22 – A alegria é um aroma de tangerina nos dedos…

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Caríssima R.

…passeio pelas minhas lembranças nessa manhã, como se folheasse um livro que fui buscar na estante — com suas páginas preenchidas com as cores dessa existência, na qual você esbarra sempre que se atreve a mim. Não sou boa em medir o tempo. Não guardo datas… mas coleciono momentos!

E de tempos em tempos, gosto de percorrer o caminho de volta… me sento em lugares conhecidos e revisito pessoas-falas-gestos — o primeiro contato e todas as coisas a partir disso.

Algumas pessoas quando chegam… demoram a se aproximar — e é justamente esse momento, confesso, que considero o mais precioso dentre todos… o melhor dos presentes porque posso fazer o meu próprio traço — imaginário — a partir das coisas que vejo… e percebo… e sinto… e aprecio… e guardo.

O jeito de andar.
O sorriso que não é para mim.
O olhar de soslaio…
A posição das mãos, dos pés…

Saber o outro sem que uma única palavra seja dita — com o passo indo ao longe, de passagem por mim…

Conhecer uma pessoa é uma arte… leva tempo! É preciso cuidado… geralmente nos entregamos ao outro, em pequenos goles, como se fôssemos uma bebida cuja receita, esbarra em segredos nem sempre revelados. A parte isso, ainda é preciso se lembrar que não é nada fácil agradar a todos os paladares.

…e para dificultar um pouco mais, nunca sabemos como o outro nos vê.

Eu me lembro bem quando você veio até mim… já falamos sobre isso tantas vezes. Vi um sorriso pousar em teus lábios enquanto falava-narrava a cadeira vazia, as pessoas que lá se sentavam para um diálogo e a curiosidade crescente por saber quem sou. Eu gosto de repassar essa nossa página, mas até você falar sobre isso, era apenas coisa minha — uma nota mental guardada em minha memória para os dias seguintes, estes em que vivo hoje.

Eu já tinha percebido suas andanças.
Nos limitávamos a breves olhares!

Mas, de repente, você veio até mim… ocupou a cadeira vaga e falou de si num quase sem-voz. Não ouvi metade das coisas que disse, mas me intrigou a pergunta feita ‘como faço para não ser assim?’ — e antes que eu pudesse dizer palavra… como quem se dá conta de um passo em falso… se levantou e foi embora.

Não disse se voltava, mas voltou.
E nós fomos — com o passar dos dias — nos acostumando uma à outra, em discursos singulares… que se seguem até hoje!

 

L.

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21 – …em longas falas digo-te coisas tão particulares de cada um de nós

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A você, 

…que é uma das poucas pessoas a saber do meu cansaço, embaraço e chateação nesses dias tão contemporâneos e enfadonhos, com seus temas que seriam válidos não fossem a pouca elegância de quem se dá ao trabalho de ser fósforo aceso.

Ao menos com você, meu caro posso dividir o sentir na pele, minha fala mais aguda-perversa-sincera no aconchego de uma pequena mesa para dois, enquanto degustamos uma bruschetta feita por quatro mãos…

Eu acho pertinente conviver com um menino a bordo dos setenta anos, que pertence a outras gerações… e não faz disso uma desculpa-justificativa para um possível conservadorismo. Seria compreensível (?) — não sei dizer. Mas não seria você. Porque eu nunca te ouvi reclamar das cenas eróticas que escrevo, tampouco questionar a minha escrita quando em lua de papel assumi uma homossexualidade artística-criativa… porque quem escreve: vive, sente, transmuta… ou então, não convence.

Fomos juntos a inúmeros espaços urbanos-humanos nessa Paulicéia e não foram poucas as vezes em que você saiu exatamente como entrou. Mas você não julgou ou condenou o espaço, a exposição, o artista. Apenas disse: ‘não gostei’ com a mesma simplicidade de quem levanta o dedo e pede um doppio ristretto. Mas, houve ocasiões, em que seu olhar se liquefez. A pele ficou em suspenso e a emoção aflorou. Te vi Homem-Menino nu… e te amei um pouco  mais.

Poucos depois, estávamos os dois, de mãos dadas pelas calçadas da cidade… e enquanto caminhávamos — trocávamos impressões. Eu sempre mais empolgada porque sou visceral-sagitariana-roqueira. Você é mais comedido-geminiano-bossa-nova… gosta de traçar suas próprias retas mentais. E eu gosto de dividir com você a minha paixão…

É para você que falo — primeiro — dos personagens que encontro por ai e trago comigo. Do estrago que certas cenas cotidianas fazem em mim. Às vezes, volto para casa sem corpo-alma… vazia… sem nada… aos pedaços e me tranco na minha porção mais funda. Me esparramo no lençol branco e faço confissões ao teto. Às vezes troco de roupa-pele. Mudo tudo de lugar, a começar pelos móveis. Sou outra. Às vezes, eu mesma — mas é tão raro. Você nunca demonstrou estranheza, apenas espia e parece se divertir com esse seu sorriso faceiro. Quantas vezes já me surpreendeu em diálogos com a parede…

Mesmo depois de tudo isso, você me recebe em teus braços-boca-músculos-e-nervos… o corpo todo. E eu me apaixono de novo e de novo e de novo.

E é em teu colo que me esqueço nesses dias de tormento que é perceber que pessoas tão próximas de nós se mostram pequenas-limitadas… submersas em uma camada de ignorância que parece impossível de ser removida. E isso é a pior das agressões.

Mas isso é Arte? Foi o que ouvimos tantas vezes — um trovão no azul — nos últimos dias. E eu só consegui sorrir ao ouvir a tua voz — a rosnar como fazia o Patrick, sempre achei que ele aprendeu isso contigo. Confesso que foi um alívio… um pouco de treva no meio de tanto luz a tentar nos cegar: ‘se fazemos essa pergunta é porque não queremos a resposta’.

Eu poderia lhe agradecer por ser esse Homem-menino a bordo de seus muitos anos, mas me ensinaram a retribuir, por isso deito os meus lábios nos teus e anoiteço nos teus olhos.

Ti amo

20 – Uma sexta em ruínas…

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Caríssima T.,

Ainda é sexta, minha cara… passa das onze, mas o dia passou por mim numa velocidade de perdidas sentimentalidades. Não gosto quando não dou pelo dia e suas horas impossíveis de contar.

Tentei me entender com a realidade ao longo do dia… firmar compromisso com os ponteiros. Pousar os pés… mas a alma viveu instantes de Gaivota. Mergulhou no azul e arrulhou alto. Zombou de minha condição equivocada.

Tive um único instante de paz… pouco depois do despertar quando me ocupei de um punhado de linhas minhas. O dia estava perfeito: deliciosamente nublado. As ruas molhadas pela chuva de agosto. O vento fez tremer as vidraças. Acendi um incenso. Coloquei ordem no caos em que se transforma a minha mesa ao longo da semana, com seus dias de segunda a quinta. Pratiquei a espera… água no fogo, xícara na mesa e a poesia de José Luis Peixoto para os olhos, a pele e a alma.o barco avança sem destino | as noites, os dias, o barco avança sem destino. o oceano é infinito

Respirei fundo, engoli o chá em três ou quatro goles. Espiei os cômodos, os móveis e as sombras de um dia sem sol… esparramadas pelo chão. As paredes do lugar estão em obras… vez ou outra tudo estremece. Mas eu não sei se é de fato o lugar ou se sou eu.

O dia acabou e eu também… deixei recado na geladeira para o sábado: só saio da cama se o dia for como na infância: envelopes, folhas, leite caramelado e afagos. Caso contrário, agarro o travesseiro, me enrolo na coberta e só abandono o ninho na segunda-feira.

Au revoir. 

 


 

selo para o BEDA

19 – Queimávamos madrugadas de fio a pavio…

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Caríssima AA.,

A tarde começa a cair lá fora, por cima da cidade com suas ruas em “movimentos” de sexta-feira. Passa das cinco e eu ainda não aconteci para o mundo. Sempre que chove fico dentro da pele — em suspenso. Minha alma se equilibra em desacordo com os ritmos da realidade… faço chá, reviro caixas, abro antigos cadernos-diários, arranco folhas para rascunhar o momento e me perder — como se estivesse a arrancar de mim alguma coisa indevida.

Faz dias que não chove por aqui… uma vida inteira-imensa e me incomoda essa falta de previsão de trovões e nuvens. O ar pesado me causa cansaço e há tanto por fazer e viver.

Ainda há pouco… antes de me sentar aqui para escrever-te — abri meu velho diário e um envelope antigo saltou lá de dentro… foi ao chão. O detive em minhas mãos por alguns segundos — enquanto espiava o passado contido em seu avesso. Recordei tudo que foi e não foi…

Senti a textura na ponta dos dedos… o resto de perfume que o papel guardou. Provei de sua cor opaca — já reparou como envelhecem os papéis? É tão poético acompanhar o efeito do tempo.

Mergulhei pouco depois… nas duas folhas de papel, onde adormecia a conhecida caligrafia descuidada-irregular-indócil… difícil de ser lida. E uma fotografia, que traz a data e o lugar onde foi tirada: Wazemmes — 2003.

Fiquei em suspenso por alguns segundos… provei da falta de coisas não vividas — como propõe um poema escrito por Simone Teodoro, em seu livro ‘astronautas’.

Viajei para dentro do cenário… conduzida pelas linhas de Pr., que falava da vida, de seus medos e vontades, incertezas, sonhos, ilusões. E confessava escrever do segundo andar de um prédio velho e escuro — em Wazemmes.

Nas primeiras linhas… reclamava de um jovem músico, que se repetia em notas — todos os dias, no mesmo horário. Dizia rezar — mesmo sendo ateu — para que ele aprendesse a dominar o instrumento e as notas… já que estava a gostar do lugar, que levou semanas-meses — uma vida inteira — para ser encontrado.

Ele era o tipo de pessoa, que precisava vestir os cômodos… uma espécie de barco encalhado a convocar ventos e marés. Não era qualquer lugar que lhe servia e se dizia amaldiçoado por ser assim, mas não fazia o menor esforço para ser diferente-mudar.

E era uma pessoa exigente… o quarto precisava receber sol pela manhã — a melhor hora do dia para se aquecer os lençóis… segundo ele.  A sala tinha que ficar no meio — caminho de algum outro cômodo. Fazia questão de uma varanda para as ruas e janelas grandes onde pendurar cortinas brancas.

Não cheguei a conhecer a morada… não houve tempo — apenas vontade-desejo. O imaginário, no entanto, foi e voltou de lá inúmeras vezes — a cada missiva que chegava, com novidades. Acompanhei a escolha dos móveis. As inúmeras visitas a lojas. A primeira compra de ingredientes num desses empórios antigos. O ajudei a preencher os armários. A escolher a louça… pratos azuis, canecas amarelas e talheres pesados. Eu lhe enviei um mensageiro dos ventos, que levou meses para atravessar o oceano e ser pendurado na janela do quarto para as noites-manhãs-tardes de ventos. Ouvimos juntos a primeira ventania enquanto tomávamos uma xícara de chá de anis com folhas de laranja — o nosso favorito.

E hoje — passado tanto tempo — visitei novamente o espaço… como se para lá tivesse me mudado no último minuto. Habitei por alguns segundos a fotografia. Converti a minha figura em personagem-transeunte… e vivi dentro de um fim de tarde, quase noite… a suturar levemente o cuore. Sentei-me no sofá, ao lado dele. Encostei a minha cabeça em seu ombro e lhe contei as novidades — sobre meu novo romance — enquanto esperávamos o apito sonoro de sua chaleira prata…

Ocupei todo o espaço… colei novos cartazes de filmes nas paredes. Grudei uma bandeira inglesa atrás da porta do quarto de hóspede. Espalhei os nossos livros russos pelo chão da sala, sobre o tapete de linhas. Pendurei algumas peças de roupa no armário. E o lugar pequeno-escuro, com poucos móveis, calmo e lúcido aos poucos se moldou a minha anatomia.

E no quase fim de tarde… vi o sol lamber a pequena janela da frente… a resvalar no vidro, deixando aquele rastro de poeira solar no ar… e ir embora len-ta-men-te pouco depois. Todo o cenário se converteu em sombras… a escorrer na parede de meus olhos fechados.

Voltei para cá… amparada pelo breu e o silêncio de quem lê uma missiva, observa uma fotografia e conversa com alguém, que talvez compreenda o silencio do meu corpo em suspenso nessa primeira-última hora.

À tout à l’heure!

 

 

selo para o BEDA

18 – …mais um outono!

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Mio caro,

…já devo ter lhe dito, em uma dessas nossas muitas conversas, que eu fui uma criança quieta. Não tinha vocação alguma para traquinagens ou barulhos. Gostava de ficar no canto oposto as outras crianças. Não me misturava e não gostava de gritos, correrias… embora adorasse subir em árvores, escalar muros e mergulhar em rios… mas não apreciava testemunhas. Sempre tive imenso prazer em ser-estar sozinha… na casa vazia… na rua deserta.

E foi ainda na infância que desenvolvi a paixão pela primeira vez… o primeiro brinquedo: um tabuleiro de xadrez, feito pelo nono — inclusive as peças. O primeiro caderno — que me deixou muda-imóvel durante dias… com o cuore acelerado e os olhos cheios. Levei sete dias para rabiscar as primeiras palavras nele. O primeiro livro… de poesias — cinquenta e seis páginas preenchidas com versos num idioma novo. O primeiro envelope. A primeira missiva. A primeira caixa de madeira — para guardar meus papéis… feita pelo nono. A primeira viagem de trem com suas janelas a narrar o passado-presente-e-futuro em meu olhar anestesiado. A primeira tempestade… que ainda reverbera em meu corpo.

Somo a tudo isso… a primeira vez que você veio ao meu encontro, com seus passos lentos — mãos guardadas no bolso da calça jeans. Olhar baixo… a varrer o chão e um sorriso imenso-lindo-travesso que refletiu em mim assim que a vida nos colocou frente-a-frente. A primeira vez que engatou sua mão a minha… que encaixou seus passos aos meus e fomos caminhar calçadas da Bela Vista-Bixiga, numa tarde de quinta-feira. Eu achei graça do seu gesto protetor de andar — sempre — do lado de fora da calçada… coisa do mio babo e nono. A primeira vez que pousou seus lábios nos meus…

Essas somas não me escapam porque são as que de fato valem… essas que os humanos gostam de fazer, de dias-meses-anos… sempre me deixaram confusa. Porque lá na infância, eu usava os dedos para fazer essas contas-tolas. E eu sempre achei impossível fazer somas que exigiam mais dedos que os que tem. Lembro-me da primeira vez que o nono me disse quantos anos tinha. Fiquei com as duas mãos espalmadas e sorri ao chegar no oito. Não sabia como chegar a ‘oitenta e três’… ele achou graça e eu também, mas pouco depois me disse — ‘continue assim, não faça como a maioria: não se renda ao tempo. Tem somas muito mais interessantes e importantes para se fazer‘.

E eu segui esse conselho, afinal, para que se render ao tempo dos homens, se as emoções que coleciono se multiplicam em um misero segundo? São tantos aromas, cores, sensações, emoções…  é e a tudo isso que recorro quando escrevo. Se apenas falo em voz alta, parece algo vivido por outra pessoa… mas quando me ocupo de linhas — o cuore vai a galope pelos campos da realidade-vida que habito.

A essa soma que faço… acrescento o seu olhar pela manhã, seu sorriso pela tarde e seu quase-silêncio há pouco, já dentro da noite. São catorze outonos… que em xícaras de chá-café significa: que eu quero mais…

bacio nel tuo cuore