A viagem que se repete dentro…

comboio


“Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar”.

Alfonso Barrocal


 

Eu passei boa parte da minha infância sob trilhos… visitei cidades, conheci países, me apaixonei por arquiteturas incríveis, culturas fascinantes e amei incondicionalmente os estranhos, nos quais tropecei.

Gostava imenso de observar o movimento nas plataformas: chegadas e partidas. Esperas que se encerravam em abraços demorados… outras que se iniciavam com o apito “rude” da locomotiva…

Certa vez… vi um rapaz correr ao lado do trem, mantendo a mão no alto — como se quisesse atrair a atenção de alguém — sem sucesso. Me pareceu um gesto tão duro-difícil-indigesto-definitivo — ficou vivo em meu íntimo, enraizado na pele-alma.

O trem avançou forte com seus sons de metais a riscar o trilho — não existe melhor escrita que essa — e ele sucumbiu. Foi desmoronando gradativamente como se fosse um prédio com seus muitos andares. A multidão na plataforma o devorou e a distância o fez desaparecer de meus olhos…

Seguimos viagem… ultrapassamos cenários inteiros-cheios e eu pensei nele durante boa parte do trajeto. O vi em diversos olhares, nas outras plataformas… enquanto chegadas e partidas — encontros e desencontros… se repetiam.

Me lembro de tentar inventar uma história para aquele ‘personagem solitário’ em minhas páginas-diárias, mas conclui três paradas depois… que ele era apenas mais uma pessoa atrasada no mundo. Chegou tarde demais… e perdeu a oportunidade do gesto, da palavra — ficou para trás-depois-nunca-mais… para sempre.

Ainda hoje, sempre que ocupo o meu lugar no acento do Comboio, olho pela janela e procuro por ele e o encontro em outros olhos-boca-mãos-braços… e aceno com o atraso de uma vida inteira.

| escrito ao som de home |

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6 ON 6 | a pessoa que somos

 Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

Álvaro de Campos


Espaços urbanos

1 — sou lugares, que transito-ocupo na cidade…. esse cenário contraditório onde tudo e nada – novo e velho se misturam e se oferecem aos meus pés, meu guia nesse mapa de possibilidades que eu traço de esquina em esquina.

Outono - estação favorito do ano

2 — sou toda estações… as quatro num mesmo minuto. Mas quando respiro fundo e me calo, sou toda outono da alma ao cuore… da pele ao meu avesso — inquieto-arteiro-afoito…

6 on 6 - rascunhos

3 — sou rascunho… que o papel aceita quando a noite se impõe em meus olhos.

6 on 6 - tempestade

4 — sou tempestade… que chega sem avisar e ocupa todos os espaços da pele-alma… com seus múltiplos trovões e relâmpagos…

6 on 6 - personagens

5 — sou personagens… nos quais esbarro pelos caminhos vida que percorro, enquanto ouço a música dita o ritmo de meus passos alquebrados por caminhos reais ou imaginários.

6 on 6 — personagem próprio

6 — sou figura… inteira-metade-imprópria-irregular-muitas-poucas-nenhuma-contrária-avesso-verso-reflexo. eu mesma-outra.

 


 

| Cilene Mansini Maria Vitoria |Mariana Gouveia |
Mari de Castro Obdulio Nuñes Ortega |

 


 

Os dias de julho…

dias de julho

“e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio… e a difícil arte da melancolia”
al berto


 

…eu não me lembro de ter escrito — em momento algum — meia dúzia de frases sobre o mês de Julho e seus trinta e um dias. Revirei a minha mente-diários-notas-mentais… fiz avesso da minha matéria: e, nada!

…o mês de julho sempre foi o tempo de estar do lado de fora da pele-casa-casca… fazer as malas e partir. Por o cuore nos trilhos…os olhos à janela e a alma a vagar desatenta pelos vilarejos. Era o tempo das pausas, de desacelerar e se aventurar por dias dourados de nada-tudo fazer…

Eu costumava levar um ou dois livros comigo. Mas, os cadernos ficavam guardados-esquecidos no fundo de alguma gaveta para depois do verão.

Não aprendi a fazer malas… por mais que C., tenha tentando me ensinar. Ela tinha uma invejável técnica… sabia com absurda precisão tudo que iria precisar durante o verão. Eu sempre fui seu contrário nisso também… partia levando comigo a sensação que me acompanha até hoje: “eu sinto que estou a esquecer alguma coisa”.

 

E os seus dias de julho, como eram?

29 | do lado de dentro…

Há dias que não quero deixar a casa, o quarto, os meus móveis e os cantos… desse  lugar provisório. Quero ficar dentro — guardada — e evitar o que é espaço oco que insiste para lá da porta… onde acontecem todos os movimentos de vida: ruídos-enganos-desencontros… caras fechadas — frases sem pontuação exata… atropelos. Esse lugar-cenário onde é sempre tarde demais para algumas coisas e cedo demais para outras tantas.

Aqui dentro sou figura morta-anestesiada… outra — que adormece em páginas de livros-cadernos, folhas arrancadas-amassadas… esquecidas em gavetas-caixas a moldar mundos conforme as memórias e vontades que embalo em cada passo dado de um cômodo ao outro.

Do lado de cá da porta… sou xícaras de chá a compor esperas serenas… silêncios momentâneos e nostalgias definitivas que reinventam fins de tardes frios, com seus pequenos goles a confortar a amalgama. Um velho LP a girar chiados de música e seus refrães de ontem… paredes brancas com texturas e ranhuras onde verbos não se deixam riscar e as confidências sussurram inaudíveis…

Do lado de cá… sou esse teatro em ruínas a abrigar antigos personagens falsamente encenados. Sem platéia ou aplausos. Apenas um eco insistente a repetir-se para não me deixar esquecer de que existe um mundo inteiro além dessas paredes e porta… milimetricamente desenhado com compasso-régua e um lápis de ponta quebrada.

| escrito ao som de Lilly |

25 | É justamente quando sei porque escrevo…

DSC_0130Recorda o Tempo, com olhar indulgente —
Ele fez o que pôde, com certeza —
Quão suave declina o sol fremente
No ocaso da Humana Natureza

— Emily  Dickinson —
Tradução. Isa Mara Lando


 

A mesa com suas figuras inteiras: um novo caderno com folhas ainda pálidas-nuas-vazias. Rascunhos alheios-meus. A agenda com seus dias inteiros para viver-organizar. Envelopes a espera de um destino… e a minha mente a urdir ilusões temporárias na parede, com quem diálogo silêncios-vazios.

A vida segue a deriva… em segundo plano — para amanhã ou nunca mais.

Coloco a água para ferver e os passos para andar… vou a prateleira e escolho — pelo tato — um livro de poesias. Num precipitar de lembranças… recordo o gostoso movimento de apontar os lápis de cor. Fico um par de segundos a viver dentro dessa sensação antiga-minha-amena… da qual sou trazida de volta pelo grito agudo-insano da chaleira.

Água na xícara… vapor pelo ar. Leio as primeiras palavras do livro — oitenta poemas de emily dickinson… recordo meus primeiros escritos — na terceira pessoa do singular. Meu caderno de capa vermelha com aquela palavra obscena — diary — escrita em dourado na capa. Revejo o gesto de colisão… da ponta do lápis com a folha e o despejo das emoções em frases falsamente pontuadas.

Sinto o aroma do chá e um sorriso se precipita.
Meus antigos rituais de vida passeiam pelos meus olhos — por dentro.
A manhã de sábado, a mesa da cozinha e aquela claridade natural a iluminar as vivências. Do outro lado, essa figura reta-inteira-plena com os óculos a frente dos olhos… a me observar a cada frase deixada no papel. A inserir pausas ao virar das páginas bando-ameno-suave… de seu livro favorito — contos indianos

Ela nunca teve pressa ao ler… refletia a vida-morte-realidade-momentos em paralelo a trama que sorvia em pequenos goles. Eu sempre invejei a calma que desfilava por suas veias e músculos.

Sempre fomos o contrário uma da outra… e ela parecia gostar que fosse assim. Não éramos o espelho uma da outra, muito embora eu gostasse imenso de me ver refletir na menina de seus olhos.

Eu sempre fui afoita em tudo, inclusive nas leituras… virava as páginas uma depois da outra — de maneira insana-perturbada — em busca da última página que se oferecia como uma bússola a apontar esse naufragar interior… ruínas de uma vida. Permanecia dentro… um punhado de horas-dias-semanas… submersa na trama, a questionar o desfecho, a dar continuidade as vivências.

Ela apenas fechava o livro e voltava a realidade das coisas… sem nenhuma dificuldade. Água fria no rosto. Goles pequenos de chá. Uma generosa fatia de bolo. Água nova nos vasos de flores — tulipas vermelhas para o seu menino, margaridas para a sua menina e para si flores de laranjeira. Cantarolava músicas antigas enquanto caminhava cômodos. Sometimes… fazia pequenas pausas diante da janela para espiar o mar e as gaivotas nos ares. Gostava imenso quando mergulhavam para pescar ‘o almoço’. Ela também espiava o meu crescimento — soube disso depois — para ter a noção exata das minhas transformações. Não havia expectativa, apenas não queria perder nada.

Certa vez, pouco depois de um pesado gole de chá, ela me fez uma pausa e disse em voz alta — ‘um dia, quando estiveres a bordo de uma tarde inteiramente sua, uma fagulha de sol vai atravessar o seu olhar e vai se lembrar dos nossos momentos, que a essa altura serão muitos. Nesse dia, eu te quero que escreva para mim‘.