Septum

“minha pele tem…
suas próprias Estações”


 

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…não é um diário porque não nasceu da preocupação em se deitar no papel um combinado de vogais e consoantes sob a orientação temporal. Surgiu da necessidade de dialogar com figuras imaginárias.

A realidade se fez presente, porque ela se intromete em tudo… mas ali dentro, sucumbiu a insanidade da autora e se deixou reinventar…


“Sete… Septem… Setembro… Septum, do latim ‘aquilo que contém’ — quem conhece esta artesã das palavras sabe bem que se encontrará lá dentro, em cada linha de cada página, porque a colecionadora age assim… na calada da noite, nos gritos do dia, transformando pessoas em arte”.
Adriana Aneli

 

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Mariana Gouveia,

…ela também escreve diários!

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Mariana foi gerada… como escreveu Mia Couto, em seu livro “Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra”, no próprio útero — e dali se precipitou para o mundo… onde nos encontramos, primeiro através de nossas palavras, depois do calor da pele, dentro de um abraço que nos fez duas metades-inteiras…

Gosto de “ouvi-la” narrar suas histórias — me sinto tragada por essa realidade particular, colorida de sol… a vejo percorrer suas singularidades, que são minhas também — “ainda antes era agosto e a fumaça cobria meu céu, a ansiedade banhava meu coração, e daí o abraço se deu e a alma, que antes já sabia o sabor, ganhou cheiro de cartas abertas, cadernos lidos, livros apreciados”. Nossas conversas se orientam em linhas sonoras, porque nossos mundos cabem dentro de nossas realidades particulares. Ela sabe dos meus passos de menina, e eu sei os dela. Tenho para mim que nos esbarramos nos sonhos…

Mariana é um nome que possui duas possíveis origens: do inglês Marianne — que me lembra da personagem de Jane Austen, em "razão e sensibilidade"… uma menina sonhadora, que deseja desesperadamente viver um grande amor, mas não entende o próprio coração.  Também se origina do francês, onde aparece como diminutivo de Marie — que me remete a minha prima, a quem chamamos “Marie“…

Na casa da nona, o nome Mariana era italiano de berço… e ela dizia que significava duas mulheres em uma mesma pessoa. Uma menina linda e uma mulher apaixonante. Parece certo e preciso… pois, não sei quem de fato escreve! Mas, desconfio e gosto de pensar que a menina cochicha nos ouvidos da mulher os seus sonhos e ilusões…

Ela Também escreve diários…

“Acredito que a capacidade lúdica se estende por toda a vida,
e é fonte de fortalecimento da criatividade que alarga a nossa relação com o meio que vivemos. Alguns escrevem, outros rezam, outros dançam eu recorto e colo, isto me dá uma ordem interior”.

Maria Cininha

 

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Figura múltipla… colorida – avessa as coisas mais simples. Uma colecionadora de cores. Suas criações partem do lúdico pra atracar nessa realidade, como se a mulher que brinca com papéis, cola, tesoura e tudo o mais que lhe surgir diante dos olhos, soubesse que sua existência é embalada por essa magia singular que faz brotar o incomum aos olhos alheios…

Ela é toda gestual – quem a conhece, sabe de sua risada espontânea e de seu olhar reprovador quando as coisas não lhe agradam. Empolgação não lhe falta. Entusiasmo muito menos. Ilusões lhe sobram e criatividade é algo feito flores num jardim primaveril – estação que sua alma acolhe com primazia, muito embora ela seja uma figura outonal…

 

“Há seis anos crio imagens a partir de retalhos de papeis coloridos. São imagens coloridas lúdicas que se assemelham ao jogo, a brincadeira, Quando crio meu trabalho eu brinco e convido quem aprecia a também brincar. Procuro despertar o olhar flexível que cada adulto teve quando criança”.

Sim, ela também escreve diários…

Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa

sophia de mello breyner andresen

 

adriana aneli

Lembro-me — e não sou boa em recordar pessoas — de nosso primeiro contato. Apressado. Passo pequeno. Olhar dissimulado… sem vertente. Nem mesmo voz parecia ter… foi apenas um cartão em minhas mãos.

Bastou, no entanto, uma xícara de café, para sabê-la Plural… de palavras e traços, de azul a bordô. Uma sombra no chão a marcar seus contornos, como se calculasse o espaço vago para si mesma.

Sempre breve e exata… é um expresso degustado no final da tarde. Um bom presságio para um diálogo que não retorna… se espalha e se conjuga com sorriso esquadrilhado.

Em minhas mãos, já foi café-amor… e agora é linha reta: um diário que eu traguei, do verão ao inverno, em poucas horas — e tatuei no avesso da minha anatomia.

Ainda me lembro do primeiro olhar e dos passos ao longe. Não sei como chegou… mas eu nunca me ocupo de chegadas. Me agrada mesmo é a partida… quando observo a figura em movimento e sei, aqui dentro, se apenas vai ou se volta…

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Sou eu ali naquelas linhas…

Trago dentro do meu coração, como num cofre
que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive, todos os portos a que cheguei,
todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
ou de tombadilhos, sonhando, e tudo isso, que é tanto,
é pouco para o que eu quero.

Álvaro de Campos, in passagem das horas

 

seh M Pereira

Eu sou uma pessoa de poucos humanos… e os poucos que tive — me tiveram-possuíram, porque gosto de pertencer aos que amo. Gosto de me deixar escorrer para fora da anatomia.

Eu me deixei forjar pelos humanos que esbarraram em mim durante essa trajetória de pedras-calçadas-ruas-e-prédios. Acho que sou um pouco de cada um deles — porque, desde sempre, afirmo que ninguém passa pelo outro sem agregar coisa alguma. Ninguém segue adiante sem levar um pouco da poeira da estrada por onde passa, e comigo não foi diferente…

Tenho os olhos de olhar… e mãos de tocar. Lábios de pouca fala e de muitos sorrisos. A inquietação eu herdei de um, e o silêncio do outro. Dou por eles em mim, sempre que esbarro em um espelho e aprecio com gosto certas presenças que não se esgotam.  Mas, tenho um bom punhado de coisas que fui herdando pelo caminho: mãos no bolso para passos largos, mãos dadas para passos mais curtos, olhar para o alto em dias de chuva, para baixo em dias de sol. Quando na varanda, olhares afoitos em busca de uma ave no infinito azul. Quando dentro do ônibus, o olhar vai ao longe… distante-perdido-ausente…

Eu sei quem sou, o que sou — mas, quando me vejo refletir no olhar que me alcança, me desfaço e não sei se aconteço ou feneço. Não reverbero, mas não quero saber o que vem na contramão. Gosto da multiplicidade que se exibe enquanto premissa. Ser qualquer coisa outra… oposta… indiferente. Como na poesia de Campos: “ser outro que não este”. É uma idéia que eu saboreio em pequenos goles, como o café e seu pesado aroma, que sempre chega primeiro.

Enfim… eu sou feita de metades. Meio bruxa. Meio arteira. Meio artista. Meio menina. Meio moleque. Meio mulher. Meio homem. Meio bicho. Meio isso e meio aquilo… Eu sou o que tiver que ser no momento em que as coisas se orientam junto a essa minha anatomia nada regular… já fui Deborah Bodeh, Julia Campos, Elizabeth Bennet, Alexandra Mendes, Anne Letrech, Mariana, Raissa — a quem emprestei muito mais de mim do que eu realmente gostaria — e tantos outros personagens que, em determinado momento, tive receio de me esfumaçar diante do espelho…

Tudo isso sou eu… tudo isso é minha escuridão-lucidez-perdição-insanidade, e outras coisas mais. Em ‘Septum‘, não posso dizer que sou apenas eu… porque, se você tropeçou em mim, eu também sou você! E é exatamente sobre todas essas coisas que escrevo em meu diário…