Crônica do (fim)…

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…difícil dizer o que fica depois que o fim adormece enquanto palavra. Sílaba atômica. Maldição ou rendição. Um pouco de tudo é nada. Uma mistura de temperos, estações, fases lunares. Somas aleatórias…

Não sei dizer o que fica em mim e o que se desprende da matéria, escorre. Sei apenas que o olhar vai a todas as direções sem encontrar pouso, sossego.

A vida é tão frágil nessas horas. Estranha. E a morte é esse sopro frio de vento. Chuva que vai na vidraça e fala do vazio na infância e do balanco pagado com suas correntes a ranger pequeno e do tapete na porta que já não se abre e o carrilhão parado, incapaz de contabilizar o tempo. Não existe espera, xícaras de chá, café ou bolo com calor de forno.

O que dizer depois do fim? Eu sabia quem era… o que era, mas agora me falta qualquer coisa… de aurora, crepúsculo. Me resta amanhecer e se olhar no espelho…

 


 

 

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Vermelho, por dentro!

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…não sou uma pessoa que goste de falar de si, embora sempre escreva na primeira pessoa — como quem invoca uma criatura viva e nada humana das profundezas de si. Falar do outro é tão simples… criticar, sabendo que há limites nas palavras pronunciadas e, principalmente, sabendo que a cobrança precisa ser bem dosada.
Mas… não sei ser melindrosa, não tenho vocação maternal — portanto, passar a mão na cabeça e fazer afago não são para mim. Sei abraçar e o faço como tanto gosto, como um cão-menino me ensinou, apenas a quem aprecio-admiro-e-gosto. Estou velha demais para fingir gentilezas. Sou educada e breve com aqueles que encontro e não me conquistam.
Tudo isso para dizer que escrevi ‘mais um livro’. E, a história que ofereço em ‘vermelho por dentro’ é um dos meus primeiros escritos… reescritos ao longo de tantos invernos-outonos-primaveras. Guardados em gavetas-caixas. Perdidos em viagens… caderno, folhas avulsas e guardanapos.
A narrativa conta a história de uma moça-artista que conheci durante meus dias de Paris. Ainda era jovem e não muito boa em contar histórias… mas eu, atrevida, guardei — sem saber que isso seria uma característica futura-minha — as suas falas-características-gestos e, durante o tempo em que convivemos, fui aprendendo-a um pouco mais.
Hoje, nos falamos apenas por e-mail… o mundo dela se tornou imenso e, quando me conta em linhas as suas aventuras-conquistas, não se parece mais com a menina-franzina-assustada com o que lhe era vontade-destino-desejo… lembro que, sentada num café, ela usava os guardanapos como cadernos e tracejava o mundo ao redor de nós. Parecia consciente do aprendizado e da necessidade de aperfeiçoamento.
Eu não estava disposta a escrever… meu mundo naqueles dias era de ouvinte-atenta. Tomava nota dos medos e tentava responder à pergunta: ‘de que sou feita?’… que a maioria das pessoa fazem, consciente ou inconscientemente. Era minha realidade lacaniana, minha verdade em linhas.
Mas, um vento forte varreu tudo isso de minha pele, e hoje articulo palavras minhas-alheias. Brinco de contar histórias e, como contadora, convido vocês a um café forte e um abraço denso.

 

Dia 25 de novembro, às 20 horas, ali no meu café ‘entre esquinas‘. Você vem?

Uma década inteira depois do silêncio…

Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.
Tocaram-te, nas tardes, assim como tocaste,
Adolescente, a superfície parada de umas águas?
Tens ainda nas mãos a pequena raiz,
A fibra delicada que a si se construía em solidão?
Hilda Hilst

Discos de vinil. Livros. Envelopes. Papéis de carta. Fitas VHS — tudo isso é uma espécie de dossiê dos anos oitenta. Eu nasci ali, bem às portas de entrada da famosa década dos sonhos… que, para muitos — like me —, foi apenas a “década do exagero”… cores exageradas, cabelos extravagantes e a famosa cultura do corpo, quando nos tornamos reféns das dietas, e as capas de revistas — excessivamente coloridas — nos impunham uma nova idéia de Ser saudável, praticando o lado errado da coisa. Tudo passou a nos fazer mal: café, chá, cigarros, chocolates…

O Brasil, contudo, parece ir na contramão do mundo, já que por aqui começavam a ser deixados para trás os “desconfortáveis” dias de mordaça, que marcaram toda uma geração.

Muita gente foi embora nos conhecidos e fatídicos ‘dias de escuridão’… e, os que aqui ficaram, precisaram aprender a lidar com o silêncio, a driblar os mecanismos estabelecidos pelo sistema… a dançar conforme a música. Era preciso semântica… metáforas — para dizer o que não devia-podia ser dito…

Dias de ditadura militar. Portões fechados. Pensamento enclausurado. Gente exilada, vivendo nas fronteiras… talvez, por isso, a década de oitenta seja tão exaltada por aqueles que a viveram na ‘terra brasilis’. Uma espécie de “volta dos dias azuis”… mas, com qualquer coisa cinza a cobrir os olhos de muitos.

A música gritou e muitos a acompanharam — mesmo que com a voz baixa-rouca — “Brasil, mostra a tua cara”… foi possível repetir refrãos inteiros sem o medo que, durante tempos, reinou por toda a sociedade, que ainda hoje não sabe direito os seus mortos.

Então, enquanto — para o mundo — ‘os anos oitenta’ se mostravam em seus exageros… por aqui, exagerar era o máximo. Ser livre era moda… o pensamento-pássaro de voos rasantes, por cima de tudo. Se, lá fora, se esperava — com urgência — pelo fim dos ‘anos oitenta’ e sua cultura-pop-estranha-ingrata-desagradável — com o mundo da moda exibindo seu pior momento… o Brasil inteiro vivia um carnaval de sensações a colorir emoções.

Os brasileiros entoavam o hino de mãos dadas e assistiam — com os olhos mareados — à volta de sua gente, que havia sido considerada inadequada ao sistema. A música gritava — “na virada do século / Alvorada Voraz / Nos aguardam exércitos / Que nos guardam da paz / Que Paz?” (Luiz Schiavon, Paulo Ricardo e Paulo Pagni — RPM) — e uma multidão inteira cantava e dançava, mais pelo prazer de movimentar-se em qualquer direção que não fosse aquela apontada pelos tais “exércitos” — que, para muitos, preservavam a paz…

Rita Lee — e seus elementos metafóricos — fez o brasileiro cair na gandaia. Sair do quarto escuro — invadir as ruas. Tudo se dizia e pouco se percebia na poesia que saiu dos becos. E, nas novelas — sem os censores —, tudo começava a ser permitido. O impossível passava a ser um horizonte a ser espiado com descaso.

Surgiu o PT e seus homens de vermelho… a gritar para o mundo uma proposta que, naqueles dias, parecia ser uma promessa a ser cumprida no dia seguinte. O movimento de “Diretas Já” levou o povo para as ruas numa só voz-tom. A esperança de um país melhor nos dias seguintes estava viva… e todos acreditavam nas forças dos movimentos. Os jovens dos anos sessenta e setenta eram lembrados e aclamados — senhores e senhoras em quem se inspirar.

Mas, nem tudo se resumiu a flores… o Brasil perdeu muito de seus heróis. A tal liberdade tão cantada pelos maiorais foi freada pela descoberta da AIDS. Pequenos notáveis se foram. O humano se tornou refém de si mesmo. Corpos amarelecidos. Magreza. Olhos fundos… e a vida se esvaindo gradativamente.

Foi um momento difícil… e, no meio de tudo isso, veio a década seguinte. Sem a música sonora de algumas bandas e o Rock de Cazuza. Sem as palavras agudas de Caio Fernando Abreu e a poesia de Ana Cristina.

O Brasil ficou mais pobre e, aos poucos, os gritos que se ouviam por aí — “pro dia nascer feliz” — foram se transformando em lembrança agridoce, a ser reclamada num futuro estranho que raiou sem esperança… e mostrando que tudo não passou de um sonho.

O Brasil se dividiu em cores… sua gente se apequenou e passou a usar deus como desculpa para condenar gestos e impor uma ‘nova ditadura’. O tal do dia seguinte mostrou que não era preciso militares nas ruas para ‘proibir’ a liberdade…

O mundo por aqui perdeu um pouco de sua alegria…. ficou meio sem graça, um tanto monótono — como se, de repente, toda uma geração tivesse crescido e se encaixado nos moldes deixados em algum canto para uso, certos de que a finalidade seria alcançada.

A realidade foi pulando etapas e se consumindo em conceitos equivocados… os mais saudosistas dizem: “nunca fomos tão pobres” — quando se referem aos dias de hoje… e eu percebo que, para entender a “década de oitenta” brasileira, é preciso muito mais que olhares atentos para suas músicas sonoras, a literatura expressiva e sua gente insistindo em colorir o mundo. É preciso, acima de tudo, ter sobrevivido às “décadas anteriores” e ter mergulhado nas décadas seguintes.

A década de oitenta, por aqui, foi uma espécie de “ritual de passagem” — o futuro não era para amanhã… era para já, porque era preciso inventar, reinventar, criar, delirar — pois tudo era novamente permitido. Mas, veio o tal do dia seguinte… e o futuro esvaziou-se, voou para longe — e tudo ficou estranhamente distante, como se a música cantada por suas multidões fosse uma espécie de profecia: “nesse mundo assim vendo esse filme passar / Assistindo ao fim vendo o meu tempo passar”…

Cartas para todos lerem…

mario de andrade na madrugada de novembro

Adormeci entre livros, sem dar pelo sono em meus olhos, corpo e alma… e acordei na madrugada, a enroscar-me em um punhado de páginas. Mário de Andrade — esse homem-poeta amargurado — me fazia companhia, com todos os títulos que o ‘seu ano’ trouxe as prateleiras.

Li tudo o que tenho dele… nesse ano — depois de decidir construir um mapa de ‘angústias interrogáveis‘ para uso próprio. E a cada página virada acontecia algo curioso: enroscava a minha trajetória humana a dele… indo do desassossego a paz — em míseros segundos.

Enquanto verificava os poemas — que separei para o projeto —, que teve início em algum momento do ano passado,  pensava no motivo da escrita.  A minha,  a dele e de tantos outros que li.

Já ouvi tantas explicações sobre o porquê se escreve… eu mesma já dei tantas respostas diferentes ao longo dos últimos anos. Algumas eram justificativas tolas, respostas imprecisas-imediatas, um dizer-cego — algo dito apenas porque alguém espera uma resposta.

Quando terminei lua de papel,  tinha uma resposta diferente, da que tenho hoje. Não mudou o sentimento,  a necessidade…. mas,  eu mudei. A história, os personagens me fizeram outra e gosto que seja assim — diferente.  A realidade não… essa dificilmente me toca — apenas me faz ter certeza de que seus barulhos são ensurdecedores.

Eu gosto imenso do silêncio daqui de dentro… da pele, da memória, do quarto, da tela. Quando deito no papel as minhas palavras: chove. O que eu escrevo… são os meus trovões. E como eu gosto de trovejar… sou nuvem pela manhã, antes de o dia acontecer, como agora, em que os primeiros movimentos de vida, começam a acontecer lá fora. Respiro fundo, sinto a pulsação no pescoço com a ponta dos dedos e deixo escorrer pelos lábios um sorriso ardiloso.