22 | meus três verbos favoritos…

dsc_0140

Escrever. Escrever. Escrever. Muitas vezes o mesmo texto. Encontrar palavras no ar… que interpretem o que vai dentro. Nem sempre conquisto o resultado esperado. Insisto. Eu sou a própria metamorfose “kafakaniana“. Foram tantas as vezes em que acordei na pele de um bicho-monstro-coisa-outra. Mas, ao contrário do personagem de Kafka, nunca houve susto. Apenas a constatação da loucura — foi saudável —, e não demorou para que eu entendesse que enlouquecer era uma saída-fuga. Uma maneira de permanecer invisível. Longe de tudo-mundo-pessoas… e suas sanidades-insuportáveis. As histórias sempre têm começo. meio. fim. A realidade também. Mas é tudo tão modorrento-demorado. Sometimes, parece que nada acontece. Eu ainda me lembro do momento-lugar onde deixei de me incomodar com as coisas que não posso mudar-alterar. Baixei os olhos. Varri o chão. Lembro-me bem das ranhuras no piso — uma espécie de mapa para lugar nenhum. Das pessoas a me rodear — arrulhavam-alto… não como os pássaros. As gaivotas quando arrulham, é como um chamado. Respirei fundo e me senti leve. Meu corpo carregado por elas — pelos ares. No alto — em voos panorâmicos. Avistei os humanos, com seus pés enraizados em suas próprias ruínas. Escrever. Escrever. Escrever… são três verbos-poderosos. Alguém — em algum lugar — irá dizer que é apenas um. Espero que ao chegar a essa conclusão-equivocada… leia o texto de novo!

 

| experimenta ler com trilha sonora |

 


maratone-se grupo interative-se

Anúncios

21 | ao inverno, em mãos…

 

Meu caro inverno, por onde andou? Suas visitas foram tão breves. Desde junho que você diz que vem… e fica pelo caminho. Não sei em que paragens. Mandou o amigo vento nos primeiros dias, algumas nuvens, pintou algumas segundas de cinza. Mas, a maioria de seus dias foram azuis. Quase não choveu. O senhor me deve trovoadas. Assim mesmo, no plural. E não adianta dizer que pedirá a Primavera. Não se atreva. E me deve igualmente, algumas tempestades porque Maio foi tão silencioso que eu nem o ouvi chegar. Só soube da presença dele, pelo calendário. E o senhor, meu amigo, sabe muito bem o quanto me incomoda ter que consultar esses papéis com marcações diárias-humanas. Fico perdida. Fora do ar. Desabrigada. Meu corpo-alma-casa não se entende com essas resoluções manuais.
Ah, meu caro… senti falta de seus sopros gelados, dos pés enfiados em meias, dos braços protegidos por blusas de lã, pratos de sopa, taças de vinho, xícaras de latte… e o corpo abrigado embaixo de grossas cobertas. Quem foi que lhe roubou de mim? Mal entrava pela porta… sem malas e fugia pela janela. Parecia um menino a praticar travessuras. E justo comigo que lhe tenho tanto apreço, meu amigo. Sua presença faz a refeição mais saborosa. A realidade mais tolerável. É tão fácil existir-Ser na sua companhia. As cores ficam mais agradáveis e as palavras correm para o papel com tamanha facilidade.
Ah, e eu gosto imenso de apreciar a fumaça que salta dos alimentos e aquece o corpo em pequenas colheradas… uma depois da outra. De enroscar-me no outro. Segurar xícaras aquecidas entre as mãos e sentir aquele velho-conhecido aconchego infantil que faz feliz a adulta que sou.Saibas que fez falta por aqui… o procurei a cada amanhecer, ao abrir a janela e dar pelo sol e sua estranha insistência em dourar a paisagem. Ao anoitecer, quando ao fechar a mesma janela não encontrava sua presença-rastro. Os dias não estavam tão quentes, mas também não estiveram frios.
Espero que no próximo ano, você venha… e fique mais tempo comigo. Esperarei por ti, como todo ano. Em junho, certo?

 


maratone-se grupo interative-se

20 | espírito de tempestade

dsc_0075Treze e trinta e quatro. Um minuto antes eu pensava no vento de ontem. Lia na cama ”aqui de dentro‘ quando ouvi o uivo forte. Vento Sul. Céu encoberto. Fazia calor e eu me lembrei de uma reportagem sobre o inverno. A elegante moça do tempo falava: ‘foi o inverno mais quente e seco dos últimos vinte e três anos“. É o tipo de notícia que me faz desligar a televisão.

Treze e quarenta. Me lembrei que tenho um livro a organizar. Mas a minha mente não se orienta nesse sentido. Fica a dar voltas e voltas e voltas… feito ponteiro de relógio. Sinto como se a engrenagem mental estivesse com defeito e eu precisasse recorrer a um personagem que abandonei em algum rascunho-gaveta — um velho-relojoeiro-sapateiro — para fazer funcionar corretamente. Me lembrei de Nabokov e na sua razão para escrever: “êxtase estético” — seja lá o que isso signifique. Penso imediatamente na minha razão para escrever. Respiro fundo. Me lembro de ontem. do vento forte. do livro em minhas mãos. Olhos fechados. A tempestade chegando lentamente com trovões-relâmpagos. Uma conversa sobre o tempo, minutos antes. Choveu forte…

Treze e quarenta e seis. Vou para a cozinha colocar a água para ferver. Preciso de uma xícara de chá. Na pele ecoa ‘claire de lune‘. Sinto o silêncio emergir de meus cantos mais profundos. Penso no título que surgiu antes de qualquer texto. ‘meus naufrágios‘. Penso no que sou e no que nunca serei. Penso. Penso. Penso. De quantos minutos preciso?
.
.
.
.
Treze e cinquenta e oito! Um gole de chá. Quais serão as notícias do mundo, nesse dia meio azul, meio cinza? Outro gole de chá. O vento sul foi embora. Deixou no ar qualquer coisa de primavera, que segundo a ‘simpática moça da previsão do tempo‘ só começa no sábado — com hora marcada. Mais um gole de chá. De onde será que eles arrancam essas certezas? Gostaria de ter um pouco delas para beber em pequenos goles também. Outro gole de chá


maratone-se grupo interative-se

19 | mário. de andrade

mario.de andrade

um nome. homem-mulher. um nome. autor. mas, como se escolhe apenas um, quando a soma aponta tantos? Eu poderia citar Emily Dickinson e a sua poesia fatal. Sei bem o que me causou na primeira década de vida. Foi um cair de panos. Antes e depois dela.

Poderia citar Álvaro de Campos e sua metafisica. Sei bem dos tumultos que me causou na segunda década de vida. Tomou de assalto o meu corpo, expulsou a minha alma e fiquei à deriva. Se não me engano foi a causa de minhas mortes. Virou antes e depois dele.

Poderia citar Jane Austen e seus romances-eternos, que ainda ecoam em meus olhos, desde a primeira leitura até a última. Não me canso de voltar aos seus livros-personagens-vivências.

um nome. apenas um nome. nessa soma de décadas quase inteiras. caminho firme para os quarenta. Foram muitos os nomes que passaram por minhas mãos-olhos-boca-pensamento.

Poderia citar Mia Couto. um dos últimos a chegar. Gosto imenso do diálogo que ele me propõe através de suas vivências reais ou imaginárias. É tudo tão calmo-intenso… que me vejo obrigada a longas pausas para levar uma generosa porção de ar para dentro.

Susan Sontag… impossível não citar essa mulher que me pôs para pensar. Marcou de maneira incisiva uma das minhas vidas. Não sei dizer qual. Talvez todas… antes-e-depois dela.

um nome. maldição. apenas um nome. nessa soma de livros que se acumulam. olho para a prateleira e outros nomes se precipitam. se jogam. se atiram… Paul Auster… Zafon!

mario

Respiro fundo e escolho Mário. de Andrade. Que foi trezentos. Mais. Trezentos e sessenta. Nasceu-e-morreu na sua Paulicéia Desvairada. moderno-errado-equivocado. era Mário. apenas um nome.

Na rua Autora eu nasci
Na Aurora de minha vida
E numa autora eu cresci

Hoje o querem mais. Branco. Preto. Índio. Cafuso. Inteiro. Pela metade. Homem. Poeta, não!  Justamente ele que era mais. Muito mais.

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Ergueram um templo em sua homenagem na Consolação, esquina com a São Luis, uma das mais simpáticas ruas da cidade. Um pouco mais acima estão os restos do homem que não queria ficar detido a um assombroso epitáfio.

Meus pés enterrem na rua Aurora
No Paissandu deixem meu sexo
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

Avanço por seus escritos. Descubro prédios. Entendo as simetrias! Aconchego o corpo e a alma no Viaduto do Chá. Descubro que há horizontes por trás dos tumultos humanos.

É noite. E tudo é noite.
E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres
pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes
o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras
na terra dos homens,
Onde me queres levar?…

O poeta percorre os cantos… cabisbaixo-sério-acabrunhado… aprecia os movimentos incontidos. O crescimento sem limite. As formas inversas. Se lembra que foi mau aluno. Aprendeu a gostar de estudar depois que concluiu o ginásio. Era tarde. Colecionou dissabores. Figura quieta-miúda. Ele sempre quis ser o outro. Menos culto. Mais andarilho. Menos perfeito… outro.outro.outro. Só conseguiu ser Mário. de Andrade.

A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Batalhou pela arte paulistana… reverenciou a cultura de seu país e a geografia de sua gente. Escreveu seu primeiro poema num estalo, com palavras inventadas. E viu sua vida ser atormentada pela morte do irmão. A perda o feriu gravemente. Passou a colecionar dores-dissabores-fracassos. Tudo lhe doía… do corpo à alma. Tantas crises o acometeram. Sua desgraça-maldição. Tudo em sua vida era uma constância. O amor não foi menos, desde o primeiro até o último…

Tive quatro amores eternos…
O primeiro era uma donzela,
O segundo… eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu… e eu afinal
me repousei dos meus cuidados.

O homem acabou traído pelo seu coração no ano de 1945. Difícil dizer tudo que aguentou dentro do peito até estar tão farto-fatigado… que sucumbiu. Era tarde-noite-ou-a aurora… da vida. Era o fim…

Mário nasceu para ser diferente, misterioso! Gostava de dizer “há um lado hediondo no meu caráter”. Mas ninguém ouvia, tampouco via esse seu lado. Oswald era o devasso-piadista-bêbado-boêmio. Mário era erudito, sem vícios ou abusos… correto. Imagem que sempre desprezou. mas foi a que ficou.

 

“me vejo convertido a erudito respeitável e,
o que é pior, respeitado. Isso me queima de vergonha”.

 


blogagem coletiva

Participaram
Ana Claudia | Claudia | Fernanda  |Renata

18 | a câmera de claire

Me sentei para assistir ao filme, na sala do cinema na Augusta. Como de costume, tentei me isolar de todos os sons ao redor — resíduo de conversas e o insuportável farfalhar dos papéis de bala-chocolates-pipocas… minutos antes de começar a exibição.

Fecho os meus olhos e tento me antecipar ao que passará na tela… a partir do título-resenha. Cinema para mim, sempre foi outro tipo de livro. Imagens prontas. Posso calar-me e ver a vida de sempre, encenada.

Ouço um click… e o espocar do flash, acontece… é a ‘câmera de Claire‘ que dispara e te conduz por uma espécie de mapa — feito de instantes.

O filme — propositalmente — não se orienta em tempo-e-espaço. São fotografias do dia-momento-personagem… todas feitas em Cannes, durante o famoso festival de Cinema. E isso é tudo que conseguimos saber.

Sou convidada a reagir ao que chega, em poucos clicks — a enxergar sem ter o obturador da “Câmera de Claire” a minha disposição. A fotografia é esse elemento a nos lembrar que sou uma sucessão de instantes. Basta um click e tudo muda.

Claire faz o que faço todos os dias… olha! E com um click… guarda o que alcança a sua retina. Não sei o que ela faz no filme-cidade. Não sei absolutamente nada. Ela é apenas um personagem que se move com uma Leika em mãos. Mas, também não sei o que motiva o seu olhar.

Sou colocada no lugar de sua câmera… e, às vezes, parece que ela olha para mim… por mim ou através de mim. Sou o seu polaroid… a tristeza nos olhos de Manhee. O desconforto de Nam. A dor de So. Sou o cão largado no meio do caminho…

Fiquei com a sensação de que cheguei tarde demais à cena, e perdi alguma coisa. Sou aquele passageiro que perdeu a hora do embarque e acena para o motorista… que segue viagem por ter horário a cumprir.

E nessa condição… é impossível entender a cena em que Manhee e Nam estão sentadas numa mesa de bar, em meio a um diálogo frio-estranho-vazio… todo em koreano. A fala sem pudor de So… esse artista miserável-bêbado que não sabe lidar com a casca que é seu corpo velho-enrugado.

a camera de claire 2

O filme acaba e ainda estou dentro do último click, a pensar os personagens, seus mundos-realidades. O que foi que deixei passar? O que foi que não vi?

Susan Sontag, ao escrever o ensaio — ‘uma foto não é uma opinião. Ou é?’ parece ter se antecipado ao diretor Hong Sang-soo — “cada uma dessas fotos tem que se sustentar sozinhas“.


maratone-se grupo interative-se