22 | reflexões sobre o verso livre

Depois de ler uma resenha no blogue Café com leitura… fiquei a pensar na questão do vers libre — verso livre — e na maneira como é defendido por muitos poetas e críticos, enquanto é atacado por outros tantos.

Não sou poeta e nem tenho a pretensão de ser… muito embora tenha flertado com o gênero, em outros tempos-vida. Aprendi a compreender as muitas possibilidades que vogais e consoantes — quando combinadas — ofereciam ao devorar com a dificuldade todos os livros de poesias que encontrei a casa.

Rabisquei alguns versos livres, sem me preocupar com as regras ensinadas durante as aulas de literatura, na escola, que falavam em sonetos — um poema de forma fixa, composto por quatro estrofes, divididos em dois quartetos e dois tercetos e a tal da métrica com a qual se podia ‘fazer’ rimas — mas, nunca entendi como fabricar rimas pudesse dar voz à poesia. Tivesse eu compreendido isso aos seis anos de idade… odiaria a poesia para todo o sempre, e fim!

Mas, foi ao ler um Ensaio escrito por T.S.Eliot que percebi que um de meus poetas favoritos não era favorável ao verso livre por considerar — “impossível o verso ser livre por nascer-surgir dentro de uma estrutura previamente pensada, ainda que não se use a rima e os recursos conhecidos da métrica”.

E eu que sempre tive imenso apreço pelo que conhecia-sabia do verso livre, me vi em apuros. Recorri ao Google… e descobri outro ensaio A lecture on Modern Poetry — escrito por Hulme que foi enfático ao dizer que — “a nova técnica consiste na negação de um número regular de sílabas como a base da versificação. O comprimento do verso é longo e curto, oscilando com as imagens usadas pelo poeta; segue o contorno de seu pensamento e é livre, não regular”.

Com uma xícara de chá em mãos… fui de encontro a prateleira para observar meus poetas. Senti cada um dos meus livros na ponta dos dedos. Não sou uma leitora que faz grandes descobertas na poesia. Não vasculho livrarias em busca de uma nova voz. Vez ou outra, um novo poeta tropeça em minha figura-humana e fica… entre os meus livros. O último a chegar foi José Luis Peixoto.

Dos contemporâneos, gosto de Mariana Gouveia, Marcelo Moro, Maria Florêncio e Adriana Aneli — todos publicados por mim nesse ontem que é quase-agora. Leio-os e sei apontar as sutis diferenças que suas linhas conclamam.

Não sou o tipo de leitora que aprecia sonetos ou rimas… gosto e prefiro o corte fino na superfície da pele. A sensação de espelho que alguns versos propiciam. A forma que não se obriga a fôrma.

Aprendi a sentir os versos… com Eliot. A degustar pequenos goles… com Campos. A buscar por uma generosa porção de ar… com Emily. A me entorpecer… com Sexton. E, a engasgar com o que não tive voz para dizer… e eles o fizeram por mim.

Borges me faz em pedaços um sem-fim de vezes. Baudelaire e Mário me ensinaram a enxergar realidades. Eliot — ainda que não aprecie o verso livre — me mostrou que estamos presos ao estilo e a forma e, o nosso maior desafio é libertar-se.

Poesia, como me disseram certa vez é navalha pronta para o corte, contanto que a lâmina esteja afiada.

Um episódio…

Gosto imenso de sair para caminhar antes do dia devolver todas as coisas aos seus devidos lugares porque a noite faz isso: transforma tudo em um borrão de tinta — difícil de limpar — no canto da mesa.
Antes de se acender a manhã é possível apreciar os contornos suaves de ruas e avenidas, praças… e as silhuetas das casas e prédios — é  como ir ao Museu e apreciar telas antigas, quando os pintores utilizavam cores quentes, tons pastéis.
E tudo acontece num estalar de dedos. Os primeiros sons-aromas-passos-falas-motores. A cidade é mesmo um grande cemitério — tudo figuras mortas que voltam a vida depois de um intermezzo.
Durante a caminha de hoje… fui surpreendida por uma personagem que — antes das seis da manhã — varria a calçada com uma daquelas vassouras de palha caipira. Parecia feliz e assim que avistou meu parceiro de caminhada, veio ao seu encontro de braços abertos. Deu-lhe um demorado abraço, como se ele fosse o outro — o que ficou no dia de ontem, esse passado para qual voltamos em viagens nossas. O Patrick se comportou bem… deixando-a viver suas saudades.
A tal senhora, cujo nome foi dito num segundo e esquecido no outro, falou de seu menino com o entusiasmo de quem viveu muitos anos em excelente companhia. Nos mostrou sua casa — a uma casa da esquina —, um sobrado antigo, algumas vezes remodelado. A pintura é recente… encomendada pelo filho, que se mudou com a esposa e netos para preencher vazios inexistentes.
Ela viajou ao observar a vida-casa-lugar… uma vida inteira: “sabe, menina. Eu sou tão velha quanto essa árvore, de tal maneira que é impossível dizer quem chegou primeiro a essa rua“. Não havia tristeza em sua fala, pelo contrário, mas era uma despedida narrada com a satisfação de quem sabe que fez o seu melhor.

Você está bem?

…sou uma pessoa endogenamente melancólica desde miúda. Olhos baixos, pesados suspiros, tragos pesados de ar e o olhar a visitar paisagens distantes. Não sou assim na maior parte do tempo… porque nem sempre posso ficar quieta, do lado que tanto gosto e aprecio: o de dentro — onde vivo perdida em ilusões, qualquer coisa de sonho, a virar páginas conhecidas, onde histórias se repetem. As minhas e a de outros autores que se misturam a mim.
As pessoas se incomodam, algumas dizem sentir medo, outras (corajosas que são) se aproximam para perguntar: você está bem? E não importa a resposta que eu ofereça… nunca ficam satisfeitas. Consideram que estou brava, sozinha, triste, a sofrer dissabores — não passa por suas mentes que estou a existir no melhor dos mundos.
Eu perdi algumas pessoas ao longo dessas quase quatro décadas de vida, mas antes disso eu já vivia dentro… fechada. Preferia os dias de chuva, nublados-cinza. Gostava imenso de fechar os olhos e escutar o som dos trovões.
Certa vez uma alma que atravessou o meu caminho, tomou minha mão e tal qual uma cigana, desandou a ler as linhas de vida-coração… falou em desilusões-agruras-frustrações. Listou tudo como se fosse ao mercado providenciar ingredientes para uma dessas receitas que a gente encontra num livro de culinária.
Ouvi pacientemente enquanto um sorriso percorria o meu íntimo. Tomei minha mão de volta e disse “não há nada de errado comigo. Não vivi nada que não pudesse suportar e não estou triste-doente ou em fase de sofrimento. Apenas estou quieta, como sempre fui, a apreciar a realidade das coisas e suas causas do melhor ângulo que existe“.
A pessoa não se convenceu e me recomendou sua igreja… dei de ombros. Saquei um livro de poesias da mochila, traguei de minha generosa porção de ar. Pedi um latte e degustei o momento, como tanto gosto e aprecio… sem pressa e em silêncio, sem me importar com os sons humanos do lado de fora. Gosto assim…

O que ando a ler

Tenho em mãos o livro do signore James Wood — com quem travei contato no verão de um ano qualquer — antes de tudo ser o que se é. Nos encontramos no acaso de nossos passos e dividimos uma mesa num desses cafés urbanos, por alguns minutos.

Me lembro de sorrir ao vê-lo tentar descobrir o que eu lia — virava a cabeça para o lado, exatamente como fazem os cães. E entre um gole e outro… um pequeno diálogo se estabeleceu, sem que eu soubesse quem ele era. Soube apenas quando se despediu com um forte aperto de mãos. Apresentou-se e foi embora! Mas sua condição de estranho permaneceu durante um bom tempo. Sabê-lo — um dos mais importantes críticos literários de sua geração — não alterou sua condição de estranho…

Descobri o livro — a coisa mais próxima da vida — ao abrir aspas na realidade enfadonha para ler um artigo publicado na Folha de São Paulo, na semana passada… onde o tema era a condição dos escritores de nosso tempo: que não gostam de ler — o que para o signore Wood é simplesmente inaceitável… impossível discordar!

James Wood — que já tinha escrito como funciona a ficção — afirma, com argumentos interessantes que o romance-ficção precisa ser quase real — a coisa mais próxima da vida — para que o leitor acolha a história e se sinta acolhido por ela. A ficção — pontua Wood — se desloca na sombra da dúvida, sabe que é uma mentira e tem consciência de que, a qualquer momento, os seus argumentos podem falhar.

O leitor precisa acreditar! Não, por acaso, as autoridades religiosas condenavam a leitura de romances, porque a ficção revela o perigo e a liberdade que apenas a imaginação nos dá.

Para quem quer compreender o caminho da ficção… esse é um excelente livro. Mas não espere respostas, nem conclusões definitivas. O que Wood nos oferece é um caminho… a coisa mais próxima da vida.

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“A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas. Posso contar uma história na primeira ou na terceira pessoa, e talvez na segunda pessoa do singular e na primeira do plural, mesmo sendo raríssimos os exemplos de casos que deram certo. E é só. Qualquer outra coisa não vai se parecer muito com uma narração, e pode estar mais perto da poesia ou do poema em prosa”.

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Catarina

Noite alta a queimar substâncias… livros empilhados sobre a mesa de trabalho e uma xícara de chá com um último gole esquecido no fundo. Viro páginas. Me distraio com o brilho do ecrã a iluminar a parede, onde desenhos de ontem me lembram as muitas pessoas que fui-sou.
O ano era dois mil e um… o menino de riso solto me apresentou ao universo dos blogues: essa ferramenta será útil para o seu novo personagem. Sua fala rápida-sonora-certeira me fez sentir uma atriz a decorar um texto, a se deixar de lado para assumir um papel e subir ao palco, onde uma multidão a espera…
Não entendi, no entanto, como uma página em branco… a me pedir um título-texto poderia servir de Norte para os meus novos planos à época — escrever um romance. Ele fez uso de suas melhores frases para me convencer e eu concordei em ter um blogue.
Acompanhei — sem nenhum entusiasmo — todo o processo de criação da página durante dez intermináveis minutos… e pronto: agora é com você! E a página ficou lá… sem que eu a alimentasse — durante dias-semanas-meses. Sempre fui péssima com inícios — páginas em branco, caderno novo, pacotes de sulfite.
Eu já tive vários blogues desde aquele dois mil e um. Fui mudando — saltando de galho em galho — até que aconteceu Catarina. Tinha esvaziado caixas-gavetas e queimado alguns papéis. Estava cansada de acumular rascunhos que não alcançavam outra condição. Minutos depois… me sentei diante do ecrã — uma boca bem aberta-faminta e eu convertida em colher — escrevi de um fôlego só: catarina voltou a escrever… e fiquei a espiar aquela frase solta na tela. O ano era 2013…