Noturnos,

 

missivas
São Paulo, dentro da madrugada e seus espaços seguros

Caríssima I.

Pela primeira vez, escrevo-te… as linhas surgiram durante o nosso diálogo pequeno, entre janelas, que me levou, imediatamente ao encontro de duas senhoras que povoaram minha infância. Eram irmãs, vizinhas e tagarelas. Abriam suas janelas para as ruas, todas as manhãs, para fazer o que mais gostavam: falar da vida alheia. Eu acenava para elas com minha mão direita e seus cinco dedos pequeninos. C. não se dignava a tanto. Odiava as “velhas alcoviteiras”. Eu, enquanto menina de meio metro – se tanto – achava as duas engraçadas, mas acho que eu era a única na rua a me divertir com elas.

Escrevo-te em meio a lembrança, a saudade e a vontade de tecer missivas, coisa que há tempos não faço. Prometi a mim mesma, preencher cinquenta envelopes. Não cheguei nem mesmo a metade… não foi abandono. Foi aquela maldita de deixar para fazer depois de todas as outras coisas. Acabamos não fazendo o que mais gostamos… não gosto quando isso acontece! Mas ainda há tempo, quem sabe esse seja um ensaio, provocado por esse nosso diálogo “entre janelas”…

…escrevo-te ao som dos pássaros, que anunciam a primavera, dentro da madrugada. São sonoros e alegres… fazem festa na copa das árvores, que norteiam as Alamedas. Ainda é inverno e as noites estão frias, propicias ao vinho e a xícaras de chá, diálogos, cobertores e páginas de livros… não tenho lido quem gosto, apenas o que chega para os projetos da Scenarium. Nem sempre agrada. Nem sempre conforta, mas leio até os olhos cansarem e busco conforto em qualquer coisa alheia. Eliot sempre fala comigo, em seus versos de “primeira hora”…

Não saberia dizer-te de onde vem o canto dos pássaros – esparramam-se por todo os cantos – afunilando em mim… sei apenas o som e seu sabor agradável que, resulta em reclamações insólitas de certos humanos, que querem silêncio, mesmo vivendo em tumultuadas metrópoles. Silêncio em São Paulo? Existe sim… quando as luzes se apagam e tudo se acaba. É uma espécie de ode ao fim…  o apagão da cidade. Há um grande barulho. Um estrondo… humanos contrariados, obrigados que são… a desligar-se também, bradam em alto e bom tom o medo que a escuridão causa neles… afundam-se em si mesmo, permitindo o silêncio: das ruas, casas e, todos os lugares – como se a civilização que conhecemos, simplesmente acabasse também. O céu se aproxima, as estrelas se exibem e, por alguns minutos tudo se mistura em tempo e espaço.

Não sei se gosto… confesso. Nasci para o tumulto dos dias, das horas. Gosto dos barulhos insólitos… todas essas coisas perfazem o mundo em que habito. Quando me afasto, não sei acontecer. Não sei nem mesmo o que sou. Acho que não existo. Me sinto junto a janela, espiando uma realidade que não me pertence. Me sinto em igual condição daquelas senhoras… sem alegria própria, dependendo das coisas que chegam…

Gosto dos humanos em movimentos desorientados pelas ruas. Das tormentas em forma de vozes deixando junto a mim, trechos de diálogos que o meu imaginário costura. Gosto, sobretudo, dos tons que se sobressaem quando tudo é caos, porque tenho aqui dentro, a insana sensação de que, posso organizar tudo a minha maneira, como se fosse eu um anjo malvado a unir linhas de um destino, que existe apenas para ser experimentado…

Fico por aqui, com os pássaro e a alma mais leve, sinto o coração pulsando em todos os cantos do corpo – por hora na ponta dos dedos – menos onde deveria, dentro do peito.

Bacio

L.

      “Nós somos os homens ocos
         Os homens empalhados
         Uns nos outros amparados
         O elmo cheio de nada. Ai de nós!
         Nossas vozes dessecadas,
         Quando juntos sussurramos,
         São quietas e inexpressas
         Como o vento na relva seca”

- T.S.Eliot

Naquele tempo eu não escrevia pra mim…

“e são como pétalas
e são como bombas”

Daniela Delias

 

Deixo meu corpo se acomodar no sofá… fecho os olhos e, tal como um livro, viro as páginas de minha mente — uma por vez… O tempo do colégio se precipita em minhas falanges, dizendo suas ironias. Naqueles dias, eu era — segundo as outras — "a santa”, denominação comum da que não beija-não-toca-não-se-espalha-não-se-deixa-levar-pela-moda-não-faz-parte-do-bando-só-fica-no-canto-e-passa-de-ano…

Aquelas meninas se consideravam ousadas-espertas-afoitas… vestiam as melhores roupas, exibiam os melhores sorrisos… e eram, por muitas garotas, invejadas-reverenciadas-imitadas. Os meninos mais bonitos da escola as escolhiam para desfilar ao lado deles e elas podiam escolher, dentre todos, o que melhor celebrava suas euforias…

Para elas, eu era apenas a menina quieta-sem-graça-figura-sem-pintura-na-cara-sem-roupas-da-moda-e-sem-modos-de-menina… quando passava por elas, ouvia os "risos de orelhas" florescendo pelos cantos e o adjetivos muitos, cantados em euforia aguda, dizendo-me, entre outras coisas, "santa", com rimas pobres e sentido pouco.

Mas, afirmo, eu nunca fui santa… apenas não era igual às outras!
Eu era a menina para quem não se olha — silenciosa — quando muito, espia-se os movimentos incomuns, condenando-os… eu não me misturava, por preferir a quietude dos meus pensamentos, as muitas ilusões das páginas dos livros que levava comigo e, o savuafer das palavras que alinhavava, primeiro em minha mente e, depois nas páginas de meu velho caderno vermelho, que trazia na capa a palavra: "secrets".

Ela era escrita em dourado para propositalmente denunciar aos olhos alheios — imersos em curiosidades — certos mistérios, por mim inventados e deixados em suas páginas dia após dia… eram agulhas a furar os olhos daquelas meninas que, embora negassem, desejavam conhecer o que era segredo meu. 

Naquelas páginas… escorria o sangue das virgens. Vertia o desejo dos afoitos. Rasgavam-se lábios inquietos. Apalpavam-se as ausências de vergonhas. Sangravam os dissabores dos injustiçados. Afogavam-se todos os desejos da pele pulverizada por  tão pouca idade… sendo tudo figura inventada a partir das coisas que chegavam aos meus olhos. Não era ficção… era realidade, obviamente: apimentada.

Meu olhar sempre foi severo com as imagens que tragava e, meu imaginário agudo sempre se mostrou disposto a exagerar nas premissas capturadas. Dentro de mim, um demônio afoito existia em segurança… descobrindo os espinhos de uma rosa para furar os dedos alheios e ver, com algum prazer, escorrer o sangue dos corações sem sinceridade alguma e das almas imersas em ironias.

Eu escrevia o que via… urdindo sem cuidado algum minha trama favorita.
Elas não sabiam, sequer imaginavam, que naqueles dias eu não escrevia pra mim… celebrava o que não era, mas podia ser, sempre que alguma coisa me tocava. Eu era palavra azul no fundo branco… acontecendo dentro – em silêncio – acometendo em metáforas…

Foi com um sorriso melindroso nos lábios que meu mundo virou um nó a ser desatado por elas. Exposto aos olhos espertos e às mãos astutas… reviraram páginas e mais páginas às pressas. Descobriram tudo. Incrédulas! Choraram a indecência das falácias, trocaram farpas umas com as outras… e, devolveram o que não lhes pertencia…

Não disseram uma única palavra, embora seus olhares — réus confessos — conclamassem em alto e bom tom — todas as vezes que me alcançavam — os insultos que a boca gostaria de proferir… senti, durante dias, a faca a rasgar minha pele!

Contudo, permaneceram em silêncio, por ser tudo que restava a elas, figuras indômitas.  
Todas Santas, igualmente tolas! Iguais umas às outras… nunca souberam que, na última página do meu caderno, eu escrevi, como profecia que se cumpre, em vermelho: "no more secrets".

 

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman

Chá de hortelã com gengibre

cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania,
nós os dois sozinhos no mundo.
tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
descias numa vertigem a escada
a dois e dois, arrastando-me
através de húmidos lilases, aos teus domínios
do outro lado, passando o espelho.

Arsenii Tarkovskii

catarina 19

 

 

 

 

 

 

Amanheceu mais uma segunda-feira em mim… com suas cores frias e, seus movimentos contraditórios. Para uns é desconforto, enquanto para outros é apenas o dia seguinte… tirei alguns livros de poesia da prateleira, enquanto a água fervia na chaleira. Mário de Andrade. T.S.Eliot e Emily Dickinson. Leitura entre lençóis, que se repete, antes de o despertar acontecer — ainda nas primeiras horas — na companhia de uma xícara de chá de hortelã com gengibre.

Lembrei-me — enquanto devorava as linhas de Dickinson — do meu primeiro contato com a poesia, feito através de um livro de capa verde, sem muitas páginas, em plenos anos oitenta.

Não conhecia, naqueles dias, os malditos rótulos empenachando os versos ao barroco, clássico, concreto, moderno… era apenas poesia em linha reta e os poetas eram, sob minha perspectiva, pessoas encantadas com olhares alados. Tinha em meu íntimo a ideia de que esses senhores e senhoras viviam da constante alegria das primeiras vezes. Olhando o mundo como se a infância fosse por eles preservada, permitindo assim o inusitado… o encanto.

Eram diferentes dos demais humanos, incapazes de se surpreender com a chuva no meio da tarde — da qual sempre reclamam — de um dia de sol ameno em pleno outono ou do instante exato em que caem os primeiros flocos de neve. Os poetas, pra mim, viviam em estado constante de maravilhamento.

Passados alguns anos — ainda dentro da mesma década — quando já entendia um pouquinho sobre essas questões literárias e seus muitos rótulos, tendo lido uma dúzia e meia de livros… passei a acreditar que os poetas eram pessoas comuns… iguais.

A única diferença existente de fato era que eles tomavam notas, como se o fizessem para evitar o esquecimento… conscientes de que a memória se apaga.

Partindo dessa premissa, deixei de lado o impossível. Entendi que o poeta envelhecia, morria e, acabava esquecido dentro de um livro, sendo resgatado por um ou outro, apenas. Não nego. Eu me aborreci com essa premissa, preferindo o estado anterior das coisas, quando eram seres incomuns, acima do bem e do mal…

Então, um dia, dei de escrever…
Não sei bem como foi que aconteceu, mas me lembro de olhar o mundo a minha volta e perceber tudo de novo: cores, aromas, movimentos.

Havia dias em que as coisas se precipitavam e ficavam ainda mais intensas e, eu precisava torná-las minhas, como se, ao deixar de cumprir esse ritual, algo se fizesse perdido… e talvez para todo o sempre.

Descobri, de maneira simples, que a escrita não era para os outros. Era pra mim mesma. Que a palavra escrita era meu grito e a folha o meu amigo leal e imaginário… não, eu não me tornei poeta. A poesia pra mim é figura alheia — quando muito, posso dizer, minha escrita poética… mas não ouso costurar versos uns nos outros.

Mas entendi finalmente o poeta… homem que nasce, cresce, envelhece e morre. Homem que não quer ser ouvido, muito menos lido… quer apenas ser esquecido em seu canto de mundo. Quer ser deixado em paz para sorver seus dias, degustando sua generosa fatia de realidade…

E o que chega aos olhos do outro não é poesia, é a fala… um diálogo entre os muitos “eus” que o poeta inventa por saber perceber as estações do corpo, da mente e da alma…
A palavra empenhada num momento único em que se reconhece que o que é memória apaga, acaba… é seu legado, testamento, confissão…

O poeta passa a vida em movimentos íntimos, estranhos aos outros, singulares a si mesmo e, ao deitar sobre o papel a sua voz mais severa-aguda-íntima, confessa o que não é ousadia… é dor de saber que o tempo passa — por ele, inclusive — e não para apenas porque ele escreveu seu verso. É assim e sempre será, independente do atrevimento sonoro junto à folha do papel!

 

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman

À noite é quando tudo se junta dentro de nós,

"como se eu pedisse uma simples Esmola,
E, em minha mão surpresa,
Um Estranho prensasse um Reino,
E eu, confusa, suportasse —
Como se eu pedisse que o Oriente
Trouxesse a Manhã, para mim —
E ela abrisse seus Diques de Púrpura,
A me espatifar com Aurora!”

Emily Dickinson

 

…o relógio no pulso insiste, diz as horas — uma hora de uma tarde inquieta – atravesso a rua, tenho um mapa mental dos lugares por onde costumo passar, sempre pela esquerda, em frente, sem dobrar esquinas… cruzo a Avenida com seu nome oriundo na língua tupi (ypi-ra-ouêra) a dizer — de acordo com os símbolos dessa gente já extinta: "pau podre ou árvore apodrecida"…

Tudo por aqui se resumia a um grande pântano… meus olhos — confesso — não alcançam esse cenário pitoresco. Falta-me memórias para certas coisas, falta-me lucidez para o que não provei. Então, em silêncio, com as mãos nos bolsos da calça e olhos pregados ao chão, indago: “como é um pântano?” e tudo que tenho em mim é uma resposta de palavras, sem imagens: "uma região alagadiça"…

Sigo para o ponto do ônibus, onde, em meio a estranhos, espero pelo 5451-10 com seus movimentos conhecidos, por entre casas, prédios, praças e, parques… a cidade com seu cinza e pouco verde — seus excessos — gente por todos os lados se acotovelando nos espaços desorientados, inventados por qualquer um…

Desço no último ponto da Brigadeiro Luiz Antônio… a dois passos da Paulista, essa via projetada por um uruguaio que ousou pensar o dia seguinte: “essa via irá te conduzir ao teu futuro” — não alcanço as intenções do homem por trás da frase, mas é assustador ver as fotografias antigas e, inevitavelmente compará-las com o que tenho para os olhos hoje…

Vou em frente… Andrea Bocceli vai comigo, dentro dos versos de uma canção que trago comigo, dando ritmo, aos meus passos! Atravesso a rua, mãos no bolso… os olhos se espantam com o vazio de um terreno onde máquinas terminam o trabalho. Um novo estacionamento — lamento — o vazio do lado de fora alcança — com suas verdades em pares — o lado de dentro…

Busco na memória alguma coisa onde se apoiar… recordando dias inteiros.
O olhar nem sempre guarda o que visitamos todos os dias, nem poderia!  Cada dia há algo novo a nos abocanhar…

Mas quando chego à esquina seguinte, encontro o aconchego que tanto procuro. Reconheço os contornos desse cenário que insiste entre esquinas. Recebo abraços, ganho afagos e, minha bebida favorita. Um Latte bem feito, apaga todos os desconfortos. É só me sentar e fazer essa pausa, que faz parte do ritual que repito dia após dias.

Recordo a mim mesma, esse personagem que sou.
Disseram-me outro dia, que o café, é uma espécie de placebo para minha escrita. É tomar e sentir o efeito imediato: a escrita acontece em precipitações naturais…

Mas e o lugar? Nesse mesmo canto onde aconteço hoje, escrevi muitos textos, inventei vidas, costurei universo. Exatamente aqui, nessa mesa que abriga o antigo e o moderno… Acusando uma história, que conheço por te-lá investigado! Talvez, por isso, me lembre naturalmente as páginas desse livro, que durante muito tempo, foi o meu favorito e, hoje, é apenas mais um livro na prateleira, com suas frases a dizer-me o mar… O qual aprecio apenas em memória. Com seus sons de ondas, indo de encontro as pedras, dentro da noite.

E a noite? O que seria a noite? Um veneno — que bebo com gosto — a fazer efeito em minhas veias?

Sempre que, me sento aqui, para escrever, acontece dentro de mim, uma espécie de noite inteira. Anoitece… e o ponto final é esse despertar, com o sol a dizer-se em cores, temperatura. Forma sem fôrma!

Deve ser por isso que misturo os dias, embaralhando-os. 
Às vezes, me perco do calendário, não sei se segunda, terça, ou quarta… sei apenas a noite e, confesso que, há tempos, rezo para não amanhecer tão depressa!

 

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman

Lua cheia, inteira… de papel!

 

IMG_20140716_022307

 

 

 

 

 

 

 

…fui passar uns dias com um punhado de palavras “minhas” e, terminei por misturá-las, não sei se por assim querer ou não… às palavras alheias.

Nos espaços de minhas distrações, vivi essa paixão… me vi desejando aqueles olhos belos, profundos, intensos e, precisei agir. Deixar tudo de lado e ir ao encontro dela… trazê-la para mim – acomodá-la em meu peito, deitá-la em meu colo – amá-la como merecia e, desse amor, dias depois… nasceria uma história, porque todas as coisas avançam, partindo sempre de um ponto comum…

Nos misturamos tanto que, em determinado momento, não sabíamos onde começava uma e terminava a outra… satisfeitas e extasiada, na manhã de hoje nos despedimos. Acenei a distancia, com os olhos maritimos… cheios, tal e qual a lua e sua beleza inquietante. Olhava pela janela. Ela lá embaixo, junto a rua, cabisbaixa, mãos nos bolsos da calça – somos tão parecidas e tão diferentes – sendo apenas uma sombra junto ao chão… a escorrer, se perder e nunca ser…

Hoje quando toquei sua pele, foi ao mesmo tempo, a primeira e a última vez… e, ao fazê-lo, pensei em um poema de Maria do Rosário Pedreira e fiquei ali balbuciando seus versos "nada entre nós tem o nome da pressa. Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas"…

Lembrei suas falas, as mais densas e também as mais amenas. Seus gestos ariscos, a cor de seus cabelos no começo. Sua forma sem fôrma. Seus gostos… o poema de Eliot que ela repetia, sabendo ser coisa minha. Nos enroscamos como num beijo em que a língua procura por caminhos dentro das masmorras da boca…

Recordei nossas brigas infinitas… ela querendo mais e, eu oferecendo sempre menos, contendo seus movimentos, evitando certos passos. Ela insistindo em ser vento, tempestade… sempre disposta a altos voos.

E, agora que ela vai ao longe… morro!
Acabo e, não sei mais quem sou, por isso voltei a escrever.
Ainda é julho lá fora… e aqui dentro também, faz frio eu poderia morrer em paz, mas a vida continua, como disse ali em suas linhas a vida é de uma crueldade infinita e insiste pela manhã”.

Enfim, preciso contar os dias e,
esperar pelo dia 07 de agosto!

Solombra e, sua sequencia nada natural de poemas…

Cecília e café

 

 

 

 

 

 

 

 

A madrugada – depois de um diálogo com A. – me levou até a prateleira numa evidente tentativa de compreender ciclos e presságios. Não é nada fácil lançar-se no abismo, dar o passo seguinte, quando não somos nós que estamos em queda – e sim o outro… deixar-se cair é uma aventura, primeiro para  a mente e, depois para a alma! E nesse caso, a poesia é o fio condutor e, Cecília Meireles oi meu timoneiro…

 

Vens sobre noites sempre. E onde vives? Que flama
pousa enigmas de olhar como, entre céus antigos,
um outro Sol descendo horizontes marinhos?

 

A poesia não entrou em minha vida por acaso. C. a introduziu lentamente através de suas leituras, que sempre me alcançavam nos meus dias de menina. Cresci tropeçando em poetas, esbarrando em poesias, ouvindo versos dentro das horas e suas rotinas de ritmos.

Tudo isso, obviamente contribuiu para que a vida do lado de fora, fosse, aos poucos escorrendo para dentro de mim com uma singularidade única… a realidade chegava aos meus olhos com suas figuras múltiplas, deliciosamente divididas entre céu e mar. As ondas caminhavam até a costa, onde resvalavam em pedras onde o cais se dividia em boas vindas e despedidas… As gaivotas sobrevoavam a paisagem com seus sons agudos, agradáveis aos ouvidos… zombando da nossa condição de humanos com os pés presos ao chão, incapazes de se lançar no infinito azul… E, em fila, os telhados vermelhos se sobrepunham um sobre o outro até a minha janela… As ruas estreitas “carrogi” desenhavam seus caminhos junto aos meus pés, afastando-me daquele lugar conhecido… os lugares se ofereciam a mim na medida exata de meu crescimento.

Cecília Meireles foi uma das poetas que eu descobri dentro da infância, através de A. nas aulas particulares que passei a ter depois que descobriu-se a minha incompatibilidade para com uma sala de aula… foram dias produtivos em que tudo era precipitação natural, medida de acordo com os meus impulsos.

Enfim, conheci Cecília enquanto poeta e “navegadora”. Soube de sua obsessão pelo mar, pela solidão e anos mais tarde, pela morte…  tudo devidamente fragmentado como se a realidade fosse assim também.

Solombra” cuja pronúncia me encantou de imediato, chegou bem mais tarde, quando eu já era outra…  ao contrário do que muitos pensam – solombra – não é um livro e, sim um combinado de poesias com suas sonoridades muitas. Os poemas estão publicados no livro que exibe na capa o título dos poemas,  exatamente como a poeta os concebeu e, mesmo assim, é uma espécie de “navegar” sem bussola, mapa ou constelações… restando apenas ao corpo ir.

A sequencia de poesias nos obriga a respirar fundo, sentindo os espasmos, e se deixando tocar por essa navalha disposta ao corte, mas eu não percebo essa “sequencia obrigatória”… sei apenas o tema por trás dos versos: a morte.

A palavra sombra é uma evolução de “solombra”…
É como se tivessem tirado o peso da palavra, deixando-na mais simples, menos poética… bem menos aguda. Pequena e encolhida. Incapaz  de denominar essa região escura que se forma devido à ausência parcial de luz… Cecília Meireles parece se antecipar a morte da palavra, preservando “solombra” – evitando assim o seu completo desaparecimento.

Volto para a realidade, refeita – mas ainda sem certezas – precisando encontrar um ritmo para o meu “trabalho” árduo de encontrar o que ainda é ausência no combinado de poemas que leio e re-leio dentro das horas que se despedem de mim feito a sequencia de poemas de Cecília, que de alguma maneira resvala no combinado de palavras que entregaram-me para compor a série “exemplos”. Um poeta sempre herda a “poesia” alheia!

 

É que morremos – e num lúcido segredo –
sabendo, ouvindo – atravessados de evidências –
que somos de ar, de adeuses de ar… E tão de adeuses
que já nem temos mais despedidas.

minhas melhores histórias estão escritas ou inventadas

IMG_0891

 

 

 

 

 

 

 

…ela me disse tão pouco. Duas ou três palavras apenas… mas foi o bastante para roubar o meu sono e, me deixar dentro da noite, a deriva em minhas próprias emoções! 

Marcamos um encontro para o dia seguinte… ali mesmo, entre esquinas — como sempre — não temos lugares para nós duas nessa cidade porque não somos duas; somos coisa alguma… uma espécie de papel de parede, colado de alto a baixo apenas para esconder dos olhos o que é memória — coisa alheia…

Nos esbarramos em tempo e espaço, às vezes deixamos com a outra um olhar, um abraço… mas, às vezes, vamos embora sem nada deixar uma com a outra, porque tudo é pressa para sua alma e, só de pensar nela com suas linhas em mãos, todas as horas fogem de mim… e eu não sei dizer pra onde vão.

Ela é tão inquieta quanto esta lua minguante, que parece querer se acabar, antes mesmo de o calendário dizê-la “minguante” junto ao céu de junho… vejo seus olhos riscados como um traço pela metade — uma meia lua, meia taça, meia hora — metade que ela mesma vive recusando a conclusão… preferindo-os assim mesmo, como são: inacabados.

E, dentro da noite, com avessos tantos, ela inventa uma realidade, que cabe apenas em seus moldes… olha pra fora, através das frestas da janela, que mantêm fechada para não saber-se “Cecília” e, abusar do mar que ouve do lado de dentro!

…segundos depois, o sono tenta convencê-la de que a noite é para os outros — e não para ela… mas em seu íntimo, ainda existe um naufrago a dizer que a noite são verdes ondas que nunca chegam a praia, perdendo-se dentro do mar, a caminho de nada… ali, os ventos que os ares não fabricam gritam sonhos, onde uma realidade é o que se inventa.

E ao despertar, ela se vê com a mão estendida e, seus versos pedindo… o que ela nem sempre entrega!
Me disse tão pouco, nada, mas era tudo o que tinha e agora cabe a mim reinventá-la.

Meu personagem favorito,

— Não posso fixar a hora ou o lugar. Isto já foi há muito tempo.
Eu já estava no meio e ainda não sabia que tinha começado. >> Mr. Darcy

elizabeth bennet

Abro o livro, primeira página… a narrativa me apresenta essa figura que nada sabe de mim, mas eu a sei como se fosse uma pessoa que atravessa o caminho durante um passeio por ruas, calçadas, esquinas, outra rua e, mais outra. Seu tempo, contudo, é outro… isso se evidencia na maneira como a autora a apresenta. Jane foi feliz em suas escolhas… não a descrevendo de imediato, o que nos permite ir conhecendo-a aos poucos, numa lentidão típica de quem gosta de saborear as ousadias de um personagem e nele, se identificar como sendo um igual ou alguém próximo…

Assim a sabemos jovem e apaixonada pelo mundo a sua volta, com uma personalidade marcante, o que julgo ser fruto de sua convivência com o pai… seus embates com o jovem forasteiro — que surge na história apenas para realçar suas características — são eloquentes e repletos de significados. Ela conseguia se impor, mesmo sendo para a época um desafio, afinal as mulheres não tinham voz e, talvez por isso, ela cometa erros de julgamentos, impedindo-a de perceber que o homem a sua frente era reservado e não orgulhoso como suas falas dão a entender “nem se ele fosse o ultimo homem na face da terra eu dançaria com ele” — a recusa imediata nos faz perceber que suas palavras são na verdade um presságio… fosse diferente, talvez ela não fosse a personagem que é aos olhos dos milhares de leitores que, como eu, se apoderam das páginas de "orgulho e preconceito"…

Gosto, sobretudo, quando diante do erro de julgamento, Elizabeth Bennet se encolhe, evitando inclusive o olhar de Darcy. Tímida, como ainda não tinha se mostrado na trama até então e, já sem a segurança de antes, Lizziê chega a temer seus próprios passos e, numa sociedade onde bons casamentos são o desejo de toda e qualquer moça, ao saber-se diante da enorme casa  daquele que é, sem dúvida alguma, o personagem mais apaixonante da literatura inglesa, não é de espantar, que ela tenha engasgado… no que considero ser a melhor cena escrita por Jane Austen. Imagino sempre que passo por aquelas linhas,  que Elizabeth Bennet tenha ouvido a própria voz recusando ao homem, a quem seu pai mais tarde afirmará "ele é um tipo de homem a quem não se deve dizer não" – mas ela o fez, corajosamente, dirão uns… talvez se não existisse a recusa, a história tivesse outro rumo. É apenas confabulação, afinal, a escrita aí está para o nosso deleite.

E o fechar o livro, pela centésima vez, só consigo imaginar uma estranha felicidade de almas, que só existem em meu íntimo e, por ser assim são minhas, mas um dia, pertenceram a Jane Austen para nunca mais, é claro…

 

“Tenho a certeza de que é generosa demais para fazer pouco caso
dos meus sentimentos. Se os seus são ainda os mesmos
que manifestou em abril passado, diga-o imediatamente.
Minha afeição permanece inalterada; basta porém
uma única palavra sua para fazer com que me cale
para sempre.” >> Mr. Darcy,

 

* esse texto foi escrito há tempos para compor as páginas da revista plural da qual sou editora
e como figura severa que sou, não o aprovei para publicação, mas o deixo aqui
por puro capricho e sinal de protesto contra mim mesma!

Certe Cose

mudanças

 

 

 

 

 

 

 

Meu primeiro rascunho, no sentido de produção literária – estranhamente – aconteceu em sala de aula… o lugar mais impróprio para essa figura que, de certa forma, se deixou forjar dentro daquele espaço irregular com suas cadeiras em fila, um quadro negro e aquele espaço mal definido como sendo uma espécie de tablado que fazia dos professores que ali desfilavam, uma espécie de ator, a encenar suas performances equivocadas.

Eu era uma daquelas meninas que ficam no canto, desejando não ser notada, passar despercebida. Cumprindo o papel de sobrevivência dentro do esquecimento que sempre me pareceu infinitamente poético. Pitoresco… sempre soube que ser sombra no chão era muito mais atraente que ser um holofote a se projetar por cima das figuras inertes – alheias…

Como nunca usava meu caderno de geografia porque P. preferia os chatos livros didáticos com seus escritos enfadonhos e mal elaborados… pude ocupar aquelas linhas perfeitas com o que considerava ser uma espécie de romance policial baseado na menina loira que vivia a enrolar os cabelos entre os dedos e as mascar goma com a boca sempre aberta,  ocupando a fileira ao lado. Ela tinha fala azeda. Repetia sempre o mesmo diálogo e escrevia dúzias de vezes o seu nome, tomando o cuidado de adicionar o sobrenome do jovem por quem se dizia apaixonada. Ele era mais velho, fazia parte do time de futebol do colégio e, para ele, as garotas eram exatamente como uma goma de mascar…

Aprendi dentro daqueles dias – hoje eu sei – a domar a figura alheia, a desbravar a anatomia, e a compreender o outro como sendo um reflexo para o dia seguinte… aprendi a ser outra – uma espécie de esponja – que a tudo absorve…

O tal romance, foi lido pelos colegas de escola após ser surrupiado… dias depois, após vagar de mão em mãos, acabou na mesa de minha professora de gramática, que o entregou para o diretor do jornal do grêmio, que o publicou em capítulos durante as semanas seguintes…

O anonimato, ao qual eu era grata, se evaporou… e eu me vi, imersa na realidade de olhares atentos a todo e qualquer movimento feitos por mim. Foram dias de fúria… todos queriam saber qual seria meu próximo passo. Sobre o que e quem eu escreveria.

Por causa de “certe cose” – título do tal romance – acabei “convidada” a escrever uma peça teatral para a festa de final de semestre no colégio –, com a prerrogativa de não poder refutar tal convite… entrei em pânico, e fiquei “doente”. Uma semana inteira em casa, sofrendo “tudo e nada”. Fiquei sem chão, sem mundo, sem mapas, em aspas, sem sossego…

Me amaldiçoei por dias inteiros…
Mas não resolveu. Não fui esquecida, tampouco abandonada em meus cantos. Não desistiram de minhas linhas… e, eu acabei por escrever dúzia de linhas, que foram exaustivamente ensaiadas e apresentadas numa noite de presenças… todas as cadeiras do auditório da famosa “sala vinte e um” foram ocupadas: pais, professores, alunos; menos a mim que tive "uma forte dor de cabeça" inventada no último minuto, que deve ser entendida como: "uma enorme vontade de ficar sozinha em meu quarto ouvindo Chopin sem que ninguém se lembrasse de mim"… soube depois que os aplausos se multiplicaram pelos espaços, sendo ouvido ao longe. Grande coisa…

Não participei – obviamente – me ausentei, alheia aquela realidade tosca e sem graça –, não sou capaz de dizer o que foi que escrevi… me lembro apenas da vergonha, do desconforto, do cansaço por sentir a atenção alheia cobrindo minha anatomia. Foram dias difíceis aqueles. Sofri o suficiente por uma vida inteira…

…e, no ano seguinte, escolhi cursar psicologia!

Diário das minhas insanidades, 8

Como se alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.

Flores da relva (leaves of Grass)
Walt Whitman

catarina 31

 

Acho que entendo porque Pessoa, enquanto Álvaro de Campos encontrou uma espécie de eco próprio nos escritos de Whitman – eu  mesma me vejo ali em suas linhas – percebo uma espécie de espelho a dizer-me certas “ousadias”… eu deveria dizer “verdades”,  mas essa palavra tem um estranho peso; por isso, não me agrada carregá-la junto aos meus lábios e tampouco detê-la junto aos olhos alheios…

Li “folhas da relva” de um fôlego só na manhã de hoje… o poema é imenso e imagino que a escrita tenha sido demorada. Talvez Whitman tenha levado uma "vida inteira" para escrevê-lo e isso é algo que eu posso imaginar com certa facilidade…

Há coisas que nos custam uma vida inteira: o olhar para o vazio, a idéia em ebulição, a folha de papel em branco, as primeiras palavras. Um rascunho riscado, remendado dezenas – talvez milhares – de vezes. O estranhamento… o abandono porque as palavras precisam de um tempo a sós… precisam de um tempo para maturar.

E nós precisamos nos esvaziar completamente até não sobrar mais nada de nós, em nós mesmos… então posso imaginar os muitos passos dados pela sua cidade. Sua dúvida quanto ao discurso. Sua incerteza quanto ao sentir. A reescrita. A fragilidade das palavras. A lentidão a discursar dentro e fora da pele… Posso imaginar o vazio diante da conclusão e a tentativa (insana) de dizê-lo “inacabado”…

Não é fácil deixar-se escorrer em linhas retas. Não é nada fácil sair das cavernas onde habitamos – em segurança – para ir ao encontro do outro –, expondo-se à luz de um olhar. Também não é fácil – dizer-se “pronto” – acabado, concluso… não é fácil inserir aquelas duas consoantes e uma vogal ao final de si mesmo. 

Porque a escrita somos nós mesmos a escorrer, como estivéssemos a rir, a chorar, a viver… tudo isso em um estado de estranhamento, em suspenso.  A escrita é esse silêncio a dizer gritos, uivos, urros dentro dos olhos alheios estando os nossos olhos fechados, mortos… porque depois da palavra empenhada, a morte é a única coisa que nos resta e, o pior, é não saber, que um simples poema, nos custou uma vida inteira.