Daquilo que você gostaria que eu fosse…

 

Daquilo que você gostaria que eu fosse

O dia se manteve desguarnecido com seus tons amenos se precipitando por toda a paisagem. As cores são mais quentes em dias frios… nos dias quentes tudo arde e se precipita de maneira indócil. Fica difícil admirar a paisagem que se transforma em qualquer coisa agressiva…

Dei por meus passos junto às calçadas… disputando espaço com a intranquilidade de certos humanos em movimento sempre de ida. Sempre acho curioso reparar que algumas pessoas estão sempre indo…

Com um sorriso natural nos lábios e as mãos aquecidas — escondidas nos bolsos da calça — dobrei a esquina e atravessei a rua seguinte. E de repente lá estava ele: mio babo. É tão singular ser surpreendida com qualquer coisa minha que resida na ausência.

Sempre agradeço ao meu imaginário por certas gentilezas… gosto imenso de perceber uma figura inteira a minha frente enquanto meu olho espreita o vazio.

Herdei de mio babo a mania de deter as mãos dentro do bolso da calça… sempre achei aquele gesto tão intrigante e gostoso… que passei a repetí-lo, como se fosse coisa minha.

Sempre que comprava calças, escolhia as que tinham bolso. C. nunca me perguntou a razão da preferência, mas sempre exibia seu melhor sorriso quando eu reclamava: “mas essa calça não tem bolsos” — como se fosse um discurso conhecido sendo repetido de maneira natural.

Ainda hoje repito aqueles mesmos gestos e fico completamente desorientada se a calça não tem bolsos… não sei o que fazer com as mãos, não sei realizar um só movimento. Me desorganizo por inteira

Certa vez, seguíamos os dois pelas calçadas da esquerda… ele do lado de fora, em seu gesto masculino-antigo quando ele deu pelo meu movimento igual. Nós dois — lado a lado — com as mãos aquecidas dentro do bolso, o passo largo e o olhar ao longe… completamente perdidos em pensamentos comuns.

Nos olhamos entre sorrisos como se pudéssemos adivinhar o que era pensamento igual… nos esbarramos um no outro, encaixamos nossos passos… e enroscamos nossas presenças, amarrando nossa realidade numa espécie de abraço pela metade. Ele parecia feliz por reconhecer qualquer coisa sua em mim…