BEDA |Uma sexta em ruínas…

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Caríssima T.,

Ainda é sexta, minha cara… passa das onze, mas o dia passou por mim numa velocidade de perdidas sentimentalidades. Não gosto quando não dou pelo dia e suas horas impossíveis de contar.

Tentei me entender com a realidade ao longo do dia… firmar compromisso com os ponteiros. Pousar os pés… mas a alma viveu instantes de Gaivota. Mergulhou no azul e arrulhou alto. Zombou de minha condição equivocada.

Tive um único instante de paz… pouco depois do despertar quando me ocupei de um punhado de linhas minhas. O dia estava perfeito: deliciosamente nublado. As ruas molhadas pela chuva de agosto. O vento fez tremer as vidraças. Acendi um incenso. Coloquei ordem no caos em que se transforma a minha mesa ao longo da semana, com seus dias de segunda a quinta. Pratiquei a espera… água no fogo, xícara na mesa e a poesia de José Luis Peixoto para os olhos, a pele e a alma.o barco avança sem destino | as noites, os dias, o barco avança sem destino. o oceano é infinito

Respirei fundo, engoli o chá em três ou quatro goles. Espiei os cômodos, os móveis e as sombras de um dia sem sol… esparramadas pelo chão. As paredes do lugar estão em obras… vez ou outra tudo estremece. Mas eu não sei se é de fato o lugar ou se sou eu.

O dia acabou e eu também… deixei recado na geladeira para o sábado: só saio da cama se o dia for como na infância: envelopes, folhas, leite caramelado e afagos. Caso contrário, agarro o travesseiro, me enrolo na coberta e só abandono o ninho na segunda-feira.

Au revoir. 

 


 

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BEDA | Eu me lembrei de você… em mim!

Imaginar não é lembrar-se. Certamente uma lembrança,

à medida que se atualiza, tende a viver numa imagem:

mas a reciproca não é verdadeira, e a imagem pura e simples

não me reportará ao passado a menos que seja

efetivamente no passado que eu vá buscá-la,

seguindo assim o pregresso contínuo que

a trouxe da obscuridade à luz

Henri Bergson

 

 

08 DE AGOSTO

 

Caríssima C.,

Fui para a cozinha preparar um pão na chapa… e enquanto cortava o pão ao meio e passava a manteiga, para em seguida debruçá-lo na frigideira quente dourando-o dos dois lados, como me ensinou a fazer… me lembrei de nossas conversas no meio da tarde, do seu silêncio e seu olhar agudo-guloso-sempre-atento.

Gosto quando você chega sem avisar, com seus rituais de vida — que repito no automático — e se mistura a minha realidade… feito tempestade — a me ocupar-povoar… sem escolher dia-hora-lugar. Apenas me pega pelo braço e me leva pelos seus caminhos primaveris… caminhar a sua cidade, espiar suas pessoas, tragar do ar úmido e perfumado por suas flores de laranjeira. Te ouço falar em mar, céu azul enquanto planeja o fim de semana e aprecia os movimentos humanos-urbanos.

Recordo nós duas… sentadas à mesa daquela padaria na rua de seu trabalho… e, você a pedir dois pães na chapa. Foi preciso desprender tempo e palavras para explicar como deveria ser feito. O rapaz em seu primeiro dia de trabalho se atrapalhou todo… e você, com sua paciência rotineira ensinou a nós dois a ser sempre gentil com as pessoas: “não importa o quanto elas te desafiem, sempre ofereça o seu melhor sorriso. Do lado de dentro você esbraveja e, pronto”.

Nunca consegui imaginar o seu interior em estado de fúria. Raiva nunca foi uma palavra sua. Seu corpo sempre transbordava paz… e seus movimentos uma calma invejável. Enquanto eu era tempestade, você sempre foi calmaria. Até o meu silêncio fazia imenso barulho perto de ti, que sorria… como se reconhecesse todos os meus tumultos herdados de ‘seu menino’. Você me dizia com a voz, os gestos e o corpo inteiro: ‘menos’ e eu latejava fúria — bufava.

Sempre que estou prestes a perder a calma e transbordar… me lembro de sua lucidez e acabo por me perder em incontidos sorrisos. Me reorganizo em míseros segundos. Acho que você acharia graça de meus movimentos dentro do dia e por saber-me: ‘menina das palavras’, como disse que eu seria, e eu retrucava — insistia no contrário. Você tinha razão… mas, não me arrependo por ter tentado outros caminhos — porque aprendi com você que o importante é caminhar… e foi exatamente o que eu fiz. Aprendi lugares. Desaprendi pessoas… fui barco a deriva, em busca de cais. E sempre que atraco em algum porto, me lembro de ti…

 

À tout à l’heure!

 

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Beda |Queimávamos madrugadas de fio a pavio…

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Caríssima AA.,

A tarde começa a cair lá fora, por cima da cidade com suas ruas em “movimentos” de sexta-feira. Passa das cinco e eu ainda não aconteci para o mundo. Sempre que chove fico dentro da pele — em suspenso. Minha alma se equilibra em desacordo com os ritmos da realidade… faço chá, reviro caixas, abro antigos cadernos-diários, arranco folhas para rascunhar o momento e me perder — como se estivesse a arrancar de mim alguma coisa indevida.

Faz dias que não chove por aqui… uma vida inteira-imensa e me incomoda essa falta de previsão de trovões e nuvens. O ar pesado me causa cansaço e há tanto por fazer e viver.

Ainda há pouco… antes de me sentar aqui para escrever-te — abri meu velho diário e um envelope antigo saltou lá de dentro… foi ao chão. O detive em minhas mãos por alguns segundos — enquanto espiava o passado contido em seu avesso. Recordei tudo que foi e não foi…

Senti a textura na ponta dos dedos… o resto de perfume que o papel guardou. Provei de sua cor opaca — já reparou como envelhecem os papéis? É tão poético acompanhar o efeito do tempo.

Mergulhei pouco depois… nas duas folhas de papel, onde adormecia a conhecida caligrafia descuidada-irregular-indócil… difícil de ser lida. E uma fotografia, que traz a data e o lugar onde foi tirada: Wazemmes — 2003.

Fiquei em suspenso por alguns segundos… provei da falta de coisas não vividas — como propõe um poema escrito por Simone Teodoro, em seu livro ‘astronautas’.

Viajei para dentro do cenário… conduzida pelas linhas de Pr., que falava da vida, de seus medos e vontades, incertezas, sonhos, ilusões. E confessava escrever do segundo andar de um prédio velho e escuro — em Wazemmes.

Nas primeiras linhas… reclamava de um jovem músico, que se repetia em notas — todos os dias, no mesmo horário. Dizia rezar — mesmo sendo ateu — para que ele aprendesse a dominar o instrumento e as notas… já que estava a gostar do lugar, que levou semanas-meses — uma vida inteira — para ser encontrado.

Ele era o tipo de pessoa, que precisava vestir os cômodos… uma espécie de barco encalhado a convocar ventos e marés. Não era qualquer lugar que lhe servia e se dizia amaldiçoado por ser assim, mas não fazia o menor esforço para ser diferente-mudar.

E era uma pessoa exigente… o quarto precisava receber sol pela manhã — a melhor hora do dia para se aquecer os lençóis… segundo ele.  A sala tinha que ficar no meio — caminho de algum outro cômodo. Fazia questão de uma varanda para as ruas e janelas grandes onde pendurar cortinas brancas.

Não cheguei a conhecer a morada… não houve tempo — apenas vontade-desejo. O imaginário, no entanto, foi e voltou de lá inúmeras vezes — a cada missiva que chegava, com novidades. Acompanhei a escolha dos móveis. As inúmeras visitas a lojas. A primeira compra de ingredientes num desses empórios antigos. O ajudei a preencher os armários. A escolher a louça… pratos azuis, canecas amarelas e talheres pesados. Eu lhe enviei um mensageiro dos ventos, que levou meses para atravessar o oceano e ser pendurado na janela do quarto para as noites-manhãs-tardes de ventos. Ouvimos juntos a primeira ventania enquanto tomávamos uma xícara de chá de anis com folhas de laranja — o nosso favorito.

E hoje — passado tanto tempo — visitei novamente o espaço… como se para lá tivesse me mudado no último minuto. Habitei por alguns segundos a fotografia. Converti a minha figura em personagem-transeunte… e vivi dentro de um fim de tarde, quase noite… a suturar levemente o cuore. Sentei-me no sofá, ao lado dele. Encostei a minha cabeça em seu ombro e lhe contei as novidades — sobre meu novo romance — enquanto esperávamos o apito sonoro de sua chaleira prata…

Ocupei todo o espaço… colei novos cartazes de filmes nas paredes. Grudei uma bandeira inglesa atrás da porta do quarto de hóspede. Espalhei os nossos livros russos pelo chão da sala, sobre o tapete de linhas. Pendurei algumas peças de roupa no armário. E o lugar pequeno-escuro, com poucos móveis, calmo e lúcido aos poucos se moldou a minha anatomia.

E no quase fim de tarde… vi o sol lamber a pequena janela da frente… a resvalar no vidro, deixando aquele rastro de poeira solar no ar… e ir embora len-ta-men-te pouco depois. Todo o cenário se converteu em sombras… a escorrer na parede de meus olhos fechados.

Voltei para cá… amparada pelo breu e o silêncio de quem lê uma missiva, observa uma fotografia e conversa com alguém, que talvez compreenda o silencio do meu corpo em suspenso nessa primeira-última hora.

À tout à l’heure!

 

 

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…mais um outono!

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Mio caro,

…já devo ter lhe dito, em uma dessas nossas muitas conversas, que eu fui uma criança quieta. Não tinha vocação alguma para traquinagens ou barulhos. Gostava de ficar no canto oposto as outras crianças. Não me misturava e não gostava de gritos, correrias… embora adorasse subir em árvores, escalar muros e mergulhar em rios… mas não apreciava testemunhas. Sempre tive imenso prazer em ser-estar sozinha… na casa vazia… na rua deserta.

E foi ainda na infância que desenvolvi a paixão pela primeira vez… o primeiro brinquedo: um tabuleiro de xadrez, feito pelo nono — inclusive as peças. O primeiro caderno — que me deixou muda-imóvel durante dias… com o cuore acelerado e os olhos cheios. Levei sete dias para rabiscar as primeiras palavras nele. O primeiro livro… de poesias — cinquenta e seis páginas preenchidas com versos num idioma novo. O primeiro envelope. A primeira missiva. A primeira caixa de madeira — para guardar meus papéis… feita pelo nono. A primeira viagem de trem com suas janelas a narrar o passado-presente-e-futuro em meu olhar anestesiado. A primeira tempestade… que ainda reverbera em meu corpo.

Somo a tudo isso… a primeira vez que você veio ao meu encontro, com seus passos lentos — mãos guardadas no bolso da calça jeans. Olhar baixo… a varrer o chão e um sorriso imenso-lindo-travesso que refletiu em mim assim que a vida nos colocou frente-a-frente. A primeira vez que engatou sua mão a minha… que encaixou seus passos aos meus e fomos caminhar calçadas da Bela Vista-Bixiga, numa tarde de quinta-feira. Eu achei graça do seu gesto protetor de andar — sempre — do lado de fora da calçada… coisa do mio babo e nono. A primeira vez que pousou seus lábios nos meus…

Essas somas não me escapam porque são as que de fato valem… essas que os humanos gostam de fazer, de dias-meses-anos… sempre me deixaram confusa. Porque lá na infância, eu usava os dedos para fazer essas contas-tolas. E eu sempre achei impossível fazer somas que exigiam mais dedos que os que tem. Lembro-me da primeira vez que o nono me disse quantos anos tinha. Fiquei com as duas mãos espalmadas e sorri ao chegar no oito. Não sabia como chegar a ‘oitenta e três’… ele achou graça e eu também, mas pouco depois me disse — ‘continue assim, não faça como a maioria: não se renda ao tempo. Tem somas muito mais interessantes e importantes para se fazer‘.

E eu segui esse conselho, afinal, para que se render ao tempo dos homens, se as emoções que coleciono se multiplicam em um misero segundo? São tantos aromas, cores, sensações, emoções…  é e a tudo isso que recorro quando escrevo. Se apenas falo em voz alta, parece algo vivido por outra pessoa… mas quando me ocupo de linhas — o cuore vai a galope pelos campos da realidade-vida que habito.

A essa soma que faço… acrescento o seu olhar pela manhã, seu sorriso pela tarde e seu quase-silêncio há pouco, já dentro da noite. São catorze outonos… que em xícaras de chá-café significa: que eu quero mais…

bacio nel tuo cuore

 

Limito o meu silêncio ao seu silêncio…

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Caríssima M.,

Cai a noite e com ela o cansaço de um dia inteiro, que começou cedo, pouco depois das oito. Despertei das sombras-páginas do livro a caderneta vermelha  que eu lia enquanto as horas avançavam firmes por essa segunda-feira — a última de maio.

Algo curioso aconteceu esse ano, não vi uma única flor de maio. A que tinha a casa antigamente florescia — estranhamente — em junho ou julho… jamais em maio, tanto que dizia pelos cantos da casa que algum equivoco existia. Mas, sempre as encontrava por aí, em algum lugar da cidade. Esse ano, no entanto, passou em branco.

Mas eu tive de volta a rotina dos trovões… e recordei — ao ler as suas linhas — as sonoridades da infância, que tanto prazer causava em minha pele e tanto pavor nos corpos mínimos das crianças do colégio.

Não sei se já lhe contei de uma manhã de Maio em que o céu desceu a terra com suas pesadas e negras nuvens. Escureceu cedo e de repente um estampido causou gritaria na sala de aula. Ainda era a primeira aula. Dez horas. Fazia pouco que tínhamos ocupado nosso lugar as mesas. Uma das crianças desandou a chorar — inconsolável. E para evitar maiores desconfortos…  reuniram todos os alunos numa mesma Sala.

…fiquei para trás — propositalmente — com os olhos grudados na janela… a contar os espaços entre o clarão e o trovão. Vi quando as grossas gotas foram se aconchegando na vidraça… e a velha e conhecida sensação de tristeza — naqueles dias eu não sabia ser melancolia o que sentia — reviveu… empalidecendo todos os ‘sempres’ dos meus olhos.

…fui impiedosamente arrancada de lá — num susto que quase desalojou a minha alma — e levada para junto da turba. Nada de poesias-trovões-chuva-tristeza… apenas o grito estridente daquelas humanas criaturas miúdas — a cada trovão… a me aborrecer e entorpecer cada um dos meus sentidos.

Agachei-me num canto e tapei as orelhas… apavorada. Lembro-me de ouvir a voz enferrujada da professora dizer — ‘já vai passar, já vai passar’ — no intuito de devolver a paz — perdida. Foi meu primeiro assassinato, minha cara. Fuzilei a infeliz da mulher em seu avental de educadora… com um raio fatal e sorri satisfeita.

Hoje não troveja no céu, minha cara. Apenas cá dentro da pele, onde as lembranças são pesadas nuvens. O mês está prestes a findar… maio foi inquieto e desembestou sonoro em minha pele, sem flores, mas com muitos movimentos de xícaras. E nas últimas horas lhe escrevo e vou ao teu encontro — entre um trovejar e outro… tu  me recebes?

Au revoir