chorar, a viver… tudo isso em um estado de estranhamento, em suspenso.  A escrita é esse silêncio a dizer gritos, uivos, urros dentro dos olhos alheios estando os nossos olhos fechados, mortos… porque depois da palavra empenhada, a morte é a única coisa que nos resta e, o pior, é não saber, que um simples poema, nos custou uma vida inteira.

“Dê-me licença para
escavar meus motivos”
>> Susan Suntag

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Empacotamos as coisas para levar de um apartamento a outro durante dois dias… e descobrimos, durante o processo, que é possível guardar uma vida inteira dentro de uma gaveta, no fundo do armário, dentro de uma caixa de sapato esquecida embaixo da cama…

No meio da mudança, uma pausa… envelopes abertos, folhas com suas palavras em falsas linhas, livros lidos no ano passado com suas anotações de momento, notas de uma novela que naqueles dias era apenas um processo, uma espécie de promessa, meia dúzia de palavras abandonadas num pedaço de papel que acabou esquecido… um recorte de revista onde a fotografia de Annie Leibovitz com seus longos cabelos e seu falso sorriso diziam dias de pesquisas. Tudo em fase de metamorfose. Era o começo se deixando moldar por frágeis possibilidades. Coisas que poderiam não resultar em nada. Anotado num papel anexado ao recorte, uma frase de Susan Sontag que naqueles dias me levou de encontro ao seu diário e suas frases perfeitas dizendo uma “vida inteira”. O universo conspira, é preciso afirmar, mas pra isso é preciso movimento. Fique sentado pra ver onde o sol vai… de leste a oeste, sempre…

De um lugar ao outro, levamos nossas coisas, em caixas… Espalhamos tudo pelo novo cenário até as coisas se acomodarem e os lugares se apresentarem. Tudo se ajeita – foi o que eu ouvi – mas antes é preciso encarar o caos, a bagunça, a desordem… Foi justamente quando disse em voz alta, a fim de me convencer: "não vou mais juntar tantas coisas desse jeito"… bastou um segundo pra eu me contradizer! E lá estava eu a guardar novas notas de um escrito recente que despertou em mim, entre um movimento e outro. E como quem ignora a si mesma, guardei o pedaço de papel dentro da agenda…

Dias depois, as coisas ainda estavam espalhadas pelo lugar como se nada fosse se "ajuntar" por livre espontânea vontade… respirei fundo enquanto começava a desenhar uma falsa lista em mente: preciso juntar a roupa suja, colocar no cesto, levar para a lavanderia… recolher as revistas, os retalhos, os trapos, os pedaços de papel… recolher a mim mesma que se deixou esparramar pelos cantos sem me juntar!

Arrumar os livros, em fila, na prateleiras… a mesa, o armário, esvaziar as malas, pendurar as roupas nos cabides, escolher os livros de junho… parar de arrancar folhas dos cadernos. Lavar as xícaras. Varrer a casa, os tapetes. Levar o cão para passear pelas novas alamedas. Preparar uma xícara de chá. Andar pela casa sentindo os espaços… abrir janelas e deixar a luz entrar, nos cômodos que sou…

E começar tudo de novo, dando lugar as coisas em minha memória, sempre tão ocupada…

“O hoje sangra, o amanhã lancina”
T.S.Eliot

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Sai de casa pouco depois das duas e cinquenta. Atrasada. Coisa comum a minha figura quando preciso me atrever pelas calçadas com horário marcado. Mergulhei nos contornos de sempre. Atropelei figuras estranhas e pronto, cheguei ao destino do dia: um prédio na Avenida Paulista onde fica a sala de W.

Ela é uma dessas senhoras elegantes. Cabelo bem cortado – nome na porta. Roupas caras. Olhar atento às coisas frágeis. Sabe o outro apenas por ouvir um combinado de vogais e consoantes que podem ou não ser separados por vírgulas, pontos, exclamações e/ou interrogações. Ela toma nota de tudo. Tem citações de Kant na parede e um diploma na prateleira. A caneta foi presente do marido – não tem filhos, ou pelo menos não os exibe em sua sala – mas, tem uma gata branca cuja fotografia se destaca na terceira prateleira da estante.

Enfim, ela resolveu fazer suas perguntas… geralmente fica lá sentada esperando que eu fale qualquer coisa. Hoje, talvez por perceber que eu não sou dada a diálogos – perguntou-me sobre os meus dias – minha resposta foi breve. Curta. Duas palavras bastaram… Ela respirou fundo, esperava mais – ela queria reticências – e, eu ofereci um ponto final.

Faço terapia por decisão minha, mas ainda não me acostumei a essa mulher de nome fácil e sorriso plástico. Foi muito bem recomendada, mas ela é muito perfumada. Quando saio de lá espirro uma dúzia de vezes e não gosto da ideia de deitar-me no divã. Fico olhando para o branco do teto e me perco. Prefiro poltronas. Diálogos para mim pedem o conforto da presença do outro junto a você e, uma xícara de café…

Passados dez minutos da sessão, ela veio com esses dizeres estranhos… Disse que eu devo viver a minha vida sem desperdiçar o meu tempo. Não deixar passar as oportunidades e, ao me ver sorrir, ela quis saber o que eu pensava sobre aquelas afirmações… continuei sorrindo enquanto procurava por um espelho na sala.

Ela esta cansada do homem com quem vive, e que chega tarde todos os dias. Ele é uma dessas pessoas apaixonadas pelo trabalho. É quieto – manso. Não ama com afinco. É comedido enquanto ela é toda rompante. Ela olha outros homens, imaginando-os sem a devida coragem para uma aventura… não vive, mas imagina muita coisa – o toque dos lábios, o toque na pele, a pele desnuda, a euforia de um encontro fortuito – as euforias que conserva sem segredo… somos parecidas nesse ponto, mas eu escrevo – enquanto ela suspira…

Ela então quis saber o que eu faço e eu entreguei a ela cinco palavras: “no momento procuro uma personagem”. Ela não entendeu e eu tive que me explicar sobre essa coisa de ser escritora.

W. ajeitou os óculos junto aos olhos, permanecendo em silêncio por alguns míseros segundos e, de posse de uma “sabedoria peculiar”, disse-me: “você quer escrever por que as coisas imaginadas parecem mais saborosas que a realidade na qual tropeça vez ou outra?” 

Eu tomei tal questionamento como insulto… abracei o silêncio comum do meu existir, mergulhei no branco do teto enquanto questionava aquela figura branca – “como alguém que está ali ao meu lado, sendo paga para me ouvir, consegue formular uma questão tão sem fundamento?” –, levei alguns minutos para organizar uma resposta válida e tão logo as consoantes e vogais se organizaram em meus lábios, e entreguei a ela aquele resumo prático.

“Eu não tropeço na realidade, minha cara, eu vago por ela. Sou uma transeunte e meu passo se demora porque os que vivem a tal realidade são desatentos e suas vidas são tão monótonas, que precisam de alguém que dê alento aos seus dias. É o que eu quero fazer. A vida apenas não é suficiente para o que eu pretendo. Eu tenho total consciência de que essa vida que eu tenho é única, mas como irei aproveita-la… cabe apenas a mim. E eu decidi, depois de muito hesitar, que irei aproveita-la com outras vidas em paralelos e, ao contrário do que está pensando, minha cara, eu não preciso da escrita para sobreviver a mim mesma, eu preciso da escrita para existir em mim mesma”.

Foi a vez de ela sorrir – nos entreolhamos por alguns segundos – e ela me perguntou com sua voz falsamente branda, sentada em qualquer coisa de consciência: “sabe o que você me disse na primeira vez em que se sentou aí?”… como de costume, a minha memória impulsionou aquela fala: “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas que eu fiz nos últimos tempos”.

Foi a vez de nós duas exibirmos um sorriso colorido…
Levantei-me e, sai de lá ciente de que voltaria na semana seguinte. E eu, que já estava implicando com gatos brancos, preferindo os cinzas por ser a cor dos temporais, terei que me acostumar ao tal gato branco na terceira prateleira da estante, senti um sorriso irônico naquela velha face de gato… hunft!!!

Pelas ondas do mar, pelas ervas e as pedras
pelas salas sem luz, por varandas e escadas
nossos passos estão já desaparecidos.

Diálogos foram frágeis nuvens transitórias.
Multidões correm como rios entre areias
inexoráveis, esvaindo-se em distância.

Felicidade? Não. Voz solene. Sem prêmio
que não seja o de dar cada dia o seu dia
breve, talvez; límpido, às vezes; sempre isento.

Ir dando a vida até morrer.

Cecília Meireles,
in Solombra

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Hoje não choveu em São Paulo e, eu queria um dia de chuva!
Porque é junho e o outono se esvai dia após dia numa espécie de ensaio equivocado, tão rápido… queria acenar e escrever-te pedindo para que fique um pouco mais. Maio se foi tão depressa, não o vi passar por mim… não ficou rastro pelo chão. Não grudou na sola do meu sapato!

Não sei se me acostumei, mas já que é junho, eu quero um dia qualquer pra ficar a casa, curtindo o lugar dos quadros, a paisagem lá de fora e os móveis pelos cantos desse lugar que é novo e eu ainda não o domei junto a minha anatomia… quero ver um filme adocicado. Me perder nas páginas de um livro novo, ainda por comprar. Bebericar uma taça de vinho branco. Sorrir amenidades… provar sabores inventados dentro da tarde e respirar fundo a cada novo segundo!

Quero ler Eliot e Borges no começo da noite, acender uma vela… um incenso. Esperar pela lua cheia que não tardará… andar pelos caminhos que eu ainda não aprendi, com os pés vestindo meias e no som, um Blues do B.B.King… quero ficar dentro da pele, da matéria. Apenas alma. Em silêncio… sem dizer palavras.

…e depois de ver o dia dizer adeus em tons pastéis, escrever linhas enfurecidas! Desenhar a minha singularidade para outros olhos. Ser outra. Ser ninguém… ser uma folha de amarelecido tom a ser guardada dentro de um envelope vermelho que segue com o vento para as mãos desse alguém a quem escrevo enquanto me desfaço, feito um nó mal feito que não agarra, solta!

Anoiteceu mais cedo em meus olhos hoje…

"Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar.
Ai, que bom que isso é meu Deus, que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus, resiste aos olhos meus, só pra me provocar
Meu amor juro por Deus, me sinto incendiar" …

Tom Jobim

luz dos olhos meus

 

 

 

 

 

 

 

…olho lá pra fora – com a pergunta feita pela Áurea em mente – e, sigo em busca do que tragar porque em mim, as coisas chegam primeiro a esse traço regular, bem feito, que exibe suas formas de perfeições que muito me agrada: vejo a cidade e suas luzes pipocarem dentro da noite que não se apressa… chega lentamente com seus ritmos casuais: transito parado, pessoas aos montes a esperar pelo ônibus… o cenário aqui é outro e, eu ainda não me acostumei a ele. Por isso olho incansavelmente, sem saber se ainda irei, de fato, de tudo isso me cansar. É algo que pode vir a acontecer… mas deixo pra pensar nisso amanhã!

Os olhos não mentem… são delatores: é impossível fingir o brilho, a altivez, a alegria, a tristeza. Todo sentimento se esvai a partir dele, mas o que atribui brilho a eles?

Sem muito pensar eu digo: minhas mãos! Por quê? Bem, elas me oferecem o mundo que invento aqui dentro… em movimentos frenéticos, imitam os movimentos da aranha, urdindo a trama, tecendo essa narrativa que acontece primeiro em minha derme, que acalenta a loucura de Dionísio e, deixa tudo acontecer primeiro… cabendo as mãos, a posteriore, transformar tudo em lucidez, sendo uma maestrina sensível capaz de dar asas a minha imaginação…

Nunca fui boa na arte de tecer meias, colchas… não sei unir fios, mas desde pequena, meus dedos souberam decorar as letras do teclado…  primeiro numa velha Lettera e, mais tarde no barulhento teclado IBM. Hoje, se divertem passeando por silenciosas teclas que externam realidades minhas… não fossem minhas mãos, eu seria completamente silenciosa! Quem me conhece sabe, não sou dada a arte do tagarelar, falo pouco – quase nada – nem mesmo se chamada à fala…

Minhas mãos, pelo contrário, de imediato incorrem em sonoros discursos: fazem surgir um fim de tarde com calçadas para os pés, mãos dadas… e, sombras a frente do passo! Descontinuam o que resta do dia, fazendo a noite ser um véu fino e lúdico sobre a cidade e seus fantasmas antigos… Elas, as minhas mãos, interpretam o mundo enquanto substancia que se prova em sabor e aroma…

Elas fazem de mim esse ser impossível… Sou outra. Nenhuma… tantas! E sigo aqui, sem sair de casa, mas indo percorrer inúmeros mundos, tudo idealizado em pequenos movimentos de dedos que se exibem em formatos pequenos: “dedos de pianistas” dizia C… as unhas já não crescem como antes, não porque não querem e, sim porque não deixo… não lhes dou cores porque minhas mãos preferem o tom natural de seus contornos. Combinam-se em ranhuras, nervuras…

Às vezes alongo os dedos até estalar as juntas… passo creme. Observo meu traço com suas veias verdes a exaltarem-se. Me reconheço em cada risca que dizem, por aí, ser do coração, da vida, da memória… Pouco ou nada sei sobre isso, porque certo mesmo é que são meus traços, minha história, inventada ou não e, são elas, a assegurar o brilho que dos meus olhos…

E você, o que faz seus olhos brilharem?

Lentidão dos vapores pelo mar…
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila
(…)

Álvaro de Campos
pág. 56

junho catarina

 

Junho chegou… mas em cima da mesa, percebi há pouco, maio ainda diz seus imprevisíveis dias, talvez porque os últimos dias de maio tenham me arrancado da pele, lançando minha matéria dentro de uma espécie de realidade entre mundos.

Eu sempre digo que maio é o mês das trovoadas, mas dessa vez foram poucas e, as que se precipitaram junto a paisagem foram "quase" inaudíveis… dialogava "lua de papel" em desacertos, como de costume, quando a tarde despiu-se de si mesma, deixando a noite cair feito um véu! Estava distraída, ausente do tempo e espaço, não dei pelas sombras, apenas pelo som opaco, sem força ou vontade. Parece um som distante, quase um eco a esbarrar nas figuras a frente… ao pensar acerca disso aqui nesse meu novo canto de mundo, cheguei a conclusão de que, talvez, o excesso de barulho em minhas entranhas tenha abafado o som das nuvens…

Fui de zero a cem em poucos segundos… não apenas uma, mas centenas de vezes… e posso afirmar com estranha certeza: não é fácil despertar quando o sonho é bom, mas é impossível quando o que se impõe é um pesadelo.

Em suma, acordar é sempre difícil e, para muitos de nós, a cama tem aquele conforto que nada mais no mundo oferece, o travesseiro parece sempre amigo e sincero, sempre disposto a reflexões lentas e modorrentas… é sempre bom ficar um pouco mais, alguns segundos que se transformam em horas inteiras… Talvez por isso, junho seja o mês do depois, mas nisso reside também um problema, já que a vida é sempre agora!

Resumindo: acordar é difícil porque ao abrir os olhos vem sempre a pergunta: o que acontece depois?