O que ando a ler

Ah, o outono… finalmente aconteceu e com ele, todas as coisas que se sentem neste tempo de cores quentes. Eu sou uma eterna apaixonada por esse tempo de interiores…
A estações são coisas da alma-pele, não de calendários, tampouco de previsões de tempo que, insistem em anunciar a chegada e a partida… como se fosse uma viagem-de-férias planejada com cuidado prévio.
O outono segundo a Maju, começou lá em Março…e todo mundo se apressou. Vitrines de outono. Moda de Outono. Hábitos de Outono. Mas não… o signore Outono — autunno em italiano, embora eu prefira o Fall do inglês fall of the leaf — chegou mesmo no final de maio e adentrou junho com seus tons aconchegantes. Final de tarde alaranjados… dias nublados e noites frias. Mantas para os pés, taças de brindes tardios e xícaras aquecidas para as mãos…
O outono é aquele tempo de dentro… um fechar-se em conchas. Um minuto a mais para se aproveitar os aromas. O dia que se acaba mais cedo. As horas que não fogem apressadas pelos ponteiros e as páginas que se viram com um toque menos impetuoso. A gente se permite acompanhar o cair da luz, da tarde, da realidade, de todas as coisas-causas.
São os meus barômetros… as medidas que realmente valem e é justamente disso que fala o livro silêncio — no tempo do ruído, de Erling Kagge… da necessidade de se calar para ouvir os sons de dentro. O cuore… nosso verdadeiro carrilhão — regido por Kairos —, que badala os momentos todos: vividos inteiros ou pela metade, a beira do abismo ou pronto para o salto…
E o autor divide com o leitor toda a sua busca… narra os lugares onde esteve, as experiências vividas e a descoberta definitiva: o silêncio não é partida… é chegada — exatamente como o outono que não pontua o depois e sim o agora. Nenhum calendário é capaz de datar, mas o corpo sabe exatamente como marcar-pontuar!

O meu primeiro livro…

Lembro-me do exato momento em que tomei a decisão. Era outono, mas já se falava em inverno numa contagem de dias-horas… e as ruas do bairro ainda estavam úmidas. Os caminhos estavam desertos de pessoas-cães. Houve uma pausa nas chuvas de maio-junho… e eu caminhava em círculos pelas ruas que se ligavam umas às outras, numa espécie de labirinto. Gostava imenso de me perder no escuro daqueles traços erráticos e de espiar os contornos das casas-pessoas-espaços-praças iluminados pela luz artificial das lâmpadas que se fosse verbo, seria um gerúndio.
Fazia algum tempo que estava a contabilizar silêncios e rascunhos em proporções iguais. Queria um projeto-rumo… um compromisso. Tracei metas… e estabeleci um plano. Tive um bocadito de Sorte… ao ter por perto a melhor das pessoas e suas certezas sem espaços vagos e do olhar sempre pronto para ler um mesmo texto quantas vezes fossem necessárias, ciente de todos os ‘nãos’ que inventaria para dizê-lo inacabado.
Eu me sentei diante do branco-tela e depois de revisitar passados-rituais… agitei os dedos no ar, sorri todas as vidas vividas até aquele dia de junho. Observei o espaço da sala… a acha a crepitar na lareira. Provei do silêncio e vi quando a xícara pousou ao meu lado e foi colo-abraço e também foi junho, primeiro dia-palavra. O meu ponto de partida-recomeço… a partir de mim. Talvez por isso o único título possível foi: reticências! Um diário com seus ciclos completos, divididos em quatro estações!

Sobre a minha escrita,

Minha professora de literatura, uma das responsáveis pela minha dedicação à escrita, certa vez, durante um diálogo literário, me disse — ‘de repente, eu também aprendo‘. Eu tinha poucos anos. Ainda era primária. Aprendia as primeiras palavras-frases, devorava os meus primeiros livros… e começava a trilhar o caminho da realidade rumo ao imaginário.
Ela era uma espécie de guia por esse mundo-novo…  e todas as suas coisas infinitas. Sua tarefa era provocar-me — oferecendo-me livros-autores. E ela se mostrou bastante hábil. Por algum tempo, eu acreditei que ela conhecia todos os livros do mundo — impossível, eu sei… talvez por isso a frase tenha ficado sem efeito, naquele instante.
Ela me fez experimentar as minhas primeiras emoções literárias… e me ajudou a identificar muitas das sensações que alimento, até hoje. O que gosto e não gosto. O que guardo… descarto. Foi através de nossos diálogos, na Biblioteca que compreendi que, por mais que a escrita seja um ato solitário… é através da partilha que compreendemos o nosso lugar no peculiar universo da Arte escrita e a frase ganhou  sentido.
Não foi nada fácil me articular nesse cenário movediço… de papel-caneta-palavra-silêncio-tormento-delírios e um sem-fim de sentimentos contrários. Foram muitos sustos, desconfortos, algumas vitórias e centenas de fracassos… narrados na Primeira pessoa do singular. Escrevi muita coisa… reescrevi algumas. Amassei centenas de folhas e mais descartei que guardei.
Compreendi, contudo, que a escrita arrasta tudo que sou com ela. Sabe aquela trilha de migalhas que nos leva de volta para casa? Quando escrevo… eu preciso desesperadamente dela, para regressar a casa que-sou. Porque a escrita avança — sempre rumo a um futuro próprio — e me leva com ela… sem mapas ou destino certo! Me faz passageira… nunca condutora. E eu me deixo orientar por essa bússola: percorro calçadas-ruas-avenidas, pessoas, construções urbanas, lugares vários. Absorvo tudo-todos… e quando me posiciono diante do papel-tela-teclado, todas as coisas que tenho-sou se deixam narrar…
Acredito que seja esse o motivo do meu regressar constante à infância. É a minha casa primeira — referência. O meu ponto de partida para a vida. De onde sai para o mundo e para onde retorno em busca de aconchego. A minha página ainda em branco, esperando pelo discurso confessional…

Os livros

Os livros me deram a oportunidade de habitar outras paisagens, viver em outros corpos, provar de outras vidas. Ser outra e ninguém. Tudo e nada. Eu sempre fui uma pessoa encolhida, para dentro. Nunca fui tímida… apenas não apreciava presenças, não gostava de se fazer presente. Fui forjada em ausências e nostalgias. Uma criança que prefere espiar a realidade, a participar dela e diagnosticada muito cedo como portadora de algum transtorno… por gostar dos cantos, o quarto escuro, as portas fechadas.
Os livros eram um lugar seguro… onde me refugiar. Onde tudo e nada sempre era possível. Eu passava horas inteiras a bordo das ficções que começavam nas páginas e me contagiavam como um vírus que se espalha pela superfície do corpo.
Sou o tipo de leitora que se apodera do objeto livro… primeiro pelo tato. Sinto-o na ponta dos dedos. Provo da textura. E aos poucos o vou invadindo… sentindo o cheiro do papel, o calor das cores… então o agarro. Grudo no peito, fecho os olhos e imagino esse envolver-se prolongado. Eu me misturo de tal maneira a ele… que dou palpites na trama, ralho com personagens. Anoto nas margens, marco o melhor e também o pior. Vou e volto inúmeras vezes.
Tenho algumas dúzias de livros… por ler, re-ler. Uns são mais antigos e contam histórias além das que deixaram em suas páginas. Outros são recém-chegados e ainda não sabem direito o seu lugar… suicidas, se oferecem ao toque, sem saber se serão para sempre ou nunca mais.
E, depois de tanto ler os livros dos outros… resolvi escrever os meus — e sei, com absoluta certeza, que misturei muito do que provei nesses anos todos.

O que ando a ler

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Um dos primeiros espaços urbanos que visitei ao chegar a São Paulo, em meados de dois mil e dois foi um Sebo… gosto de navegar entre prateleiras cheias, pilhas e mais pilhas de livros. Esses espaços possuem estruturas curiosas que desafiam a gravidade.
E foi em um Sebo que garimpei o livro que estou a ler contra a interpretação, de Susan Sontag… impresso por aqui no outono de 1987 — com tradução de Ana Maria Capovilla e publicado pela L&PM.
A leitura me deixou inquieta… me obrigou a pensar no perigo que reside na interpretação. É fato que ao ler, trago do conteúdo oferecido pelo Autor, tornando-o meu… trazendo para dentro de minha realidade aquele conjunto de informações e a maneira como dissolvo tudo isso… resulta em compreensão ou incompreensão.
Mas, tudo isso depende da minha carga emocional, dos meus níveis de consciência e de como reajo à realidade, ao mundo… e suas pluralidades.
Estamos cada vez mais dispostos a dizer o que é Arte — a partir de nossos conceitos pessoais, como certo e errado determinasse quais cores-elementos-conjunto-de-símbolos usar para agradar o olhar ou o sentimento de determinada pessoa.
A mostra Queermuseu, em Porto Alegre foi fechada um mês antes do previsto porque não agradou a um determino grupo de pessoas, que não entenderam como sendo Arte o que ali se exibia. Muitos não viram e replicaram frases prontas — como Monteiro Lobato, que escreveu o famoso artigo “paranóia ou mistificação” contra a exposição de Anita Malfatti, criticando seu estilo, cor e modernismo, considerado pelo conservadores da época, uma ofensa ao critério estabelecido de Arte — um hábito cada vez mais comum nesse tempo de: não vi e não gostei.
A Arte de nosso tempo tem fugido da interpretação… impondo legendas, de maneira a conduzir o individuo a entender o que vê-pensa-sente — marionetes controladas por fios invisíveis.
E eu nem posso criticar os nossos artistas contemporâneos… seus abstratos fantásticos, ou atribuir a pecha de não-arte. É preciso respirar fundo, sair da zona de conforto e compreender o tempo em que vivemos, os níveis de consciência — cada vez menores — o abandono da poesia, do lirismo e a imposição de uma regra normativa: a Arte enquanto fôrma a criar uma única forma, que agrada pequenos grupos — específicos — que não querem ser questionados-criticados-incomodados… e estão satisfeito com o mesmo velho ontem e suas rotinas pré-estabelecidas.
Ler  Susan Sontag é sempre um desafio… ainda mais quando seus escritos de ontem atingem — como se fosse uma flecha certeira, em pleno voo — o tempo de hoje, do qual já não faz parte… a ensaísta, no entanto, parece ter antevisto esse cenário espalhafatoso, a partir de seu vanguardismo, digo de admiração.

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Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte.
Mais do que isso. É a vingança do intelecto sobre o mundo. Interpretar é empobrecer, esvaziar o mundo — para erguer, edificar um mundo fantasmagórico de “significados”. É transformar o mundo nesse mundo. (Esse mundo! Corno, se houvesse algum outro.) O mundo, nosso mundo, já está suficientemente exaurido, empobrecido. Chega de imitações, até que voltemos a experimentar de maneira mais imediata aquele que temos.
(…)
O que importa agora é recuperamos nossos sentidos. Devemos aprender a ver mais, ouvir mais, sentir mais.
Nossa tarefa não é descobrir o maior conteúdo possível numa obra de arte, muito menos extrair de uma obra de arte um conteúdo maior do que já possui. Nossa tarefa é reduzir o conteúdo para que possamos vera coisa em si. (…) A função da crítica deveria ser mostrar como é que é, até mesmo que é que é, e não mostrar o que significa.”