Diário das minhas insanidades, #03

“A minha boca perdeu a memória
não pode falar as palavras entram no seu túnel
e não é preciso segui-las”

Mário Cesariny

…EU NUNCA TIVE TALENTO ALGUM PARA A FALA. Sempre preferi ouvir e detestava quando me requisitavam para um diálogo… era qualquer coisa aborrecida, demasiadamente cansativa. Quando em grupo, contudo, era mais fácil encontrar um caminho para o silêncio.

Sempre foi muito fácil ficar quieta, no canto, ausente… arquitetando frases inteiras, como se eu estivesse em um jogo… a recolher as melhores palavras para compor as  “notas mentais”… que eu me acostumei a colecionar.

Fui estimulada à escrita desde muito cedo pelos meus… que escreviam à mesa da cozinha e também da varanda. E quando dialogavam, suas frases eram sempre bem-feitas: devidamente pontuadas, com pausas e sorrisos que intercalavam substantivos, verbos e adjetivos… sem excessos — como tanto aprecio… ou repetições — causa maior da minha fadiga…

Na companhia d´eles eu podia caminhar ruas inteiras sem pronunciar uma única palavra. Nunca me obrigaram às respostas… até porque as perguntas que comumente faziam, eram conhecidas: “como foi o seu dia?”… e objetivavam coisas comuns… esperavam por aromas e sabores únicos: como perceber o exato momento em que ocorriam as mudanças das estações do ano… aprendi com eles que a vida sempre nos surpreende se a gente se permitir…

Mas meu comportamento precipitou questionamentos fora de casa “que menina quieta, ela tem algum problema?”… C., reagia com toda a sua ironia enquanto reparava no comportamento da criança alheia: inquieta, incansável e também insuportável sinal de saúde perfeita.

Havia quem me achasse triste… emotivamente fechada… centrada em mim mesma… mas o que consideravam estranho mesmo era o cansaço que eu demonstrava quando era obrigada a participar de atividades em grupo… a maioria, contudo, concordava com um mesmo argumento: tinha algo errado comigo; eu não era uma criança saudável…

Existem padrões comportamentais que devem ser seguidos por uma criança… que deve saber sorrir, ser alegre e feliz… deve querer brincar e fazer amigos, gostar imenso de falar o tempo todo, fazer mil perguntas… ir à escola, à praça… se misturar… qualquer coisa diferente disso requer cuidados… e, para isso existem os especialistas em comportamento humanos por aí… cada um com uma teoria infinitamente particular para tratar a questão.

Quando comecei a terapia, após as tradicionais perguntas… me fizeram a pergunta fatal: do que você gosta e do que você não gosta? Eu sorri… ninguém até então – além dos meus – tinha feito tal pergunta. Demorei a responder… precisei analisar a pessoa para saber se ela queria a verdade e, concluída essa condição, respondi: “há quem goste de falar… eu sempre gostei de ouvir! Há quem goste de barulho… eu sempre preferi o meu silêncio”.

Admirável (?) mundo novo…

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ESTAVA A PERCORRER… os corredores e prateleiras da Livraria Cultura no Conjunto Nacional – na tarde de ontem – e de repente reparei na quantidade de livros com nomes estranhos e capas cada vez mais coloridas… e uma frase francesa me veio imediatamente à cabeça: “ils ne lisent plus, ils écrivent”…

Nem precisaria dizer mais… mas é impossível silenciar-me diante da certeza de que “em outros tempos” era preciso um talento raro para ser escritor e publicar suas linhas. Nos dias atuais – intitulados contemporâneos – qualquer pessoa – com ou sem talento – não apenas escreve, como também publica seu livro… e há quem se sinta imensamente feliz com esse “admirável mundo novo” em que o ator da novela das nove, o jornalista que escreve (com seus mil erros de português) uma coluna no jornaleco da cidade onde mora e, por que não, o ex-presidente do país, o senador e outros tantos… publicam suas ricas e inspiradoras histórias de vidas, como se fossem um personagem próprio

Tenho pra mim que a pessoa que disse e, aviso que não faço ideia de quem seja: “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro” foi bastante infeliz na citação – basta reparar que há pouquíssimas árvores na cidade, mas filhos há aos montes e livros então…

Penso que, dadas as circunstâncias, deveríamos mudar o substantivo que classifica os “colecionadores de palavras“. Não mais vamos chamá-los escritores e sim “a atriz que escreveu um livro”… “o jornalista que publicou um livro”… “a blogueira que está a vender milhares de livros feitos a partir de seu blogue“… “a figura que nada estava a fazer de sua parca vida e pensou, vou escrever um livro“…  “o senador ou deputado que por não saber o que fazer em Brasília,optou por escrever um livro” e, para os dias atuais: “como tinha muito tempo em sua cela particular, decidiu escrever um livro”…

Todas essas pessoas, devidamente auxiliadas por uma nova safra maravilhosa de talentosos Editores e Ghosts writes estão contribuindo gentilmente para o aumento considerável de livros em prateleiras e não pensem que o fazem pelo bem comum da literatura… e, os leitores – mergulhados em qualquer coisa de curiosidade e totalmente incapazes de devorar literatura dado ao trauma que os tempos colegiais infligiram em seus olhos e almas… devoram a não-literatura como se afrontassem seus velhos professores. Minha esperança (pequena) está em acreditar que, amanhã se ocupem da verdadeira literatura…

Enquanto isso, talvez o melhor a fazer seria deixar o substantivo “escritor” liberto de certos pesos, cabendo o mesmo apenas as pessoas com raro talento que dedicam seus dias a pesquisas e estudos – numa tentativa natural de evolução – porque, talento sozinho não basta. É preciso mais… histórias não nascem prontas, é preciso dedicar-se a elas… guardá-las porque são como vinho e necessitam de tempo, repouso, maturação. Um romance não fica pronto em um punhado de dias e há a possibilidade de nunca escaparem da condição de inacabados.

Vivemos o tempo do “produto descartável”… basta um dia para que o novo seja considerado velho. Os novos escritores não querem esperar… querem o sucesso para ontem. Não querem passar seus dias nos bastidores de si mesmos… querem o reconhecimento, os holofotes da fama, as tempestades de gritos… platéias repletas de fãs.

O quarto escuro é para os românticos (tolos de antigamente), o canto escuro perdeu o charme… hoje o desejo é por multidões e não interessa se amanhã serão esquecidos… se seus livros não terão espaço nem mesmo nos sebos das cidades. Amanhã é uma palavra em desuso… o importante é o hoje, o tempo é agora. 

Por isso, não tenho dúvidas que as prateleiras das livrarias continuarão abarrotadas com seus livros coloridos, nomes esquisitos e conteúdos toscos por muito tempo… mas talvez possam ser separados em duas novas sessões: escritores e não-escritores… porque eu sei que ainda existem nesse mar contemporâneo… escritores que vivem pela palavra e não pelo barulho.

Nada é tão líquido assim…

 

Meu Caro P.

 

…remexia coisas antigas nesse fim de tarde, com a alma afundada em melancolia quando encontrei uma velha caixa que fez abrir o casulo da memória em meu corpo. Primeiro por me fazer refazer a viagem na companhia de C., pelas ruas de uma pequena cidade alemã onde comprei a caixa, que serviu de porto seguro as suas linhas… que hoje, me devolveu à você: meu homem.

Quando foi que nos perdemos? Lembro-me que nos escrevíamos com frequência voraz. Você aconteceu para mim — depois de nosso inusitado encontro nas férias de verão de um ano qualquer… eu tinha dez anos e tinha acabado de me apaixonar por Eliot… você se espantou com minha pouca idade e com o livro do poeta em minhas mãos.

Lembro-me de sua chegada, como se fosse ontem: um envelope azul artesanal, endereçado à tua bambina chegou naquele  outono/outubro. Duas páginas inteiras me trouxeram um poema de Eliot e um belo punhado de frases eufóricas de um menino-homem que nada sabia do lugar onde eu morava… e considerava interessante e apaixonante o não saber.

Eu que nunca tinha escrito uma missiva, busquei por folhas num desespero pouc  comum… e sentei-me aqui nessa mesma mesa, de frente para o mar… e contei à você… com alguma euforia e também tristeza o que eram os meus dias nessa cidade. Iniciou-se assim uma troca, que durou muitos anos até que de repente cessou… 

Lembro que quando nos encontrávamos… o silêncio se apoderava de nós dois e espiávamos — incrédulos — a nossa anatomia. Eu não sabia quem era o menino franzino, com seu sorriso engraçado-torto-frágil a minha frente… o homem que me escrevia não cabia em tuas formas mínimas… tinha outra voz, outra altura e já não nascia espinhas em seu rosto branco. Suas feições eram outras. Ele não era um menino a escalar a si mesmo, já tinha chegado ao cume de suas vontades e vivia, sem medo, a sua realidade.

Quando foi que nos perdemos? Anda, dizes… vou ali passar um café para nós dois e mais tarde irei ao mercado comprar ingredientes para preparar um bolo branco — como tanto gostas. Por isso, meu caro…peço que regresse a esta casa impossível, à beira de mim — esse abismo que sou — e senta-te. Vamos folhear juntos essa nossa história… e quem sabe a resposta se ofereça a nós dois em sorrisos de orelha e olhares agridoces…

Lembro-me que me mudei de cidade/país… e deixei as missivas nessa caixa, no fundo de um baú que foi um presente do nono… ainda cheira a carvalho e os galhos que recolhemos naquele novembro ainda estão aqui… aconteceu tudo tão rápido. Anoiteceu tão cedo naquele dia…

Você não me escreveu mais… nem eu à você. O hábito de escrever missivas se perdeu em algum lugar de nós dois… mas eu guardei você dentro dessa caixa para um dia revê-lo… e agora que folheio suas linhas, repito-me em palavras porquê eu, de outro modo, não conseguiria alcança-lo.

E tudo que me vem a mente é essa maldita pergunta que se repete — sem respostas — feito um ponteiro de relógio: quando foi que nos perdemos?

Au revoir…

Diario das minhas insanidades, #02

Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro as coisas acabadas.

Manuel António Pina

 

…DURANTE OS MEUS ANOS EM COIMBRA, conheci D., homem de quase cinquenta, olhar enigmático. Figura obscura-abstrata… seu desenho não cabia dentro do corpo que habitava. Era um homem de poucas palavras… com talento para ouvir o outro.

Seu ambiente de trabalho era um porão, onde os cheiros se multiplicavam… do café que ele bebia antes de começar a sessão ao uísque que o ajudava com as notas que tomava em um caderno de couro marrom.

Em suas prateleiras se multiplicavam os livros de grandes pensadores… clássicos da literatura — velhos e gastos. Os mais novos eram de autores desconhecidos do público, que ele recebia para cinquenta minutos de conversa.

Cheguei até ele… indicada que fui por um professor, com quem comentei que precisava urgentemente retomar a terapia. Assim que me sentei na velha poltrona de couro gasto, ele se sentou em seu lugar, cruzou as pernas e disse vamos primeiro as respostas porque as perguntas sempre chegam depois, como as aves que voltam para casa no final da tarde” — reconheci de imediato a fala…um verso de Manoel Pina, que me fez ficar…

D., tinha um cão — um labrador negro chamado Jerry — que se sentava ao seu lado durante as sessões…os dois me espiavam com atenção e cuidado, mas confesso que era com o cão o meu diálogo… era em seu silêncio-canino que eu confiava minhas falas.

Me despedi de D. e de seu cão no verão de dois mil e dois… ele me disse com sua voz rouca-pouca: “não sei o que procura, mas seja o que for, saiba que não existe cura, tratamento ou remédio… para a loucura. O mais saudável é se deixar enlouquecer, mas são poucos os que são de fato capazes de se permitir a loucura. A maioria de nós teme enlouquecer porque não é todo mundo que consegue sonhar no escuro”…

Guardei a frase no bolso e, atravessei o oceano!

O que o café lhe faz lembrar?

“AMANTE DA LITERATURA acreditou que bastavam: caneta, moleskine e uma xícara de café durante horas sobre a mesa do bar. Ela, ambiciosa, exigiu-lhe a vida inteira em troca de um bom livro. Foram felizes para sempre”.pág. 13 – amor expresso, Adriana Aneli

amor expresso

O AROMA E O GOSTO DO CAFÉ DESPERTAM A MEMÓRIA
E PROJETAM NA IMAGINAÇÃO ANTIGAS SENSAÇÕES…

SE O RELÓGIO NÃO DESPERTASSE, ele acordava mesmo assim. A tarefa que o despertava mio nono dominava como poucos: fazer o café da manhã. Era sua Arte favorita… antes de o sol apontar o dia… a chaleira cantava na cozinha e o cheiro ia levantando um por um da família. Alguns afobados, a correr contra o tempo. Para estes, ele deixava o café com leite pronto em cima da mesa. Para outros mais calmos, tempo não era problema, mas a falta do benedetto café sim… a gente se chegava e se servia à vontade da bebida fresquinha e ficávamos ali, se bobeasse o dia todo, de gole em gole, a papear a vida e suas coisas demasiadamente humanas…

De tudo fica um pouco, disse Drummond… e do café fica muito mais… porque assim como minha lembrança tem cheiro de café e me transporta para dentro de um tempo que segue a acontecer cá dentro… o mesmo acontece com a maioria de nós.

Pergunte a qualquer um: o que o café lhe faz lembrar? E a resposta vem rápida… tanto no paladar quanto na memória… e foi exatamente o que aconteceu comigo ao ler o livro de Adriana Aneli — amor expresso — que tive o prazer de editar e costurar… comecei a folhear sensações conhecidas a cada página… mas não da pessoa e sim da autora, que descobriu nos Cafés entre esquinas das cidades por onde passou… um lugar para o corpo, a alma, a memória e também as palavras…

E quando dei por mim estava a fazer uma singular lista dos Cafés que ficaram em mim… uma viagem dentro da tarde:

Em primeiro… Paris, na companhia dos meus pais… minha primeira viagem para a cidade de Baudelaire. Descobri que o que eles serviam em xícaras, não era exatamente café e era horrível… eu tinha 09 anos, fiz careta e cuspi fora! Mas voltei inúmeras vezes ao Montparnasse para conversar, rascunhar e conhecer personagens…

Em segundo… com meu primo em NY durante as férias de verão de noventa e sete… ele me apresentou a sereia de duas caldas, disse-me “você que adora a baleia branca de Herman Melville, vai adorar esse lugar”… ele estava certo: me apaixonei pelo que veio a se tornar o meu lugar favorito em muitas cidades. O meu eterno “café entre esquinas”. Amor no primeiro latte…

Em terceiro… certo dia C., me disse “hoje você não vai à escola, temos coisa melhor para fazer” e fomos a Barcelona… onde compramos um tapete para a porta e depois nos sentamos à mesa do “la caixa”… o café era servido na companhia de biscoitos de gengibre e gotas de chocolate. 

Em quarto… São Paulo, uma padaria antiga no velho bairro do Bixiga… imediatamente ao dia seguinte a minha chegada a Paulicéia do Mário… eu e “meu menino” saímos para um café. Ele me convidou… e enquanto tentava saber de onde o conhecia (totalmente clichê, mas e daí?) caminhamos até esse lugar que tinha as paredes revestidas por velhas fotografias da Metrópole antiga. O café não era dos melhores, mas a companhia……..

Em quinto… em Coimbra… com minha eterna Mestra das letras, que me disse certa vez “a psicanalise entrará em ti, mas você não viverá para ela”… gostávamos de caminhar lado a lado até o velho Café Cartola na Praça da República com nossos livros, em silêncio… com os olhos a dizer o que os lábios não eram mais capazes. Sorriamos a cada gole e, depois fazíamos o caminho de volta… a passear por entre uma multidão inconsciente de nós duas. Ela fazia como o nono, provava o primeiro gole de café como se fosse sopa, para sorver melhor os aromas…

Em sexto… estávamos todos à casa e decidimos em conjunto, como se fosse préviamente combinado: vamos ao Marrocos… e lá fui eu na companhia dos meus. Foi a última vez que estivemos todos juntos…

[uma pausa para respirar fundo que essa bateu forte cá dentro]

Brindamos o pôr-do-sol — o mais lindo que eu já vi em toda a minha vida — com uma caneca de café requentado (horrível) e prometemos nunca nos perder… nos esquecemos, contudo, que promessas são feitas para não serem cumpridas… entre sorrisos espaçados, entrelaçados, silenciamos um a um e guardamos para sempre o momento. Foi a nossa promessa mais sincera e queríamos que fosse uma conquista. Mas não foi… não acredito que haja arrependimento, afinal, o momento sobreviveu e nós também. Mas eu nunca mais consegui voltar ao Café de France que é o mais famoso de Marrakesh.

Em sétimo, [estou em dúvida] — mas fico com São Paulo (novamente).
Era uma tarde de terça e eu me preparava para deixar o lugar quando uma figura recém-saída e uma tempestade adentrou o recinto do café entre esquinas… fugia da chuva, mas já estava toda molhada e reagiu como um cão… acho que fui eu a única que não reclamou dos respingos da chuva. Nos olhamos a distância. Eu acho que sorri suas fisionomias inteiras. Provei. Devorei. Decorei… ela me devolveu o sorriso. Eu que estava de saída, com a desculpa de esperara a chuva passar… fiquei e acabei surpreendida com um gesto… ela me propôs um brinde e eu o aceitei…  brindamos uma a outra… à distância: duas estranhas… e, ela nunca vai saber o que me deu. Parte dela foi embora… parte dela ficou comigo para todo o sempre.

DIÁRIO DAS MINHAS INSANIDADES…

O hoje sangra, o amanhã lancina
T.S.Eliot

Comecei a fazer terapia aos doze anos… conselho de C., que percebeu minha angústia… motivada — obviamente — pela escrita em fase de enraizamento…

Era confuso multiplicar-me em tantas figuras… personagens que surgiam em mim, me transformando em outra pessoa num piscar de olhos. Um constante vestir e despir de si mesma.

Era igualmente estranho me precipitar às pessoas… sabendo-as antes que dissessem alguma coisa sobre si. Interpretando-as como se personagens de uma história lida milhares de vezes, fossem…

Eu não tenho — nunca tive — poderes paranormais! As precipitações aconteciam — acontecem — através dos detalhes da matéria… aos quais estou sempre atenta: o corpo fala, os olhos gritam e as mãos confessam-se… mas a maioria é desatenta e não percebe as migalhas que são deixadas pelo caminho… todas as coisas que trazemos em nós dizem muito de quem somos — hoje eu sei.

…nada como a sabedoria do dia seguinte para nos fazer compreender as manifestações na própria pele. Pena que não seja algo imediato… leva-se tempo para se chegar as conclusões, tão necessárias.

Em minha primeira sessão… deitei-me no divã de uma estranha, com quem não simpatizei. Disse duas ou três frases inteiras que  me vieram à boca e me perdi no limbo — também conhecido como: teto branco.

Até me sentir segura… entrei e saí de vários ambientes — recusei vários olhares que pareciam se afundar na lama de minha existência… e soube que não seria fácil encontrar alguém com quem partilhar minhas misérias.

Se na “vida real das coisas demasiadamente humanas” esbarramos em milhares de pessoas todos os dias e, não nos oferecemos a elas… por falta de empatia ou porque temos nossos caprichos…imagina quando saímos desse “conhecido recinto” para nos aventurar em solo estranho, onde um único ser é Rei e também Senhor.

Convivo com pessoas que me “conhecem” desde a infância a quem nunca contei absolutamente nada sobre mim…entregando pouco ou nada: um sorriso pequeno, um olhar estreito… e outras — recém-chegadas — à destrinchei minha realidade comum: livros lidos, lugares onde estive, lembranças antigas…

Há pessoas que não nos querem saber… querem que a gente se deite no molde que trazem e se não o fazemos… esperam pela mudança que devemos prover em proveito de tal abençoada amizade-amor ou seja lá qual nome dão a isso…

Matou-se e não morreu…

aos meus amigos

As pessoas são minha paisagem favorita”
Maria Adelaide do Amaral

…acho que já te falei dessa minha mania – estranha para alguns, mas agradável para mim – de recorrer ao passado quando Janeiro aterrissa no calendário… reviro absolutamente tudo: baús, caixas… e esparramo por cima da cama… é uma espécie de ritual, movido a silêncio e ausências. É como ler um velho livro, cheirando a guardado… que eu posso folhear len-ta-men-te… já sei sua história, suas falas sei de cor…

E entre um gole e outro de chá… depois de revirar meus pretéritos… fui até a prateleira e voltei com um livro já lido – sabe-se lá quantas vezes… se está por lá ainda… é porque voltarei as suas páginas… caso contrário já teria conhecido outro destino!

Da primeira vez que li “aos meus amigos” de Maria Adelaide do Amaral… me surpreendi por sabê-la autora de livros! Para mim, até então, ela era apenas a mulher que adaptava clássicos para a televisão: Anjo Mau – de Cassiano Gabus Mendes… A muralha (do livro de Dinah Silveira de Queiroz) – Os Maias (de Eça de Queiroz) – JK (de Alcides Nogueira) e a A Casa das Sete Mulheres (Letícia Wierzchowski).

…o livro foi escrito entre julho de 91 e agosto de 92… durante um momento difícil na vida da autora, que acabou por superar a perda de seu grande amigo ao usar o suicídio dele como tema. A história, para surpresa da autora, acabou adaptada para a televisão – foi ao ar em fevereiro de 2008, com o título de “queridos amigos”.

“sinto saudade do tempo
em que a gente era amigo”

aos meus amigos” encontrou Eco em minhas paredes porque traz em suas linhas as mesmas alegrias e tristezas comuns que – a maioria de nós – viveu no tempo do colégio.

Enquanto lia… pensava no ambiente escolar e em tudo que vi acontecer a minha volta: amizades que se diziam sinceras e acabaram desfeitas, amores que deveriam ser eternos e não sobreviveram a um único semestre… as disputas constantes por ser o melhor e a desilusão por nunca deixar de ser o pior…

Eu sei que existem pessoas que preservam suas amizades colegiais e sentem saudades dos intervalos onde tudo acontecia… já presenciei muitos diálogos animados entre “velhos amigos colegiais“… mas eu faço parte da turma que optou por esquecer ou apenas seguir em frente…

Eu não fui a garota popular da turma… fui o que eu consegui ser – nada muito diferente do que sou – a menina magrela-quieta-calada-que-usava-óculos e se pudesse, escolheria ficar na biblioteca, entre prateleiras – escondida entre livros, com uma xícara de café em mãos…

Daqueles dias… guardei um outro nome na memória… personagens sobre os quais, tenho certeza, não escreverei uma única linha…

“eu tenho saudades do afeto que nos unia
da família que éramos”

No livro de Maria Adelaide, a morte do personagem principal reúne a turma de amigos que durante a década de setenta – em plena ditadura militar brasileira – viveu seu melhor momento: amores, amizades… mas nada do que fizeram serviu para mantê-los juntos… cada qual seguiu seu caminho, sendo o publicitário Leo – que na TV foi interpretado por Dan Stulbach – a única persona incomum.

Os personagens trazem consigo muitas sequelas que ainda não foram discutidas o suficiente e que precisa urgentemente serem conflitadas até a exaustão. Por isso falam e agem de acordo com a experiência pessoal e o reflexo dela na vida afetiva, profissional e política… às vezes, parecem acusar uns aos outros pelos fracassos alcançados, enquanto observam incrédulos o sucesso do outro…

Enquanto percorria as linhas do terceiro capítulo do livro, tendo o corpo acomodado junto aos travesseiros e a alma a levitar em direções contrárias… recordei certos colegas de sala de aula. Sei o que aconteceu com um ou outro apenas… éramos vinte e dois alunos! Alguns, no entanto, não aguentaram o ciclo todo e pularam fora do barco muito antes. Desses – estranhamente – eu me lembro muito bem… naqueles dias ninguém falava em bullying e pedir ajuda – moda dos dias contemporâneos – era a pior das humilhações… era sofrer em dobro!

Os que sobreviveram – como eu – seguiram o curso natural… receberam seus diplomas e foram para a segunda fase da vida escolar, mas não sei dizer se são felizes, nem mesmo sei dizer o que são…

“Onde foi que eu me perdi? Faria qualquer coisa para recuperar a minha paixão pela vida, aquele fogo que me moveu e movia as pessoas na minha direção. A minha fúria era só um tempero naquela irresistível exuberância não foi ela que afastou os outros de mim, mas a minha morte. Todos os dias me levanto, engulo uma xícara de café e vou para o túmulo. Estou me decompondo miseravelmente diante das pessoas”… trecho de “aos meus amigos”

Não existe segunda-feira sem poesia, 25

 

step


…amanheceu janeiro dentro dessa segunda-feira!
A primeira do tal ano novo (?) …mas dentro desse avesso que sou… a noite prevalece e as sentimentalidades todas… se misturam como se fossem ingredientes a venda em prateleiras de supermercados. Não há de amanhecer dentro do cuore… que ainda levará algum tempo para se recuperar do ócio de fim de festa, fim de ano... e seus movimentos dispersos, em círculo, todos na mesma direção…

Chove… lá fora desde a noite última do mês passado — um dezembro equivocado — quando os fogos espetaram os céus, a pele, os ouvidos e também os meus olhos. Chove… versos de Walcott — esse senhor que não se rende a mecânica dos versos e escreve um punhado de linhas retas e toras — assimétricas. Chove… a vida de Rubem, que em vida, contou a si mesmo — em linhas perfeitas e depois de sua morte — no ano que se perdeu há pouco de nós — virou prosa na voz de Gonçalo Junior, mas esse não tem a mesma audácia do mestre, quando não se repete: tropeça. Chove… os excessos (?) humanos em falas mal pontuadas-desorganizadas, como se dezembro ainda se fizesse presente entre nós. Chove… as canções de Natal que ainda se fazem ouvir no café entre esquinas, como se dezembro não tivesse atravessado a rua e atropelado pelos excessos. Chove… o choro de crianças — humanos em miniaturas que não sabem o que a vida lhes reserva… e se soubessem, decerto voltariam para os úteros vazios…

Chove… e a poesia atravessa o meu caminho com seus trovões…  eu vou de um lado a outro na Paulista, em passos pequenos, livres da pressa tão comum aos outros meses, porque Janeiro não sabe se acena o futuro ou o passado! Do presente é certo que nada sabe! Janeiro é esse tempo perdido entre o ir e o vir. Janeiro é dúvida… um punhado de incertezas… é um livro que ninguém quer ler… ou ter em suas prateleiras…

Janeiro é esse poema que acena aos meus olhos com a confluência de dois verbos: silenciar e subtrair…

AR LIVRE
Blas de Otero

Se há alguma coisa de que gosto, é viver.
Ver o meu corpo nas ruas,
falar contigo como um camarada,
olhar os escaparates
e, sobretudo, sorrir de longe
às árvores…

Também gosto dos camiões cinzentos
e muitíssimo mais dos elefantes.
Beijar os teus seios,
deitar-me no teu regaço e despentear-te,
engolir água do mar como cerveja
amarga, escumante.

Tudo o que seja sair
De casa, espirrar de tarde em tarde,
cuspir contra o céu das tundras
e as medalhas dos semelhantes,
sair
deste espaçoso e triste cárcere,
apressar os rios e os sóis,
sair, para o lar livre sair, para o ar.

Tradução
Miguel Filipe Mochila
{ daqui }

Não perdi o hábito de escrever missivas, 11

 

diary

 

Caríssima A.,

Sentei-me aqui, nesse fim de tarde, nessa mesa de café a esquerda de minhas ousadias para concluir algumas linhas. Queria escrever-te… há dias que esse desejo habita minha pele, mas aprendi já faz algum tempo que é preciso respeitar o momento e esperar por ele sem ânsia, embora nem sempre seja fácil.

Mas quando comecei a pensar em você, vislumbrando nossos encontros, desde o primeiro… o belo ragazzo que atende esta mesa, trouxe minha xícara de café, com cioccolata e crema… e, biscoitos de gengibre. Me dispersei completamente… respirei fundo e para dentro foi também o aroma do café… esse articulador de memórias.

Eu nunca soube ao certo se gosto de fato da bebida ou do aroma… sou uma pessoa sensorial. Os cheiros animam o meu paladar…

E quando busco na memória uma espécie de resposta… me deparo com novos questionamentos que não me orientam, pelo contrário.

Eu gosto ter os grãos em minhas mãos para macerá-los e depois “saborear” o aroma até cessá-lo… é um hábito que aprendi com o Nono, na infância. Foi com ele também que aprendi a sorver o líquido negro: junto a mesa… numa espécie de ritual.

Era preciso primeiro, observar o líquido quente ser derramado com calma junto a xícara. Os olhos se fechavam para a vida, a realidade e também para os sonhos. Deveria ser apenas a matéria diante de sua essência: o café. O primeiro contato a ser feito era com o aroma. Depois, a xícara deveria adormecer entre as mãos… para que o calor se espalhasse nessa união sagrada. E novamente o contato com o aroma… respirava-se fundo, como se fizéssemos uma prece  e pronto: levava-se para dentro o café, num gole pequeno porque os excessos são imperdoáveis! O sabor se diluía rapidamente porque o café forte — como gosto — faz salivar…

E enquanto repetia esse velho e delicioso ritual que sempre faz a menina que vive em mim… sorrir! Me lembrei de seu livro e pensei que seria lúdico — uma coisa para a alma — sentar-me aqui: com linhas, agulhas e as folhas ainda soltas em mãos…

Eu espalharia tudo sobre a mesa e depois de tocar cada item com os olhos… começaria a costurá-lo, como se estivesse a saborear o mais preciso dos cafés…

Bacio

L.

Façanhas do tempo…

 

façanhas do tempo

REVIRANDO ALGUMAS COISAS ANTIGAS… guardadas em caixas que foram levadas para o porão de nossa antiga casa… acabei com um caderno antigo em mãos. Demorou alguns minutos, mas acabei por me lembrar das muitas vezes que eu tinha visto… sobre a mesa da cozinha, nas manhãs de sábado… na mesa da varanda, nas noites de segunda… no criado-mudo, junto a um livro de poesia.

Era o diário de minha predecessora… 
A capa ainda preservava o velho tom verde musgo de antes e, imediatamente na primeira página, estava escrito, com uma caligrafia delicada, bem desenhada, sutilmente inclinada: “façanhas do tempo”.

C. era uma dessas pessoas antigas — como é bonito dizer isso: “pessoa antiga” — soa tão bem. Ela era… sem dúvida… uma “pessoa antiga”. Conservadora. Cheias de regras, mas que surpreendentemente não tinha rótulos, preconceitos ou preceitos equivocados… nunca me ensinou o certo e o errado. Apenas dizia que a vida era feita de possibilidades que culminavam em escolhas. E lembrava – em meio a uma seriedade absurda – que o importante era arcar com as consequências no final…

A geografia daquela mulher sempre me fascinou… gostava imenso de observá-la: o movimento dos cabelos. A lentidão dos gestos. O olhar atento para todas as coisas. E a pausa que ela inseria entre a pergunta feita e a resposta por ela apresentada. Havia tanta lucidez em sua fala… tudo muito bem pontuado, consoantes e vogais escolhidas com um cuidado impressionante…

Eu sempre fui seu contrário… explosiva-inquieta-voraz-agridoce… uma tempestade plena. E ainda assim, ela me pegava pela mão e me conduzia pelos caminhos que parecia inventar para eu caminhar.

Certa vez, ao voltar da escola… eu estava cabisbaixa, com o olhar cheio e os lábios vazios. Tinha levado uma advertência da professora por não me socializar com as demais crianças… não notei os caminhos, só dei por mim, quando adentramos a livraria “voltapagina”… onde ela me disse com sua calma tradicional: “quem nasce para o silêncio jamais vai se acostumar com o barulho”. Voltei a sorrir imediatamente… ela era meu norte, meu porto seguro. A pessoa que eu imitava e a resposta para a pergunta que sempre me faziam: o que você quer ser quando crescer?

Foi com ela — sentada à mesa da cozinha — que eu aprendi a escrever em um diário.  Eu escrevia na terceira pessoa do singular… e ela, na primeira pessoa, porque ela já tinha mais de cinquenta anos, era senhora de si, já tinha traçado seus mapas e aquele momento, era seu… reservado para dialogar consigo mesma, como quem se olha no espelho embaçado pelo próprio ar que vem lá dos pulmões…

Vez ou outra ela fazia uma pausa em sua escrita para espiar-me — era quando nossos olhos se encontravam e o sorriso se espalhava pelos nossos lábios. Era tudo e nada dentro de uma mesma cena, mas eu nunca imaginei que ela estivesse escrevendo sobre mim. Embora, lendo-a hoje me parece um tanto óbvio que ela o tenha feito.

 

12 de março de 1985ela não para mais de escrever o próprio nome. Aprendeu a desenhar as cinco letras na segunda-feira e desde então encontro-as para todos os lados, mas ainda não descobriu as paredes e eu agora vivo preocupada. Sempre que passo pela porta ao voltar para casa, a primeira coisa que faço é espiar as paredes. Não sei quanto tempo levará, mas sei que um dia entrarei por aquela porta e verei as cinco letrinhas impressas por todos lados, feito um rastro que se deixa pelo caminho para não se perder. Quando isso acontecer, eu sei que vou sorrir”.

Nota de rodapé. Eu nunca cheguei a rabiscar minhas letras nas paredes lá de casa… esse “sorrir” eu fiquei a lhe dever… mas se serve de consolo, eu rabisquei muitas outras paredes, às da memória, por exemplo.