Notícias de ontem, no mundo em que vivo…

tarde de dezembro

A caminho da Livraria Cultura me distrai com a extraordinária notícia exibida numa daquelas telas de televisão em exposição dentro do vagão do metrô: “existem atualmente mais de duzentos mil blogues no mundo”. Achei graça porque é o tipo de notícia que não faz a menor diferença na vida de alguém. É como dizer que novembro foi o mês mais chuvoso dos últimos cinquenta anos ou que choveu em um único sábado o esperado para o mês inteiro.

Parece que as pessoas vivem em busca desse tipo de informação, mas eu não dou a mínima. Sempre digo em voz alta que sou sagitariana, mas não leio horóscopos. Apenas gosto da simbologia do signo que me acompanha desde o nascimento. Recentemente, resolveram — a partir de algum estudo insano-bobo-sem-sentido — que haveria uma considerável mudança no zodíaco… e colocaram a culpa no movimento da terra.

Mas, ao compartilhar a formidável notícia com Z., durante o nosso café entre prateleiras… ele respirou fundo, ponderou situações, como sempre faz e concluiu depois de outro pesado gole de café: “parece que todas as pessoas que um dia tiveram diários, cadernos ou um mísero bloco de notas… migraram para os blogues. Mudaram o formato de seus escritos e ainda ganharam uma alcunha”…

Engoli o que ainda havia de café na xícara… recordei o livro de Patti Smith, que ainda leio de hora em hora, revendo as anotações feitas desde a primeira leitura… pausei sentimentos-sensações… respirei fundo e enquadrei minha realidade: eu tive um caderno-diário (vermelho) onde escrevia a minha vida, com algumas reticências severas e pontos finais insólitos. Colava nas páginas em branco, pequenos pedaços de uma história que era insistentemente narrada na terceira pessoa do singular.

Mas não foi isso que motivou a criação de meu blogue… essa curiosa ferramenta, que foi apresentada a mim por um amigo-parceiro-cúmplice, com quem trocava correspondência. Lembro-me que do alto de seu entusiasmo, disse com sua voz de menino-travesso: ‘essa ferramenta vai te ajudar nas suas decisões futuristas’.

Levei dias para criar o ‘espaço virtual’… tive que escolher o papel de parede, a mobília e o endereço — a parte mais complicada de todo o processo, afinal, quando me mudei para algum lugar, o endereço já existia… era o nome de alguém-ninguém. Mas o blogue dependia desse norte para ser encontrado por alguém, tanto quanto o carteiro depende do CEP…

Eu vivi o apogeu dos blogues, quando se conquistava facilmente mais de mil visitas/dia… e seu perigeu quando disseram se tratar de uma ferramenta em vias de extinção. Chegaram as redes sociais… uma depois da outra, o que só fez aumentar a idéia de ‘morte dos blogues’.

Nós gostamos de anunciar o fim dos dias, das coisas, da vida, do mundo: foi assim com o rádio, a televisão, os discos, o livro, a vida na terra — que já teve várias datas finais no calendário. E tudo continua exatamente onde estava: no seu devido lugar…

Enfim, um dia tudo se acaba, mas até lá ainda teremos que conviver com as notícias de sempre…

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…a pessoa que não somos!

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —

…esbarrei na figura de A., no meio do passo — dentro da tarde quente. Quase que ela me escapa do olhar… distraída que estava com as coisas do meu-mundo-vida… que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco — e o desejo de ter em mãos um copo branco — grande — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…ela seguia a passos largos — com pressa — desviando do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto as mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis.

Me diverti com a cena… que assistia de dentro da pequena distância… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde qualquer, no conhecido cenário ‘entre esquinas’… que, ao tomar para si… acabou por tirá-lo de mim. Ela era espaçosa… estava sempre disposta ao diálogo, sempre a gesticular, a vasculhar superfícies.

Era apenas mais um dia na minha realidade… trabalhava no ‘livro dois’ de ‘lua de papel’. Ouvi quando pronunciaram o nome dela, e prestei atenção em seus movimentos de lady-cobra. Foi uma espécie de afago entregue ao meu imaginário… acompanhei o que era passo até o lado de fora, vi quando se sentou, cruzou as pernas e articulou seus movimentos irrequietos. Embalou seu par de horas confusas… virou páginas de revistas, digitou linhas e mais linhas. Parou para espiar o nada e reverenciar a fumaça que fugia do cigarro aceso afundado entre seus dedos.

Dias depois ela veio dividir a mesa comigo… falou de si, da vida — coisa que disse não ter o hábito de fazer. Reclamou da solidão, dos desejos de fêmea e do fato de não poder fumar na parte interna do Café. Percebi que ela tinha necessidade de reconhecimento… tato e de falas sem pontuações, sempre um tom acima. Algumas de suas frases ficaram em mim ‘fosse em outros tempos, eu iria contigo‘  ‘não estava preparada para essa novidade que é você’… outras se perderam. Confesso que aproveitei muito dela em minha personagem, com quem curiosamente se identificou, como se fosse uma continuidade uma da outra…

Passado tanto tempo entre o ontem e o hoje… ao vê-la atravessar a rua para escapar do encontro comigo… percebi que voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. Se bem que, nunca fomos algo diferente disso!

Crônica do (fim)…

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…difícil dizer o que fica depois que o fim adormece enquanto palavra. Sílaba atômica. Maldição ou rendição. Um pouco de tudo é nada. Uma mistura de temperos, estações, fases lunares. Somas aleatórias…

Não sei dizer o que fica em mim e o que se desprende da matéria, escorre. Sei apenas que o olhar vai a todas as direções sem encontrar pouso, sossego.

A vida é tão frágil nessas horas. Estranha. E a morte é esse sopro frio de vento. Chuva que vai na vidraça e fala do vazio na infância e do balanco pagado com suas correntes a ranger pequeno e do tapete na porta que já não se abre e o carrilhão parado, incapaz de contabilizar o tempo. Não existe espera, xícaras de chá, café ou bolo com calor de forno.

O que dizer depois do fim? Eu sabia quem era… o que era, mas agora me falta qualquer coisa… de aurora, crepúsculo. Me resta amanhecer e se olhar no espelho…

 


 

 

Vermelho, por dentro!

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…não sou uma pessoa que goste de falar de si, embora sempre escreva na primeira pessoa — como quem invoca uma criatura viva e nada humana das profundezas de si. Falar do outro é tão simples… criticar, sabendo que há limites nas palavras pronunciadas e, principalmente, sabendo que a cobrança precisa ser bem dosada.
Mas… não sei ser melindrosa, não tenho vocação maternal — portanto, passar a mão na cabeça e fazer afago não são para mim. Sei abraçar e o faço como tanto gosto, como um cão-menino me ensinou, apenas a quem aprecio-admiro-e-gosto. Estou velha demais para fingir gentilezas. Sou educada e breve com aqueles que encontro e não me conquistam.
Tudo isso para dizer que escrevi ‘mais um livro’. E, a história que ofereço em ‘vermelho por dentro’ é um dos meus primeiros escritos… reescritos ao longo de tantos invernos-outonos-primaveras. Guardados em gavetas-caixas. Perdidos em viagens… caderno, folhas avulsas e guardanapos.
A narrativa conta a história de uma moça-artista que conheci durante meus dias de Paris. Ainda era jovem e não muito boa em contar histórias… mas eu, atrevida, guardei — sem saber que isso seria uma característica futura-minha — as suas falas-características-gestos e, durante o tempo em que convivemos, fui aprendendo-a um pouco mais.
Hoje, nos falamos apenas por e-mail… o mundo dela se tornou imenso e, quando me conta em linhas as suas aventuras-conquistas, não se parece mais com a menina-franzina-assustada com o que lhe era vontade-destino-desejo… lembro que, sentada num café, ela usava os guardanapos como cadernos e tracejava o mundo ao redor de nós. Parecia consciente do aprendizado e da necessidade de aperfeiçoamento.
Eu não estava disposta a escrever… meu mundo naqueles dias era de ouvinte-atenta. Tomava nota dos medos e tentava responder à pergunta: ‘de que sou feita?’… que a maioria das pessoa fazem, consciente ou inconscientemente. Era minha realidade lacaniana, minha verdade em linhas.
Mas, um vento forte varreu tudo isso de minha pele, e hoje articulo palavras minhas-alheias. Brinco de contar histórias e, como contadora, convido vocês a um café forte e um abraço denso.

 

Dia 25 de novembro, às 20 horas, ali no meu café ‘entre esquinas‘. Você vem?

Uma década inteira depois do silêncio…

Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.
Tocaram-te, nas tardes, assim como tocaste,
Adolescente, a superfície parada de umas águas?
Tens ainda nas mãos a pequena raiz,
A fibra delicada que a si se construía em solidão?
Hilda Hilst

Discos de vinil. Livros. Envelopes. Papéis de carta. Fitas VHS — tudo isso é uma espécie de dossiê dos anos oitenta. Eu nasci ali, bem às portas de entrada da famosa década dos sonhos… que, para muitos — like me —, foi apenas a “década do exagero”… cores exageradas, cabelos extravagantes e a famosa cultura do corpo, quando nos tornamos reféns das dietas, e as capas de revistas — excessivamente coloridas — nos impunham uma nova idéia de Ser saudável, praticando o lado errado da coisa. Tudo passou a nos fazer mal: café, chá, cigarros, chocolates…

O Brasil, contudo, parece ir na contramão do mundo, já que por aqui começavam a ser deixados para trás os “desconfortáveis” dias de mordaça, que marcaram toda uma geração.

Muita gente foi embora nos conhecidos e fatídicos ‘dias de escuridão’… e, os que aqui ficaram, precisaram aprender a lidar com o silêncio, a driblar os mecanismos estabelecidos pelo sistema… a dançar conforme a música. Era preciso semântica… metáforas — para dizer o que não devia-podia ser dito…

Dias de ditadura militar. Portões fechados. Pensamento enclausurado. Gente exilada, vivendo nas fronteiras… talvez, por isso, a década de oitenta seja tão exaltada por aqueles que a viveram na ‘terra brasilis’. Uma espécie de “volta dos dias azuis”… mas, com qualquer coisa cinza a cobrir os olhos de muitos.

A música gritou e muitos a acompanharam — mesmo que com a voz baixa-rouca — “Brasil, mostra a tua cara”… foi possível repetir refrãos inteiros sem o medo que, durante tempos, reinou por toda a sociedade, que ainda hoje não sabe direito os seus mortos.

Então, enquanto — para o mundo — ‘os anos oitenta’ se mostravam em seus exageros… por aqui, exagerar era o máximo. Ser livre era moda… o pensamento-pássaro de voos rasantes, por cima de tudo. Se, lá fora, se esperava — com urgência — pelo fim dos ‘anos oitenta’ e sua cultura-pop-estranha-ingrata-desagradável — com o mundo da moda exibindo seu pior momento… o Brasil inteiro vivia um carnaval de sensações a colorir emoções.

Os brasileiros entoavam o hino de mãos dadas e assistiam — com os olhos mareados — à volta de sua gente, que havia sido considerada inadequada ao sistema. A música gritava — “na virada do século / Alvorada Voraz / Nos aguardam exércitos / Que nos guardam da paz / Que Paz?” (Luiz Schiavon, Paulo Ricardo e Paulo Pagni — RPM) — e uma multidão inteira cantava e dançava, mais pelo prazer de movimentar-se em qualquer direção que não fosse aquela apontada pelos tais “exércitos” — que, para muitos, preservavam a paz…

Rita Lee — e seus elementos metafóricos — fez o brasileiro cair na gandaia. Sair do quarto escuro — invadir as ruas. Tudo se dizia e pouco se percebia na poesia que saiu dos becos. E, nas novelas — sem os censores —, tudo começava a ser permitido. O impossível passava a ser um horizonte a ser espiado com descaso.

Surgiu o PT e seus homens de vermelho… a gritar para o mundo uma proposta que, naqueles dias, parecia ser uma promessa a ser cumprida no dia seguinte. O movimento de “Diretas Já” levou o povo para as ruas numa só voz-tom. A esperança de um país melhor nos dias seguintes estava viva… e todos acreditavam nas forças dos movimentos. Os jovens dos anos sessenta e setenta eram lembrados e aclamados — senhores e senhoras em quem se inspirar.

Mas, nem tudo se resumiu a flores… o Brasil perdeu muito de seus heróis. A tal liberdade tão cantada pelos maiorais foi freada pela descoberta da AIDS. Pequenos notáveis se foram. O humano se tornou refém de si mesmo. Corpos amarelecidos. Magreza. Olhos fundos… e a vida se esvaindo gradativamente.

Foi um momento difícil… e, no meio de tudo isso, veio a década seguinte. Sem a música sonora de algumas bandas e o Rock de Cazuza. Sem as palavras agudas de Caio Fernando Abreu e a poesia de Ana Cristina.

O Brasil ficou mais pobre e, aos poucos, os gritos que se ouviam por aí — “pro dia nascer feliz” — foram se transformando em lembrança agridoce, a ser reclamada num futuro estranho que raiou sem esperança… e mostrando que tudo não passou de um sonho.

O Brasil se dividiu em cores… sua gente se apequenou e passou a usar deus como desculpa para condenar gestos e impor uma ‘nova ditadura’. O tal do dia seguinte mostrou que não era preciso militares nas ruas para ‘proibir’ a liberdade…

O mundo por aqui perdeu um pouco de sua alegria…. ficou meio sem graça, um tanto monótono — como se, de repente, toda uma geração tivesse crescido e se encaixado nos moldes deixados em algum canto para uso, certos de que a finalidade seria alcançada.

A realidade foi pulando etapas e se consumindo em conceitos equivocados… os mais saudosistas dizem: “nunca fomos tão pobres” — quando se referem aos dias de hoje… e eu percebo que, para entender a “década de oitenta” brasileira, é preciso muito mais que olhares atentos para suas músicas sonoras, a literatura expressiva e sua gente insistindo em colorir o mundo. É preciso, acima de tudo, ter sobrevivido às “décadas anteriores” e ter mergulhado nas décadas seguintes.

A década de oitenta, por aqui, foi uma espécie de “ritual de passagem” — o futuro não era para amanhã… era para já, porque era preciso inventar, reinventar, criar, delirar — pois tudo era novamente permitido. Mas, veio o tal do dia seguinte… e o futuro esvaziou-se, voou para longe — e tudo ficou estranhamente distante, como se a música cantada por suas multidões fosse uma espécie de profecia: “nesse mundo assim vendo esse filme passar / Assistindo ao fim vendo o meu tempo passar”…