21 | terceiro capítulo do meu Scenarium…

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O primeiro projeto literário que tramei foi o diário das 4 estações… que aconteceu, devido a uma vontade que emergiu de minhas estranhas: escrever um diário. Coisa antiga… da minha infância, que foi norteada por cadernos vermelhos.

Escrever diários era coisa de C., e sua disciplina sensorial. Ela acordava para as manhãs de sábado e depois de se dedicar aos seus rituais matinais de corpo-mente-alma… migrava para a cozinha com seus livros-cadernos-canetas-coloridas e um velho baú onde guardava suas miudezas.
A partir dos meus sete anos passei a acompanhá-la… munida de meu primeiro caderno vermelho e de uma caixa de lápis de cor. Eu era toda verão naqueles dias e gostava de ver as cores se misturarem nas páginas. Mas não foi algo natural-imediato. Levou dias para eu encontrar um caminho e compreender-me enquanto pessoa que escreve na primeira (ou terceira) pessoa do singular.

Me lembro que ao comentar com algumas pessoas sobre a idéia… fui aconselhada a escolher outro caminho inicial — não há espaço para a escrita confessional no mundo literário.
E eu que havia acabado de devorar os diários de Kafka e Susan Sontag… decidi ignorar os comentários. Dei de ombros e tratei de construir minha própria trilha de tijolos. Convidei algumas escritoras e três aceitaram embarcar comigo nesse comboio.

A Scenarium inexistia… e eu buscava por um lugar no universo paralelo-underground. Aprendia a arte da encadernação em cursos que levavam rumo aos modelos convencionais de livro. Não era o que eu queria-pretendia. Eu flertava com o formato das fanzines. Não queria ser mais um livro nas prateleiras das livrarias.
Durante muito tempo eu seguia às cegas… sem entender absolutamente nada de papel, textura, tintas ou relevos.
Eu desconhecia completamente os bastidores do mundo literário… mas, estava disposta a desvendar todos os segredos que envolviam a confecção de um livro. Em meio a malabarismos muitos… o projeto-primeiro veio ao mundo — em caráter experimental de formatos.

Repeti a fórmula a bordo da Scenarium livros artesanais… com o conhecido formato de cadernos impressos a casa, apertados-furados-e-costurados, com o cuidado de quem aprendeu de quantas muitas páginas-palavras-segredos-e-mistérios é feito um livro.

E, nesse ano, para comemorar tudo isso… decidi mais retomar o projeto-dança das 4 estações e lá vamos nós (de novo) por essa trilha de tijolos.

O melhor dos prazeres: combinar ingredientes

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Esta é uma arte que aprecio. Existe uma espécie de feitiçaria em toda culinária (…). E é parcialmente a transitoriedade disso que me delicia; tanta preparação carinhosa, tanta arte e experiência colocada num prazer que pode durar apenas um momento, e que só uns poucos apreciarão plenamente.”

Joanne Harris in Chocolate

 

Eu cresci, no sentido de evolução, dentro de uma cozinha… lugar onde acompanhei as proezas da Nonna, que misturava ingredientes como quem escreve uma frase perfeita — dessas que se destacam em um livro, nos obrigando a grifa-la… um quote.
Mio babo herdou o talento de sua matriarca…não faço idéia como aconteceu, se foi a genética que falou mais alto. Eu prefiro acreditar que, assim como eu, numa curiosidade natural de criança, ele passou a repetí-la pelo prazer do gesto inteiro, de medidas exatas e sabores incríveis.
Eu adorava vê-lo na cozinha… bebericando um gole de vinho, enquanto separava os ingredientes em generosas porções — sem receitas a orquestrar sua alquimia de menino-homem-figura-outra-muitas.
O sábado era o único dia da semana que ele ocupava a cozinha. Nos outros dias, existia a rotina de homem do mundo com vestimentas pesadas, semblante sério e atitudes moldadas com cuidado.
Os sábados eram dias leves-descontraído… sem pressa ou preocupação. Era apenas o homem-amante-amigo-vizinho-pai-filho. Ele vestia roupas leves e preparara um delicioso jantar… para poucos, um seleto grupo de amigos, que chegava aos poucos, aos montes e a casa ganhava novas cores-sons-aromas.
Eu e C., participávamos do ritual… recebíamos das mãos dele uma lista de ingredientes, que ela escolhia com todo o cuidado. Ninguém que eu conheça ou tenha conhecido tem a habilidade daquela mulher. Ela apalpava-agitava-cheirava os ingredientes… pequenos segredos para saber se o legume estava ideal. E eu aprendi alguns desses segredos que apenas o gesto-repetido, nos ensina.
Nós éramos responsáveis também pela escolha dos talheres-louças-taças-toalhas… e por decidir o lugar onde seria servido o jantar. Se dependesse de mim… seria sempre na mesa no quintal dos fundos, ao ar livre, debaixo da laranjeira e com a melhor vista do bairro…
O famoso ritual de sábado acabou perdido em algum lugar da minha memória e por lá ficou por muito tempo… até que me deparei com um encarte de supermercado, onde além das ofertas, havia uma receita acompanhada da fotografia do prato.
Não dei a mínima para a receita… me ative unicamente a fotografia, que me permitiu saber o que era ingrediente. E, como quem repete gestos antigos e conhecidos… combinei em mim o melhor de meus mundos. Desenhei uma lista mental e voila…
Cozinhar requer certos elementos… é preciso atenção-entrega-cuidado na hora de escolher os ingredientes e no momento de combiná-los. Como na vida… não existe certo-e-errado. Apenas consciência quanto ao tempo e espaço.
E não importa quantas pessoas se sentarão à mesa… uma-duas-três, é preciso se lembrar que agradar a nós mesmos… é a melhor maneira de agradar aos outros.
Para a noite de hoje: escolhi fazer uma pizza — trigo, ovos, azeite, água morna e fermento para a massa… cebola e alho, tomates holandeses, abobrinha ralada, alho poró, salsa, couve manteiga, milho verde cozido na manteiga, queijo parmesão e gorgonzola — para duas pessoas!
E enquanto lavava-picada-cortava-filetava e preparava o meu saboroso ritual… comecei a escrever essas linhas. E agora, enquanto aguardo pelo aroma, transcrevo o que era nota mental… volto no tempo e misturo o ontem ao hoje… bebo um gole de vinho branco e percebo que não é noite de sábado, mas quem se importa?

 

 | escrito ao som de rhythm of my heart  |

17 |  Sou um naufrago da tua lembrança…

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A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer

José Miguel Silva


…a juventude chegou até mim como se fosse um interruptor, que alguém toca sem cuidado, e pronto: uma lâmpada se acende no meio do cômodo que sou.
Eu existia de maneira contida, indiferente ao que era realidade… imersa em um mundo particular sem me preocupar com tempo-espaço-lugar. Ocupava sempre a mesma porção de mundo-vida, cercada por paredes brancas… e me distraia com coisas minhas: filmes em preto e branco, páginas de livros anteriores a mim e, com palavras que eu deitava nas folhas dos cadernos que comprava aos sábados, na papelaria que ficava no meio do caminho.
Não me misturava porque não fui forjada para existir em bandos — e isso não mudou. Acontece em minha anatomia uma espécie de prazer quando me permito lugares vazios: a mesa do canto, a sombra distante de uma árvore em algum lugar obtuso ao fundo, o espaço entre prateleiras na biblioteca.
É desses lugares que parte o meu olhar, indo tropeçar em um ou outro humano em movimento, aprendendo-o com o cuidado de quem gosta de saborear anatomias.
E foi justamente a bordo de um desses “cantos de mundo” que eu a descobri… com as mãos em movimentos perfeitos — uma espécie de maestrina. Livros empilhados de maneira precisa de um lado da mesa e do outro o caderno de notas… eram os acessórios de uso pessoal para o trabalho que realizava de segunda a sexta.
Poucas pessoas me interessavam na realidade dos dias… e ela foi uma das poucas a conquistar a minha atenção. No começo os nossos diálogos eram mínimos… devido a distância natural que existia entre nossos corpos. Cumprimentos rápidos. Acenos lentos e diálogos moderados a partir de seu discurso eufórico… sempre em língua estrangeira.
Aprendi outros nomes, novas palavras. Reformulei frases inteiras… discursos. Meu pensamento vagou em outras direções. Misturei geografias. Atribui novos sentidos e significados.
Reparei depois de algum tempo que o olhar dela era sempre mais manso para mim… enquanto para os outros era mais severo.
Com ela, eu aprendi o efeito calmante de uma xícara de chá inglês… e o prazer de sorver pequenos goles espaçados. A satisfação de se chegar primeiro aos lugares, antecipando-me às pessoas. A alegria de cheirar as páginas dos livros antes de iniciar uma leitura e de sentir a textura das paredes e das superfícies dos móveis na ponta dos dedos. Compreendi a relevância de me esparramar em diálogos amenos, sem precisar pensar a melhor pontuação, ponderar os hiatos ou escolher com algum cuidado os verbos.
Mas nem tudo foi alegria nessa nossa convivência… foi ela quem me deixou sem ar-fôlego e fez o cuore pausar no meio do peito quando me disse — sem titubear —, que eu seria a autora da peça de teatro do ano. Eu a odiei com todas as minhas forças. Me senti traída-molestada-ferida. Engoli o que existia de saliva na boca e não mais respirei e jurei odiá-la pelo resto dos meus dias. E como foi difícil renascer… me tranquei dentro da pele e não disse palavras durante dias-semanas. Uma vida inteira! Ela foi a causa de minha primeira morte.
Ela era ousada nos gestos, nos passos, nos vôos-pousos… e sobretudo, nas vontades. Citava Woolf, Auden e Dickinson numa mesma frase. Dormia na companhia dos russos e acordava ao lado dos portugueses. Calçava os óculos feitos sob medida para se encaixar em suas orelhas pequenas. Não usava maquiagem… e eu reparei que ela sentia imenso prazer em cobrir as vestimentas com o velho avental azul.
Quando dizia poesias de Borges, me fazia eclipse. Quando me oferecia uma pilha de livros para que eu ampliasse provasse de novos aromas… me fazia lua cheia.
Percebi através dela que o primeiro amor não nos é oferecido como sendo coisa entre homem-e-mulher ou mulher-e-homem. É outra coisa… muito mais imensa e intensa, como o crepitar do fogo junto a acha recém-chegada. É o cuore com suas batidas irregulares acontecendo dentro do peito.
A., foi o amor da minha juventude… a mulher que se aconchegou em meus olhos, permanecendo ali até o final do colégio, quando me entregou um abraço demorado e meia dúzia de palavras: “eu fiz a minha parte, agora é com você”.
Eu me lembro de segurar firme em suas mãos. Não queria partir… mas existia a consciência de que não poderia ficar. Nosso tempo juntas havia terminado… e o dia seguinte foi estranho-vazio.
Em nosso último encontro… eu havia retornada à cidade. Tinha percorrido o mundo-inteiro, me perdido e encontrado. Era outra… e ela saia de uma cafeteria de mãos dadas com o homem de sua vida. Fiquei do outro lado da rua… a admirar a cena, enquanto rebobinava o filme da minha juventude. Não pretendia ser vista… queria ficar ali no meu canto, com os olhos-cheios a escrever uma crônica sem prazo de validade. Ela abriu os braços e eu sorri… atravessei a rua e me aconcheguei naquele corpo franzino. Não me lembrava de ser assim… tão miúda. Foi sua pergunta que me fez perceber que eu tinha pegado um atalho para a vida de outra pessoa, que não a minha…
O pulsar dela se encerrou num desses dias de janeiro… outro. Eu soube através do filho mais velho dela — também professor —, que fez a gentileza de me avisar, em poucas linhas bem pontuadas… apenas o suficiente para sabê-la em paz: O cuore parou, disse ele, como o de seu personagem. Por sorte finalizamos a leitura de seu vermelho em tempo.

A poesia de sophia…

 

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.

O sol no alto, fundo, enorme, aberto,

Tornou o céu de todo o deus deserto.

A luz cai implacável como um castigo.

Não há fantasmas nem almas,

E o ar imenso solitário antigo

Parece bater palmas.

 

 

No ano que passou, desisti de ler jornais-revistas e outros meios-impressos. Cansei das ‘novidades’ narradas de acordo com o pensamento do autor-editor, com objetivo de atingir o seu público-alvo.
Há muitas notícias no mundo-contemporâneo, tenho plena consciência disso.  E, obviamente que a imparcialidade — tão aclamada pelos humanos — é impossível. Basta ver os canais disponíveis para leitura. Toda revista-jornal atende ao seu próprio interesse.
Não tenho tempo-paciência para olhar por esse estreito buraco da fechadura. Não estou — infelizmente — em estado de ignorância plena quanto ao que acontece no mundo das coisas. As pessoas e suas redes sociais repassam tudo na velocidade-luz. Em alguns casos até se adiantam e se orientam pelo Norte que sua bússola pessoal acusa. Mas, afirmam contrários e esbravejam — de maneira indócil — contra o verso da moeda.
Ontem, ao correr os olhos por um desses links que se espalham feito vírus no ar… sorri assim que tropecei no título: ‘poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen é redescoberta no Brasil‘ e tudo isso porque chegou às prateleiras-brasileiras publicações — supostamente novas —  da autora portuguesa… pela 7Letras e Tinta da China.
Só consegui pensar que já havia alguém a preparar — a toque de caixa — uma daquelas publicações com pesquisas logarítmicas… anunciando que o brasileiro lê pouco-nada-tanto-faz e exclamando em caixa alta que poesia não vende e enfatizando que o número de leitores por essas bandas é de 1,35 por milheiro. Porcentagem que nada diz-afirma, mas que agrada — estranhamente — quem as lê-publica-e-replica. É como se houvesse algum tipo de prazer-satisfação em anunciar que o brasileiro não lê ou se o faz, é pouco, quase nada.
Da minha parte… dou de ombros e repito meus rituais. Aperto o botão da máquina de expresso e enquanto aguardo por meu café… aproveito para ir à prateleira buscar minha Sophia — a quem descobri no século passado, durante uma das minhas visitas regulares a Biblioteca da Universidade.
Sua escrita dialoga com meus silêncios, me faz respirar fundo e insere demoradas pausas na realidade que sorvo em pequenos goles. Não sei o que virá de novo, mas é bom que venha.
O título do artigo, no entanto, poderia ser outro e não esse ‘redescobrir’ que combina muito mais com a deliciosa música de Elis ‘como se fosse brincadeira de roda’ — que com a poesia de Sophia, que ressoa melhor se devidamente atrelada a palavra-verbo: ‘reencontrar’.

14 | Segundo capítulo do meu Scenarium

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Hoje, no meio da tarde, recebi mais um manuscrito para apreciação… é comum chegar aos meus olhos um sem-fim de páginas do Word, com textos autorais de pessoas que querem uma avaliação profissional (dessa que vos escreve) para eventual publicação na Scenarium ou apenas para saber a qualidade do material antes de apresentá-las para alguma Editora.

Ao ler as primeiras linhas.. recordei os dias de ontem. O cenário era outro… havia diante de mim duas enormes janelas com vista para o Pico do Jaraguá que, muitas vezes, sequestravam a minha atenção, muito mais que o texto exibido na tela.

Era um lugar emprestado… para onde fui para viver um par de dias, na companhia de meu menino. Cômodos grandes-estranhos, com escadas para baixo e para cima. Eu imprimia os manuscritos e saia com eles em mãos, a percorrer as distâncias da casa, com o cão no meu encalço.

Os primeiros textos com os quais trabalhei… vieram em caixas que foram deixadas em meu endereço, por um entregador — duas caixas bem cheias.

Eram os meus primeiros dias de trabalho… e eu nada sabia sobre riscos e rabiscos. Cada frase lida no papel era um desconforto. Recorri ao amigo-mestre… consciente de que ele apenas iria repetir a sua conhecida frase de efeito: ouvir o cuore. Perguntei a ele depois de quase amassar uma das folhas de papel: como eu digo a um autor que o texto dele não serve? E tive um ataque de risos quando ele respondeu com sua voz rouca-de-homem-de-quase-oitenta-anos: você não vai dizer absolutamente nada. Apenas vai recusar o manuscrito e alguém da Editora fará o descarte com uma daquelas cartas de praxe...

Isso facilitou bastante o meu trabalho inicial. Não havia compromisso com o Autor do manuscrito… apenas com o sim e o não anotado na primeira página. Mas, ao assumir a Scenarium… não havia outra pessoa que não eu para fazê-lo. Lembro-me de que escrevi e reescrevi um sem-fim de vezes um e-mail/carta para enviar a um determinado Autor… e, mesmo com todo o cuidado, ele respondeu de maneira grosseira, deixando bem claro que: se não te interessou, há de interessar a outro. Você é quem sai perdendo.

E o livro dele acabou publicado com os mesmos erros e pouquíssimos acertos. Não era um bom livro. Daria muito trabalho para lapidá-lo e, ao ouvir o mio cuore, reparei que não valeria tal esforço. Meu projeto artesanal era algo miúdo, precisava encontrar os meus pares e, ele não seria um deles.

A vida é feita de escolhas! Eu já recebi muitos nãos em meus movimentos de vida-arte. No entanto, reparei que no atual tabuleiro…. as peças andam melindrosas. Penso que, talvez falte a toda essa gente, o velho ensinamento materno que me foi dado na infância: o não você sempre terá