08 | vermelho, por dentro!

cropped-dsc_00242.jpg

Eu estava em Paris dias de abril para um reencontro combinado no dia anterior. Tinha escolhido a mesa, feito o pedido e me acomodado na cadeira do Café de Flore para esperar por Pr e juntos comer blinis e beber café no mesmo lugar que

Beauvoir e Sartre.

Eu sempre chego antes aos cafés porque gosto de me ambientar. Passar um punhado de minutos a sós. Ouvir frases pela metade. Observar o cenário de cadeiras e mesas. Fazer perguntas aos atendentes e compreender a rotina do lugar-cenário bebericar pequenos goles da melhor bebida e pronto…

Nesse dia, uma jovem acompanhada por uma dama (senhora de si) sentou-se na mesa ao lado. A estranha de cabelos revoltados-armados-emaranhados cruzou os braços a frente do corpo e ali ficou a dizer-se no idioma local. Era uma artista… e eu uma psicanalista recém-formada, começando minha jornada-caminhada-profissional. Ela planejava a sua primeira exposição… e eu planejava não pensar pacientes. Queria ser apenas uma pessoa comum na multidão. Alguém à espera do eterno-amigo e só.

Reparei quando esparramou dúzias de rascunhos-nada-perfeitos por cima da mesa sob o atento olhar da mulher que fingia indiferença… enquanto revirava o cardápio sem conseguir se decidir.

Busquei por um livro no fundo da mochila poesias de Baudelaire, perfeito para se ler em Paris — e se distrair da cena para a qual não fui convidada. Mas, sem conseguir avançar na leitura dos poderosos versos voltei-me para a cena peculiar.

Soube que eram mãe e filha… duas estranhas que nada diziam uma a outra. A filha estava ali, por obrigação. Era uma espécie de hora marcada. Após cinquenta minutos… a jovem artista se levantaria e iria embora com um cheque que pagaria suas contas-mês aluguel, curso e as refeições diárias.

Após fazer o pedido, a mulher estrangeira reclamou em voz alta: seu irmão vai ser pai pela segunda vez e a sua irmã está noiva. E você não pensa no seu futuro. Precisa encontrar alguém. Eu não vou viver para sempre.

Vi quando a jovem levantou os olhos e pousou na figura da mãe… uma mulher muito bem educada, elegantemente vestida. Senhora de modos refinados… a filha era o oposto de tudo isso. Esperei por uma reação áspera, uma frase de efeito que não veio. Ela apenas quis saber se ela já tinha decidido o que iria pedir. Um cappuccino — o mesmo pedido das outras vezes.

Aprendi os traços e repeti alguns gestos tornando-os meus… era um hábito antigo que eu costumava repelir até então por considerar não ser nada fácil lidar com a trilha de migalhas de pão.

Alguns anos mais tarde… estava no trem a folhear uma revista deixada no banco e me deparei com a figura da Artista. Parecia a mesma menina do Café, com os cabelos bagunçados e as roupas sujas de tintas… falava do sucesso de sua nova exposição. Exaltada pela crítica: “é uma das poucas artistas que conseguiu juntar, de modo original e inteligente, a linguagem contemporânea às questões pertinentes que, em sua produção, alcançam uma dimensão muito densa, sem nenhum aspecto anedótico, proselitismo ou excesso de literatura”.
Tenho para mim que enquanto observava a sua fotografia em preto e branco, todo o colorido da trama vermelho por dentro — o primeiro rascunho-promessa-premissa de romance — se escreveu em mim…

07 | Escreve-se… e pronto!

dsc_0001

 

Hoje, ao observar a paisagem urbana… me lembrei da primeira vez que me sentei para escrever uma história. Abri o caderno em sala de aula… e corri o grafite pelas linhas sem compromisso algum com regras literárias. Escrevi por escrever somente uma história do meu tamanho, enquanto tive linhas-páginas. Não pensei em leitores-livros-livrarias-prateleiras — nada. Apenas na história que eu queria narrar-contar. E foi o que eu fiz, aos poucos — migrando para um mundo próprio-particular, alheio a realidade. Escrevi a partir das minhas fronteiras — a escola foi meu cenário… e os personagens foram as pessoas com quem eu convivia naqueles dias: vizinhos-amigos-alunos e alguns professores.

Foi uma experiência curiosa! Fui minha única leitora durante dias-semanas… quase um mês inteiro. Escrevia durante as aulas de geografia e lia — linha por linha — sentada num dos bancos de cimento da Praça que ficava no meio do caminho… entre a escola e a minha casa. Gostava imenso de ouvir o som das folhas do caderno em movimento… e da minha própria voz a pontuar a trama.

Eu nunca desisti da escrita mesmo indo em outra direção oposto a literatura. As narrativas aconteciam naturalmente em silêncio, do lado de dentro. Escrevi muitas histórias no ar. Os processos da escrita se ofereciam a minha matéria naturalmente, sem técnica-regra… apenas uma necessidade natural de narrar outras vivências numa espécie de vôo ao sabor do vento.

Eu acreditava, no entanto, que avançava seguro em outra direção. Não reparava que a literatura acontecia em mim… numa espécie de universo paralelo com cenário-personagem e histórias. Roteiros inteiros. Cenas de filmes… de Allen a Hughes. Quando me sentava na mesa dos meus cafés favoritos, observava marcações, percebia ensaios e me antecipava aos diálogos, como se os estivesse a escrever ali mesmo, naquela fração de minuto.

A escrita aconteceu em minha vida-matéria-corpo… e pronto.

Quando olho para trás, estou sempre a escrever — a riscar o papel nos mais diversos e inusitados lugares. A ser meu próprio personagem — o mais indócil de todos. Narro a minha trajetória na terceira pessoa. Empresto o meu corpo para o outro, que não eu. É sempre um segundo antes-depois. Uma pausa e a cortina se abre… observo o cenário e a personagem que sou, misturadas a tantas outras que não eu emerge e assume o controle dessa nau. Sou despejada da minha matéria e assisto do lado de fora a esse jogo de cena. 

Anos depois daquela primeira narrativa infantil… rascunhei várias outras e reconheci depois de um pesado gole de café, que a bússola aponta sempre para o Norte, a única direção possível para alguém como eu.

 


beda

6 on 6 | monocromático

Nas férias de verão, a gente se sentava na sala com a nonna para virar as páginas dos álbum de fotografias — ritual comum em nossos fins de tarde alaranjados. Era a maneira de saber quem havia nos deixado-crescido-chegado. Ela colava uma a uma as fotografias em um velho álbum, que parecia um livro de história… da nossa família.
Certa vez — ao virar das páginas — caíram algumas fotografias, em tom de sépia. Foram feitas em um Stúdio. Eu as espalhei por cima da mesa e achei engraçado… pareciam personagens a encenar uma vida-inventada.
A nonna preferiu não colar no álbum… me encantou, no entanto, o tom de envelhecimento no papel que suavizou as cores — permitindo outros tantos detalhes que as cores apagam-abafam-misturam.

E eu aproveitei a lembrança e o tema… para fazer meu próprio álbum nesse dia seis:

img_20200405_154936

1 — para começar… uma xícara de café as nove, na varanda para celebrar um novo dia e o silêncio desses dias fechados dentro.

img_20200405_154232

2 — a melhor das companhias nessa fase de #ficaracasa. Ela tem preservado a minha sanidade já que precisa caminhar. Seguimos as duas pelas ruas do bairro e depois fazemos uma farra gostosa na hora de lavar as patinhas… afagos e biscoitos.

img_20200405_153615

3 — essa casinha encolhida entre prédios há tempos chama a minha atenção. Gosto de sua pequenez ante a imensidão dos arranha-céus. De sua janela e do quintal com flores, sem frutos. Nunca vi via alma por ali. Parece abandonada… mas alguém varre seus recortes de cimento até a porta-de-entrada (sempre fechada).

img_20200405_1539104 — minha família nada tradicional… na frente de um templo sagrado para mim: uma livraria…

img_20200406_174508

5 — sai para caminhar antes da pandemia… era nossa primeira semana em novo bairro e fui surpreendida por essa casa ainda estar no mesmo lugar. Um pouco mais velha e pela primeira vez, com a janela aberta…

img_20200406_174827-1

6 — gosto imenso desse espaço aberto para o céu-sol-lua e não fui a única.

 



Ale HelgaDarlene ReginaLucas Buchinger
Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega


beda

05 | sobre o mês de abril aqui no blogue…

img_20200405_235232

Há tempos que sei que tenho leitores assíduos aqui no blogue… confesso que não esperava por isso quando comecei a usar essa ferramenta. Levei um susto quando me deparei com os comentários e me surpreendi com a proximidade para alguns leitores que voltavam para ler o que eu escrevia. Há leitores de longas datas. Uns se foram para nunca mais. Outros ganharam corpo e nos encontramos pelos cafés da cidade para abraços, diálogos e xícaras.
E foi pensando nisso que resolvi presentear a você que me lê com os livros que publiquei.

Para participar, você precisa comentar nos posts de abril e ganhará quem comentar mais vezes. Em caso de empate… farei um sorteio a moda antiga com nomes escritos em azul no papel.

O prêmio serão os três livros publicados por mim… vermelho por dentro, meus naufrágios e Alice uma voz nas pedras, que serão enviados pelo correio ao vencedor…

Que comecem os jogos, digo: comentários!


beda