Diário de minhas insanidades, 11

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Caminhei pela avenida em linha reta, sem pressa… a contar os passos e medir as distâncias. Fui pontual… passei pela nova moça, de quem nada sei — as dezenove horas — e fui direto ocupar o meu lugar de sempre.

W., atravessou a porta pouco depois… enxugava as mãos em uma toalha de papel e finalizava um gole de qualquer coisa — um chá, provavelmente. Disse ‘boa noite’ num tom monocórdio… e tomou seu lugar, a minha frente.

‘como está a sua semana? Voltou a escrever?’… respirei fundo, pausado e demorado. Nem era preciso dizer que não. Meu corpo era todo silêncio. Minha matéria estava anestesiada e a alma embrulhada para viagem.

Faz alguns dias que o cansaço — essa entidade bizarra — se apoderou de minha anatomia… se espalhando por meus músculos e nervos, como um vírus.

Queria ficar em silêncio… com o olhar detido num ponto qualquer — atravessar a matéria humana de W., saborear a quietude de meus gestos, a ausência de sons… e foi o que fiz. Fiquei em transe absoluto… sem dizer palavra, emitir som ou ouvir a própria voz, tampouco a dela.

Foi como fechar os olhos e adormecer… mergulhar no oceano, cessando os sons da vida como a conhecemos. Afundar na própria memória… e ouvir um único som, que para mim é sempre estranho e novo, agradável e manso — uma espécie de trilha sonora: os passos por cima de folhas secas, em pleno outono, ao lado do nono, pelo bosque de minha antiga cidade… o meu porto seguro, o cuore do meu mundo — o lugar onde mio cuore pulsa mais forte, fazendo vibrar a pele, palpitar as têmporas. Minha própria morte e vida e falência e ausência e fim…

Foi como desaparecer por um punhado de segundos… um piscar de olhos — o tempo de um sorriso.

Alamedas com nomes de pássaros…

Mudar de bairro em uma cidade como São Paulo é o mesmo que mudar de cidade… ainda mais quando você se encontra no meio de um processo de escrita em que a rotina é um dos elementos essenciais.

Estava acostumada a caminhar pelas ruas em pares, longas, entrecortadas por vielas do Alto da Lapa… esbarrando diariamente nas silhuetas envelhecidas das casas e suas janelas sempre fechadas.

Gostava de ouvir o ‘meu menino’ a narrar ‘a outra Era’… quando as ruas eram habitadas por humanos conhecidos, que sabiam acenar e partilhar a vida em diálogos matinais. Agora é apenas um punhado de casas e ruas vazias, rostos envelhecidos, humanos indispostos para o outro, a vida… e fechados em suas casas-masmorras cercadas por muros altos-eletrificados-e-vigiados.

Agora residimos numa Alameda com nome de pássaro… as ruas por aqui dificilmente se esvaziam e Patrick já desenhou seus mapas de lugares favoritos. Uma praça sem bancos, entre prédios altos, com espaço bastante para suas corridas insanas. Caminhamos os dois, a observar cada porta, janela, esquina… avançamos sem pressa e descobrimos lugares para os pés, os olhos e também a alma.

Há uma sorveteria italiana numa esquina e na outra, uma boulangerie… feira as quartas e domingos. O famoso café ‘entre esquinas’ fica algumas ruas para cima.  Cães risonhos levam seus humanos faceiros para passeios demorados…

Descobrimos pela manhã a ‘praça dos cães’, que Patrick provou e gostou. Depois de correr sem trégua pelos arredores… tombou exausto na grama, deixando seu metro de língua para fora. Fazia tempo não o via tão feliz.

Meu menino, que acusou estranhamento ao trocar de cenário, já se mostra satisfeito com os novos ares…  e passou a concorrer com o cão pelos momentos de passeios pelas ruas e alamedas do bairro.

Enquanto escrevo estas linhas, avisto uma janela aberta e percebo um senhor debruçado junto ao parapeito… a observar os movimentos lá embaixo. Me junto a ele nessa paisagem ‘impregnada pela solidão de Hopper’… por um segundo — e quase imponho a mão o movimento de um aceno. Respiro fundo e volto a escrever minhas linhas… preciso me ater a minha trama, antes que volte a condição de rascunho e acabe novamente abandonada dentro de uma maldita gaveta.

Status atual: personagem em gestação…

Pouco depois do lanche… com um livro em mãos — o jogo do anjo — fui me sentar — estrategicamente, no canto oposto ao de minha hóspede… que disse com a voz-rouca-pouca, que gostou da casa, do bairro, das pessoas e também {ela deveria dizer principalmente} do cão… que não demonstrou interesse algum no carinho que ela lhe oferece. E sinto que fica ao lado dela, apenas para que eu possa fingir que estou a observá-lo e não a ela… ele é um menino terrivelmente delicioso.

…naveguei por cada um dos movimentos inquietantes de S., …que parecia em chamas. Percebi sua necessidade, baseada no vicio. Suas falas erráticas — todas as sílabas saltavam de sua boca, como se caíssem diretamente num abismo. Suas mãos tremiam descontroladas, presas de histeria… e as baforadas se multiplicavam, ao mesmo tempo em que as angústias se agigantavam em sua mortalha. Quando amassou a bituca de cigarro — jogada no chão num gesto de fúria — foi como se estivesse a atacar a si mesma, num desespero de auto-destruição.

S., encontrou um canto para seu corpo… do lado de fora, no primeiro degrau, perto do portão. Ali, passou a traçar uma rota de fuga… como se as grades do portão fossem as mesmas que engaiolam a sua alma.

Ela evitou as conversas desde a sua chegada, apenas ouve e exibe um sorriso forçado. Sente um terrível medo do que poderia deixar escapar de si. E o meu olhar também… do qual foge insistentemente por sentir que estou a desbravá-la, como se fosse uma mata selvagem, sem trilhas e com mato alto.

Mas, nisso ela está certa. Cada vez que esbarro em sua anatomia, aprendo algo novo e demoro a retornar de lá. Me coloco em estado consciente de ebulição… foi assim que percebi que sua vida é uma farsa, narrada centenas de vezes, numa inútil tentativa de convencer a si mesma e obrigar-se a uma realidade que não lhe desce.

Ela está aqui porque deu um passo — inesperado — para fora de si… e não tem certeza de que pisou em chão firme. Ela colheu promessas em seus lábios, em seu corpo… que fizeram a ‘bela adormecida’ despertar. Mas ela não acredita em conto de fadas… e consciente de que está a se afundar em águas desconhecidas… repete constantemente para si, as palavras da mãe — é a sua prece para momentos de desespero…

S., permanece fechada em manhãs inexistentes, onde se obriga a despertar com pesados goles de café — adormecidos nas xícaras. Embala qualquer coisa de tristeza na pele… sua vida… sua história… sua carta náutica… e diante do espelho repete seu desespero: ‘é apenas mais uma fase difícil’… mas não é a primeira e nem será a última. Ela respira fundo, engole as lágrimas e entoa seu mantra: ‘sou uma mulher realizada e feliz’… não se convence, mas vai repetir até esgotar as incertezas.

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | TEMA MULHER

Em março, o tema do projeto fotográfico ‘6 on 6’ devido ao calendário é: mulher… e, desde que soube da proposta, apontei a câmera do meu celular para todos os lados, na incerteza do que registrar. Pensei a temática e sua cadência, senti o ritmo e as flutuações do caminho… e nada. Resolvi me orientar em palavras, antes de ir à caça. Ser mulher é quase uma filosofia… porque não se nasce mulher. Torna-se Mulher ao longo da vida. E cada Mulher que floresce nesse jardim denominado realidade é única. Tem estilo, cor, raça… aroma, sensualidade. É firme. É rara. É linda… tem graça. Raiva. É cruel. Diabólica. Imatura. Sensível. Indiferente. Febril. Voraz. Cada mulher é o que o espelho anuncia, mas não é o que estampam as capas de revistas…

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‘as pessoas vão, mas como elas foram sempre ficam’

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‘você disse. se é pra ser. o destino vai nos unir de novo’

adriana-e-lunna

‘eu não fui feita com um incêndio na barriga para que pudesse me apagar’

thais e lu

“você me tocou sem nem precisar me tocar’

lu e taty

‘o amor não é cruel, nós somos cruéis’

projeto paralelo, in lançamento lua de papel

..’não sei dizer quando é que acontece de ‘crescermos’. Acho que ninguém sabe. Sei apenas que não é algo repentino. Não é um estalar de dedos. Um passe de mágica… é gradativo! Tenho pra mim que é algo que vai acontecendo aos poucos… cada atitude nossa é determinante. Cada passo dado gera uma possibilidade, mas acredito que, se você ficar parado, um vento forte vem em sua direção e, te obriga a qualquer coisa de movimento… Absolutamente tudo, no mundo, nos afasta de nós mesmos… nos manda embora, pra longe daquele ‘eu’ que somos ou que pensávamos ser. E assim nos transformamos em outra coisa… é nossa ‘pequena epifania’. — trecho de lua de papel!

Acompanham as fotos tiradas ao longo dos dias… pequenos trechos do livro
outros jeitos de usar a boca‘ de rupi kaur… que combinam com as figuras femininas que são raras-diabólicas-insanas-humnas-amigas… mulher!


Participam também
Avesso da Coisa – Retratos e DiáriosSariando por aí

14 – Possuo a doença dos espaços incomensuráveis…

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Meu caro E.

O dia vai longe… já é quase hora do almoço do lado de fora dessa janela aberta que sou, mas aqui dentro da pele ainda estou a amanhecer. Eu sempre me demoro mais nas horas do dia… enquanto, à noite, me precipito… em movimentos insanos — vou de um canto ao outro em míseros segundos.

A bordo das manhãs banhadas de sol… respiro fundo, atravesso a Rua, desejando deter meu passo e deixar essa gente apressada — uma manada humana — me ultrapassar porque não tenho pressa… sou nesse momento, como uma xícara de chá.

Não sei se você sabe,  mas para se fazer um chá… é preciso introduzir em seu dia uma pequena pausa. É como abrir uma brecha na vida {realidade das coisas e suas causas} e no tempo e no espaço. Coloca-se no fogo a chaleira e aguarda… a minha apita assim que a água borbulha. Enquanto isso, escolho a xícara — gosto de uma preta com desenho de elefante, esse gentil animal. Mas, às vezes, escolho a vermelha. Separo as ervas… e em seguida é preciso macerá-las lentamente entre as mãos… para sentir o aroma, impulsionando-o para dentro de si. Deito a água fervente na xícara e deixo ocorrer a infusão… pronto: novamente é preciso esperar.

Nesse momento… escrevo pequenas notas mentais-futuras… ou leio poemas, contos, pequenos trechos de histórias antigas… ou apenas recordo certos momentos meus…

Quanta espera realizamos durante um dia inteiro? Já pensou nisso? — são tantas pausas necessárias, porque temos essa mania — estranha — de acelerar tudo e mesmo assim, nos falta tempo…

Será que é o contemporâneo que nos demanda coisas demais ou somos nós mesmos?
Quando criança — eu me lembro — tudo era tão lento… as horas em sala de aula eram intermináveis e eu vivia querendo agilidade. Mas as voltas dos ponteiros não se deixavam seduzir por minhas vontades. Ocupavam-se — lentamente — de cada um de seus ‘malditos’ segundos…

Hoje, no entanto, tudo se dissolve… faz pouco que acordei e os ponteiros já cospem suas doze horas… ou quase! Os minutos se atropelam… tudo é para ontem… o hoje é essa sinuca sem tacos ou bolas nas caçapas! Para onde será que vamos? Me parece tão impossível traçar um destino nessa velocidade…

O ano começou antes de ontem… e já se viveu tanto. O carnaval acabou e outro está por começar. Novamente é ‘ano novo’ e as metas são traçadas e nada se cumpre porque não há tempo…

Acho que preciso de uma xícara de chá e da pausa que ela me oferece…

Me acompanha?