Abril–segundo Eliot–o mais cruel dos meses…

“Abril é o mais cruel dos meses, concebendo
Lilases da terra entorpecida, confundindo
Memória com desejo, despertando
Lerdas raízes com as primeiras chuvas”.

T.S.Eliot

writing in a coffee 2

Cinco minutos apenas… e eu já sinto os ventos de abril em meu imaginário inquieto! Lá fora a lua segue seu trajeto de leste a oeste sem se incomodar com essas insanidades temporais que inventamos para nos guiar-comandar-incomodar.

Acendi uma vela verde no canto do quarto, um incenso também… e fiquei por um instante — breve — com os olhos fechados, como quem faz uma prece e se esquece de todas as coisas do mundo…

Voltei a realidade com um sorriso ameno-infantil-pequeno nos lábios e me vi imersa em saudades! Os músculos e nervos do braço latejavam e dentro dos olhos aconteciam lágrimas que não tocaram a minha face… nos lábios uma quietude de palavras. Senti tantas coisas — uma confusão sem fim de sentimentos que resultaram em frases prontas, tatuadas nas paredes dessa masmorra que sou…

Respirei fundo — como quem morre — como costumava dizer o meu homem, a quem eu dava as mãos para caminhar pelas ruas do lugar onde cresci. Íamos os dois, medindo os espaços, tateando com os olhos as mudanças e alternâncias. Sempre tinha algo fora do lugar e nos orgulhávamos de isso perceber. Olha – anunciava, apontando a parede de uma casa que trocou o sem cor pelo amarelo, causando desconforto nos moradores que não toleravam diferenças, mudanças tampouco.

Lembranças é o que eu mais tenho… talvez por isso, o livro “para sempre Alice” — lido ainda em março, pouco antes de eu fazer as malas — tenha me incomodado tanto. Nele, a personagem perde a memória gradativamente, deixando de reconhecer as pessoas e a si mesma no fundo do espelho. Acompanhei uma mente brilhante perder o seu brilho e se tornar opaca. Chorei de maneira incisiva. Me indignei e sofri com a falta de forças da personagem de pontuar sua história de maneira decente. Vê-la revirar seus pertences sem ser capaz de se lembrar o motivo de sua busca foi desesperador.

Deixar de ser… não ser! Deixar de existir e apagar a realidade dos olhos de maneira consciente… e pensar que há aqueles que dizem que se pudesse apagariam as dores, as tristezas de suas realidades. Pobres infelizes. Não sabem o quão preciosos são esses momentos. São nossos e são eles que fazem de nós o que somos.

Eu tenho as minhas dores… e, por vezes, tudo transborda! Mas tudo isso compõe esse quebra-cabeças que sou. Não faltam peças e posso me olhar no espelho sabendo que sou eu ali. Eu sobrevivi… e o dia seguinte espera por mim!

 

“Alice sabia que a jovem sentada defronte dela era sua filha,
mas tinha uma inquietante falta de confiança nesse saber.
Sabia que tinha uma filha chamada Lydia, mas, quando olhava para a moça
sentada à sua frente, saber que aquela era sua filha Lydia
mais era um conhecimento teórico do que uma compreensão implícita,
um fato com que ela concordasse, uma informação que houvesse recebido
e aceito como verdadeira” — pág. 188 — “para sempre Alice

O livro é seu — não meu…

 

papel amassado

Ao correr meus olhos por cima de uma revista especializada em literatura — uma das últimas no gênero mundial — me deparei com um excelente artigo, escrito por um Editor… à inglesa! Confesso que, desde que mergulhei no mundo literário, sempre me senti propensa mais ao estilo inglês e francês de escrita e edição que aos demais… gosto de pensar a literatura como sendo um diálogo para com o outro.

No cenário literário anglo-saxão prega-se a idéia de "editing"… o que significa que por lá, o editor é alguém que corrige, anota, sugere alterações, risca e rabisca sem receios e, às vezes, muda "todo" o conteúdo, dando nova forma e, sobretudo, melhorando as linhas que compõe o escrito. E não apenas, seleciona títulos e subtítulos para publicação, função específica de um publisher.

No artigo que chegou aos meus olhos, o Editor divide com o leitor —  no caso eu —  algumas de suas experiências com autores… e apresenta uma conclusão necessária, porém, muito difícil, a qual chegou depois de muito esforço: "o livro é seu, não meu"… mas em seguida, Ele diz em voz alta: “mas sem mim, não existe livro, porque exageros não vendem e escritores tendem a ir em frente, sem saber quando é o melhor momento de parar”.

Achei interessante a necessidade do Editor — e também autor do texto — de afirmar seu pranto, mas superá-lo como quem respira profundamente, tendo total conhecido de suas habilidades… eu confesso que me lembrei — imediatamente — das inúmeras reclamações que eu já ouvi desde que escolhi alinhavar palavras com agulha e linha, exigindo sempre o melhor conteúdo de meus autores para publicar… recentemente uma autora — após enviar seus escritos —  me disse: “mexe, mas não mexe muito, porque eu tenho ciúmes das minhas coisas”… o que me fez ligar o alerta com relação ao material recebido. Respirei fundo e tracei minha estratégia a fim de fazê-la enxergar que o conteúdo precisava de cuidados. Sugeri mudanças, como se fosse uma vendedora dessas lojas de roupas: “olha, essa não ficou bem em você, quer tentar outro modelo?”.

Mas já ouve susto-espanto-desconforto-e-outros-tantos-punhados-de-reações quanto as sugestões por mim apresentadas, porque o autor trabalha com sua idéia, sem ressalvas ou cuidados. Muitas vezes, trabalha a exaustão física… e quando entrega suas linhas a alguém, acredita ter feito o seu melhor e quer receber afagos — elogios —  para amenizar o cansaço…

É um fato bastante complicado/delicado quando o Editor se apodera de um material para "lapidar"… muitos afirmam que editores são em sua maioria, escritores frustrados: “falta-lhe o dom da concepção —  dizem os mais revoltados.  São úteros vazios — afirmam com veemência os mais alterados — resta-lhes apenas a adoção do que é alheio”. Eu considero tais afirmações injustas, afinal, um escritor precisa de um editor e vice e versa…

Eu comecei no universo paralelo da escrita muito jovem… a lembrança mais antiga que tenho comigo acerca de rabiscos inventivos, me leva de encontro aos meus sete anos. Eu era uma “inventora” de histórias. Sempre tinha algo a contar para entreter minhas páginas em branco… um velho caderno de capa vermelha, onde escrevia com algum prazer a minha trajetória de maneira mais aguda, escolhendo o que descartar e também o que melhorar. Riscar e rabiscar sempre foi um exercício bastante natural…

Aos quinze anos, eu já tinha inúmeros rascunhos de gaveta. Qual escritor não vivenciou essa fase em sua vida? Mas o universo da edição só passou a ter espaço em mim quando minhas notas mais secretas chegaram aos olhos de um professor que, sem nenhuma piedade, saiu atropelando as linhas expostas ao seu olhar. Ele riscou com alguma vontade, munido de uma caneta-pincel-preta diversas palavras enquanto repetia: “excesso-excesso-excesso”… engoli seco, cerrei os punhos e tentei não estrangulá-lo. O remendo feito por ele foi meu primeiro aprendizado. Ler incansável vezes — em voz alta — para agradar o próprio ouvido foram o segundo e terceiro…

Percebi ao final daquele difícil exercício, que as técnicas são vazias e destrutivas para os escritores, mas para os Editores são absolutamente necessárias. E de um tempo para cá, venho percebendo que quando mais cru o escritor, mais simples a escrita se revela tornando muito mais agradável o tato… e mais próximo de um diálogo natural para com o leitor ela se mostra.

O fato é que raras são às vezes em que o material vem pronto para as mãos de um Editor… contudo, é preciso respeitar a voz que lhe chega em intermináveis frases. Um bom editor precisa saber calar a si mesmo, ter bom senso e, saber exprimir o melhor do material literário que tem em mãos e, que pertence totalmente ao seu autor que, receberá todos os louros das linhas escritas, restando ao editor, o anonimato… as sombras! O seu nome escrito, sem destaque, em algum canto do livro…

Um editor precisa, sobretudo, ser uma pessoa totalmente descontente. Precisa estar disposto a exigências fazer… e lembrar que seu nome estará preso a de seu autor e, se ele fracassar, não o fará sozinho. O Editor não prova do sucesso, mas, infelizmente… saboreia todo o fracasso e vai para o limbo com o seu autor, afinal, você o disse pronto para encarar o universo editorial e o entregou aos leões, no caso, os leitores…

E para encerrar, acredito que, fundamentalmente, um Editor precisa ser possuidor de imensa compreensão, afinal, os excessos na escrita são como tempestades de verão e, os autores, quando escrevem, enxergam apenas a realidade de suas palavras… onde tudo é infinitamente azul.

Tirar uma vírgula, acrescentar uma palavra, sugerir cortes… pode fazer do Editor um vilão para o autor e nem sempre ele será compreensivo e conseguirá entender que, para ser um diamante, uma pedra bruta precisa ser lapidada.

Diário de minhas insanidades, 21

“Pena não poder dizer tudo
Viver de nada em vazio
Como clandestino nesse navio
Enorme e assombrado que é sua alma”

Marcelo Moro

bus

Penso em W. enquanto o ônibus — lentamente — atravessa a Paulista, em obras que dão nó nessa reta antiga que, ao sabor alheio, reiventa seus traços de tempos em tempos. Dos velhos casarões contruídos no século passado… restam apenas um ou outro e, esses, correm sério risco de desaparecer a qualquer momento, porque a força do dinheiro, desde sempre, é quem dita o ritmo dessa cidade.

Ouço a voz delicada da secretaria — cumplice — ao telefone, com quem falei antes do embarque, informando minha ausência necessária na noite de hoje e lamento. Já sinto falta de encarar o olhar de W. a quem comumente entrego um bom punhado de minhas — melhores — reticências. Somos criminosas, eu sei e tenho tenho certeza de que ela sabe também.

Hoje, se estivesse eu em sua sala escura, confortavelmente sentada a sua frente, exibiria meu melhor sorriso enquanto aguardaria pelo momento preciso de lhe entregar uma pergunta: “quando escreve, em qual pessoa o faz?”.

Estou com o estomago embrulhado — confesso — e a alma em estado de sofrimento agudo e totalmente desnecessário.

Desde que me dediquei a leitura dos escritos que chegam aos meus olhos — réus do meu julgamento — é que a inquietação vai nesse crescente agudo. A última leva, estranhamente, reveleou ao meu olhar, um sem fim de escritos, na primeira pessoa do singular.

Ofereci temas agudos e provocativos… e não nego que ao pincelar os temas, imaginei cenários multiplos, mas acabou tudo restrito a essa janela do eu mesmo… a maioria dos escritores se limitou a falar de si mesmo e, quando tragaram do cigarro imaginário que eu ofereci a eles, não se espalharam por cenários esbranquiçados, preferindo permanecer dentro de um lugar escuro e sem janelas.

E sem ter a resposta de W. a quem ofereci descanso por essa noite, respirei fundo, indo de encontro a personagem que sou e, que, ouviu de um certo autor nessa semana que passou por mim: “como é dificil escrever sobre si mesmo”. E não me ocorre outra coisa, que não seja uma risada branca-imensa que o habitante do banco ao meu lado não entenderá, mas estranhamente participará dela, porque certas coisas se espalham naturalmente — espere! Isso aí em seus lábios é um sorriso por acaso?

Com agulha e linha…

 

Leio as palavras alheias que chegam aos meus olhos diariamente… um sem fim de frases prontas, outras inacabadas. Algumas delas, eu recolho para formar uma colcha… outras, no entanto, eu dispenso porque são flores e eu aprendi a deixá-las pelo caminho para outros que, diferentemente de mim, não exige tempestades nas vozes que lhe chegam…

Na história infantil de João e Maria — que eu não li — eram migalhas de pão, mas eu nunca gostei de contos de fadas… por isso espalho flores e recolho folhas, como disse há pouco a A. — meus livros favoritos estão cheios delas…

Eu sou essa tempestade sagitariana… reconheço com alguma tranquilidade!
Preciso sentir os trovões em meu avesso… fechar os olhos e provar do vento em minha derme com sua força natural… a causar arrepios e desarranjos vários. Gosto de me sentir incomodada. Com os cabelos bagunçados e as roupas a deixarem o meu corpo como se fossem arrancadas… gosto de me sentir avesso-rasgo-pedaço-trapo-folha-de-papel-amassada!

Quando a palavra me causa sono — abandono e saio por aí, a percorrer quarteirões — eu prefiro os bairros onde as esquinas são conhecidas. Mãos dentro do bolso e o passo a varrer distancias… mas se o lugar é novo, vou indo em frente, seguindo as pegadas que encontro no chão, encaixando os meus pés no que é traço alheio — vestígios de passos sem mapas, como os meus.

Observo janelas abertas, portas fechadas, muros altos — ainda existem alguns que são baixos — e alpendres sem presenças humanas, porque estranhamente as pessoas perderam o hábito de apreciar a paisagem da cidade por causa da poluição, que elas mesmas produzem, e das quais sempre reclamam. Não faz sentido, eu sei!

Ignoro e sigo em frente… vou a pés, com minhas solas gastas e minha alma a vestir a nudez que lhe é peculiar… aceno para os cães que encontro; a eles me curvo para um afago de mãos. Se gostam retribuem com a cauda. Quando não gostam, deixo um sorriso tombar de meus lábios e volto ao que é caminho.

Não me obrigo a leituras desnecessárias, aprendi que o cansaço é ranço que gruda na pele e não é feito poeira que uma sacudida ajuda a remover. Nem mesmo um banho demorado remove sem demora.

Então, se na primeira linha… a frase pouco ou nada me diz, recuso… mas, se me seduz, vou devorando até nada mais restar e quando acaba, me acabo também!

É assim que nascem os livros que confecciono: com agulha, linha e meia dúzia de palavras… um pouco mais ou um pouco menos!

Diário das minhas insanidades, 20

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?
Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer

Luis Maffei

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A caminho de meu encontro semanal com W. observava o chão onde minha sombra perfazia seu traço comum. Gosto imenso de observar o desenho – estranhamente – humano, que se forma a partir de mim… como se um espelho fosse aos meus olhos – a refletir a realidade que sou, sem artifícios mil.

A sombra é o que temos de mais verdadeiro… uma noite inteira se impondo dentro das luzes do dia. Um intervalo de tempo e espaço entre as coisas demasiadamente humanas. Uma coreografia capaz de nos fazer perceber o quanto nossos movimentos no mundo são limitados. Julgamos existir acima de tudo e todos e, no entanto, somos incapazes de alguma coisa ser de fato, sem a luz do sol, o ar que respiramos, as pessoas a quem abraçamos… absolutamente tudo depende da maneira como nos posicionamos no mundo. É preciso a luz natural-artificial para que essa pintura no chão seja esse reflexo que não se apaga, tampouco se recusa.

Lacan disse em um de seus textos mais profundos “existir à sombra de alguém é a mais difícil das artes porque significa que estamos a olhar constantemente em um espelho” – repeti sem querer essa frase em voz alta diante de W., estando sentada em meu canto e ela em seu, ocupando nossos papéis comuns. Ela exibiu seu sorriso pequeno, cujo tamanha costuma medir o impacto de minhas falas em sua figura humana.

W. é sarcástica, mas é um humano contido. A luz da luminária que mantêm em seu espaço não permite um desenho seu junto ao chão. E como seus movimentos são poucos – quase inexistente – pouco de si se espalha.

Ela foi direta ao ponto ao questionar-me “quem é a sua sombra?”… fiquei, como de costume, em silêncio, a observar minha realidade. Revisitei minha vida inteira – trinta e três anos – em poucos segundos. E de imediato, lembrei da saudade que um sonho dentro da noite passada deitou em minha pele ao longo desse dia. Senti saudades imensas de C., de nossos diálogos-abraços-olhares. Quis me sentar à mesa com ela para o café da manhã, caminhar pelos caminhos de sempre de mãos dadas, ouvir sua voz a narrar seus contos favoritos. Escrever missivas em sua companhia nas manhãs de sábado e sair para as compras em sua companhia pouco depois. Quis me deitar à cama, e esperar mio Babo me cobrir, dizendo como quem dá uma ordem e espera que se cumpra: “trate de dormir bambina”.

E sem nada dizer… recordei as ruas de Gênova, onde certa vez, percebi que nossas sombras eram uma mesma coisa no chão: um desenho uno, uma mistura perfeita… uma espécie de treva espessa…

Conclui que somos sempre a sombra de alguém, para alguém… eu quis devolver a pergunta à W., mas temi que tal pergunta pudesse destruí-la. Nem todos sabem ser sombra ou existir à sombra! A maioria dos humanos não está preparada a confessar sua escuridão, preferindo acreditar que é apenas luz e o que fica no chão é qualquer coisa menor-sem-importância-ou-substância… é qualquer coisa que se apaga, como se fosse uma palavra escrita a lápis, cuja existência se limita ao efeito da borracha…

Meu desassossego…

“É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita.
Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?”

Bernardo Soares

livro do desassossego

 

Emprestei na noite de sábado à uma amiga, um dos livros que trago comigo desde a juventude e, que, segundo consta, não posso afirmar que o já tenha lido por inteiro… por não se tratar de um exemplar que peça o olhar — imediato — por cima de cada página. Se trata de um livro que pode e deve ser lido de acordo com a vontade-necessidade-desejo…

Há livros que são assim: nos pedem espaço, nos impõe pausas e tem ritmo próprio… em alguns casos, nos pedem também pequenas viagens: do criado-mudo à mesa da cozinha, do canto do sofá a um móvel qualquer no banheiro, a bordo de um ônibus, metrô ou trem…

O meu “livro do desassossego” já percorreu cenários diversos. Recebeu várias marcações e algumas anotações… mas conclui durante a semana, que era hora de deixá-lo distante de mim, sem me preocupar com o tempo em si que ficará ausente-distante…

A versão que emprestei é recente, adquiri há coisa de dois ou três anos… se trata de um desses lançamentos que ocorrem de tempos em tempos, quando alguém inventa um motivo qualquer — a capa, o aniversário do autor ou algum modismo bobo — para trazer de volta as prateleiras das livrarias, como se fosse uma vã tentativa de evitar o esquecimento da obra.

Na "nova edição" da Companhia das Letras… Richard Zenith estabelece uma espécie de nova ordem e ainda acrescenta trechos recém-descobertos no espólio de poeta. No entanto, na qualidade de pesquisador de Fernando Pessoa, se sentiu a vontade para descartar alguns trechos que existia em versões anteriores.

O desassossego de Pessoa chega a nós através da figura de Bernardo Soares — um dos muitos heterônimos do poeta português — e mais parece um combinado de "notas mentais" que nos entregam, como se fosse uma confissão, o estado psíquico, apaixonado e todo o conhecimento de Pessoa, que segundo consta, vivia seu auge criativo. 

Esse livro poderia muito bem ser um diário do autor, já que é composto por anotações… ou como gostam de chamar as editoras: fragmentos.

Fernando Pessoa gostava de se refugiar em personalidades inventadas, como se fosse mais fácil dizer o que pensava e sentia acerca do mundo a sua volta. Mas o que sempre causou espanto em muito de seus leitores e pesquisadores foi a riqueza de detalhes que nos ofereceu acerca de seus heterônimos.

Por exemplo, Pessoa disse que conheceu Bernardo Soares numa pequena casa de pasto — café — frequentada por ambos e teria sido justamente nesse cenário que Bernardo teria dado à Fernando os escritos de seu: “Livro do Desassossego”.

Logo, Bernardo Soares não passa de uma máscara que Fernando Pessoa usou para fazer suas confissões pessoais… oscilando entre a inquietação-o-tédio-a-angústia-e-uma-imensa-lucidez.

Delicioso! Insano! Para mim, é um livro para várias vidas-realidades-contextos-e-momentos…

A solidão desola-me.
A companhia oprime-me.
A presença de outra pessoa
desencaminha-me os pensamentos.”

Fernando Pessoa/Bernardo Soares

Não perdi o hábito de escrever missivas, 14

11h31.

missiva

 

Meu caro E.

 

O dia vai longe… já é quase hora do almoço do lado de fora dessa janela aberta que sou. E lhe confesso que, eu  mesma, aqui dentro de minha pele: amanheço. Respiro fundo, atravesso a Rua, desejando deter meu passo e deixar essa gente apressada — uma manada humana — me ultrapassar porque lhe confesso: não tenho pressa… sou nesse momento, como uma xícara de chá.

Não sei se você sabe, mas para se fazer um chá… é preciso introduzir em seu dia uma pequena pausa. É como abrir uma brecha na vida, no tempo e no espaço. Escolhemos as ervas e em seguida é preciso macerá-las entre as mãos com algum cuidado para somente então sentir o aroma com força, impulsionando-o para dentro de si. Depois, coloca-se no fogo a chaleira e aguardamos… a minha apita assim que a água borbulha. Enquanto isso, escolho a xícara — gosto de uma preta com desenho de elefante, mas às vezes quero a vermelha — acendo um incenso, às vezes, uma vela… e por fim, deixo cair a água fervente dentro da xícara e, pronto: novamente é preciso esperar. Geralmente escrevo notas mentais, leio poemas — pequenos trechos de histórias antigas – ou recordo certos momentos meus…

Quanta espera realizamos durante um dia inteiro? Já pensou nisso? — são tantas pausas necessárias, porque temos essa mania — estranha — de acelerar tudo e mesmo assim, nos falta tempo para tudo.

Será que é o contemporâneo que nos demanda coisas demais ou somos nós mesmos?
Quando criança — eu me lembro — tudo era tão lento. As horas em sala de aula eram intermináveis e eu vivia querendo agilidade, mas as voltas dos ponteiros não se deixavam seduzir por minhas vontades. Ocupavam-se — lentamente — de todos os segundos… hoje, no entanto, tudo se dissolve. Faz pouco que acordei e, veja você, os ponteiros já cospem suas onze horas… ou quase! Tudo é para ontem… o hoje é essa sinuca sem tacos ou bolas nas caçapas! Para onde será que vamos? Me parece tão impossível traçar um destino nessa velocidade…

Falava com você há pouco sobre o quão monótona me parece essa década.
Você me disse “falta paixão” e eu me lembrei imediatamente de milhares de coisas das quais sinto falta. Respirei fundo e fui parar dentro de uma tela de Hopper. Ele sempre me socorre, talvez por falar de algo que me impulsiona: a solidão, que considero muito necessária e que, no entanto, é tão maltratada hoje em dia.

Ontem, uma autora me chamou para dizer que resolveu fazer terapia. E o motivo? Não sabe ser sozinha. Em espanto, questionei-me silenciosamente: como um autor não sabe ser sozinho? Tenho pra mim que foi a primeira coisa que aprendi em minha vida… adorava os cantos escuros como se fosse um espelho de minha própria alma. A janela fechada. As frestas por onde chegavam pequenas coisas, fragmentos de vidas alheias. O baloiço parado no meio do quintal e o olhar incrédulo das crianças que não entendiam porque eu tinha um brinquedo e não o usava. A rua escura, com luzes a iluminar o caminho, onde apenas o guarda e seu enfadonho apito transitava quanto a noite gritavam suas onze horas. A vidraça em dia de chuva… o outono!

Eu não entendo meu caro, para onde é que foi todo mundo? Você sabe? Olhando ao meu redor, enquanto caminho, só vejo aglomerações e atropelamentos. Os olhares estão tão cheios de nada e os movimentos tão nus de gestos.

Cansaço meu caro, cansaço!
Vou preparar uma xícara de chá, aceita?

Até a próxima…

L.

Primeiras impressões

Meu coração sente-se muito triste…
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento…
Meu coração sente-se muito alegre !
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!
E sigo. E vou sentindo,
á inquieta alacridade da invernia,
como um gôsto de lágrimas na boca…

Mário de Andrade em Paisagem n°1


sampa

17h37…
O dia segue seus caminhos de sempre… e eu sigo tomando notas mentais das coisas que vejo e percebo a minha volta, alimentando meu imaginário que parece criança insaciável: sempre me pedindo mais e mais… 

As de hoje foram feitas no banco de trás de um coletivo, enquanto observava as “novas pessoas” que por aqui, se amontoam em bandos. Somos todos animais, pertencentes a uma mesma matilha, mas mesmo assim nos julgamos e condenamos como se fossemos realmente diferentes uns dos outros… mas que diferença é essa? Quanto mais observo, mais a resposta me escapa.

Eu gosto de transitar a cidade a bordo de um coletivo… porque me liberta das amarras cotidianas — preocupação com travessias, cruzamentos — me deixando livre para perceber calçadas, o comércio local, as janelas esquecidas abertas nos prédios grudados uns nos outros. Às vezes, ainda que rapidamente, percebo um rápido fragmento de céu… e também os mortos, que essa cidade produz, diariamente.

Uma das vias que gosto de observar é a famosa Dr. Arnaldo, que exibe de um lado, a vida pungente da Universidade de Medicina e, do outro, o colorido das bancas de flores, que são  uma espécie de tapetes de boas vindas a paisagem sombria de um dos maiores cemitérios da cidade…

Vou descobrindo cenários, pessoas, lugares — a mim mesma — enquanto leio versos do homem-poeta-mário… redescobrindo-o.

O coletivo atravessa a cidade, cortando-a ao meio como se fosse um bolo de aniversário sem velas para se soprar… o primeiro pedaço é para o mendigo que canta sua loucura junto ao chão da Praça abandonada a sua própria sorte — realidade ingrata — eu já percebi que  São Paulo tem muitos pedaços esquecidos…

 

— Lunna Guedes, in: menina no sótão | 2002 —

Livro de receitas…

"Esta é uma arte que aprecio. Existe uma espécie de feitiçaria
em toda culinária (…). E é parcialmente a transitoriedade disso que me delicia; tanta preparação carinhosa, tanta arte e experiência colocada num prazer
que pode durar apenas um momento, e que só uns poucos apreciarão plenamente."
Joanne Harris in; Chocolate

sufle de queijo

Eu cresci, no sentido de evolução, dentro de uma cozinha… lugar onde acompanhei as proezas da nona, que misturava ingredientes como quem escreve uma frase perfeita, dessas que se destacam em um livro, nos obrigando a grifa-la, e mesmo que não o fizéssemos, ela ficaria em nós, tocando a parte mais funda de nosso íntimo.

Mio babo herdou o talento… adorava vê-lo na cozinha, bebericando uma taça de vinho enquanto preparava um jantar de sábado para um combinado de amigos —  fascinados — cuidadosamente selecionados para participar do que era o seu ritual: definir o cardápio, escolher os ingredientes, os talheres, as louças, taças, toalhas e tudo o mais…

Providenciar os ingredientes era coisa de C. — saíamos as duas depois de a lista estar pronta… com sacolas em mãos e certas de que dependia de nós o passo seguinte. Ninguém mais no mundo, sabia escolher tomates, ervas, peixe, massas e um bom vinho…

Mio babo nunca fez uso de receitas, a nona tampouco. C. não era amante da culinária, não sabia cozinhar um ovo… ela foi forjada para ser uma profissional em sua área: a psicologia! E mais tarde descobriu uma aptidão ímpar: ser mãe… sobre a qual atesto sem titubear.

Eu nunca pensei em cozinhar! — confesso… ia para a cozinhar preparar todos os tipos de lanches frios, que você possa imaginar, na época da faculdade e isso era tudo…

Mas eu me lembro que um dia, salivei ao ver uma foto numa dessas revistas de supermercado. Não dei a mínima para a receita, me ative unicamente ao que era ingrediente, e como quem repete gestos antigos e conhecidos… combinei em mim o melhor de meus mundos. Desenhei uma lista mental e voila, escolhi os ingredientes perfeitos para ao chegar a casa, preparar um delicioso risoto branco!

Cozinhar requer paixão, cuidado e interesse… requer uma boa música, uma lembrança confortável e um estado pleno de consciência quanto ao espaço, tempo e a anatomia de todos que estarão à mesa.

Se por acaso se tratar de um jantar solitário… é preciso se lembrar de que o prazer de provar uma bela combinação de ingredientes é tão bom quanto conhecer alguém e provar de um amor a primeira vista. Afinal, é preciso conquistar-se todos os dias.

Para a noite de hoje: escolhi fazer um suflê  de ricota… para duas pessoas! Enquanto misturava dois ovos, maionese, requeijão, queijo parmesão, azeite, orégano e amido de milho, comecei a escrever essas linhas.

E agora, aguardo pelo aroma, que já se precipita por aqui… enquanto isso, volto no tempo e misturo o meu sorriso ao de mio babo, bebo um gole de vinho branco e percebo que não é noite de sábado, mas quem se importa?

Na vitrolinha – conhecida por youtube –
Andrea Bocelli canta para mim!

Não existe segunda-feira sem poesia, 03

Arrepio

Pode ser do vento, do pensamento, de um toque meu
Pode ser do nada, pura pretensão
pode ser o seu tesão, simples assim, solitário
e eu me compreendo o escultor do teu gemido
o pintor do seu sorriso, o poeta dos seus passos
eu me sinto seu orgasmo, mesmo que não seja nada
e isso me faz ser mais, menos não me importa 
isso me faz ser a sua imaginação
minha pretensão ao guiar seus dedos
ao te pedir um grito, meu rito, seus segredos

Marcelo Moro

janelas

 

 

As horas avançam, é segunda-feira… e o meu olhar busca na paisagem qualquer coisa de euforia. Gosto quando o dourado resvala nas faces envergonhadas dos prédios ao longo da Alameda encenando o fim.

Mais uma tarde que se esvai pelos cantos desse bairro. Outra noite que chega igualando as paisagens a minha volta… vou espiando as janelas entreabertas, tentando entrar onde não sou convidada.

Percebo personagens que não acenam… e ao menor movimento equivocado de minha parte, fecham-se as cortinas, numa espécie revolta – totalmente desnecessária – que me faz pedir desculpas silenciosas.

Respiro fundo numa tentativa vã de resignação… mas do lado de dentro a memória sorri porque guardou para si qualquer coisa alheia.

 

 

Para conhecer o poeta desta segunda,
Marcelo Moro, e saber em qual janela me debruço,
aqui