No êxtase de um entardecer que não será uma noite*…

DSC_0130Eu sempre tive paixão por bússolas! Ganhei uma quando tinha seis anos — um pouco mais ou menos. Eu  sou péssima com essa coisa de idade. Sempre me perco em somas improváveis. Começo a contar e daqui a pouco, uma folha se desprende da árvore, um pássaro cruza o ar em movimentos magníficos de asas, uma farfalla se agita em movimentos incríveis — impossíveis… e pronto: lá fui eu para os ares…

Ops… enfim, eu adoro essa geringonça mágica — feito um relógio de bolso — que aponta o meu lugar favorito… para onde o meu instinto se volta, como se existisse em algum lugar do meu corpo uma espécie de agulha imantada a me orientar naturalmente assim que o crepúsculo se estabelece.

Fecho os olhos. Respiro fundo. Sinto os caminhos do ar pelo corpo… os aromas do chá futuro, na xícara. Os passos por calçadas imaginárias. Ouço aquela melodia antiga, conhecida e os dedos estalam no ar, se preparando para essa dança pelas teclas do notebook…

A bússola que me foi dada na infância… se perdeu em uma das muitas mudanças que fiz em vida. Não sei em qual década. Só dei pela perda ao ler um texto escrito por Mariana que me fez relembrar o objeto encantado… com sua agulha inquieta e seu maquinismo enlouquecido —  o que me fez pensar em minha escrita e sua oscilação.

A gente estréia no mundo das letras e precisa — como em qualquer outro segmento — de exemplos. Mas, nada é pior que tentar encaixar-se nos modelos existentes. Somos figuras únicas e o que serve para o outro, dificilmente irá nos servir, mas leva tempo para entender que temos que encontrar o nosso próprio Norte.

Quando criança, a minha escrita era livre, sem compromisso, pautada pela necessidade de dizer-se ao papel — que se oferecia ao toque do grafite numa espécie de passeio… em percursos de ruas com seus paralelepípedos bem assentados.

Conforme fui crescendo… os horizontes foram se expandindo e eu fui avançando rumo a outras direções-hemisférios — para bem longe de mim. Outros livros-autores-teorias… e fui aceitando todos os conceitos impostos. Algo se perdeu… se quebrou e não dei pela metamorfose que me transformar naquele bicho asqueroso (uma barata?) de Kafka. A bússola emperrou e o tal do Norte sumiu dos meus olhos.

Quando escrevi lua de papel… estava tão preocupada-ocupada em ser escritora, que me apeguei a todas as regras-teorias — possíveis e impossíveis. Não escrevi uma única linha em paz. Um livro inteiro… orientado por leste-oeste-sul — menos o Norte.

Percebi isso ao me debruçar em vermelho por dentro… e sua escrita solta-livre — sem compromisso com o mundo dos outros. Apenas eu e a história, as personagens — a bússola imantada a apontar o Norte — que sou.

E agora, prestes a completar quatro décadas de vida… é confortável apreciar-observar todo esse conjunto de vivências, consciente de que precisei me perder de mim, para enfim me encontrar e reconhecer o meu Norte.

 

 |* verso do poema a um poema menor da antologia de Borges  |

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sempre aos domingos…

sempre aos domingos

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…criei há alguns anos a newsletters ‘poemas de domingo’… uma espécie de folha caída na calçada, nas quais os olhos tropeçam e ficam. Eu sou aquela que sempre se abaixa e recolhe a folha que realiza seu último voo até o chão por onde passo, a caminho dos espaços urbanos aos quais pertenço. Gosto imenso de fotografar e enviar para alguém… em minha lista de contatos, porque é uma maneira de se fazer presente, convidando o outro para um passeio por ruas-calçadas-muros e casas com seus números impares e pares… pregados nas paredes da frente.

A idéia das newsletter era a mesma: partilhar com os amigos-leitores que me aceitavam em suas ‘caixinhas de correspondência’ — a poesia que ancorava em meus olhos.

Sou leitora de poesias desde a infância… o primeiro livro lido por mim, foi de poesias. Um pequeno, com capa verde e um punhado de poemas de Emily Dickinson espalhados por pouco mais de vinte páginas — foi o suficiente para me seduzir e determinar o ritmo do mio cuore e também da minha escrita, que transita livre pela narrativa poética.

Durante dois anos — inteiros —, dividi com uma lista de leitores essa correspondência-particular-coletiva. Foi bastante singular porque sou uma pessoa antiga. Não sou dada a multidões, tampouco a essa mania algorítmica que se espalha pelo ar, feito vírus. Eu gosto imenso do verbo pertencer. Sentar-me à mesa para um café no meio da tarde, ouvir a voz que me alcança… e dialogar impressões.

Gosto imenso de descobrir o outro, como no tempo das correspondências que começava com uma fina folha de papel… e, de repente, se tinha uma caixa repleta de envelopes com seus selos coloridos e todas aquelas histórias reais ou imaginárias.

Uma newsletter é isso… uma missiva-carta que você se propõe a receber e ler — abrindo uma brecha na realidade, para respirar e degustar de um novo-antigo-conhecido sabor… em pequenos goles.

Nesse ano — supostamente novo — decidi retornar com os envelopes e quem quiser me receber… avise-me, e aos domingos irei até você.

6 on 6 | Urban Art

Novo ciclo… andanças-olhares-passos-calçadas-lugares… a cidade, que sou e a que me recebe com sua arte inconveniente — para uns e outros —, que nem sempre alcança olhares — o outro lado da rua-viaduto-alameda. Às vezes, fica no reboco… prestes a despencar das paredes frágeis — história reinventada tantas vezes.

Baudelaire disse “as cidades mudam mais depressa que a alma dos mortais“… e sempre que saio às ruas, levo comigo essa frase… na pele — feito tatuagem… e, na alma — para manter o olhar atento-disciplinado e nada me escape…

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1 — gosto imenso das frases que surgem em meio ao caos da novidade urbana. É uma espécie de grito que ultrapassa a janela do ônibus e pousa em meus olhos-ouvidos. Eu grito junto — o mais alto possível — do lado de dentro e rabisco nas paredes da pele-corpo um verso ou outro:

“a rua ia gritando e eu ensurdecia”.

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2017-04-25 17.42.58

2 — gosto imenso quando a arte é interferência nos lugares… te olha de frente-encara e te diz um punhado de verbos que você não pode se recusar a conjugar.

“as persianas abrigam certas lúxurias”

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Escadaria do Mirante 9 de Julho - São Paulo

3 — preciso que meu passo esbarre na realidade, consciente de que seu destino é o imaginário… certas frases são pontos em meus mapas secretos, que só quem me lê, reconhece.

“Farejando em cada canto os acasos da rima
Tropeçando em palavras como nas calçadas”

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Biblioteca Mário de Andrade - São Paulo

4 — sempre existe a pergunta: o que é Arte? E até hoje não desenhei uma resposta possível-impossível. Não dá para atribuir um mísero significado sem deixar que algo se perca-desapareça. Mas, quando olho e algo gruda na retina e se espalha pela pele-amalgama… sei exatamente o que é Arte! E não dou a mínima para os contrários existentes no mundo dos outros.

“em cidades e campos, telhados e trigos
Exercito sozinho essa absurda esgrima”

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Rodapé... Portugal

5 — as entradas e saídas. partidas e chegadas ou apenas um ou outro curioso (como eu) que se inquieta com a palavra deixada no chão (sabe-se lá há quanto tempo). Nem mesmo é o idioma local. Talvez remeta aos construtores do pequeno edifício de quatro andares, com sua escadaria de madeira que range subidas-e-descidas.

“paisagem feita de um sem-número de vidas”

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Dos cenários que se reinventam, Berlim

6 — Gosto imenso quando todo o cenário é arte… uma espécie de pantomima. Tudo se forma-deforma-dissolve. Há tanto para olhar-provar-embriagar-sentir que a cada novo olhar, um novo elemento se exibe, te alcança e se perde…

“deem à cidade um pouco do vosso amor à paisagem”

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Participam dessa interação

Ana Claudia | Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega 

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Catarina coffee

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Eu não sou uma pessoa de fazer planos e desenhar listas para esse tal de ano novo. Não crio expectativas. Não faço promessas… tampouco me rendo a simpatias-rezas. Não como lentilhas. Não me visto de branco e definitivamente não solto fogos.

Sou aquela pessoa que passa a limpo seus conjuntos de vivências, apreciando tudo que se passou… de bom e de ruim. Gosto de folhear minhas alegrias-tristezas. Saber de minhas conquistas-derrotas. Tudo que ganhei-perdi-e-deixei-passar. Quem ficou. Quem se foi… capítulo por capítulo. E, sometimes, tento reescrever certos desfechos inconvenientes — antes de escolher um lugar para esse livro, na prateleira.

Quanto ao tal do ano novo… o trato exatamente assim: como se fosse aquele livro recém-chegado da livraria. Cheiro. Provo a textura das páginas. Aprecio a capa, a contra capa. Eu sou uma pessoa-leitora… que pertence ao hoje e espera pelo dia seguinte, com uma xícara de chá em mãos, sentada no canto do sofá… enquanto se espreguiça gostoso  segundos antes de começar a leitura da primeira página — capítulo.

Mas, dessa vez, resolvi brincar de medir os meus movimentos e tracejar algumas previsões para esse tal ano-novo, antes que ele caduque… vem comigo?

janela fechada

O ano de 2019… terá doze meses. Cinquenta e duas semanas. Trezentos e sessenta e cinco dias. Oito mil, setecentos e sessenta horas. Mais de quinhentos mil minutos e dezenas de milhares de segundos.

Serão cinquenta e duas segundas-feiras —  o meu dia preferido, na semana. E cinquenta e duas sextas-feiras — o dia favorito da maioria… mas não o meu. Haverá sábados e domingos… terças e quartas e quintas. E eu irei me perder do calendário em algum momento. Num desses muitos feriados prolongados, com certeza.

Teremos vários eclipses solares e lunares… um novo fim-de-mundo que não se cumprirá. Muitas teorias da conspiração e quatro estações do ano: outono-inverno-primavera-verão —  ao menos no calendário. A Natureza anda cada vez mais arisca com os humanos e ela tem os seus motivos…

Teremos dias de chuva e muitas horas de sol. Treze lunacões e a cada novo ciclo —  um novo começo e consequentemente um novo fim.

O ano será regido por Marte, Ogun e pelo Porco — no horóscopo chinês, que tem outras medições e não se rendeu aos romanos e suas insanidades cristãs.

Os começos e recomeços, no entanto, não dependerão da meia noite, quando espocar os fogos e as taças colidirem umas com as outras. Dependerá exclusivamente das nossas vontades que resultará em passos dados depois da Autora — ou não. Despertar não será fácil e haverá dias em que o travesseiro será seu melhor amigo-amante-cúmplice.

Seremos o ponto de chegada e partida para desejos, amores, conquistas, derrotas, frustrações, alegrias, tristezas… e absolutamente tudo passará por nós. Não tem como evitar… o tempo que ficará, no entanto, dependerá dos nossos gestos e ritos.

Alguns de nós farão muitas promessas… que não serão cumpridas. Muitos de nós terão um sem-fim de ideias, sonhos, projetos… e em algum momento acordarão dispostos-animados e prontos para fazer tudo acontecer. Alguma coisa será realizada… e muitas ficarão pelo caminho.

Haverá nascimentos e mortes. Coisas que não farão o menor sentido e outras que farão tudo valer a pena. Motivos para desanimar… não faltarão! Mas, certamente, como o Universo a tudo compensa, haverão momentos incríveis-surreais que farão crepitar o cuore.

…e depois de amanhã será dezembro de novo e a gente vai enfeitar a árvore, preparar a ceia, se embriagar e escrever votos de felicidades para os amigos, mais próximos-distantes e fará as somas de tudo que foi e não foi.

E as conclusões serão as mesmas… mas, vamos nos convencer que o importante é celebrar o novo e preservar a esperança! Por que é preciso acreditar que algo de fato é novo e tudo pode ser diferente… ainda que seja apenas o ano, essa soma humana.


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Mas, o importante é ter consciência, que seja como for, a mão que detêm a pena… é que escreve a sua história! Então aproveita que o caderno é novo e treina a caligrafia!

6 on 6 | Preto & Branco

Fui até a prateleira buscar por um livro-poeta-versos que me servisse de barco-mar… queria navegar por esse punhado de dias-semanas-meses de dois mil e dezoito. Gosto de ao chegar em dezembro pensar que o ano é como uma bobina — daquelas antigas — em que se pode retroceder e avançar a fim de visitar o que foi e não foi.

Voltei com Eliot — esse homem-senhor-poeta com sua inabalável fé na magia do que é invisível. Amém


das coisas que incomodaram

1 — Sigamos então, tu e eu / enquanto o poente no céu se estende / Como um paciente anestesiado sobre a mesa; / Sigamos por certas ruas quase ermas, / Através dos sussurrantes refúgios / de noites indormidas em hotéis baratos…

com luciana nepomuceno

2 — Ruas que se alongam como um tedioso argumento / Cujo insidioso intento / É atrair-te a uma angustiante questão… / Mas não perguntes: “qual?” /  Sigamos a cumprir nossa visita…

com as meninas na pavão

3 — E na verdade tempo haverá / Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça, / Roçando suas espáduas na vidraça: / Tempo haverá, tempo haverá / para moldar um rosto com quem enfrentar / Os rostos que encontrares…

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4 — Tempo para matar e criar, / E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos / Sobre o teu peito erguem, mas depois deixem cair uma questão…

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5 — Tempo par ti e tempo para mim / E tempo ainda para uma centena de indecisões, / E uma centena de visões e revisões, / Antes do chá com torradas…

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6 — E na verdade tempo haverá / Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei?” e “Ousarei?” / Tempo para voltar e descer os degraus, / Com uma calva entreaberta em meus cabelos / (Dirão eles: “como andam ralos os teus cabelos”) / — Ousarei  /  Perturbar o universo? / Em um minuto apenas  há tempo / Para decisões  de revisões que um minuto revoga…

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…daqui a pouco será outro ano, outra vida e eu também serei outra, mas levarei cada tecitura na memória e nas ranhuras do corpo. Grata a todos que foram fios dessa preciosa teia.


* trechos do poema “a canção de amor de J. Alfred Prufrock — tradução de Ivan Junqueira.

 

 

Cilene Mansini | Fernada AkemiIsabelle Brum  
Maria VitóriaMariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega