— É uma rosa rubra a autora dessas linhas

2017-09-01 13.05.28

A primeira vez em que tive contato com o branco foi em sala de aula. Eu era a menina do canto-quieta que não se misturava com a turba e não tirava os olhos das páginas do meu caderno-novo — apreciando com intensa paixão o silêncio de um caderno vazio.

Eu queria — desesperadamente — vê-lo cheio de palavras… preenchido-povoado por consoantes e vogais escolhidas por mim a esmo… apenas para folheá-lo len-ta-men-te no dia seguinte — como fazia com os livros.

Acontece que o que menos fazíamos naqueles dias de escola… era escrever. Me aborreci… cruzei os braços a frente do corpo e me fechei em concha. Mas a raiva transbordava em minhas expressões severas.

A professora creditou minha reação de desconforto ao fato de eu ser filha única, acostumada aos meus e as coisas que tinha em meu quarto-casa. Era preciso me acostumar — afirmou, do alto de sua sabedoria singular insistindo com sua voz falsamente-amena — “daqui a pouco a aula acaba e você volta para casa. Agora é tempo de aprender”. Respirei fundo, bufei… e abri o caderno-novo-mudo-sem-palavras em cima da mesa. Imaginei as minhas palavras favoritas-perfeitas alinhadas em fila, naquele traço futuro e forcei o silêncio dos meus olhos, recolhendo as lágrimas que insistiam em fuga…

Eu era a única criança alfabetizada da turma… as outras precisavam de exercícios de coordenação: desenhos circulares, traços e retas para educar a mão — antes de domar a caligrafia, aprender os símbolos e fazer as conhecidas e necessárias somas: três consoantes e duas vogais = o resultado do meu nome.

E enquanto riscava — aborrecida e sem cuidado — uma folha de exercício, dona N. — mulher-professora-mãe e senhora soberana daquele teatro amador — descobriu que minha escrita partia da mão esquerda — a mão errada. A descoberta me obrigou a repetir todos aqueles movimentos tolos incontáveis vezes: círculos, retas, traços… até cansar a mão, que, por motivos óbvios, não aceitou com a mesma facilidade os movimentos de educação-correção para percorrer os caminhos de escrita.

Me senti amaldiçoada por ter cometido o maior dos pecados: ter aprendido a ler-e-escrever antes das outras crianças… e com a mão errada.

 

 


 

Abre aspas… durante uma exposição para os pais, no final daquele ano, dona N., mulher-professora-sorridente perguntou aos seus alunos — ‘com qual mão vocês escrevem?’ — cruzei os braços imediatamente a frente do corpo e fechei a cara. Fui a única a não levantar a mão, a não responder a pergunta. Ela se aproximou de mim com sua expressão feroz — que nunca me causou medo — e perguntou do alto de sua irritação: ‘por que não respondeu, queridinha?’ — ao que respondi com imenso prazer — ‘porque não escrevemos na sua aula, só fazemos rabiscos bobos que não fazem sentido algum. Mas a casa, graças a senhora, escrevo palavras inteiras que fazem todo o sentido e com as duas mãos’. Olhei para a minha mãe no fundo da sala e sorrimos cúmplices. Obviamente não escapei da repreensão. Mas… a caminho de casa, ganhei um caderno-novo para as manhãs de sábado — e esse recebeu todas as palavras que conhecia e aprendia na companhia dos meus. E, durante muitos anos, o folheei como se fosse livro …Fecha aspas

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22 – A alegria é um aroma de tangerina nos dedos…

2017-10-04 18.45.40

Caríssima R.

…passeio pelas minhas lembranças nessa manhã, como se folheasse um livro que fui buscar na estante — com suas páginas preenchidas com as cores dessa existência, na qual você esbarra sempre que se atreve a mim. Não sou boa em medir o tempo. Não guardo datas… mas coleciono momentos!

E de tempos em tempos, gosto de percorrer o caminho de volta… me sento em lugares conhecidos e revisito pessoas-falas-gestos — o primeiro contato e todas as coisas a partir disso.

Algumas pessoas quando chegam… demoram a se aproximar — e é justamente esse momento, confesso, que considero o mais precioso dentre todos… o melhor dos presentes porque posso fazer o meu próprio traço — imaginário — a partir das coisas que vejo… e percebo… e sinto… e aprecio… e guardo.

O jeito de andar.
O sorriso que não é para mim.
O olhar de soslaio…
A posição das mãos, dos pés…

Saber o outro sem que uma única palavra seja dita — com o passo indo ao longe, de passagem por mim…

Conhecer uma pessoa é uma arte… leva tempo! É preciso cuidado… geralmente nos entregamos ao outro, em pequenos goles, como se fôssemos uma bebida cuja receita, esbarra em segredos nem sempre revelados. A parte isso, ainda é preciso se lembrar que não é nada fácil agradar a todos os paladares.

…e para dificultar um pouco mais, nunca sabemos como o outro nos vê.

Eu me lembro bem quando você veio até mim… já falamos sobre isso tantas vezes. Vi um sorriso pousar em teus lábios enquanto falava-narrava a cadeira vazia, as pessoas que lá se sentavam para um diálogo e a curiosidade crescente por saber quem sou. Eu gosto de repassar essa nossa página, mas até você falar sobre isso, era apenas coisa minha — uma nota mental guardada em minha memória para os dias seguintes, estes em que vivo hoje.

Eu já tinha percebido suas andanças.
Nos limitávamos a breves olhares!

Mas, de repente, você veio até mim… ocupou a cadeira vaga e falou de si num quase sem-voz. Não ouvi metade das coisas que disse, mas me intrigou a pergunta feita ‘como faço para não ser assim?’ — e antes que eu pudesse dizer palavra… como quem se dá conta de um passo em falso… se levantou e foi embora.

Não disse se voltava, mas voltou.
E nós fomos — com o passar dos dias — nos acostumando uma à outra, em discursos singulares… que se seguem até hoje!

 

L.

— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta…

alovesongfor

 

Quando começo a desenhar um personagem… passo horas inteiras a observar a vida em movimento — em busca de certos sinais. Narrativas dependem de certos detalhes que ninguém além da realidade é capaz de ofertar com tanta perfeição: a cor dos olhos, da pele, o jeito dos gestos, a maneira como o sorriso se precipita nos lábios, o tipo de óculos que cobre os olhos, a maneira como se ajeita os cabelos, o tipo de movimento que orienta o passo… a moldura do rosto.

O imaginário — astuto-ardiloso — usa cada um desses artifícios naturais para converter palavras em imagens… dar ao traço a precisão necessária. Por isso, já não me espanta mais a realidade acenar com todos os seus dedos… atendo imediatamente.

Hoje, no meio da tarde, vivida em pequenos goles… “flertei” com esse homem-inédito. Ele estava a viver seu instante particular de vida, no canto. O olhar atento varria as superfícies do lugar-novo para seus sentidos — medindo e encurtando distâncias. Nada escapava de seus olhos de águia… a se habituar ao cenário — uma novidade para sua derme embriagada. Tudo parecia lhe agredir e incomodar. Não sabia o lugar dos pés, das mãos. Não conhecia os estranhos em movimento retilíneos…

Ele caminhava com cuidado… como se o chão guardasse minas secretas — a explodir num movimento equivocado-precipitado. Percebi que traçava uma espécie de mapas de possibilidades — entradas e saídas… onde estar… a quem vigiar… como fugir-escapar.

Meu olhar não passou despercebido… e eu precisei fingir atravessá-lo. Nada me incomoda mais que perder um bom personagem devido a rebeldia de certos olhares precipitados. Certa vez uma figura-humana — que eu espiava atentamente —  atravessou a rua e acabou dentro dos meus olhos. Escapou-me. Diante de mim a revelar-se sem mistério a ser por mim desvendado era figura comum-igual-a-todo-mundo. Me desorientei e perdi a personagem. Restou-me apenas a indignação. Esbravejei-trovejei e fim…

Ainda assim os humanos continuam a ser meu material favorito… hoje, em fuga dos olhos cor de céu nublado a trovejar… busquei pelo retrato de terras em fase de preparo para o plantio do café às suas costas — e me distrai com memórias de infância.

Astuto… ele inventou um sorriso-isca — e como não reagi, acreditou que não ser o alvo dos meus olhos. Mas, a flecha disparada pelo Centauro que sou, acertou em cheio a sua figura.

Sua respiração intensa… fazia emergir o tédio de uma vida inteira, atingido o ápice por ‘mimar’ figuras insólitas, cuja existência ele reprovava veementemente. Ele tentava domar o próprio corpo — indócil-inquieto… habituado a realidades perversas e pessoas maquiavélicas. A desconfiança é sua goma de mascar. As mãos ágeis — prontas para um golpe aplicar — voltavam sempre a mesma parte do corpo — seu lugar secreto. Em um tempo anterior: eram um só — o objeto e ele… figura una — equação facilmente resolvida. Não hesitava… o objeto se oferecia ao seu gesto bem tramado-seguro-atento. Era preciso… econômico — aprendeu com o passar dos dias a não desperdiçar munição.

E eu também aprendi com o passar dos anos a não desperdiçar realidade… quando ela bate a porta do meu imaginário, acendo o meu cigarro e trago pesado certas figuras.

21 – …em longas falas digo-te coisas tão particulares de cada um de nós

2017-07-28 18.50.29

A você, 

…que é uma das poucas pessoas a saber do meu cansaço, embaraço e chateação nesses dias tão contemporâneos e enfadonhos, com seus temas que seriam válidos não fossem a pouca elegância de quem se dá ao trabalho de ser fósforo aceso.

Ao menos com você, meu caro posso dividir o sentir na pele, minha fala mais aguda-perversa-sincera no aconchego de uma pequena mesa para dois, enquanto degustamos uma bruschetta feita por quatro mãos…

Eu acho pertinente conviver com um menino a bordo dos setenta anos, que pertence a outras gerações… e não faz disso uma desculpa-justificativa para um possível conservadorismo. Seria compreensível (?) — não sei dizer. Mas não seria você. Porque eu nunca te ouvi reclamar das cenas eróticas que escrevo, tampouco questionar a minha escrita quando em lua de papel assumi uma homossexualidade artística-criativa… porque quem escreve: vive, sente, transmuta… ou então, não convence.

Fomos juntos a inúmeros espaços urbanos-humanos nessa Paulicéia e não foram poucas as vezes em que você saiu exatamente como entrou. Mas você não julgou ou condenou o espaço, a exposição, o artista. Apenas disse: ‘não gostei’ com a mesma simplicidade de quem levanta o dedo e pede um doppio ristretto. Mas, houve ocasiões, em que seu olhar se liquefez. A pele ficou em suspenso e a emoção aflorou. Te vi Homem-Menino nu… e te amei um pouco  mais.

Poucos depois, estávamos os dois, de mãos dadas pelas calçadas da cidade… e enquanto caminhávamos — trocávamos impressões. Eu sempre mais empolgada porque sou visceral-sagitariana-roqueira. Você é mais comedido-geminiano-bossa-nova… gosta de traçar suas próprias retas mentais. E eu gosto de dividir com você a minha paixão…

É para você que falo — primeiro — dos personagens que encontro por ai e trago comigo. Do estrago que certas cenas cotidianas fazem em mim. Às vezes, volto para casa sem corpo-alma… vazia… sem nada… aos pedaços e me tranco na minha porção mais funda. Me esparramo no lençol branco e faço confissões ao teto. Às vezes troco de roupa-pele. Mudo tudo de lugar, a começar pelos móveis. Sou outra. Às vezes, eu mesma — mas é tão raro. Você nunca demonstrou estranheza, apenas espia e parece se divertir com esse seu sorriso faceiro. Quantas vezes já me surpreendeu em diálogos com a parede…

Mesmo depois de tudo isso, você me recebe em teus braços-boca-músculos-e-nervos… o corpo todo. E eu me apaixono de novo e de novo e de novo.

E é em teu colo que me esqueço nesses dias de tormento que é perceber que pessoas tão próximas de nós se mostram pequenas-limitadas… submersas em uma camada de ignorância que parece impossível de ser removida. E isso é a pior das agressões.

Mas isso é Arte? Foi o que ouvimos tantas vezes — um trovão no azul — nos últimos dias. E eu só consegui sorrir ao ouvir a tua voz — a rosnar como fazia o Patrick, sempre achei que ele aprendeu isso contigo. Confesso que foi um alívio… um pouco de treva no meio de tanto luz a tentar nos cegar: ‘se fazemos essa pergunta é porque não queremos a resposta’.

Eu poderia lhe agradecer por ser esse Homem-menino a bordo de seus muitos anos, mas me ensinaram a retribuir, por isso deito os meus lábios nos teus e anoiteço nos teus olhos.

Ti amo

A minha boca perdeu a memória…

“A minha boca perdeu a memória
não pode falar as palavras entram no seu túnel
e não é preciso segui-las”

Mário Cesariny

 

silencio

…eu nunca tive talento algum para a fala. Sempre preferi ouvir e detestava quando era requisitada para um diálogo. Era qualquer coisa aborrecida, demasiadamente cansativa. Quando em grupo, contudo, era mais fácil encontrar um caminho para o silêncio por ser mais fácil ficar quieta, no canto, ausente — como se estivesse em um jogo… a colher as melhores palavras para compor uma frase perfeita.

Fui estimulada ao diálogo desde cedo, mas nada de dizer o que vem a mente. Era sempre um exercício meticuloso em busca de frases bem-feitas, devidamente pontuadas, com pausas e sorrisos — intercalando substantivos, verbos e adjetivos… sem excessos — como tanto aprecio ou as fatídicas repetições — causa maior da minha fadiga…

Eu podia caminhar ruas inteiras sem pronunciar palavra. Nunca me obrigaram às respostas… até porque as perguntas que comumente faziam, eram conhecidas: “como foi o seu dia?”… e objetivavam coisas comuns: aromas e sabores.

Mas, o meu comportamento — silencioso — acabou por precipitar questionamentos fora de casa: “essa sua menina tem algum problema?”. C., não reagia — apenas reparava no comportamento da criança alheia: inquieta, incansável nos gestos e também nas falas. O que segundo os especialistas de plantão era sinal de saúde perfeita. Era assim que uma criança deveria ser.

Eu nunca tolerei gritos… comumente fechava os olhos, como se a audição dependesse do meu olhar e não dos ouvidos. Havia quem me achasse triste. Emotivamente fechada. Centrada demais para a idade. A maioria, contudo, sempre concordou com um mesmo argumento: tinha algo de errado comigo. Eu não era uma criança saudável.

Existem padrões comportamentais que devem ser seguidos por uma criança — que deve saber sorrir, ser alegre e feliz. Querer brincar e fazer amigos. Falar o tempo todo sobre tudo e qualquer assunto. Fazer mil e uma perguntas. Ir à escola, à praça… se misturar-socializar. Qualquer coisa diferente disso requer cuidados. E, para isso existem os especialistas em comportamento humanos — cada um com uma teoria infinitamente particular para tratar a questão.

Quando comecei a terapia… veio a pergunta fatal: ‘do que você gosta e do que você não gosta?’. Demorei a responder porque precisei analisar a pessoa — autora do questionamento —, cuidadosamente a fim de saber se ela queria de fato a verdade. Concluída essa condição, respondi: “há quem goste de falar… eu gosto de ouvir! Há quem goste de barulho… eu amo o silêncio”.  Traída… fui diagnosticada com um transtorno qualquer — o que não fez a menor diferença em meu desenvolvimento.

Continuei alheia a realidade barulhenta e segui dando preferência para o silêncio. E passo a ser uma meta particular: ouvir mais, falar cada vez menos, cultivar pausas — como quem respira e fim. É uma necessidade que vai na contramão do mundo: todo mundo fala demais e produz um sem-fim de ruídos com suas opiniões acerca e tudo-e-todos.

E como não uso mais óculos — que eu removia para embaçar a visão — fecho os olhos e quase adormeço. Ouço o som do mio cuore em batidas ritmadas, os sons ocos dos lugares que habito, o tic e tac em meu pulso, o som do vento na janela, da chuva no asfalto, da ponta do grafite no papel  e a realidade é como o vidro do box do banheiro depois de um banho quente.