Escrever é estar sempre a deriva…

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Pela manhã… comecei a escrever mais um capítulo de minha ‘novella’. É isso que escrevo: novella… como Jane Austen — essa senhora a quem atribuo a culpa pelo despertar da paixão por esse gênero literário. Já li tantas vezes seu ‘orgulho e preconceito’ que me antecipo aos diálogos e cenários.

Escrever não é algo simples ou fácil, você deve saber… requer disciplina-entrega-rendição. Não é uma equação nada fácil — com somas-subtrações e seus resultados inquestionáveis. Não mesmo…

A vida de uma pessoa-escritora acaba convertida em barco à deriva, em busca de um cais. Sem bússola, mapa — nada. E parte de mim sempre soube que seria assim. Por isso a recusa existiu. Fugi dessa realidade e fui navegar outros mares. Buscar outras direções — que fossem um ponto seguro no meu mapa de vivências.

Mas olha o cais onde o Barco que sou… inventou de atracar. E a vida? — esse elemento estranho — se deixou converter em coisa sem substância. Meus dias passaram a ser uma busca desenfreadas por metáforas. Esse estar aqui, alheia a tudo que suspira lá fora. Esse estar aqui… a viver coisas várias — tudo e nada. A saltar no escuro… a cair no abismo-mundo… inventado a partir de formas e espaços subtraídos de cada passo dado. Uma fruta madura colhida do galho mais alto.

…tudo partindo sempre do mesmo branco — aquele pálido lugar, que reina durante horas inteiras até você encontrar o diálogo e o cenário perfeito. Não é possível menos…

Mas até acontecer esse instante único… é um transitar por ruas com casas lado a lado… a dizer realidades secretas, que você quer emprestada para si e nem sempre consegue porque a folha não aceita qualquer coisa. E o vazio é a única substancia que insiste em si… essa coisa dura-crua-fria-cruel a rasgar a pele-alma ao meio.

Mas há quem diga que escrever é apenas um deitar fora o que está dentro. Eu finjo um sorriso nos lábios e engulo o soluço — esse desaforo perverso — e volto para o canto, de onde nem sempre quero sair.

Hoje a personagem fez confissões e o branco acabou povoado pelo vermelho que trago dentro. Bebi vários goles de café e acumulei inúmeras xícaras vazias ao meu redor. O capítulo sangrou e eu também.

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Missiva de primavera | As horas estão escritas num futuro impossível

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Caríssima,

…a madrugada não trouxe os trovões que eu esperava… apenas um silêncio imenso dentro das horas em pares — vividas, minuto a minuto, na companhia de suas linhas. Li e re-li a tua resposta, que chegou no meio da tarde, como um raio no azul… e me afundei em sensações. Fui para o meu canto favorito da casa, e levei comigo outras linhas tuas — guardadas na ‘gaveta da alma’.

Espalhei os versos sobre a cama… a mesa, o chão — o quarto todo… e, aos poucos, o papel se fundiu à minha matéria: embriagando-me! Foi assim que eu vi nascer a certeza: publicar os versos teus.

De repente, estava a dobrar e amassar folhas… a tramar qualquer coisa de futuro em meu íntimo… a imaginar um livro-insano-rebelde, com toda a ‘liberdade’ que me permito.

Passaram-se segundos-minutos — não sei precisar o tempo das minhas urgências. Fui para a cozinha ferver a água. E, enquanto esperava… admirava sua fisionomia serena-calma — da qual não consegui retornar.

Li teus olhos, tua boca… o rosto todo. Colhi um punhado de gestos calculados. Percebi a tua respiração… acompanhei o teu silêncio! Ouvi tua voz murmurar segredos humanos-urbanos… me perdi!

Ao despertar — dentro de um gole de chá —, percebi o inevitável… ao espiar o azulejo que reveste a parede da cozinha: a vida é feita de esperas. E ninguém nos ensina isso. Temos que aprender por nós mesmos. Reconhecer o tempo: o nosso, e também o dos outros. E compreender que uma vida inteira é composta por muitas esperas…

Eu esperei por ti! E, depois que te vi chegar… outras esperas aconteceram. Agora mesmo… espero que te vás. Preciso que regresses a ti e me deixe só… no limbo de minhas insanidades — a flutuar no vazio que sou, para beber a mim em pequenos e generosos goles…

Por enquanto, convivo com a tua janela e devoro a paisagem que sorves. Observo como olhas a rua e os passos que chegam aos teus olhos. A cidade vista do alto é tão singular. Vejo teu sorriso agridoce aquecer os teus lábios nesse refletir de vidraças. Num movimento abrupto — apenas teu —, vejo tuas mãos fecharem as cortinas que pesam sobre tuas janelas. É tua maneira de calar o mundo… mantê-lo longe, para não se sufocar nessas insanidades contemporâneas — tão antigas quanto o passado que tu recusas em ‘preces’ feitas antes de dormir.

Aproveito para me despedir… preciso recolher as folhas à ‘gaveta de minh´alma’ antes que o ‘dia seguinte’ desperte com seu sol de verão…

Beijo-te, certa de que outra espera acaba de começar…

Catarina

Ano cinco…

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O bom de se ter um blogue é que tudo é mutável-instável e o passado é sempre presente, já que muitas pessoas chegam atrás dos rastros deixados, por nós. Basta uma rápida espiadela nas estatísticas para saber que antigos posts estão sempre em evidência. É uma espécie de janela que não se fecha…

Nessa minha caminhada virtual… já encontrei dúzias de adjetivos para essa página, nesses quinze anos de uso incansável dessa ferramenta, que eu descobri através de um amigo-de-ontem, que achou que seria eficiente para os meus ‘dias futuros’.

Tudo começou no ano de dois mil e dois… me sentei diante do ecrã e fui seguindo as orientações que surgiam clique após clique. O primeiro dilema foi… ‘dê um nome ao seu blogue’. Pensei em tudo e nada. Nomes de livros-filmes-personagens-favoritos. E depois de bufar com a parede branca, olhei para o lado e pronto: “Caderno Vermelho” …um lugar para os meus escritos de gaveta.

Pouco depois, como se finalizasse o processo de um livro, mudei o nome para “Acqua” — estado liquido, condição natural das minhas idéias, que escorriam-jorravam pelos cantos da pele. E um belo dia… todo o conteúdo do blogue se liquefez. Perdeu-se no limbo da rede.

E eu entrei pelo buraco da toca de Alice e virei “Menina no Sótão” — o lugar mágico da  minha infância… com seu incrível cheiro de madeira, papel e páginas.

E como não consigo ficar quieta, imóvel, no canto por muito tempo… fui ‘vermelhos tons’ porque é a cor do meu sentir e de mio cuore, que pulsa insanidades mil.

Eu estou sempre em movimento… em busca de algo que defina minha essência. Para mim  é  impossível ficar dentro-retida-contida. Mas eu cansei do ritmo… da insanidade… das publicações e me calei.

E depois de uma pausa de horas-dias-semanas-meses-anos… Aconteceu: Catarina voltou a escrever… entre pausas-interrupções, o nome reflete a realidade das minhas linhas e não há previsão de mudança quanto a isso. Catarina segue firme nessa soma: cinco anos me parece uma excelente premissa.

Depois não diga que eu não avisei…

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Eu nunca senti medo das coisas da vida. Na infância, gostava da luz apagada, e nunca procurava por monstros embaixo da cama… eu mesma me enfiava lá. Colava fotos-poemas-recortes-de-revistas no estrado e mantinha às escondidas uma lanterna, para iluminar meus mapas-secretos.

Sempre fui o tipo de pessoa que se choca contra a parede. Mergulha de cabeça. Salta no abismo. Me acostumei a dizer, depois de um sorriso: ‘eu vivo em estado constante de queda’. 

Eu sempre fui a primeira a levantar a mão para questionar as coisas prontas. Não sou destemida… mas não sei baixar a cabeça. Encaro nos olhos e exibo meu melhor sorriso para as coisas que batem na parede do meu corpo. Adoro desaforos… coleciono-os! Não sei de nada, mas há gente por aí que sabe bem menos que eu… porém, estranhamente estão sempre certos de tudo.

Sempre senti imenso prazer em cair, me levantar, limpar a poeira dos joelhos, o sangue dos cotovelos. Coleciono: cicatrizes, rasgos, riscos, roxos — são as únicas tatuagens que consegui fazer em vida.

Me acostumei a tentar de novo… sem desistir… sem calcular o risco e arriscar tudo naquele que pode ser meu último salto, mas nunca a última queda. 

Errar sempre foi meu verbo favorito.
Mas… não sou o tipo de pessoa que tem fé. Não sou de acreditar nos ecos que me alcançam. Não aprendi a juntar as mãos e orar para deuses-fantasmas-seres-imaginários. Eu gosto mesmo é do escuro, dos cantos da casa, da cidade, do corpo, da mente… e, se alguém me indica a direita como certa e segura, atravesso a rua e vou pela esquerda.

Não tenho heróis… vilões, tampouco. Sou uma pessoa de poucos humanos. Não detenho ninguém junto a mim, mas se quiser ficar, é melhor gostar de café, memórias e silêncio. Eu sei ouvir, mas não sou muito boa com essa coisa de falar. Não me faça perguntas… e eu te ofereço respostas. Mas, se perguntar, saberá a cor do meu silêncio.

Sou guiada pela minha intuição e movida pelas batidas do mio cuore, que ouço sempre que fecho os olhos… e faço isso a qualquer hora do dia. Eu sou a pessoa do passo seguinte, a primeira a pisar na mina e aquela a quem nunca poderá dizer: ‘eu te avisei’…