Aconteceu setembro?


(…) “Não gosto de agosto, como os antigos, embora comigo mesmo
costumasse repetir que os agostos haviam invadido setembro,
avançado sobre outubro até descobrir o novembro que ia em meio.
Me veio numa tarde de sábado, em novembro.
Em comum com os agostos de antes, a chuva.
E bateu à porta, essa mesma que pintei inteira de amarelo
para dar uma ilusão de luz às sombras desta casa”. (…)

Triangulo das águas — Caio Fernando Abreu

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…setembro começou com sua “estranha promessa” de flores… daqui a pouco será primavera — é o que diz o calendário que não tenho.

Sei que serão dias cada vez mais longos e noites cada vez mais curtas… temperaturas cada vez mais altas e (falsas) promessas de chuva ao longo das semanas, com seus punhados de dias equivocados.

Hoje a manhã despertou cinza… e a meteorologia informou na primeira hora — com alguma satisfação — que, vivemos "o inverno mais quente dos últimos anos"… eu não sei porque se ocupam em nos dar esse tipo de informação.

O que eu sei é que é setembro — septum — mas eu continuo a viver agosto, onde acumulei euforias, abraços e comemorei mais um ciclo completo.

Agosto foi rápido esse ano… como um livro conhecido que se lê de novo e de novo, sabendo-se as falas, o destino dos personagens e, mesmo assim… se vibra como se fosse a primeira leitura. E mesmo estando o livro fechado e já de volta à prateleira, tudo continua a acontecer: dentro e fora da desse quarto escurou que sou. 

Não perdi o hábito de escrever missivas

 

Barra Funda. São Paulo, 21/06/2010. Foto: Hélvio Romero/AE

 

Caríssima A.,

 

…hoje eu menti!
Sai para caminhar calçadas, atravessar ruas com o meu cão — pouco depois de despertar para a manhã e suas cores esbranquiçadas. Nós somos aventureiros — sempre fomos — embora ele se canse mais rápido dos passos agora que tem seus — quase — doze anos.

Encontramos essa praça — um contorno equivocado — e, enquanto ele revirava o lugar… uma garota sentou-se ao meu lado. Elogiou a beleza do Patrick e falou de seu cão — um Fox paulistinha — que morreu há duas semanas. Seus olhos não guardaram as lágrimas e seu coração não se conteve dentro do peito fazendo pulsar também a camiseta que vestia.

Constrangida… com as mãos frias e amarradas entre as coxas… tentou se livrar de seus desconfortos. Desculpou-se — entre soluços — deitando em meus olhos um par de sorrisos desbotados-gastos-sem-vontade-de-ser… e para fugir de si, quis saber de mim…fez suas perguntas em pares.

Foi nesse exato momento que eu menti — ou fingi… fui outra pessoa, tive outra vida, outra história, outra realidade… exatamente como fazia durante as viagens de Gênova à Coimbra. Eu nunca me repetia… era sempre alguém diferente para cada pessoa que embarcava comigo naquela viagem a partir de Nervi.

Não era algo programado… eu apenas dizia as vontades que se precipitavam em mim. Fui Mariana-Ângela-Lúcia-Paola… as histórias mais impossíveis-improváveis. E mesmo assim convencia… até que um mesmo ragazzo sentou-se comigo duas vezes. Minhas mentiras se perdiam a medida que eu descia do trem. Ele reconheceu em mim a personagem que eu fui para ele — e eu ali, ao seu lado, na condição de estranha para mim mesma.

Parei de mentir nesse dia… até hoje!
Não sei o que deu em mim!

Catarina

Diário das minhas insanidades, 02

Orações e poemas são a mesma coisa:
palavras que pronunciamos a partir do silêncio,
pedindo que o silêncio nos fale.

— Rubem Alves —

 

Atravessei a Paulista — com passos espaçados — enquanto media a ansiedade que atravessava meu íntimo. Esbarrei em figuras indômitas, a viver a pressa comum de um final de tarde…

Ainda não eram seis horas e eu queria amontoar os segundos todos, num canto qualquer para vivê-los mais tarde! Porque, às vezes, é preciso deixar tudo para depois, por mais que os sábios de plantão digam exatamente o contrário…

Queria — desesperadamente — os meus cinquenta minutos com W., para despejar minha mistura confusa-e-imprecisa de palavras! Acontece que quando cheia, eu transbordo, mas geralmente o meu desconforto vira frases bem-feitas em textos, que acabo reconhecendo como sendo o meu melhor…

Hoje, no entanto, não queria escrever… apenas falar! Mas eu não sou boa com diálogos — reconheço — e por isso, às vezes, me esqueço que tenho voz. Prefiro o silêncio… a quietude! Ficar do lado de dentro… no aconchego de meus pensamentos — recebendo o que chega.

Sou como uma esponja que a tudo absorve… gosto de existir ao lado — em segredo… eu sempre fui apaixonada pelo silêncio!

Mas gosto imenso de ouvir os exageros alheios… as frases ditas sem cuidado. Os desconfortos que saltam  como se os pés estivessem a tanger abismos. As pessoas não sabem silenciar… gostam do barulho que fazem como se precisassem ouvir a própria voz — esse ruído conhecido… para se sentirem vivas em sua apatia comum…

Ao contrário dessa gente — comumente — eu me esqueço como se fala… como se nem mesmo tivesse aprendido o som das palavras em meus dias de menina…

C. me disse que eu demorei a me manifestar em falas — “bem mais que as outras crianças de minha idade” — afirmou com seu tom de voz sempre compreensivo — "os lábios dela se movimentavam como se estivesse a experimentar o sabor da fala, mas sem precipitação ou sons incompreensíveis. Ela não tentou em momento algum repetir os sons que ouvia, apenas prestava muita atenção à tudo. O menor som a seduzia. Me aconselharam a levá-la a um especialista… o que recusei imediatamente. Tudo ao seu tempo… pensei e foi assim que aconteceu. Eu ainda me lembro quando ela disse uma frase inteira. Levamos um susto e eu precisei conter os ímpetos de seu pai, que queria festejar suas primeiras palavras. Guardamos, os dois, a frase dita com absurda satisfação por ela. Levou dias para falar novamente e eu reparei que esses espaços seriam comuns. Tivemos que nos acostumar com longos dias de silêncio". — trecho do diário de bordo de C.

Obviamente C. nunca me disse a frase proferida por mim… e, eu confesso que, adoraria sabê-la… mas tenho para mim que foi um gesto proposital — uma espécie de alimento para a minha imaginação, que ainda hoje constrói milhares de combinações possíveis… ciente de que nenhuma, é capaz de professar a realidade!

…a pessoa que não somos!

café

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —

 

…esbarrei em tua figura no meio do passo — dentro da tarde quente. Quase me escapa do olhar… distraída que estava — como sempre — alheia ao mundo, a vida, as coisas todas… com meu passo errático — feito marcha que não sai do lugar — desviando dos humanos que insistem na contramão, apenas para dizer que a errada sou eu…

Como de costume, estava atenta — apenas — a todas essas coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco e o desejo de ter em mãos um copo branco — grande — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…você seguia a passos largos — com pressa — desviando do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si mesma nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto suas mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis.

Foi engraçado observá-la dentro da pequena distância… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde de outubro que já se perdeu tanto quanto o cenário que você, ao tomar para si… acabou tirando-o de mim. Voltei a ocupar a velha mesa no canto — do lado de dentro — com livros e folhas espalhadas. Antevi o gole de café, sentindo escorrer para dentro… numa espécie de afago entregue ao meu imaginário…

E você lá em sua mesa — do lado de fora — junto a árvore de minha infância, a embalar seu par de horas confusas… voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. E agora me ocorre: e quando foi que fomos algo diferente disso?

Leitura do fim de semana | Lua de Papel

IMG_2191Fotografia. Mariana Montrazi

…passados tantos dias — mais de trinta — me ocupei — finalmente — de meus próprios escritos, convertidos em livro — lua de papel, livro um e dois respectivamente…

Ainda não o tinha lido no formato de livro, com páginas numeradas, devidamente diagramadas. A leitura até então, tinha se limitado as folhas avulsas… embaralhadas como se fossem cartas de um baralho, prontas para um jogo, sendo distribuídas para os participantes, postos à mesa…

Não me esvaziei ainda… as personagens seguem comigo! Ainda falo com elas enquanto ando pelas ruas: dobrando esquinas, mudando de calçadas, desviando do outro que vem em minha direção, atento a tela do celular, entrando e saindo de cafés.

Antevejo qualquer coisa de futuro… desenhando-as em notas mentais  — aos pares — para esse depois que, em algum momento, será convertido em hoje. Por enquanto, apenas percebo-as em outros olhos, bocas, movimentos equidistantes. Ouço diálogos alheios e e como se elas usassem outros corpos para dizer o que preciso saber para alinhavar esse destino…

Ter o livro em mãos — um e dois — e devorar suas páginas, me afastou um pouco da autora que sou-fui…  me vi convertida em leitora de repente. E serviu para que eu pudesse compreender o entusiasmos que Anne — essa personagem que atraca na história apenas no livro dois — causou em certas damas-leitoras…

Continuo, contudo, a não tolerar a jovem Alexandra e seu dedo em riste. Ela não sabe ser… acostumou-se a fingir e não consigo imaginá-la diferente disso porque conheço seu futuro.

No livro… o leitor tem contato apenas com o passado de Alexandra, o futuro é coisa minha, anotações que  me servem de guia para o dia seguinte dessa personagem, que cabe apenas a mim e as minhas anotações-secretas. O leitor poderá, contudo, imaginá-lo… e, confesso que gosto imenso dessa possibilidade… talvez algum leitor consigo dar a ela a paz que eu não sou capaz de oferecer…

Das coisas que eu não gosto…

“Todas as palavras, as que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração, e não reconheci,
ou desistiram e partiram para sempre” (…)

Manuel Antonio Pina

das coisas que eu não gosto

— ulisses! Dias de sol… sexta-feira! Programas de televisão. Mesa cheia. Gente chata. Gato na janela. Gente que interrompe a fala alheia. Água gelada. Livro chato. Gente que começa a contar uma história — se arrasta — e não acaba…

Tela em branco… folha em branco. Grafite quebrado. Gente que reclama da chuva… tem medo de trovão e não gosta de Fernando Pessoa. Crianças… gente velha — café frio. Telefone tocando. Campainha desesperada. Dedo apontado na cara…

Sapato de salto. Vestidos… saias, blusinhas femininas e revistas de moda. Palavras cruzadas…quadro torto. Manhãs ensolaradas. Chuva sem trovão. Músicas que só tem refrão. Chiclete e balas de goma. Abraços frouxos e indiretas desnecessárias. Falas longas. Palavras abreviadas. Gírias e legumes usados como adjetivos.

Escada rolante. Desodorante… gente que fala ao celular, achando que está na sala de casa. Opiniões sobre tudo. Desaforos. Sala de aula… escritas acadêmicas. Contos de fadas. Verão… os dias de dezembro e também os de março… e não gosto de agosto! Feriados que mudam os dias da semana de lugar. Livros sem capítulos. A linha vermelha do metrô. Vitrines de lojas. Gente que não responde cumprimento. Meio-dia… relógio parado… hora inteira. Memória lotada. A última página do caderno. O último pedaço de bolo. O último biscoito do pacote. Gente que se acha engraçada. Mensagens deixadas na secretária eletrônica… e gente que chega atrasada.

Não gosto de passarinho em gaiola… nem peixe em aquário. Copo vazio, xícara quebrada. Quando um pensamento é interrompido… um texto perdido. Gente que não devolve livro. Prateleiras vazias… e também as cheias.  Gente que marcha quando anda. Fim de feira. Supermercado aos sábados… também não gosto de festas. Multidões. Rua sem saída. Casas quadradas. Jardins sem flores. Cachorro sem dono… a vagar perdido-desorientado pelas ruas em busca de um humano para chamar de seu. Travesseiro baixo. Poesia concreta…

E listas sem fim! E você? Do que não gosta?

Certe Cose

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Meu primeiro rascunho, no sentido de produção literária aconteceu em sala de aula… o lugar mais impróprio para essa figura que, de certa forma, se deixou forjar dentro daquele espaço irregular com suas cadeiras em fila, um quadro negro e um espaço mal definido como sendo uma espécie de tablado que fazia dos professores que ali desfilavam, uma espécie de ator, a encenar suas performances equivocadas.

Eu era uma daquelas meninas que ficam no canto, desejando não ser notada, passar despercebida… cumprindo o papel de sobreviver dentro do esquecimento, que sempre me pareceu infinitamente pitoresco…

Eu sempre soube que ser sombra no chão era muito mais atraente que ser um holofote a se projetar por cima das figuras inertes — alheias…

Como nunca usava meu caderno de geografia porque P., preferia os chatos livros didáticos, com seus escritos enfadonhos e mal elaborados… pude ocupar aquelas linhas perfeitas com o que considerava ser uma espécie de romance policial, baseado na menina loira, que ocupava fileira ao lado da minha… e passava as suas horas inteiras a enrolar os cabelos entre os dedos e as mascar goma com a boca sempre aberta.

Ela tinha uma fala repetitiva, como se em seu vocabulário não existisse mais que uma dúzia de palavras. Durante as aulas, ela tinha a estranha mania de escrever dúzias de vezes o seu nome… tomando o cuidado de adicionar — vez ou outra — o sobrenome do jovem, por quem se dizia apaixonada. Ele era mais velho, fazia parte do time de futebol do colégio e, para ele, as garotas eram exatamente como uma goma de mascar…

Aprendi dentro daqueles dias — hoje eu sei — a domar a figura alheia, a desbravar a anatomia, e a compreender o outro como sendo um reflexo para o dia seguinte… eu era — embora não soubesse ainda — uma espécie de esponja, que a tudo absorve…

O tal romance… foi lido pelos colegas de sala após ser surrupiado… e acabou, numa dessas desventuras da vida — indo parar na mesa da professora de literatura. O resultado foi que, semanas depois, a escola inteira lia a história da garota loira nas páginas do jornal do grêmio, que o publicou em capítulos…

O anonimato, ao qual eu era grata, se evaporou… e eu me vi, imersa na realidade de olhares atentos a todo e qualquer movimento feito por mim. Foram dias de fúria… todos queriam saber qual seria meu próximo passo, qual história eu escreveria e, principalmente, sobre quem eu escreveria.

Me fechei em concha… fiquei doente várias vezes naquele maldito semestre; inventei gripes, congestões, indisposição… apenas para não ir ao colégio e enfrentar aquelas pessoas repulsivas.

Mas, por causa de “certe cose” — título do tal romance — acabei “convidada” a escrever uma peça teatral para a festa de final de semestre no colégio —, e, com a prerrogativa de não poder refutar tal convite… entrei em pânico, e fiquei novamente “doente”. Uma semana inteira em casa, sofrendo “tudo e nada”. Fiquei sem chão, sem mundo, sem mapas, sem aspas, sem sossego…

Me amaldiçoei por dias inteiros… mas não resolveu!

Não fui esquecida, tampouco abandonada em meus cantos. Não desistiram de minhas linhas… e, eu acabei por escrever maldita peça que reuniu em dúzia de linhas toda a minha fúria… os personagens foram disputados por todos os alunos do colégio. O texto foi exaustivamente ensaiado e apresentação aconteceu numa noite de presenças… todas as cadeiras do auditório da famosa “sala vinte e um” foram ocupadas: pais, professores, alunos; menos a mim, que tive “uma forte dor de cabeça” inventada no último minuto, que deve ser entendida como: “uma enorme vontade de ficar sozinha em meu quarto ouvindo Chopin sem que ninguém se lembrasse de mim“…

Soube depois que os aplausos se multiplicaram pelos espaços, sendo ouvido ao longe. Grande coisa… o Diretor lamentou minha ausência, meus professores também… e o dia seguinte foi de cansaço e fadiga: fui convidada a ser oradora da turma. Justamente eu que nem pretendia estar presente na maldita formatura — “um momento importante de sua vida, o final de ciclo” e o meu avesso, dava de ombros para toda aquela realidade enquanto desejava a quietude e o conforto do meu quarto escuro.

Foram dias difíceis aqueles… sofri o suficiente por uma vida inteira —
…e, no ano seguinte: escolhi cursar psicologia.

Diário das minhas insanidades

O hoje sangra, o amanhã lancina

— T.S.Eliot —

 sofa

Sai de casa pouco depois das cinco… mergulhei nos contornos de sempre, atropelei algumas figuras estranhas, esbarrei em anatomias muitas e cheguei ao destino do dia:  um luxuoso prédio na Avenida Paulista, onde fica o consultório de W. —  pontualmente as dezoito horas e cinquenta e sete minutos.

…ela é uma dessas senhoras elegantes, cujo nome se exibe numa plaquinha prateada na porta. Cabelo bem cortado, roupas caras e um punhado de jóias douradas nos dedos, braços, pescoço e orelhas. Tem o olhar atento às coisas frágeis; sua fala e cuidadosamente planejada e, às vezes, deixa existir um sorriso ávido-arisco em seus lábios vermelhos.

Sua especialidade é saber ouvir o outro  e decifrá-lo através do combinado de vogais e consoantes, que podem ou não, ser separados por vírgulas-pontos-exclamações-e/ou-interrogações…

Ela toma nota de tudo… nada escapa de sua fiel companheira: uma linda caneta Parker, que foi dada a ela pelo seu marido, o homem que lhe deu um dos brilhantes que ostenta na mão esquerda. Ela não tem filhos, ou pelo menos não os exibe nos vários porta-retratos espalhados pela estante, onde livros de grandes pensadores dividem espaço com os autores que frequentam “sua sala”…

W., no entanto, tem uma gata branca, cuja fotografia tem lugar de destaque ao lado de uma linda luminária estrangeira mantida acesa em cima de sua mesa, onde um punhado de coisas — inclusive envelopes — tem lugar.

A decoração de sua sala é clássica… com móveis escuros, pesadas cortinas igualmente escuras, tapetes pelo chão. Alguns vasos a ocupar os cantos. Um divã — para os que gostam de se deitar enquanto narram seus dramas — e uma velha e linda poltrona de couro marrom — para os amantes do diálogo, café e espaço…

Escolhi a poltrona — por razões óbvias — acomodando meu corpo com algum cuidado, enquanto tentava imaginar uma canção qualquer para ser a trilha sonora do momento. W. se sentou imediatamente à minha frente, com seu bloco de notas e caneta em mãos. Olhou-me por alguns segundos, numa espécie de varredura de minha matéria; parecia esperar que eu dissesse alguma coisa… e como não o fiz, fez algumas perguntas práticas. Confirmou o meu nome e pela primeira vez, alguém se preocupou com a pronúncia correta de meu nome e sobrenome.

Em seguida, perguntou sobre os meus dias…  minha resposta foi breve. Curta. Duas palavras bastaram. Ela respirou fundo, esperava mais… queria reticências  e, eu ofereci um ponto final contundente… ela fez suas anotações, concluindo — provavelmente — que sou uma pessoa silenciosa e que não gosta de diálogos com estranhos.

Eu me demoro — desde sempre — para me ambientar em novos espaços e mais ainda para confiar em pessoas. Gosto de observá-las… sabê-las e, principalmente: ouví-las. A fala é sempre um recurso pouco usado…

Mas se pressupõe que a partir do momento em que se busca a terapia, é preciso expressar-se através desse sentido, que costuma ser agudo na maioria dos humanos.

aconteceu agosto…

queria ver se chegava por extenso ao contrário:
força e pulsação e graça,
isto é: luz, de dentro, despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela / estela

Herberto Helder

august

…agosto adentrou meus campos que pedem ventos e implora para que teus dias sejam rápidos e amenos. Tenho medo de agosto – confesso… porque esse mês tem a estranha mania de aventurar-se para dentro dos outros meses… invadindo setembro, avançando severamente sobre outubro e galgando novembro, como se os dias do Centauro fossem meros degraus de pedra. Isso, quando não se apoderam também dos primeiros dias de dezembro.

Se bem que, como anda tudo as avessas por aqui, não vou me espantar se agosto acabar num estalo… sem que suas famosas chuvas acenem suas despedidas para o inverno – essa estação de taças de vinho e pesados goles de chá… e comumente falte tempo para anunciar a primavera…

Nem mesmo irei me surpreender se forem dias secos-quentes-e-amargos… sem chuva. Dos trovões eu já desisti, desde que maio perfilou seus dias em minha pele sem uma única tempestade. Junho foi quente – abafado, com chuvas mansas e silenciosas… e Julho não ventou suas fúrias como antes, mas choveu depois de dias demasiadamente quentes. Chuvas quietas, a forjar no asfalto uma carícia de mãos… absurdamente perturbadoras.

Não sei… agosto sempre foi um mês de gosto forte, denso… uma xícara de café ristretto nas primeiras horas do dia.

Não me restar outra coisa que não seja: aguardar…