Reticências | Verão

1.

 

— é noite lá fora e eu repito pra mim mesma, como se fosse um mantra: “é preciso calma para não perder o rumo”. Trago em meus músculos (cansados de não parar) o cansaço de um dia inteiro a andar por aí…

Enquanto penso no cardápio para mais tarde — risoto branco, insallata romana — repasso o punhado de imagens de um dia que começou com chuva. Manso e Lento. Impreciso, com a janela umedecida pelas chuvas de verão que, começaram mais cedo esse ano… e de repente, se apressou por todos os cantos da casa, me expulsando do lugar. O sol invadiu as frestas, se apoderou da sala e me mandou sair… dizendo — com sua voz rude — para eu me perder em diversas direções.

Eu apenas obedeci porque conclui pouco antes de abrir a porta, que um escritor, precisa alimentar-se diariamente das coisas — todas — que a vida oferece, renovando todo os dias os seus argumentos…

Me deixei conduziu pelo olhar… percebi no meio do passo vago-sem-pressa-ou-mapas, os diferentes cenários da cidade: poças que ninguém lembrou de pisar. Um homem a arrastar seu passo, sua carcaça, seu descanso consigo mesmo, sua tristeza mais imunda, sua dor mais ingrata por um traço conhecido. Um cachorro sujo a seguir-me com sua calda em movimento e seu olhar mais humano. Sua alegria mais simples. Sua emoção mais sincera. Ele queria afago, companhia, um canto no sofá, uma vasilha com água, outra com comida e eu não lhe pude oferecer, nem mesmo o olhar, pois seria um aceno-convite… tropecei nessa mulher rude, a esbravejar contra o vento seus lamentos. Ela sujava o mundo com suas palavras equivocadas. Rasgava o ar com sua faca cega. Chutava o que encontrava para longe sem se importar se atingiria ou não alguém. Esbarrei em um pássaro em seu voo lúcido-lúdico-sereno pelo meio da rua, como se fosse pousar, mas foi preciso repensar a trajetória. Deixou comigo seu canto intenso-agudo-perfeito…

E por assim dizer, o presente que eu degustei há pouco já se desfez… virou passado em frações milimétricas de segundos, mas permanece aqui dentro — a salvo — e eu sigo embaralhando-as numa tentativa de abotoar as imagens à minha matéria, negando-as o inconveniente de não serem nada mais pela manhã… porque sou desde sempre, como um velho álbum de fotografias sempre as mãos…

Caderno de Receita…

caderno-brancoA imagem veio daqui

 

Em tempos contemporâneos as pessoas vivem em busca de receitas e, a mais procurada, visa uma única coisa: a felicidade. Que coisa mais estranha — penso eu…

Eu que nada sei de receitas, visto meu melhor sorriso e levo meu corpo para espiar paisagens junto a varanda e, imediatamente lembro, que vivo meus últimos dias junto a esse cenário… hoje havia neblina. A paisagem de árvores em fila ao longo da alameda parecia ter chamado pelas nuvens e, lá estavam elas: misturando cenários.

Lembrei-me imediatamente de que certa vez, quando menina de poucos anos, estava a ouvir coisas alheias, em plena sala de aula, quando a professora disse: "quando a pessoa morre vai para o céu" — arregalei os olhos e procurei pelas nuvens do lado de fora — me senti tão incomodada, porque para mim, aquele era um lugar para os pássaros e para onde eu ía quando fechava os meus olhos. Por sorte, o silêncio orientou-se em mim dentro daquele segundo e eu nada disse… o mundo dos religiosos e de quem acredita, é cheio de reticências e é preciso respeitá-las, mas não tragá-las!

Ao sair da escola naquela manhã, de mãos dadas com C. meus olhos encontraram aqueles pássaros em um vôo natural de leste para o oeste, percorrendo o caminho do sol, voltando a casa, no final do dia… Eu tinha a ilusão de que eles existiam apenas dento daquele instante… já que não sabia para onde iam. Duas vezes por dia. Seus sons e movimentos atravessavam os meus e isso era tudo…

Aqui em São Paulo não há, pelo menos nunca vi, pássaros em vôo de oeste a leste pela manhã e de leste a oeste ao final da tarde. Mas há o canto dentro da madrugada para incomodo de alguns… e, eu apenas me divirto ao ouví-los quando minhas letras ganham ritmo. Gosto da poesia que existe nesse canto, pois nunca antes tinha ouvido pássaros madrugadores!

E, foi justamente dentro da última madrugada, revisando "lua de papel" que me lembrei de M. — mãe do mio amore — que tinha dois cadernos de receitas. Sua caligrafia era antiga, dessas que se aprendia no colégio: uma espécie de desenho, legível até certo ponto… bastando apenas aprender a decifrar os símbolos, porque não existe letra bonita, existe símbolo e, são eles que identificamos…

Pois bem, lá tinha dúzias de receitas, algo que eu nunca soube apreciar… ela, contudo, sempre que precisava fazer uma sobremesa ou um prato qualquer, recorria ao seu velho caderno, porque a memória já não era a mesma e o auxílio se fazia cada vez mais necessário…

Certa vez, estava em sua cozinha, vendo seus movimentos entusiasmados, por estar a fazer um doce para o “nosso menino”… quando M. disse: "pega o branquinho, vamos colocar uma colher de café bem rasa apenas para ficar macio".

Ela tinha aprendido ao longo de seus dias o que era preciso para melhorar aquela mistura de ingredientes. Nona também tinha esses "segredos"… pequenos detalhes. Coisas que nenhum caderno de receita revela, porque se ocupam apenas dos ingredientes e, suas quantidades… como na vida, em que nos dizem: "viver se trata de nascer, crescer, aprender, amar, envelhecer e morrer". Parece tão simples, agora vai lá fora fazer isso…

Quando vou para a cozinha, separo os ingredientes todos — hoje a noite quero fazer um jantar para dois — e minha alegria começa com a escolha do prato… vou ao mercado, seleciono o que quero e, automaticamente rememoro as coisas que aprendi com a nona para escolher os legumes: aperta, sente… me apodero da sensação e pronto: sou feliz por alguns segundos, mas confesso que eu nunca soube dizer-me feliz ou infeliz, alegre ou triste. Eu tenho os meus momentos… os melhores sempre foram vividos em estado de melancolia…

Talvez seja assim porque ser feliz nunca tenha sido uma preocupação… eu sempre achei que felicidade fosse objeto comum. Há dias alegres e tristes. Dias felizes e infelizes. A vida não pode se resumir a um único ingrediente… afinal, para fazer uma bela pasta, é preciso: tomates, cebola, azeite, alho, cenouras e a massa que também se divide em muitas opções. É preciso escolher a maneira como lavar, cortar, descascar, picar e, quando se leva os ingredientes para a panela, existe uma ordem natural que aprendemos com o passar dos dias…

Então se quer mesmo ser feliz — penso eu — é melhor seguir a ordem natural das coisas que trago em mim: acordar tarde e dormir cedo… abrir as cortinas quando a noite acontece e fechá-las quando o sol insiste em dizer suas cores. Tomar banho de chuva… fazer chá com ervas maceradas entre as mãos. Caminhar por calçadas lilases. Pôr a mesa. Colher flores. Chupar laranja. Ler Borges, Eliot, Emily. Escrever missivas. Lembrar coisas antigas — da infância-juventude — porque o tempo passa e os ponteiros estão lá apenas para te avisar do obvio: “que o tempo passa” e, não para te dizer o que fazer… mas, você se esquece disso em algum momento, e deixa que ele determine seus passos! Então, um dia, você desperta querendo receitas para todo tipo de coisa…

E num susto… acaba percebendo que já se passou um quinhão de anos. É tarde demais! Não existe uma só receita que dê jeito nisso, mesmo assim você insiste e passa a usar as regras inventadas por essa gente que chegou lá antes de você.

Tal e qual Borges,
“Às vezes sinto medo da memória”.

 

— Lunna Guedes, in: Retratos da Alma —

Reticências | Outono

1.

 

Chove lá fora, talvez por isso eu tenha arrastado minha carcaça humana até esse canto da casa. Acomodei minha anatomia no sofá e fiquei a observar a chuva por alguns minutos, até me perder totalmente de mim mesma… gosto imensa dessa premissa que soa como prece que faço aos ares que respiro. Em dias de chuva fica tudo mais leve…

Conto os dias nos dedos das mãos… como no tempo da infância — uma brincadeira de pedras — e me perco. Erro a soma — respiro fundo — o tempo segue seu destino metódico e os ponteiros contam sua prosa infernal. O riso vai surgindo — arteiro — no canto dos meus lábios e sem saber se cedo ou tarde, vou até a cozinha preparar uma xícara de chá…

O meu silencio hoje é de brisa no meio da tarde "orvalhada"… em mim, é sempre assim: acontecem diferentes tipos de silêncios. Dos passos junto às calçadas, de uma janela fechada, de uma madrugada a desaparecer, de uma casa branca no meio do quarteirão em estado de abandono, da página de um livro que esqueço de virar, afastando-me das palavras por uma pequena eternidade, do outro que vem em minha direção e pensa me entregar um aceno, mas prefere — no último segundo — reter o movimento em seu corpo, ignorando-me.

E com a xícara de chá em mãos, volto ao canto do sofá, ao olhar pela janela junto as ruas e as páginas desse caderno velho — meu diário — onde escrevo outonos, reinventando-o já que por aqui faltam folhas-cores-galhos-nus-e-pesadas-sombras…

 

— Lunna Guedes, in: Reticências —

Diário das minhas insanidades, 19

 

um escritor, ou todo homem, deve pensar que tudo o que lhe ocorre é um instrumento: todas as coisas lhe foram dadas por determinado fim – e isso tem de ser mais forte no caso de um artista. Tudo o que acontece a ele, inclusive as humilhações, as vergonhas, as desventuras, todas essas coisas lhe foram dadas como argila, como matéria-prima para sua arte; ele tem de aproveitá-las”… Borges oral & sete noites

 

As palavras, às vezes, parecem almofadas e servem de conforto para o corpo todo… são como abraços demorados, afagos dentro de uma tarde de outono” — foi o que me disse W. pouco depois de eu ter ocupado o meu lugar junto a poltrona de couro preto… sua fala inesperada me deixou desconfortável, mas eu evitei confrontá-la. Apenas cruzei os braços a frente do corpo e pensei no traço que, às vezes, me permito junto ao papel. Está cada vez mais raro esse gesto… mas, às vezes, recorro ao movimento comum a minha infância, porque a escrita motivada pela lapiseira é mais lenta, e leva mais da gente para fora que quando deitada junto ao teclado. O papel pede tato… o computador nos é — quase — indiferente.

W. falou do livro que ocupa seus olhos, com suas mil e uma palavras, que de tão sutis e gentis, é de fácil compreensão. Respirei fundo levando uma gama maior de ar até os meus pulmões. Sentindo atentamente todo o caminho percorrido pelo ar levemente gelado do ambiente de temperatura controlada… nem quis saber o nome do livro, mas soube assim mesmo numa espécie de oferta feita por ela.

Eu sempre enxerguei nas palavras qualquer coisa que incomoda, tira o sossego e nos arranca de nosso lugar mais comum. Por isso mesmo nunca gostei de frases bem feitas, prontas… são como desaforos que engulo muito a contragosto. Prefiro frases imperfeitas, mal feitas… escritas sem cuidados por serem ferinas-felinas-rudes – inquietantes….

As palavras não podem ser como o canto do sofá que guarda as formas do meu corpo e, tampouco como uma velha blusa de moletom, que me veste perfeitamente numa espécie de enrosco ou como aquele par de tênis que, de tão velho, já tem o formato dos meus pés.

As palavras devem rasgar-ofender-mutilar a pele, fazer sangrar até a última gota… às vezes, precisa despir a derme, deixando nua a figura que a pronuncia, vestindo apenas quem as ouve.

Eu sei que as palavras têm suas limitações… diante da morte, por exemplo, não fazem sentido. São ecos no deserto — incompreensíveis — não somam e tampouco se aglutinam… apenas se esparramam pelo chão e nem mesmo a melhor das vassouras é capaz de juntá-las.

Diante da morte apenas o silêncio ampara, porque a palavra é coisa viva-intensa-inteira-áspera-aguda e soa como afronta… e por ser assim, não cabe na boca quando o corpo cessa suas angústias tornando-se imóvel-apagado-vazio-solitário — uma espécie de vaso, que se parte em milhares de pedaços ao menor contato…

A palavra quando pronunciada… não pede licença, se impõe, mas para ser assim, precisa — obviamente — de dois. Um só não basta, a menos que um espelho — ainda que imaginário —  esteja a frente daquele que a pronuncia.

Contudo, falar sozinho não é um dom, tampouco uma arte – é um desaforo. Coisa para poucos — loucos! — para quem se aponta na calçada… foge-evita, atravessando a rua. Olha-se de soslaio, com medo e se encolhe para evitar o contato – afinal, pode ser contagioso…

Falar sozinho é apenas para aqueles que se cansaram de frases feitas — feito eu — por isso, comumente, sou vista falando sozinha: dentro de casa, pelos corredores, calçadas, ruas e no canto de certos cafés entre esquinas. É exatamente o que faço quando escrevo.

A palavra para mim, é fruto proibido… maçã vermelha-grande-suculenta que eu levo a boca, apenas para ouvir aquele “clec” e depois mastigá-la lentamente até dissolver-se por completo… e se não incomoda, não me serve, por isso, amaço o papel ou uso a tecla DEL.

W. olhou-me rapidamente de soslaio, como se soubesse das ruas por mim percorridas enquanto seu discurso acontecia. Nem sempre ouço as falas que se aglomeram ao meu redor. Ela quis saber se eu já tinha lido o livro que lhe afaga a alma nesses dias de euforia “o quarto azul” de Georges Simenon. Eu apenas sorri… e ela não ousou recomendar a leitura, apenas escondeu o livro imediatamente abaixo de seu caderno lilás, onde toma nota da vida alheia.

Nota mental para mais tarde. Temos algo em comum, somos duas bisbilhoteiras — mas ela ainda não sabe o que é um belo trovão num céu de maio…

Não perdi o hábito de escrever missivas, 13

“cada momento passado juntos | era uma celebração, uma Epifania,
nós os dois sozinhos no mundo | tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
descias numa vertigem a escada | a dois e dois, arrastando-me
através de húmidos lilases, aos teus domínios
do outro lado, passando o espelho”

Arsenii Tarkovskii

Caríssima S.

 

…a noite invadiu minha alma há pouco e, eu me lembrei de você, quando éramos meras figuras estranhas aos olhos uma da outra.

Não faz muito tempo, foi ontem…
Manhã nublada de setembro, quase primavera… e os falsos dias frios – ainda – se impondo. Te obrigando as blusas de lã… e eu acontecendo em suspenso, sem qualquer coisa de frio provar ou saber. Apenas embalando saudades dos dias da infância – brancos – com canecas de chocolate quente em mãos e a lareira acesa no canto da sala.

Minha pele não acusava entusiasmo… a cama desfeita. A casa vazia. Os livros – todos – lidos nos dias anteriores. Os álbuns de fotografias desfeitos. O caderno com todas as linhas preenchidas. Um ponto de exclamação no dia. A xícara suja na pia. A vida pronta. O céu azul.

E você – figura estrangeira – existindo dentro de uma distância segura… indiferente a minha realidade, paralisada pelo ponto final inserido ao final da linha.

Eu que sou sempre tempestade, vivia dias inteiros de calmaria e, desejava – secretamente – um pouco de tumulto para os meus dias. Queria que algo acontecesse – urgentemente – em minha anatomia anestesiada pelo sabor do corpo em queda, que afaga e embriaga a alma de um escritor… até que o sabor se esgota e tudo se torna insone, vazio! Realidade comum de ruas, esquinas, calçadas e o meu lugar no canto do café entre esquinas, de onde te vi e te soube a olhar pra mim, sem saber, contudo, o que você via…

Mas não me preocupei, você deve saber… não me importo com o que sou para os outros. Somos muitos e não somos ninguém. Nem mesmo o espelho nos manda de volta… o que dirá os olhos alheios. Os humanos desse tempo estão – sempre – ocupados consigo mesmos… se ocupam apenas com seus próprios conceitos e desenham na superfície alheia o que melhor lhe convêm.

Somos fragmentos… não somos nada.
Eu não sei o que você viu… sei, contudo, que os rótulos que entregou a mim – recusei todos. Já envelheci o bastante – uma vida inteira – para não mais aceitar o que me oferecem… levo comigo – e apenas por algum tempo – o que os meus personagens me entregam: tatuagens que a pele aceita sem reclamar…

Mas você se recusou ser um personagem…
Eu ainda me lembro da tua voz falha, sem certezas e um punhado de pausas, insistindo em não ser… ainda me lembro! E confesso que depois daquele dia, eu não soube mais o que fazer com você…

Quando retornou no dia seguinte – manhã de primavera – eu já tinha rasgado todos os ensaios, os diálogos… e já sabia que – infelizmente – você era alguém real. Confesso que lamentei, assim como lamento severamente as coisas perdidas. Não sei se lhe disse, mas eu sempre preteri à realidade ao imaginário…

L.

Reticencias | Inverno

 

1.

Cinco horas – diz o relógio. Vinte e um de junho – diz o calendário… E quanto a mim? – o que eu digo? Um punhado de silêncios enquanto deixo escorrer dos lábios qualquer coisa de sorriso imerso em qualquer coisa de ironia. Encaro a parede branca a minha frente, respiro fundo e penso nos anos que se acumulam junto à soleira da minha alma que de certa maneira é uma porta e nem sempre está aberta…

Já confesso sentir o peso de um arrependimento que ainda não existe, mas que de certo irá se precipitar junto a mim amanhã ou depois. Por enquanto tudo que sinto de fato é esse precipitar de sensações. Olho a minha volta e questiono os objetos todos: como começar? O que dizer? – e nenhuma resposta me alcança de fato. A única coisa que de fato me alcança é essa sensação de fracasso porque já tem algum tempo que eu insisto nessa história de voltar a escrever um diário e não satisfeita inventei de transformar isso num projeto de vida – como forma de afrontar a minha própria recusa…

Foram seis tentativas até agora – o que faz dessa a sétima e mesmo gostando muito desse número que sempre se precipita junto a minha anatomia – tenho pra mim que o dia seguinte, desde já é minha maior dicotomia e, confesso que já percebo em minha derme o cansaço, o descaso e consequentemente o abandono…

E o amanhã distribui suas ironias dentro do tempo presente do qual me afasto para buscar aconchego em qualquer coisa de memória. Houve um tempo anterior a esse em que tudo se orientava sem demora. Hoje, as coisas são um combinado de equívocos – nada a minha volta se completa. Tudo converge no sentido de esvaziar-se antes do derradeiro fim… Ao depois pertencem todas as minhas coisas que já nascem fadadas ao fracasso – fadadas a serem figuras em branco. Incompletas. Um comboio a descarrilhar-se depois da segunda curva…

Confesso que comprei um caderno qualquer, sem muitas folhas. Não tive cuidado. Não houve preocupação alguma da minha parte. Peguei o primeiro que vi. Deixei-no ali no canto da mesa para onde olho sempre, mas até agora nenhuma palavra e o inverno segue sua marcha. Acho que desisti antes mesmo de iniciar-me nessa aventura e está é minha carta de demissão regada com uma bela quantidade de frases imprecisas.

 

 

Eu só queria entender
porque eu sempre
desisto dos meus diários.

 

— Lunna Guedes, in: Reticências —

Diário das Minhas Insanidades, 18

— É o que tu achas? Por que é que julgas que eu nunca choro?
— Tu não morres o suficiente para poder chorar.

Jack Kerouac

Escrevo de meu canto de mundo – a mesa à direita – no café entre esquinas. Escrevo o que vai dentro da pele…enquanto observo a paisagem dessas ruas com suas vitrines iluminadas, fantasiadas com manequins onde pesam vestimentas coloridas. Me distraio com os faróis dos carros que passam, um depois do outro. E, em meio aos pesados goles de café que ofereço a mim mesma, penso na crença que nunca tive. Deus não fala comigo… porque em mim ele simplesmente não existe, não acontece, não encontra espaço!

Eu confesso, sem medo: nunca soube juntar as mãos, fechar os olhos e acreditar… tentaram me ensinar, mas eu sempre preferia abrir os olhos para espiar a anatomia da pessoa em seu estado catatônico de devoção, a demonstrar qualquer coisa de fé.

Sou uma figura torta – disseram-me certa vez – para, em seguida, profetizarem uma verdade absoluta: “um dia você terá que aceitar, acatar e acreditar” e, como praga que se cumpre, esse dia chegou: com suas ingratidões, distorções e dúzias de desconfortos… eu o reconheci imediatamente. Baixei a cabeça e ponderei as possibilidades. Recordei a figura humana a me acusar de falta de fé e clamar ao seu deus piedade por minha alma…

Quando meu mundo desabou… minha alma estava tão ferida que ofereci meu corpo para o açoite… não sei dizer o que falou mais alto em mim. O ódio, decerto. Não foi fácil ceder… precisei respirar fundo antes de me render a essa tentativa nada lúcida de acreditar nessa figura pontuada pela magnitude das coisas. Me curvei, juntei as mãos, fechei os olhos e disse um punhado de palavras sem sentido. Eu quis desesperadamente acreditar! Seria tão mais fácil… o cansaço, decerto, seria menor e tudo se resumiria em esperar por um gesto divino, que obviamente não veio, porque se você não se move, nada acontece.

Mesmo com o consciente se impondo junto a mim… eu esperei pela manhã seguinte!
Contudo, passado um dia inteiro, todas as minhas ruínas permaneciam exatamente onde estavam. E eu soube que somente eu poderia me socorrer.

Enxuguei as lágrimas, espanei a poeira que insistia em meu corpo, acendi uma vela para a noite e um incenso para o dia… recordei os valiosos ensinamentos da infância, recobrando minha lucidez de maneira definitiva. Apreciei as emoções do crepúsculo e as agonias da aurora… e soube, com absoluta certeza, que… certas coisas não são para mim!

Eu sou aquela que vive do outro lado das coisas demasiadamente humanas. Eu escolhi ser aquela que alinhava realidades… vira páginas. Não diz amém a santos, anjos ou demônios. E deus para mim é apenas um personagem com histórias que eu poderia editar, se eu tivesse qualquer coisa de delicadeza e paciência.

Acontece que sou, desde sempre: estado bruto. Centauro com arco empunhada e flecha pronta para o disparo. Eu enfrento minhas batalhas, que são o abrigo em que me escondo e fui forjada sabendo que eu sou meu próprio senhor e as únicas preces que tem efeitos sobre mim são os versos de Campos, Eliot, Borges e outros tantos a quem reverencio todos os dias…

Sou um naufrago da tua lembrança…

A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer

José Miguel Silva

 

…a juventude chegou até mim como se fosse um interruptor, que alguém toca sem cuidado, e pronto: uma lâmpada se acende no meio desse cômodo que somos, sem móveis ou cantos para a alma… que se ilumina sem prejuízo da sombra.

Eu existia de maneira contida, indiferente ao que era realidade, imersa  em um mundo  particular sem me ocupar de tempo, espaço ou lugar. Em meu canto de mundo, cercada por paredes brancas e uma janela sempre aberta para os dias de chuva e fechadas para os dias de sol… ocupava-me dos filmes em preto e branco que eu assistia – em segredo – dentro das madrugadas. Das páginas dos muitos livros que devorava nas primeiras horas das manhãs, onde o silêncio acontecia dentro e fora da pele. E, fundamentalmente, das palavras que deixava junto as folhas dos cadernos que eu aprendi a colecionar ainda na infância.

Não me misturava porque não fui forjada para existir em bandos… acontecia em minha anatomia uma espécie de prazer quando me permitia lugares vazios. A mesa do canto. A sombra distante de uma árvore em algum lugar obtuso ao fundo. O espaço entre prateleiras na biblioteca da escola… era desses lugares que partia meu olhar, indo tropeçar nos excessos humanos. 

E foi a bordo de um desses “cantos para a minha alma” que eu a descobri… com suas mãos em movimentos perfeitos e sua boca de silêncio preciso. Decorei sua anatomia imediatamente no primeiro toque… escrevi seu nome na superfície lisa de madeira vermelha da mesa – com a ponta dos dedos – como se sua pele fosse e, o movimento empenhado, uma carícia de contato primeiro.

Nossos diálogos eram mínimos, devido a distância natural que existia entre nossos corpos. Cumprimentos rápidos. Acenos lentos e questionamentos naturais, motivados pelas frases que ela deixava no ar propositalmente a partir de seu discurso sempre eufórico em língua estrangeira. Aprendi outros nomes, outras palavras… reaprendi a mim mesma! Fui outra ao misturar sua geografia a minha. Seu olhar era sempre mais manso para mim, enquanto para os outros mais severo.

Foi com ela que aprendi o efeito calmante de uma xícara de chá e o prazer de sorver pequenos goles espaçados… a chegar primeiro aos lugares, antecipando-me as pessoas. A cheirar as páginas dos livros antes de iniciar a leitura. Sentir a textura das paredes e das superfícies dos móveis junto a ponta dos dedos. A me esparramar em diálogos amenos, sem precisar pensar a melhor pontuação, ponderar os hiatos ou escolher com algum cuidado os verbos.

Foi através dela que percebi o quão delicioso é ouvir o outro… sua voz era suave, amena, quase como um canto. Um verdadeiro cálice de brandy degustado antes do jantar, que ela nunca me ofereceu porque tinha pouca idade, ao contrário dela, cuja maturidade suas rugas confessavam sem cerimônia alguma.

Ela era ousada nos gestos, nos passos e sobretudo, nas vontades. Citava Woolf, escrevia à Auden e Dickinson… dormia na companhia dos russos e acordava ao lado dos portugueses. Calçava os óculos feitos sob medida para se encaixar em suas orelhas pequenas. Não usava maquiagem, pois não gostava de máscaras, preferindo apenas o que lhe era espelho e sentia imenso prazer em cobrir suas vestimentas com seu velho avental azul.

Quando dizia poesias de Borges – um estranho até então – me fazia eclipse… e quando empilhava os livros que me oferecia, em cima da mesa, para que eu provasse de seus sabores… eu a amava um pouco mais, porque o primeiro amor não é oferecido a nós como sendo coisa entre homem e mulher ou mulher e homem. É apenas um crepitar do fogo junto a acha recém-chegada… esse coração de batidas irregulares acontecendo dentro do peito.

Z. foi, sem dúvida alguma, o amor da minha juventude. A mulher que se aconchegou em meus olhos, permanecendo ali até o final do colégio, quando deitou em meu corpo um abraço demorado e meia dúzia de palavras em meus ouvidos: “eu fiz a minha parte, agora é com você”.

Lembro-me que segurei firmemente em suas mãos, com algum receio, porque não tinha até aquele momento, pensando na força do dia seguinte… não tinha me atentado para o fato de que ela iria permanecer no mesmo lugar de sempre, causando amor e ódio em outras meninas iguais ou diferentes de mim, enquanto eu seguiria outras direções.

A manhã seguinte… salvaguardou, inalterada, a fisionomia da mulher para quem meu olhar sempre se volta quando penso em iniciar-me em linhas!

A ouvir…

clube de leitura 141

Escrever é um bonito ato.
Cria algo que dará prazer aos outros mais tarde
”.

Diários de Susan Sontag, pág. 298 
Ed. Companhia das Letras

 

Em casa era uma festa… livros espalhados por todos os cantos da casa: empilhados sobre a mesa, esquecidos no canto, junto a luminária, a espera de um reencontro… pelos degraus, ao lado das latas de mantimentos, junto a pia do banheiro, nos degraus da escada. Eram poucos os que se acumulavam em prateleiras e estantes, lugar que ocupavam apenas ao chegar a nossa casa…

C. gostava dos contos indianos. Mio babo tinha uma preferência natural pelos livros jurídicos, mas, às vezes, lia os famosos clássicos da literatura. Apenas aqueles com os quais se identificava… um ou outro apenas. E eu me apaixonei ainda na infância pela literatura inglesa e também a francesa.

À noite, depois do jantar, nos sentávamos confortavelmente no sofá da sala, junto a lareira (acesa no inverno) e escolhíamos um livro para a nossa “leitura noturna”… nas primeiras vezes, éramos apenas os três… mas não demorou para outras pessoas participarem do nosso ritual noturno, formando-se assim o “clube de leitura 141”.

A primeira a chegar foi a senhora do 121… que veio nos visitar e trouxe consigo o novo morador de sua casa a fim de fazer as apresentações: um lindo filhote de labrador negro. Muito gentil e educado. Um encanto… acontece que o filho queria levá-la para morar em sua residência, já que considerava a idade avançada da mãe um problema. Ela, senhora de si que era, discordou… e pediu um cão “melhor companhia não há” – nos disse em meio a um sorriso contagiante.

Seu olhar, no entanto, descobriu o livro no canto do sofá e ela soube imediatamente que se tratava de uma casa de leitores e que, sua presença havia interrompido um ritual… depois de nos oferecer mil desculpar, aceitou o nosso convite. Ela voltaria noite após noite, sempre trazendo seu amigo – cujo crescimento acompanhei – e um prato de doces, sempre apetitosos.

Certa vez, ela trouxe o vizinho do 172… acanhado e calado, o rapaz se esforçava bastante para exibir um sorriso em seus lábios pequenos enquanto ajeitava os óculos com a ponta dos dedos no rosto – movimento que aprendi e passei a repetir… ela era uma senhora gentil e conhecia toda a vizinhança e sempre chegava trazendo mais um…

Lembro-me que estávamos a ler Dostoievski (irmãos Karamazov) quando me distanciei da leitura e comecei a prestar atenção em todas as pessoas presentes, contando-os um a um – um total de nove pessoas esparramadas pela sala: sentadas no sofá, no chão, em almofadas – cada um lia um trecho/capitulo do livro, com sua voz, emoção, entusiasmo e curiosidade.

Eu gostava imenso de observar as reações de cada um. Havia quem esfregasse as mãos umas nas outras. Quem cruzasse os braços e também as pernas. Quem respirasse fundo anunciando a tensão que certas cenas causavam e quem arregalasse os olhos como se houvesse dentro uma janela de curiosidades particulares…

Eu permanecia em estado de espanto… no canto, encolhida… uma menina de olhos atentos, sendo moldada pelas noites em “família”.

Na última leitura da qual me lembro – éramos dezesseis pessoas – dentre eles estavam os dois netos da senhora, o filho e seu cão. O simpático rapaz e uma amiga (futura namorada), minha professora de gramática e outros vizinhos… a mesa de centro estava tomada por biscoitos, bolos, sanduiches, sucos, vinho, chás e, café. Eu jamais imaginaria, naqueles dias, que seria a última reunião do nosso clube de leitura… talvez alguém dentro de nós soubesse porque há sempre um gesto, um sinal. Sempre há um aviso que apenas os mais atentos percebem.

Líamos “Orlando de Virginia Woolf” nos últimos dias de primavera…  e fizemos promessas de novas leituras para a próxima estação, que não foram cumpridas, porque os moradores da casa 141 se foram para nunca mais.

Mas, às vezes, quando me sento no canto do sofá, ainda ouço – dentro – diferentes vozes a narrar as histórias dos livros que líamos. Fecho os meus olhos e me deixo conduzir pelo som que ecoa junto a memória… sei que adormeço, despertando – surpreendentemente – dentro daquelas noites.

Não perdi o hábito de escrever missivas, 12

São Paulo, 31 de janeiro de 2015.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles

Caríssima M.

É quase cinco… e eu vim me sentar aqui nesse canto de mundo, para escrever-te… é algo que quero fazer há dias, mas as horas de janeiro foram um desespero de ruas, lugares, paisagens e pessoas… não era para ser assim porque janeiro costuma ser um mês calmo, pacato, ameno… para dentro! Mas esse ano foi o contrário disso.

A cidade – estranhamente – não se esvaziou como nos anos anteriores… vi menos estrangeiros a transitar seus idiomas pelas ruas e muitos dos mesmos humanos em movimentos erráticos pelas esquinas. Os lugares estavam todos cheios… e o sol tocou fortemente o asfalto que ardeu como nunca antes. Foi tão cansativo existir dentro dos primeiros dias do ano de dois mil e quinze… que quase me arrependi da pausa a qual me obriguei.

Era preciso parar… ponderar, sobretudo, desacelerar, mas senti falta da cidade com seus traços comuns, sendo apenas uma pincelada do que costuma ser.

Gosto imenso de São Paulo e seus movimentos desarticulados… amo sua bagunça, confusão e todo o seu exagero! Adoro transitar suas alamedas, tragar seu ar equivocado e beber um pesado gole de café no final do dia… mas gosto também quando tudo deixa de ser o que se é. Esse ano, contudo, foi como se janeiro tivesse se esquecido de acontecer… foi atípico, estranho, desagradavelmente pesado.

Choveu tão pouco esse ano… os relâmpagos e trovões aconteceram, mas foi tudo tão carregado de angústias e desesperos que se tornou impossível apreciar. Senti falta de existir dentro da poesia de Mário de Andrade que me oferece em seus versos essa cidadela, habitada por seus mil e poucos habitantes, um punhado de casas e ruas… para mim, é como ganhar um livro, e provar do cheiro de suas páginas, para somente então sorver suas palavras.

Em outros janeiros minha cara, até mesmo o verão foi mais ameno – suportável. Senti falta do crepúsculo se impondo fortemente sobre a aurora de repente – sem avisar – da manhã caindo, a tarde morrendo e a noite sendo uma coisa gigantesca.

Não li Borges, Eliot, tampouco Emily… também não tomei xícaras de chá vermelho, café tampouco! Foi tão difícil ler em janeiro… escrever também foi angustiante e mesmo me propondo a quietude dentro de um isolamento pensado, foi muito difícil ser palavra na folha. Travei inesquecíveis batalhas e tudo se resumiu a pesados desaforos… com os sons agudos prevalecendo na derme!

E agora que janeiro se foi… respiro fundo e me lembro que depois de amanhã será carnaval. Seria tão bom se eu pudesse fechar os meus olhos agora e só acordar quando essas “malditas” falsas alegrias já tivessem se liquefeito. Mas como não é possível, sigo existindo dentro desse estranho janeiro…

Ao menos escrevo-te dentro dessa tarde esbranquiçada!

L.