Nota do Autor | Lua de Papel

O amor com furor, por meio do objeto amado, alguma coisa que está para além dele. E como não a encontra se desespera

D. Miguel de Unamuno

lua de papel

Lua de Papel, enquanto história… começou a nascer dentro de uma velha casa no Alto da Lapa, para onde me mudei com o “meu menino”, na década passada… eu nunca sei o que dispara em mim uma história e seus personagens. Muitas vezes, não reconheço o momento em que tudo acontece… demorando algum tempo para compreender os sinais que atravessam o meu corpo.

Mas, hoje, eu me lembro — com clareza — do olhar triste e pesado da figura encolhida que visitava a nossa casa naqueles dias… acontecendo junto à cortina da sala, provando do que era paisagem. Fiquei em suspenso. Incapaz de qualquer movimento… sorvendo a cena, me misturando a ela. Sentindo a mesma dor que atravessava a sua anatomia.

Foi assim que Alexandra veio até mim, mas ela não era uma menina… era uma mulher. Era o destino de minha personagem — o dia seguinte… contudo, obviamente eu não sabia disso naquela fração de segundo.

Raissa veio mais tarde… ela aconteceu junto à mesa de um café —  entre esquinas — me apaixonei completamente por suas expressões ousadas, determinadas… ela se espalhava e multiplicava com facilidade. Era de uma alegria infinita… um furacão de talento e frescor. O oposto de Alexandra. Eu a quis para mim, com seus cabelos coloridos, sua pele febril e sua gargalhada silenciosa… mas nunca mais a vi depois desse encontro.

Anne foi a última chegar… a história já estava pronta! Mas ela, não… era uma fotógrafa sem corpo, sem vida, sem alma… sem nada. Eu a encontrei primeiro em K., numa noite de tumultos. Depois, em R., com suas frases soltas, sempre entre um gole e outro de café, nas muitas vezes em que chegou, deitando em meu corpo os seus abraços e partindo em seguida, a deixar sempre qualquer coisa de si, como se dissesse: “eu volto, então guarda um pouco de mim em você”.  E, assim, Anne foi se deixando moldar, se permitindo ser… e acabou por ir além das premissas prometidas por mim a ela.

Nessas linhas, realidade e ficção se misturam… porque é exatamente assim que eu escrevo: com um pé em cada um desses mundos.

Lunna Guedes

Você é seu próprio autor…

 

Uma das coisas mais difíceis na vida de um escritor… é saber pontuar suas histórias, atribuindo ritmo a sua narrativa. Não é mesmo fácil e talvez seja uma das mais ingratas tarefas, sendo apenas superada pelo desafio da folha em branco… quando é preciso escolher a melhor das frases para lançar o leitor no abismo, colocando-o em queda permanente.

Uma história começa a existir — primeiro — dentro dessa caverna, que são os escritores. É tudo muito secreto, silencioso. A trama vai sendo — lentamente — urdida em malabarismos particulares. Nesse momento, o silêncio se acaba e começam os barulhos — alguns insuportáveis.

Mas até se sentar diante da tela para escrever, o escritor irá organizar milhares de pensamentos, traçar centenas de anotações e pesquisar milhares de informações.

E na hora em que finalmente os dedos se mostram prontos para dedilhar o teclado nessa construção insana, cada um tem seu próprio ritual — estranhos, esquisitos, surpreendentes e até mesmo inacreditáveis…

Mas o ato de se sentar para escrever, não significa que o autor alcançou seu objetivo maior. Geralmente, o primeiro escrito, é apenas uma promessa-que-não-se-cumpre. Alguns autores preferem abandonar o texto primeiro… optando por voltar a ele num tempo futuro, quando a maturidade de seus pensamentos, talvez, venha lhe permitir outro olhar.

Que uma história precisa ter começo, meio e fim, todos nós estamos cansados de saber, mas a estrutura literária vai muito além disso… é preciso pontuar os objetivos, determinar as pausas e arquitetar cuidadosamente esse roteiro onde absolutamente nada escape.

Eu tenho alguma preferência — confesso — por histórias divididas em capítulos… justamente por facilitar as interrupções da leitura em determinado momento. Como leio em coletivos, ao descer em determinado ponto, posso caminhar por todo o universo para o qual fui tragada. Alguns de meus livros favoritos, contudo, não dispunham desse artifício, e eu sempre me perguntei: "por que razão o infeliz do autor não dividiu a trama em capítulos?"

Mal sabia eu o quão difícil é organizar uma história em pequenas divisões precisas, desenvolvendo argumentos que sirvam fios condutores para o leitor, sem que esse se sinta diante de uma rua sem saída. Cada capítulo, deve ser para o leitor, uma espécie de cruzamento, de onde observa os caminhos sem saber para qual direção ir, mas avista na figura de um transeunte qualquer, alguém a quem pedir orientações e ao indagá-lo, a única resposta possível para a pergunta feita pelo leitor — sabe onde fica a rua desse capítulo? — deve ser inevitavelmente: no capítulo seguinte.

O fim de um capítulo tem essa responsabilidade, afinal, se trata do caminho que conduzirá o leitor ao que ele tanto deseja: o final… da trama! Mas antes de chegar a esse ponto, ele tem que ser, cuidadosamente, conduzido… É mais ou menos como em um jogo de xadrez, antes de derrubar o rei, dizemos Xeque e todo o resto — sabemos — se orienta naturalmente…

 

* esse texto é parte integrante da Revista Plural Solombra, publicada pela Scenarium em formato artesanal e também digital…

Das coisas que eu gosto…

flowers

 

…casa com varanda. Jabuticabeira no fundo do quintal. Janelas abertas no fim da tarde. Sombras pela casa. Cortinas ao vento. Livros abertos. Xícaras de chá. Guarda-chuva vermelho. Filme antigo. Pilhas de livros…

Os dias de maio e também os de junho… o outono. Abraços de urso. Sorrisos brancos, largos… mãos dadas. Um bom dia canino. Xícara entre mãos. Cheiro de café. Dia de chuva. Bolo no forno… mãos aquecidas. O instante em que se precipita a história (aqui dentro). A conversa silenciosa com as idéias. O silêncio quando o outro fala. O cheiro dos livros recém-chegados… folhas no chão, nas mãos, dentro dos livros. Margarida brancas no vaso. Hortênsias nos canteiros…

Caminhar no final da tarde, depois da chuva… apreciar arquiteturas — janelas abertas, fechadas. Perceber humanos pelo caminho. Desenhos de rostos. Jogar xadrez — damas. Apreciar o dia se apagar dos olhos lá fora, deitando sombras pelo chão…

Admirar a lua e suas fases… telhados vermelhos um depois do outro. Mesa no canto, no café entre esquinas. Calçadas irregulares. Lembranças. Saudades. Baús de madeira cheirando a coisa guardada! Chaves perdidas. Envelopes coloridos… álbuns de fotografias!

Picar cebolas — tomates — alho, salsinha… ouvir a chaleira apitar, a rolha saltar. A mesa pronta. Brindes. Olhares. Os cantos da casa… da cama, da alma… a noite inteira — a madrugada pela metade e a alma em repouso, junto ao corpo dele.

Meia noite — meia vida… meia hora, metade de mim… metade da laranja — metade do filme. Metade. Apenas metade… peças desse quebra-cabeças que sou…

Ficar parada no mesmo lugar — observando pessoas… sabendo-as! Desenhando-as através das palavras, sem traços ou retas, apenas metáforas, poesias que são mapas, estradas, destino. Humanos em desalinho. Lá fora — a realidade — aqui dentro, apenas o meu imaginário…

Mas e você, quais são as coisas que você gosta?

Esta é a hora das minhas confidências,

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A você, meu menino…

 

…amanheceu junho por aqui, com todo o cuidado possível. Dia cinza, suavemente esbranquiçado, com vento agradavelmente frio a percorrer os hemisférios de nós dois.

Por entre as nuvens — lá no alto, distante — o sol insiste em aparecer, mas o dia não parece se interessar pelos raios do astro rei… que não demonstra força  nesse momento, para se fazer prevalecer. Coisas do outono/inverno… essa estação da minha alma!

Reparou que nós dois nascemos no outono? Cada qual ao seu tempo e lugar… você em junho e eu em novembro! Você cá… e eu lá! Com um oceano inteiro entre nós dois…

Quando cheguei a São Paulo na primeira vez e provou do hálito insuportavelmente quente da cidade, acusei o desespero e passei, a escrever a frase: “hoje eu só queria fechar os meus olhos e despertar dentro das manhãs de junho” em todos os cadernos e também na pele e na alma, feito tatuagem que não se apaga. 

Era uma espécie de desejo que eu acalentava dentro, como se fosse um presságio… a vida me avisando que você era o meu destino… o meu norte! Um eco, se pronunciando a partir de minhas entranhas… 

Eu  me lembro da nossa primeira vez… você desceu a ladeira, vindo em minha direção… e, enquanto caminhava, vindo ao meu encontro, com as mãos imediatamente dentro dos bolsos da calça jeans, os passos lentos, o olhar cabisbaixo e nos lábios um sorriso miúdo, quase inexistente… eu viajava — estranhamente — em minhas próprias lembranças, em busca de sua figura.

Eu o sabia muito antes daquele encontro, mas não havia memória bastante para sustentar a certeza, que eu acalentava em minha epiderme. Procurei por você… em ruas intrépidas, calçadas irregulares, esquinas várias… revisitei em poucos segundos, todos os lugares onde estive! Eu o sabia… muito antes de vê-lo mergulhar no fundo de minha pele, com seu abraço imenso… mas você não estava em lugar algum de minha matéria.

Eu insisti… revirei todas as minhas coisas. Fiz do avesso o verso… e nada! Confessei à você… em voz alta — eu te conheço de algum lugar”… foi exatamente quando vi o seu sorriso dobrar de tamanho. Seu olhar vigiar cada traço do meu rosto e ir fundo no castanho dos meus olhos. — “de onde seria?” — você quis saber, porque existíamos dentro da mesma certeza.

Ficamos em suspenso… a calcular nossos passos, movimentos, lugares, paisagens!
Eu recordei, as muitas vezes, em que estando sozinha, sentia uma sombra passar por mim, com seu perfume suave de vento e seu movimento de nuvem. A pele rasgava-se em arrepios contínuos. O coração acelerava e o ar percorria caminhos outros… eu sentia saudades, mas nunca soube de quem!

Eu  confesso: nunca acreditei em destino… mas depois de tropeçar em tua imagem — estranha e conhecida — guardar todos os teus traços em minha alma para sabê-lo mais tarde. Pensar em você durante dias inteiros, no silêncio de minhas frases, na solitudine de meus passos, no barulho das multidões, nos cantos onde eu me escondia e nos degraus onde me sentava… reconheci que existe esse lugar, onde tudo é fim e começo ao mesmo tempo… esse lugar que nos espera, como se tivéssemos partido dali, para correr o mundo, cientes que um dia retornaríamos…

Talvez o mito grego faça sentido… somos duas partes de um mesmo ser, fatiados por um Deus e (re)unidos por outro…

Hoje, a sua matéria alcança os setenta anos e eu só consigo pensar que cheguei faz pouco tempo… não me ocupo dessas somas, nem mesmo gosto de matemática. Gosto apenas de olhar para você e reconhecê-lo enquanto mar onde eu navego. O abraço no qual me deixo ficar, um pouco mais a cada novo dia. Eu não me lembro  quando o amei pela primeira vez… talvez tenha sido quando nos sentamos para festejar seu aniversário na padaria da Bela Vista, com uma fatia de bolo e uma vela que terminou por queimar os seus dedos. Ou não! Talvez tenha sido quando caminhamos de braços dados pela Liberdade, a caminho do Sesc Carmo para um almoço não planejado… sendo eu a menina a tagarelar premissas e você a recusar promessas. Você tinha um olhar triste naqueles dias e o mesmo se passava comigo. Mas quando nos encontrávamos, o mundo não se atrevia a conjugar distrações. Estávamos aprendendo, só não sabíamos ainda, a ser apenas nós dois…

Não sei como aconteceu para você, mas eu… quando dei por mim, já o amava, mas não esse amor de corpo, pele… de estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas… que aproxima e distancia, que se satisfaz com o pouco que, também é muito — tudo.

Gosto imenso quando seu olhar encontra o meu e quando seus dedos reinventam meus traços… gosto quando você abre os braços para eu me encaixar e adoro quando seu sorriso reflete em mim, pouco antes de sentir seus lábios junto aos meus. Fecho meus olhos, como a primeira vez e sei quem sou, mas nunca onde estou…

Amanheceu junho, amore mio… e nós dois amanhecemos juntos!
E cá estou eu, amando-te com o sabor imutável da primeira vez.

 

Bacio en tuo (mio) cuore

Diário das minhas insanidades, 24

 

Mira 05Crédito da imagem. Mira Nedyalkova

…cheguei pontualmente na hora marcada.
Nos oferecemos uma a outra, como sempre fazemos. Acenos curtos. Palavras poucas. Um sorriso pequeno-miúdo… e pronto!

Observei o cenário — como de costume — depois de entrar, varrendo as superfícies com os olhos e identificando as coisas fora do lugar. Dessa vez as cortinas é que foram trocadas. Os porta-retratos não voltaram a ter espaço junto aos livros dos grandes nomes da psicologia… mas o meu lugar – uma velha poltrona de couro escuro — se mantem intacto.

Me sentei e ali fiquei… em silêncio. Eu de um lado e ela do outro. Novamente as anotações… sem eu dizer uma só palavra, ela deixou suas falas impressas no papel. Me ocorreu que não tenho a menor curiosidade em saber o que ela escreve a meu respeito, talvez porque o meu imaginário agudo confeccione um diálogo preciso…

ela adora a falta de tato – aprecia o outro em movimento para longe. Deixa ir porque gosta de observar o passo e também a distancia – da qual se alimenta – junto aos seus olhos. Existe visivelmente qualquer coisa de satisfação. Só a incomoda se o outro leva tudo consigo, sem deixar nada para mais tarde. Ela coleciona elementos, não pessoas. Em algum momento tudo vira palavras, caso contrário, abstrai e a memória apaga um possível rastro”.

Ah, minhas premissas…
Ontem o cansaço se espalhou por meus músculos e nervos. Queria ficar em silêncio, com o olhar detido num ponto qualquer, atravessando a matéria humana de W., saboreando a quietude de meus gestos, a ausência de sons… e como dessa vez, ela não me fez nenhuma pergunta, passei quase vinte e seis minutos em transe… sem dizer palavra, emitir som ou ouvir a minha própria voz.

Foi como fechar os olhos e adormecer… mergulhar no oceano, cessando os sons da vida como a conhecemos; afundar-se na própria memória, ouvindo um único som, que para mim é sempre estranho e novo, agradável e manso… uma espécie de trilha sonora: os passos por cima de folhas secas, em pleno outono, ao lado do nono, pelo bosque de Gênova. Meu porto seguro… minha ilha deserta, o lugar onde meu coração pulsa. Minha própria morte e vida e falência…

Foi como desaparecer!

Eu faço amor na cozinha…

 

bruschettas da lunna

 

Preciso fazer uma confissão: eu faço amor na cozinha… começa com um olhar, que narra uma dúvida, que gera um mordiscar de lábios! Ele se aconchega junto a mim, beija meus lábios com fome… e eu digo em seus ouvidos, em meio a um sorriso arteiro: “bruschettas”…

É quase uma pergunta, que ele responde, como se já sentisse o gosto entre os lábios.
Ele fatia o pão. Eu pico os tomates em cubos pequenos… ele passa manteiga no pão. Eu corto a cebola. Ele pica o queijo, enquanto come um pedaço ou outro e, me serve na boca. Mastigamos ao mesmo tempo… as nossas euforias insanas.

Eu pego as taças… ele o vinho.
Brindamos a nós dois, e entre um gole e outro, seleciono as ervas: salsa, orégano…
Ele prepara a fôrma… eu o forno!

Sentamos à mesa e, enquanto esperamos, entrelaçamos as nossas lembranças com sorrisos, olhares enviesados e saudades de coisas recentes. Rabiscamos ilusões em diálogos entrecortados por sorrisos espaçados. Brincamos com o cão, que busca por afago e um pedaço de pão para si… bebemos vinho. Contamos coisas anteriores a nós dois. Rasgamos premissas e alguns minutos depois, saboreamos bruschettas…

Eu escolho a trilha sonora… ele lava, eu guardo… ele canta e eu dou risada. O cão nos espia com seu "sorriso canino"… saímos para ruas de mãos dadas, vez ou outra trocamos de lado, o cão vem para o meu cuidado. Ele é menino antigo, só anda do lado de fora da calçada.

Voltamos a casa… a tarde acabou.
É noite e precisamos pensar o jantar… olhares, sorrisos, beijos, toques…

Somos duros um com o outro

 

obdulioCrédito da imagem. Obdulio Nuñes Ortega

 

Gosto — confesso — como as coisas acontecem em minha vida, sem pressa… apenas movimento natural das coisas e suas causas.

A caminho do trabalho, vejo a vida acontecendo nos espaços urbanos que frequento. Os cães e seus humanos, em passeios matinais por esquinas, a despertar do sono que, visita certos bairros paulistanos. O Sol de outono — que não arde e muito menos queima — acaricia a pele e também a alma… e ultimamente, me faz pensar no olhar de O., esse "amigo" recém-chegado à minha atmosfera, com suas frases inteiras e pensamentos completos. Ele me faz sentir comum, pois olha e vê… diferentes de muitos humanos nos quais tropeço diariamente, causando cansaço e fadiga.

Voltei a ler Plath na noite de ontem… ela fala em sua solidão, em poesia e escreve missivas tecendo a própria vida, essa teia de aranha, da qual escapou precocemente. Foi escolha dela — eu sei…

Alguns de nós, contudo, a acusam de covardia… porque é fácil dizer o outro, quando não vestimos as mesmas roupas. Na nossa pele é sempre coisa outra! — não corta, não arde, não dilacera, não sangra…

O teu corpo não é uma palavra,

“As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas”

Margaret Atwood

 

neblina

 

Certa vez ela foi minha voz, dizendo ao mundo as euforias que eu detinha dentro. Nunca nos olhamos nos olhos, mas as nossas palavras acenavam chegadas e partidas. Eu escrevia apaixonada…. ela respondia sem cuidado ou vontade. Em amarelo, sem força, poucas linhas. Uma resposta tranquila, sem pulsação ou respiração intensa.

Aprendi que era possível amar alguém através de suas palavras, essa taça do mais delicioso vinho, com aroma agradável e sabor a surpreender os sentidos.

Eu a percebia em cada uma de suas linhas… da mesma maneira que percebia a mim mesma. Conheci seus lugares favoritos, suas dores, medos, angústias, mas quase nada sabia eu de suas feições. Era alguém sem rosto… uma pessoa dentro da neblina, que envolve a cidade, quando as temperaturas se misturam, frio dentro, calor fora ou vice e versa.

Eu a sabia assim… páginas em branco ainda por ser. Palavras pela metade. Frases soltas — inacabadas. Vogais e consoantes em desarranjo pela manhã. No meio da tarde muitas folhas em cima da mesa… amontoadas! As mãos insanas a revirar absolutamente tudo — em busca de um sentido.

E eu esperava dias inteiros, repetindo os movimentos da juventude, olhando de soslaio para a porta, à espera do carteiro, que atravessava cenários, vindo até a porta de casa… sem nada deixar.

Esperava… mas a espera não resultava em euforias. A escrita se repetia sem delongas. O ponto final parecia dizer "não tenho mais o que dizer, isso é tudo"… à mim, ela destinava apenas um punhado de linhas contidas… quase por obrigação.

O aborrecimento não demorou a surgir em minha pele… eu queria mais. Lhe acenava com as minhas reticências — que sempre foi o meu melhor. Lhe oferecia minhas consoantes e vogais, devidamente pontoadas com vírgulas e exclamações calorosas.

Eu percebi que, nas respostas enviadas aos outros, existia a paixão, entrega, dedicação… em alguns casos: rendição.

Me cansei… de puxar o balde pela corda. Não havia mesmo água no fundo do poço… o esforço não era válido — apenas desnecessário.

Silenciei meu discurso… não foi fácil, confesso. Sofri em meu canto, uma dor inventada, por não ter o que rasgar ou queimar. Sofri a ausência do diálogo. Preciso ter com quem conversar coisas que minhas. Tenho carência de um discurso íntimo, sobre coisas que gritam dentro e nem sempre encontro esse eco nos humanos que perfazem o mesmo caminho que o meu.

Semanas depois, ela me escreveu… disse em poucas linhas, que sentiu falta do meu afago. Anunciou que, eu era a única pessoa que a lia pelo avesso; todos os demais, faziam leituras superficiais. Falou de seu livro, no qual estava a trabalhar havia meses. Disse querer-precisar do meu olhar. Questionou na última linha “porque você me toca tanto?” e finalizou, dizendo desejar que estivesse tudo bem comigo.

Eu estava muito bem… tinha voltado a percorrer calçadas, com as mãos aconchegadas dentro dos bolsos, sem pressa. A ocupar a minha mesa no canto do café entre esquinas, a espiar a paisagem com suas cores e aromas misturados… e, voltei a escrever para mim mesma, esse abismo sempre em queda. Não poderia estar melhor!

Ela ainda voltou a me escrever duas ou três vezes… quatro talvez! Me deparei — estranhamente — com uma página inteiramente preenchida — como nunca antes —, mas ainda hoje não sei a quem ela escreveu, mas com certeza não foi para mim.

Diário das minhas insanidades, 23

“A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair”

—  Álvaro de Campos  —

 

papermoon

 

— "acordar não é para todo mundo", disse W. pouco depois de um fino fio de conversa.

Ela foi seca como nunca antes. Não acusou saudades dos nossos diálogos. Não me falou de sua viagem pela Europa, dos dias na companhia dos filhos… tampouco me deu as boas-vindas. Apenas se sentou em seu lugar, com o semblante fechado, uma perna cruzada sobre a outra e o  olhar reto. Se limitou a fazer — o que nunca fez — anotações em seu caderno, devidamente apoiado sobre a perna.

De tempos em tempos, seu olhar vigiava meus gestos, como se estivesse a analisar o meu íntimo — numa espécie de varredura — a partir dos movimentos de mãos, que eu tento conter, entrelaçando os dedos. Não sei falar sem movimentá-la, às vezes, de maneira frenética. E quando a silencio, me sinto completamente muda.

Reparei minutos depois… que W. removeu os porta-retratos da estante. Não deixou nem mesmo a foto dos gatos; apagando sua família dos meus olhos. Os livros ainda são os mesmos. Os velhos nomes da psicologia se anunciam em uma fila cuidadosamente organizada. Os diplomas permanecem na parede, mas os quadros se foram. O tapete também é outro, ainda mais escuro que o anterior, mas os móveis e as cortinas permanecem as mesmas.

Eu contei a ela do cansaço que antecede um lançamento… e do desconforto que sinto por ter que entregar minha "lua de papel" aos olhos alheios. Reclamei de ter que me acostumar a uma história nova, que não é exatamente a que eu escrevi, porque cada um enxerga apenas o que quer. Devorar é um gesto infinitamente particular. Há quem goste de garfo, quem prefira colher. Prato ou tigela. A mesa posta. O canto do sofá, frente a televisão…

Eu devoro com voracidade — não a comida, coisa para a qual tenho pouco interesse — as páginas de uma história. Várias vezes quando me seduz. Eu devoro a vida, o drama, a realidade… me apodero de tudo. Tomo o lugar do personagem… e voltar a mim depois disso é complicado. Tenho plena consciência de que a história que chega a mim, não é exatamente a história escrita pelo autor, que se despe de si mesmo, mas eu nem sempre sou capaz de vestir o velho casaco de couro-pesado deixado por ele, nas costas da cadeira, para uso alheio…

E por ser uma leitura voraz é que sei que escrever vai nesse mesmo ritmo… é como dormir uma noite inteira; restando o despertar dentro de uma manhã qualquer. Quando o dia está nublado é mais fácil, mas quando faz sol, é um desconforto pleno dos músculos, nervos e, principalmente dos olhos. O leitor é esse sol, a cegar-me depois de uma noite às escuras. (risos)

Me aborreço com o despertar — não é novidade, já que sou ávida figura noturna — e por isso: sigo para dentro das horas seguintes, de arrasto… não dou pelo tempo, espaço. Não sei as horas, tampouco o dia da semana ou o mês. Mas sei décor a estação do ano e também a fase lunar.

Não existe segunda-feira sem poesia, 5

“Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro”.

Al Berto

manhãs de junho

 

O vento entrou pela janela, numa espécie de voo sem asas… levou ao chão as folhas, causou tumulto nas páginas dos livros, tocou minha pele de maneira arredia… misturando sensações, fazendo arder o íntimo — essa acha sempre acesa. Me deixou em suspenso — por alguns segundos — com a lembrança de “certos dias de dezembro”… e foi embora, da mesma maneira como chegou…

Acontece que, quando estou por lá — dentro dos dias de dezembro — sinto dentro, esse desejo crescente de fechar os olhos — coisa que faço — e despertar dentro das manhãs de junho… exatamente onde estou agora!

É junho… repito num sem voz, com um sorriso pequeno a se liquefazer em meus lábios enquanto aprecio a chama da vela vermelha — acesa por meu menino — arder.

Junho é o mês das chamas, dos mastros com fitas coloridas, dos pães de ervas sobre a mesa no final da tarde, e das preces, que são poesias para os ares… é o mês das danças circulares, que levantam poeira nos quintais…

Por aqui será inverno em breve… e as quermesses vão aquecer as noites com o forte de pinga e gengibre. Mas em algum lugar será verão, dias azuis, noites menores, horas cheias… férias no campo, potes com biscoitos no alto dos armários, banho de rio, árvores para escalar… o trem a anunciar a partida, oferecendo qualquer coisa de destino aos “navegantes”…

Como vês, aqui dentro de mim é essa mistura de estações, países, cidades, paisagens…  é esse poema por ser escrito — amanhã ou depois! Por hora, vou devolver tudo ao seu devido lugar e visitar a prateleira para saber que poeta viverá junho comigo!

 

Al Berto, Borges, Eliot, Bishop, Mário…