Não perdi o hábito de escrever missivas, 27

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Meu caro F.,

É a primeira vez que lhe escrevo e motivada por essa expectativa, passei o dia inteiro “contigo”, pensando essas linhas! Li seu “azul”, tomei café, andei pelos cômodos da casa e me “mudei” para junto de suas paisagens… e como pouco ou nada sabes sobre mim, decidi que seria de bom tom, anunciar-me…

Mas antes, preciso abrir a janela da minha alma para deixar entrar a noite —  criatura noturna que sou, amante das sombras que deixam rastros pelo caminho, de coisas incompletas-imperfeitas-completamente-inacabadas. O crepúsculo me inspira… porque a bordo da noite, eu aconteço em palavras; me afasto facilmente da realidade, vou para os meus cantos — sem silêncio, enquanto levo à boca um pesado gole de chá de morangos.

Eu durmo durante os dias — sempre que possível! Não gosto da luz do sol e se desperto cedo, é porque os trovões substituem o som agudo dos tic e tacs dos relógios, que “pensam” ser o cuore do tempo!

Por falar nisso, eu tenho a idade do vento… um pouco mais hoje, um pouco menos amanhã. Não nego que geralmente depende, um pouco de quem atravessa a minha anatomia.

Hoje, por exemplo, fui criança uma vez mais e bem no meio da tarde, eu senti vontade de visitar a nona para comer doces feitos em tachos de cobre. Assaltar seus potes, latas… usando um velho banquinho, deixado sempre no mesmo. A nona sabe dos meus furtos e os encobre. Mas quem pôs o banquinho lá, foi o nono, que também o confeccionou, depois de me surpreender escalando o móvel com duas portas de vidros e uma gelosia bastante engenhosa.

Acontece que eu sempre cresço quando recordo sua preocupação — em forma de bronca sonora — seu cuidado.

Eu trago desde sempre, meu caro, a vida no avesso. Sou descuidada da realidade; atenta aos promenores que norteiam o meu imaginário, alimentado por essas lembranças, que coleciono dentro… são elas que fazem martelar as palavras dentro da minha cabeça: consoantes e vogais, devidamente alinhavadas pelo ribombar de mio cuore… incontrolável e desassossegado. A partir disso surgem frases, que são ao mesmo tempo, o motivo do meu sorriso agudo e das lágrimas, enquanto águas paradas, nas periferias dos meus olhos fechados.

É uma questão de nudez… porque não sei escrever sem desnudar a pele, a mente, a memória… e também a alma!

bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 26

 

cartas a maio para Nil Kremer

 

Caríssima N.

 

Sentei-me aqui — nessa manhã de sábado — e como criatura que sou, repito os gestos conhecidos de meu criador(a)…

Era justamente nas manhãs de sábado que C., escrevia suas cartas. Era um tempo apenas seu… e quando os dias da semana não lhe entregavam envelopes, ela debruçava suas palavras sobre as páginas de um velho caderno — uma espécie de diário — mas não era a mesma coisa. Faltava algo… era como se o sábado escapasse da folha do calendário — inexistindo. Sendo qualquer outra coisa que não o dia, que para ela, era de palavras-folhas-caneta-e-envelopes…

Eu percebia sua inquietação e dava pelos movimentos vários — em círculo — ao redor do próprio eixo —, de um lado ao outro. Da cozinha à sala, do quarto ao banheiro… para a varanda. Tudo feito em passos desconexos da realidade do dia.

Às vezes, ela aquecia a água para um chá, preparava torradas — devoradas com geleia — e, quando nada resolvia, saia para as ruas, indo as compras. Levava consigo a lista de ingredientes para o jantar — e nada mais.

Contudo, era visível que nada se ajustava em seu corpo: a roupa não lhe servia, o perfume lhe incomodava… e a própria matéria acusava desconfortos!

Tenho para mim que foi justamente o que me levou a tecer missivas… aprendendo seus gestos, decorando seus movimentos, observando atentamente sua escrita ao “contrário”.

Lembro-me que certa vez, fomos juntas à uma papelaria, onde compramos envelopes: os vermelhos para mim e os marrons para ela.

Durante algum tempo, colecionei papel de cartas, mas não nasci para acumular coisas. Me canso facilmente desse gesto repetitivo.

A única coisa que acumulo de fato — sem cansaço — são as lembranças que trago em mim.
Algumas são audaciosas — confesso — se precipitam em mim de maneira inesperada: no meio da rua, dentro do ônibus, no meio da tarde, em plena madrugada. Fecho os meus olhos e assisto a esse filme que sou! Há qualquer coisa de aconchego em lembrar dos meus dias passados. Viver um dia é abandona-lo nesse velho baú chamado vida. O dia seguinte é uma promessa, mas o dia anterior é tudo que de fato nos pertence, ao menos até que a morte resolva agir junto a nós.

Eu ainda me lembro da primavera vez que sentei junto a uma mesa para escrever minha primeira missiva — como se fosse algo recente — esse ontem que vai longe. A semana tinha transcorrido sem envelopes junto a caixa de correspondência. Era primavera — sua estação favorita —, não parecia justo permitir todo o desconforto conhecido…

Escrevi um punhado de linhas… exatamente como faço agora, nessa manhã dourada — encenando esse velho ritual de pensar o outro, dividindo com você, essa minha coleção de memórias, como se o papel fosse o álbum e as palavras as figurinhas!

 

Bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 25

 

Cartas de maio à Thais Barbeiro

 

Caríssima T.

É outono lá a casa… mas apenas depois das quatro; antes é qualquer coisa que não se nota, sabe? Não importa o mês, tampouco o dia da semana, quando olho para o relógio e percebo os ponteiros pulsando às quatro horas — tudo acontece; dentro e fora de mim! Corro a janela, deito meu corpo para fora  e vejo a tarde perdendo suas cores. Um vento arredio irrompe o cenário, apressando voos de folhas e pássaros; as sombras dão novas formas às antigas fôrmas — e eu finalmente me inauguro em substancia!

Sinto a pele ser povoada por um arrepio que se esparrama da nuca às solas dos pés… respiro fundo! — os aromas saltam para dentro da minha anatomia reinventada. Tanta coisa junto — acontecendo ao mesmo tempo. É como se fosse a folha de papel onde se escreve essa missiva… sem pressa, com contornos sutilmente inclinados à direita.

E quando a tarde vai — aos poucos — abandonando seus quintais —, corro a cozinha aquecer a água… escolho a xícara — tenho as minhas preferências, como Caio F. perhaps — e também o aroma — limão com gengibre para abrir o apetite — para em seguida separar os ingredientes: cebola, alho, tomates em cubos, pimentão em tiras, alho poro em rodelas… tudo misturado – aos poucos — dentro da panela.

Gosto de cozinhar ao cair da tarde… principalmente quando tenho a casa apenas para mim. Vou percebendo os cômodos e deles me apodero lentamente. Absolutamente tudo me pertence: realidade e imaginário: as paredes e o teto, o assoalho e também os móveis…

Penso — sometimes — nos poemas de Eliot, Borges, que trago comigo desde a infância Nos contos de Mia Couto — recém-chegados.

Penso no canto do sofá e para lá me movo… vislumbrando as janelas do outro lado da rua — supostas telas de Hopper — enquanto aguardo pelo aroma, que vai aos poucos se esparramando pelos espaços. Penso em manta para os pés descalços, vestido por brancas meias… e me distraio por um instante com o suspiro profundo do cão, que abraça seu sono sensato — de minutos — ao meu lado, enquanto eu vago — perdida — pelo mundo que guardo dentro.

Fecho as cortinas… como quem guarda roupas limpas dentro do armário — e ponho a mesa: são sempre dois pratos, duas taças e quatro talheres. Nas noites de sextas dificilmente tenho convidados. Os amigos são para as noites de sábado e domingo… dias reservados para os outros desde sempre. As sextas são para mim e os meus meninos!

Provo do sabor dos elementos combinados — aprovo o tempero — e combino numa mesma travessa a pasta al dente com o molho vermelho em tom escarlate. Deixo lado-a-lado a garrafa de vinho branco — meu favorito — o abridor, o guardanapo, o queijo parmesão em lascas e espero… pelo “meu menino” que percorre as ruas de sempre, que o devolverá à casa, dentro das horas seguintes.

E enquanto espero, escrevo-te…

 

Bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 24

 

Cartas a maio, Inge Lobato

 

Caríssima I.

 

…entro tarde a dentro com a mente ocupada por um quinhão de coisas. Bebo latte — leite, chocolate branco e café — enquanto ando pelos cantos desse cenário, acostumado a minha presença. Gosto de observar o piso desse lugar, de onde “brotam” mesas, cadeiras, sofás…e por onde transitam dezenas de pés, em conhecidos tropeços.

Aqui faço de tudo… edito textos, preparo propostas, leio livros — hoje Rubem Alves me atravessa os olhos com suas linhas — escrevo cenas, dialogo com quem “me visita” e, vez ou outra, observo pessoas que, em maioria, fazem exatamente o mesmo que eu… a mesa que comumente habito, está cheia de editores com suas pautas em mente e deadlines em vista…

Também tenho os meus prazos, mas evito pensar nisso porque minha mente precisa — desesperadamente — de sossego no momento… queria me esbaldar com os diálogos pela metade que essa “multidão” tece — ao meu redor — sem cuidado algum. Eles sempre têm o que falar… nada que faça sentido; são apenas bobagens conhecidas, vazias — mas servem de alento à mente e também à memória, sendo uma espécie de distração para as seriedades que embalo.

Mas com tantos ruídos dentro foi impossível deixar-me… indo me deter junto a essas conversas animadas. Me afastei… e quando dei por mim, degustava as páginas do livro: “o velho que acordou menino”… e ali permaneci, como quem mergulha em alto mar, apenas para fazer calar as vozes do mundo!

Me deparei comigo mesma na página 177 onde o texto “o relógio” narra a história de um velho carrilhão que — segundo o autor — dizia as horas —, esse fantasma que assusta a jovens e velhos na mesma proporção.

Sorri minha saudades minha cara!
Lembrei-me — com alguma alegria — do velho carrilhão de minha infância… visitado durante as férias de verão. Ele cantava as horas cheias, com seu som agudo, forte… sempre pontual! Tinha para si uma parede inteira, mas não parecia satisfeito, porque quando cantava, seu som se espalhava por todos os demais cômodos da casa, ressoando forte junto ao assoalho gasto, o forro envelhecido e as paredes pedindo uma mão de tinta — sempre prometida.

Dormir — na primeira noite, à nossa chegada — era praticamente impossível… afundávamos a cabeça no travesseiro, mas o maldito som encontrava frestas por onde penetrar, nos alcançando como se fosse uma maldição a nós destinada…

Tínhamos medo-pavor do bendito carrilhão! Nosso principal assunto no café da manhã… o nono nos fazia ir para a cama cedo, mas, às vezes, os nossos apelos eram ouvidos e ganhávamos meia hora para as nossas euforias. Chegadas as nove horas, contudo, não havia apelo que funcionasse. Cantava o carrilhão e o nono também. Era a hora sagrada — mas eu não tinha sono e meus primos tampouco. Queríamos provar do sabor da noite — fruto proibido. Contar nossa realidade e nos afastar da condição de estranhos aos olhos uns dos outros. Nosso parentesco se limitava às férias de verão — vivíamos todos em diferentes cidades — quando nos reunia na casa do nono!

Eu me lembro que ouvia as badaladas seguintes do carrilhão — distantes — sem saber precisar a quantidade de vezes que havia “anunciado”… e então, abria os olhos num susto, como se minha alma tivesse sido devolvida ao corpo. Seis da manhã… e já estava claro! O sol entrava pelas frestas da veneziana, a mesma que, “segundos antes” havia me oferecido uma rua vazia, imersa em sombras e silêncio — me fazendo pensar na poesia de Dickinson! Não havia viva alma junto à rua — sem voz e quase sem movimento, às vezes, um gato-rato-cão-vadio oferecia qualquer coisa de vida aos meus olhos — e isso me fazia pensar que o mundo todo ia se deitar às oito meias, ou mais tardar, às nove, porque havia muitos nonos iguais ao nosso, nas outras casas.

Mas uma coisa sempre me intrigou… o que acontecia comigo quando o sono alcançava  meu corpo? Porque eu tinha certeza — ao meu deitar — que não queria dormir… e mesmo assim, acontecia o sono… como se o silêncio das ruas se apoderasse de minha matéria – sendo uma espécie de doença de cura desconhecida.

Estranhamente a compreensão se deu na única vez em que estive em um velório… lá estava o corpo de um amigo da família — pisoteado por cavalos aos quarenta e poucos anos de vida — a viúva chorava inconsolável, as duas filhas do casal brincavam — inconscientes — no canto, com seus brinquedos… enquanto os demais marcavam presença.

O que sei minha cara, é que me aproximei do caixão e provei da superfície pálida-lisa-imóvel-e-fria-feito-gelo do homem, que tinha os olhos devidamente fechados. Era isso: ele dormia… e eu sabia que não haveria despertar para ele. Engoli seco e fiz o que não se deve fazer nessas horas — pensar! Caeiro sabiamente — me lembro Rubem Alves em suas linhas – disse: “pensar é estar doente dos olhos”… pois bem, pensei em como seria não acordar na manhã seguinte, voltando à vida — como sempre fiz — numa espécie de sopro?  O mesmo sopro que, as “escrituras sagradas” afirmavam ter sido usado por Deus para dar vida ao homem…

Permaneci imóvel junto a esse pensamento, até meu corpo ser movido do lugar, arrastada que fui pelo braço assim que a nona percebeu o pânico diante da realidade imutável da vida. Não voltei a entrar na casa quarenta e um, da rua dois… da Villa Juliana. Não voltei nem mesmo a rua.

Contudo, voltei a casa do nono nos verões seguintes… o medo do carrilhão não desapareceu. Lembro-me que, no ano da morte do nono (noventa e três)… ouvi o som feroz de suas badaladas inquietas a noite inteira, já que a ordem de ir para cama não mais trazia o sono ao corpo, numa forma inconveniente de rebeldia. Eu ouvia a sequencia completa de badaladas – nove, dez, onze, doze, uma, duas… totalmente consciente da noite e seu silêncio. Ouvi em paralelo, todos os ruídos da casa: do assoalho ao forro, às paredes, janelas e portas, os galhos nos jardins, os diálogos dos matreiros — os homens que vigiavam as casas durante a escuridão — e comecei a acusar o sono quando às cinco horas foram anunciadas pelo velho carrilhão, que parecia cansado e sem força… carecendo das cordas dadas pelo nono — pontualmente as oito da matina!

Eu ainda me lembro do som das engrenagens entrando em acordo com o relógio de bolso — um presente de seu velho, quando ele finalmente se tornou adulto.

Depois que o nono adormeceu… o carrilhão sossegou, gosto de pensar que ele sabia não ser possível despertá-lo. Embora aqui dentro de mim, ainda ressoe — vez ou outra — às nove horas e confesso que sometimes — eu me sinto “obrigada” a ir para a casa… (risos)

Bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 23

 

cartas a maio para Dália Estes

 

Caríssima D.

 

…porque é tarde e eu me rasgo em lembranças que nem sei dizer se são minhas, ou de algum personagem que inventei para meu uso futuro… ou de um andarilho no qual esbarrei pelo caminho que faço quando “volto para casa”.

Gosto de andar à noite, quando tudo são sombras e os poemas escorrem dos muros das residências… aqui são mais prédios que casas, e toda vez que amanheço, uma casa foi ao chão… desapareceu. Restando apenas o terreno vazio, com marcas de pegadas e rodas. Da antiga construção  não resta nem mesmo a poeira. Amanhã ou depois será mais um estacionamento. Já vi isso acontecer dezenas de vezes e ainda não consegui me acostumar porque os desenhos vão sumindo dos meus olhos lentamente: a cor das paredes, das portas e janelas, os caminhos do portão até a entrada, os degraus…

Pausa breve e imediata: volto depois, agora vou à cozinha preparar um bolo de fubá!

E enquanto lá estava a misturar os ingredientes — açúcar, leite, ovos, fubá, coco, óleo — percebi que é a primeira vez que te Escrevo… voltou a ser uma rotina em meus dias, depois de tanto tempo.

Abandonei o hábito de escrever missivas quando comecei a cursar psicologia, em Coimbra.
Faltava-me tempo, ânimo, vontade… estava tentando me desprender da pessoa que eu era até então, para tentar ser alguém novo, inédito… a pouca idade e a falsa maturidade — cantada pelos conhecidos que enxergavam alguém, que agora eu sei: nunca fui — colaboraram para que muitas coisas se perdessem, mas não embalo arrependimento, faz parte de quem sou e, principalmente do que sou.

São minhas lembranças — heranças que eu guardei devidamente documentadas nesse testamento imaginário, que guardo dentro — e a elas recorro sempre que, aqui me sento para escrever, nesse começo de noite: à você.

Bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 22

cartas a maio, para Carla Carbatti

 


Caríssima C.

 

Hoje é segunda-feira… dia de começar a ler novos livros, antigos poemas, separar envelopes, folhas — com linhas perfeitas, dispostas a acolher as palavras que guardo dentro… acontecendo a cada passo meu, entregue as calçadas dessa cidade, que é meu corpo — com seus músculos e nervos, veias e articulações várias…

Vou e volto de minhas prateleiras — na primeira hora dessa manhã cinza, ainda sem chuva — com o livro de Campos, em mãos. São páginas conhecidas, devidamente marcadas, onde pesam anotações minhas, feitas em outras manhãs que não estás — iguais apenas em cor.

Revisito sensações, provo desse gosto conhecido… e sinto — confesso — algum prazer em virar as páginas, que já tem minha digital impressa em suas finas camadas de papel… é como se fosse um velho filme, que vejo novamente nessa tela, que é a minha memória…

O dia está excelente para uma caminhada, mas meu passo não quer avançar ruas… quer ficar dentro, varrendo os cômodos e seus cantos empoeirados de saudades. Mas os meus olhos cismaram em apreciar a soleira da porta e seu velho capacho — cinza — que acena despedidas (imaginando os trajetos que faço) para na volta, entregar-me “sorrisos” de boas vindas…

Enquanto isso, aqueço minhas mãos junto a xícara de chá de morango silvestre fumegante — recém chegada  — e afundo meu corpo no sofá… converso com a parede branca onde escrevo essa missiva imaginária, como quem confecciona “notas mentais” das coisas boas da vida… sem papel ou envelope. Apenas o lado de dentro dialogando com o lado de fora, onde você insiste-existe-persiste… e onde eu pouco fico!

Eu tenho um punhado de coisas para contar. Outro bom punhado de coisas para inventar. Coisas inteiras — pela metade. Coisas minhas — alheias…

Hoje é segunda-feira e li em algum lugar que há quem não goste desse dia… e eu aqui a pensar entre sorrisos amenos: “como é possível não gostar da segunda?”… esse dia da lua, de sentir o rosto úmido pela água fria, de ler poesias de Campos, de preencher a taça com vinho, ouvir um Blues, receber notícias de alguém em envelopes coloridos. De observar as voltas dos ponteiros sabendo que as horas sempre voltam ao começo, de onde partiram minutos antes…

Sabendo que é o dia que antecede a terça e sucede o domingo… esse dia que eu já não entendo mais como antes, porque houve um dia em que o domingo era para encontrar, estar junto… e hoje é apenas o dia que me leva a segunda… onde aconteço sem pressas, como se fosse possível fazer uma pausa nas coisas todas da vida para depois voltar à elas, revigorado, sendo outra que não está que vos escreve…

 

Bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 21

 

cartas a maio para Clai Mont

 

Caríssima C.

 

…ah minha cara, estou chateada… o cansado grita em meus músculos e nervos e eu queria lhe escrever num dia menos árduo para mim, mas tenho para mim que os dias não serão azuis tão cedo dentro dos olhos meus.

Talvez você ache engraçado, porque já deve ter lido em alguma outra linha minha que, prefiro os dias cinza, com pesadas nuvens junto aos céus e de preferência, com o tremor dos trovões junto a minha geografia, esse mapa que se reinventa ao toque.

Sim, eu prefiro os dias nublados desde a infância… me lembro com perfeição da primeira tempestade que senti na pele. Era puxada pela mão com alguma pressa. Meus passos menores, encolhidos não queria traçar um caminho… eu ia de arrasto, sabendo que não daria tempo para fugir da fúria dos céus.

Eu queria parar ali mesmo… e esperar! Enquanto observava o balé das nuvens no céu! Até tentei o argumento, o que resultou em um gesto de fúria na figura humana que me conduzia de volta à casa. Outra tempestade! Mas sem o fascínio dos trovões, relâmpagos e a chuva deixando no asfalto as suas primeiras gotas…

Provei do movimento destemperados dos lábios – sorria – e sentia no braço a brutalidade de seus gestos. Enquanto isso, a chuva acontecia – de maneira severa – sem que eu pudesse abrir meus braços para que a chuva banhasse meu corpo…

Chegamos a casa com a chuva na pele. Ensopadas. Meu corpo – pequeno – escorria junto ao tapete da porta de entrada bem diante dos olhos de C., que tentava – sem sucesso – conter o sorriso diante de uma aborrecida cunhada que me culpava – de maneira bastante sonora – pelo banho de chuva, reclamando as roupas molhadas, o corpo encharcado e o resfriado – que acometeu apenas a ela…

Eu sempre fui toda tempestade!
Ah, mas o cinza que carrego na alma – dentro dessa tarde de maio – é outro!
É desassossego, arrepio de um frio que se faz sentir nas veias… a pele não aquece, nem mesmo quando alguém se amontoa em meus cantos. É abandono… o momento que antecede a partida! É soluço. A roupa que se despe pela última vez. A resposta que se entrega mesmo que a pergunta não seja feita. A palavra que se escreve ao final do capítulo quando se encerra a história.

Estou de luto minha cara… e ninguém morreu!
Quer dizer eu morri… porque é o que sempre me acontece. Um morro um pouco mais a cada fim que anuncio. E hoje a última linha se escreveu por aqui… em mim! E amanhã, quando outros olhos tomarem para si esse gole que sou, nada mais será como antes.

Eu queria te escrever de dentro de um dia azul, com sombras pinceladas pelo sol… junto a calçada onde meu passo esbarra em outros, mas terás que se contentar com essa escrita cinza, que narra essa despedida… que ainda não aconteceu, porque ainda não deixei a história, se afastar… o fim de fato aconteceu, mas as folhas e suas linhas seguem sendo apenas minhas e assim serão enquanto eu não estiver pronta para outro destino, que não eu mesma.

Eu sempre fui o meu próprio mapa!

Bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 20

 

Missivas de maio, Aden Leonardo

 

Caríssima A.

 

…gosto imenso quando sou capaz de perceber a tarde junto aos meus olhos… não é sempre que acontece. Houve um tempo em que, eu esperava – sem pressa alguma – o sol partir, apenas para dar boas vindas a noite, mas parece que isso aconteceu em outra vida que não está, onde tudo acontece a revelia das minhas vontades.

Hoje eu vivo a intensidade das páginas e suas letras várias. Tenho pressa – geralmente me falta tempo e eu reclamo as horas subtraídas de meu dia – e o ritmo insano que mantenho só me abandona quando me ponho em movimento pelas ruas da cidade. Enfio as mãos dentro dos bolsos da calça, baixo a cabeça e vou com cuidado… desviado dos apressados que marcham em desassossego a minha volta. Atravesso ruas, dobro esquinas, enquanto meu coração pulsa e, minha mente desacelera!

Sinto falta minha cara, dos dias de calmaria, quando os únicos transtornos eram os trovões no céu de maio, que anda silencioso! Não ouvi uma única nota no céu ainda, embora tenha observado o passeio das nuvens de um lado para outro, mas foram apenas promessas, daquelas que não se cumprem!

O frio veio com força, me obrigando aos agasalhos que tanto amo. Gosto imenso de roupas. Moletom sobre o corpo. Xícaras de chá aquecendo as mãos enquanto passeio pelos cômodos da casa. Gosto da taça de vinho dentro da noite e o aconchego dos braços de meu menino… e das páginas dos livros – uma depois da outa – diante dos meus olhos… nada me agrada mais que adormecer junto as páginas de um bom livro. É tão aconchegante essa espécie de sonho que me permito!

Ontem eu adormeci junto a “distraídas astronautas” e, ao alcançar a página vinte e cinco do livro me vi imersa em pausas. Li uma dúzia de vezes o mesmo verso… até perceber que eu nunca pensei na “cor da saudade”.

A vida para mim tem cores poucas… uma ou outra apenas.
Sempre enxergue o preto (grafite) e o branco (das folhas, onde o grafite marca o meu traço).
Quem gostava de coras era C. – amante da primavera que era e, apaixonada por dias azuis.  Eu sempre fui seu contrário: amante do outono, dos dias cinzas-amenos-irregulares, das nuvens carregadas.

Minha saudade não pede giz de cera.
Ela grita do lado de dentro da pele – às vezes se esparrama do lado de fora – explode! Mas creio que se fosse para ter uma cor… decerto seria o preto-negro, como a noite sem lua ou estrelas – encoberta! Quem sabe um filme em branco e preto, gasto – opaco! Ou uma janela aberta para um dia de chuva… com a paisagem úmida, a gotejar (horas depois) a chuva (de horas antes)… Gosto imenso quando os galhos das árvores guardam a chuva em seus contornos e, tal qual um capricho infantil, surpreendem os desavisados… o riso cresce em meus lábios e se espalha por minha superfície como se fosse uma manta vermelha a cobrir os meus pés.

Minha saudade não terá cor jamais – concluo… mas me agrada bastante pensar em regar as tulipas que não acontecem em meu jardim. É bastante lúdico, não acha? Agrada bastante esse meu imaginário insensato.

 

bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 19

 

Cartas a maio, Simone Teodoro

 

Caríssima S.

 

…acontece a tarde lá fora, por cima da cidade com suas ruas em “movimentos” de sexta-feira. Passa das duas e eu ainda não aconteci para o mundo. Quando o outono se estabelece dentro dos dias de maio; fico dentro da pele, como se eu fosse um livro, sendo folheado lentamente… página por página!

Minha alma – normalmente – vive em desacordo com os ritmos da realidade, há dias em que eu vou mais rápido: atravesso ruas, dobro esquinas, avanço por entre os carros, entre e saio de um sem de lugares, ultrapasso pessoas, ocupo a mesa de cafés da cidade e me detenho junto a um olhar que esbarra no meu – saltando para cima de mim, no meio da multidão – permanecendo comigo, em mim… e há dias em que tudo simplesmente para, inexiste. O passo não acontece! É quando fico em suspenso – acontecendo em silêncio/segredo – não ouço diálogos, não dou por pessoas ao meu lado. Eu nada sei sobre as formas humanas e as fôrmas que as orientam…  não saio para as ruas. Fecho portas e janelas. Vou para o quarto – com uma xícara de chá em mãos – e me esparramo, porque sou um baú que de tão cheio, é impossível manter fechado. Mas a criança que eu fui… se senta na tampa e de lá faz caretas – me fazendo rir ao longo das horas – e agita as pernas o tempo todo numa inquietação intensa dos cinco sentidos… vez ou outra ela me chama e juntas, esparramos  todas as nossas coisas por cima da cama e aos poucos, vou me dando conta de que já “escrevi” uma vida inteira que é também metade, apenas uma parte do que pode vir a ser um dia.

Você já experimentou sentir saudades de coisas que ainda não viveu? Eu sinto isso às vezes… geralmente sou impulsionada por algum personagem que “viaja em mim”, mas hoje foi por uma fotografia antiga, enviada no distante ano de 1997 por um primo. A tive em mãos por alguns segundos e fui para longe… para dentro do cenário que ele fotografou. Ele falava em poucas linhas, da vida, de seus medos e vontades, de suas incertezas e confessava escrever do segundo andar em Wazemmes, de onde ouvia um jovem músico se repetir em notas – todos os dias, no mesmo horário…

A fotografia estava junto as coisas que esparramei sobre a cama… o lugar pequeno, escuro, com poucos móveis, calmo e lúcido saltou para dentro dos meus olhos. Trouxe qualquer coisa de conforto para a derme e a consciência de que nunca irei ocupar aquele espaço, da mesma maneira que ninguém irá preencher a lacuna deixada por ele.

Ele é esse silêncio que não me traz paz!
Ele não me conta mais suas histórias e nem eu posso mais fazê-lo porque não temos mais um idioma em comum. Somos dois estrangeiros conscientes dos mundos que habitamos. Não tivemos tempo para dizer adeus… e talvez por isso eu ainda o procuro em cada estranho que o mundo me oferece, provando de tudo e nada ao mesmo tempo. E o resultado não poderia ser outro que não este: saudades!

 

Bacio

Não perdi o hábito de escrever missivas, 18

 

Carta de maio à Marcelo  Moro

 

Caríssimo M.

…degustava o latte de sempre, entre alamedas, enquanto “passava a limpo” a missiva de ontem, escrita dentro de um coletivo, em meio aos traços da cidade, atravessando prédios e casas… quando me sento para escrever – geralmente – diante do computador, já estou com as linhas prontas do lado de dentro da matéria, como se escrevesse no avesso, sendo uma espécie de tatuagem invertida.

Recordava o trajeto e a mim mesma em movimento, quando essa senhora se atreveu junto a mim, ocupando a cadeira vaga ao meu lado. Durante algum tempo, eu duvidava da realidade, espiando com algum cuidado, oscilando entre incertezas, porque de tanto espiá-los, eu não sabia se era o meu imaginário impulsionando uma realidade por mim inventada ou se era apenas a realidade por si própria, investindo junto a mim. Havia ainda a possibilidade de ser a loucura, objeto comum à minha família, constante frequentadora de hospícios e sanatórios.

No começo, em minha juventude… era uma preocupação e também o meu maior medo: enlouquecer. Hoje é algo que eu considero saudável… insano mesmo é a lucidez e seus ávidos seguidores.

Essa senhora, passava por mim, todos os dias… sempre no mesmo horário, com suas roupas escuras, sua bolsa a tiracolo, seu medalho vermelho no centro do peito, passos curtos e um copo de café em mãos. Ela ocupa sempre o mesmo lugar, ao fundo e tem nome de poeta… um delicioso mistério que durante algum tempo, sorvi com algum prazer.

Descobri seu nome porque todos que frequentam a Starbucks tem seus respectivos nomes "cantados" pelo Barista que prepara e nos entrega a bebida. É como estar de volta à sala de aula, quando nossos nomes eram citados – completos – durante a chamada pelo professor, cabendo a nós afirmar a nossa presença. Gosto dessa semelhança, muito embora não seja o meu período favorito. A escola era um lugar um tanto monótono e enfadonho, com faltas e excessos.

Voltando a “personagem”… ela se mostrou espantada com o meu gesto. Confessou-me sem restrição a estranheza que sentiu ao se deparar com alguém da minha idade – não sei precisar o tempo que seus olhos perceberam em mim – em meio a envelopes e folhas de papéis, a dizer missivas-cartas.

Falou de si mesma e de seus correspondentes num tom monocórdio… todos mortos – afirmou com algum pesar – mas tenho para mim, no entanto, que a morte da qual falava, era outra… e não a que leva os seres para outro mundo. Parecia falar de abandono, desistência… dos envelopes esquecidos dentro de uma caixa, escondida no fundo de um armário, de gavetas fechadas… do cansaço que em algum momento sentimos da vida, das coisas e de tudo que acumulamos, porque somos acumuladores: de saudades, lembranças, coisas, lugares, pessoas. Vamos acumulando tudo dentro e sempre que pensamos em fazer uma faxina, vem o a tal do amanhã em nossa mente, e deixamos para depois.

Pensei em mim mesma, ao olhar por um breve instante, no fundo dos olhos dela. Pensei na força dos meus gestos, nos livros de poesias que deixei de ler, nos livros que meus olhos nunca irão tocar, nos filmes em preto e branco que me fizeram chorar e na escrita que acalento do lado de dentro, a qual reneguei durante muito tempo. Mas penso principalmente a quem escrevo e os que recuso em escrita.

E depois de pensar em tudo isso, varri com meus olhos, alguns de seus poemas… recordando as primeiras leituras, os primeiros sentimentos e versos. C. gostava de dizer que eu era a "senhora das primeiras vezes"… ela afirmava que eu era impulsionada pelo primeiro toque, tudo o mais era excesso e eu descartava naturalmente.

O que sei – nesse sentido – é que sua poesia disse a mim, em voz alta, a sua imagem, o seu pensamento, como acontecia no tempo em que os envelopes chegavam pelas mãos do carteiro às minhas… trazendo notícias de outras superfícies, sem fotos, apenas um sem fim de palavras em folhas de amarelecidos tons… desenhando esse retrato apenas meu do outro, que nem sempre se mostrou fiel à realidade, mas isso nunca me incomodou. Era apenas um pequeno detalhe porque eu nunca fui amiga da realidade!

Bacio