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6 ON 6 | JUNHO

Desde menina que giugno é um dos meses favoritos no calendário e me acostumei a dizer — desde que me mudei para São Paulo em dois mil e dois — que adoraria fechar os olhos e acordar dentro das manhãs de giugno… que por aqui são menos claras-curtas-frias e suavemente esbranquiçadas. O sol se demora a ultrapassar as nuvens e tudo fica mais lento e aconchegante — para depois… como tanto gosto!

Ainda é outono… mas, em poucos dias será inverno e eu vou me fechando dentro — abraçada a melancolia que tem lugar cativo em meu corpo-alma.

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1. adoro vestir pijama-meias e andar por aí… com xícaras-livros em mãos. Sem pressa. Acordar cedo, antes do mundo e espiar paredes, a mobília. Ocupar eu lugar à mesa. Medir os ingredientes, a realidade, as coisas e sua causas…

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2. Gosto imenso quando saio para caminhar e encontro as folhas pelo chão… me lembro imediatamente das brincadeiras de infância quando C. e eu íamos ao Parque-Bosque pra tentar agarrar uma folha em seu último voo de vida-e-morte. Era sinal de sorte interceptá-la antes que tocassem o chão!

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3. Trabalhar na cama, comer uma fatia generosa de bolo recém saído do forno. Assistir a um filme, ler um livro. Adormecer. Meditar coisas futuras… escrever os posts do blogue. Despertar dentro de certas manhãs esbranquiçadas de giugno.

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4. Ir para cozinha no final da tarde, quando começa a escurecer, medir os ingredientes e preparar fornadas de pães. trigo. ovos. manteiga. leite. ervas secas. fermento. Misturo tudo numa tigela. Amasso até a massa mudar de cor e o cheiro se esparramar pelo ar. Deixo crescer e preparo os pães que vão ao forno. Nunca soube determinar a quantidade dos ingredientes que uso. Aprendi com a nona a usar os sentidos na hora das medições… também não entendo nada de receitas, apenas de ingredientes.

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5. Gosto imenso de ir à feira com um prato em mente… escolher os ingredientes frescos. Cozinha limpa-arrumada. Lavar. Picar. Ralar. Água no fogo. Massa a cozinhar. Azeite na frigideira… alho-cebola-cenoura-couve-flor-alho-poró e os aromas no ar.  Mesa posta para dois-três. Depende do dia…. gosto quando é para apenas nós dois. Aprecio quando é para outros de nós. Ir para a cozinha a qualquer momento, sem compromisso-obrigação de horários é pausar a realidade e deixá-la para depois…

dsc_0091 6. Gosto imenso de giugno porque é o mês de meu menino… o nosso mês… mais um bom motivo para despertar dentro dessas manhãs esbranquiçadas.

 


 

| Cilene Mansini | Maria Vitoria |Mariana Gouveia |
Mari de Castro | Obdulio Nuñes Ortega |


 

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6 ON 6 | RETRATOS

O primeiro retrato de que me lembro… é também uma de minhas primeiras lembranças. Tinha quase cinco anos, a manhã estava ensolarada e os pássaros sobrevoavam telhados. O vento frio derrubava folhas e cumpria seu papel de anunciar a nova estação.

Um signore e seu ajudante chegarão na hora marcada… com o equipamento necessário. Posicionaram a câmera no quintal dos fundos. Nos arrumamos como se fossemos sair… e debaixo da laranjeira posamos para a fotografia. Um. Dois. Três. Quatro… cliques.

A foto meio esverdeada se desfez com o tempo, se perdeu dos olhos, mas permanece intacta em minha memória. Recordo a inquietude de meus gestos. Eu não parava quieta. Não sorria. Espiava os gestos dos meus. Me distraia com folhas-pássaros-vento. Mio babo fez questão de comprar todas as doze fotografias, que foram coladas num álbum, que a gente folhou nas noites de sábado durante os anos seguintes.

Hoje com o advento dos celulares, fotografias são frequentes, mas os velhos álbuns deixaram de existir. Registramos todo e qualquer momento, mas é tudo tão frágil. São tantos cliques por dia, que esquecemos ou simplesmente não nos lembramos do instante.

Eu não tenho retratos impressos, estão todos em nuvens-memórias… e dificilmente volto a eles. Hoje, para preparar esse post, me diverti com cenas que nem na minha memória estavam…


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— uma visita ao mirante nove de julho, para mais um dia de trabalho, pesados goles de café, pesadas nuvens a vestir a tarde de noite e a sensação de que mais um capitulo de minha história — que se fosse intitular, chamaria de 1981 — foi escrita..

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nós dois… com nossos sorrisos conhecidos, em pares. Sorrimos por sorrir somente, para nós… o mundo que somos um para o outro.

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era um dia azul e a gente pegou a estrada. As paisagens foram passando por nós e nós por elas… os pedágios, carros-ônibus-caminhões-motos. Gosto de observar o lugar de onde saímos… e dar pelo lugar para onde fomos. Chegar-partir-ficar… verbos devidamente conjugados nesse retrato nada comportado… rá

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fomos caminhar pela centro velho de São Paulo. Passos em pares… a gente sempre se mistura quando se encontra pelos caminhos… se diverte com olhares-sorrisos-palavras. E sempre se lembra de fotografar o momento que daria para fazer um álbum…

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o relógio dizia 15 horas... o calendário anunciava a terça-feira. Eu cheguei primeiro. Gosto de escolher o lugar-mesa-cadeira… e esperar. Gosto de observar a chegada… abrir os braços — como pássaro que salta para o vôo — e se encaixar em outros braços. Gosto das primeiras palavras — sempre imprecisas, as pessoas chegam trazendo rastros e até se desfazer deles leva algum tempo.

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entre esquinas para lançar mais um livro. Era noite de quinta. As pessoas foram chegando-deixando abraços-sorrisos. Gosto de observar as reações de cada leitor de posse de um livro artesanal. Querem compreender o caminho percorrido pela fita… a maneira como o papel se ofereceu ao molde. E, no dia seguinte a esse momento-movimento… ao passear pelos retratos desse dia, esse ficou… um nó que não desata!

 


Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega


 

6 ON 6 | Outono…

A moça do tempo avisou sobre a chegada do ou.to.no em meados de março… a mesma data anotada no calendário. Mas, na paisagem o que se fazia sentir era o ve.rão… que deixou para fazer tudo arder em seus últimos instantes. Tomou fôlego e caprichou nas ‘águas de março’ e nas altas temperaturas…

Abril chegou e as brisas do ou.to.no se fizeram sentir… os raios do sol perderam intensidade e agora chegam à janela de maneira sutil. É um dourado gostoso que lembra a infância e a calda de caramelo que cobria o pudim de leite.

Eu sou toda ou.to.no… essa com certeza é a estação da minha amalgama…

As cores do outono

as cores — gosto desse tom desbotado que vem nos lembrar que tudo tem começo.meio. e fim. Isso é sagrado. Envelhecer é uma palavra linda, tanto quanto fenecer. O ou.to.no me faz prestar atenção nas cores e nessa pausa demorada, aprendo a lidar comigo.

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os aromas — eu tomo café-chá o ano todo (independe da estação) mas quando acontece o ou.to.no na minha pele… gosto de ouvir o apito na chaleira no meio da tarde, quando os tons se reinventam… apreciar o chiado gostoso da água quente caindo na xícara. O tempo de espera (meu momento precioso) é outro. Fico ali a apreciar a paisagem que sou, a recordar meus dias-realidade-tempo-vida-outro-lugar-outras-pessoas e tudo se mistura num gole demorado de chá…

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a volta das meias — se existe um estação gostosa para ser dois é o ou.to.no, que favorece o encaixe-enlace. O abraço demora um bocadito mais. Os sorrisos, as mãos dadas… é tão mais fácil partilhar da realidade. O caminhar desliza pelo chão e vai do passado ao futuro em poucos segundos.

Pausa para o café...

as  pausas no meio da tarde — o vento sopra, as nuvens aparecem e o sol foge do céu. Dou uma escapada dos meus afazeres… e vou à cozinha. Água para esquentar. Manteiga na frigideira. Prensa francesa. Pó de café. Polenta cortada em fatias. Atraído pelos sons e cheiros, meu  menino vem para a cozinha e o relógio cancela o tic tac…

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o retorno das mantas — época gostosa para ficar cobrir os pés-pernas e ler um livro. É tão gostoso adormecer aquecida pelo correr das páginas, entre histórias. Ontem a noite me fez companhia ‘silêncio na era do ruído’ de Erling Kagge… e nessa noite serão os poemas de Ana Cristina César…

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anoitece mais cedo — mais tempo para ficar dentro. Cortinas fechadas. Casa aquecida. Meias. Passos pequenos. Manta. Mangas compridas. Xícara entre mãos. Ingredientes na pia. Fogo aceso. Mesa posta. Filme. Livros. Nós dois…


…eu passei a chamar essa estação de fall ao estudar inglês. Me encantei com a frese  “fall of the leaf” (queda da folha).


 

Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

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6 on 6 | minhas manhãs…

Não sou feita de auroras… é uma de minhas frases-tatuagem, que repito há anos. Não gosto quando o dia acontece com seus tons dourados de sol. A manhã é qualquer coisa aborrecida-enfadonha.

Respiro fundo e me fecho dentro… não aprecio a luz do sol e prefiro — desde a minha meninice —, o breu… o crepúsculo… a noite que acelera o meu pulsar e faz transbordar tudo que guardo dentro durante as horas mais ingratas do dia!  Sou eu mesma dentro da noite, sou qualquer outra-vã dentro das manhãs e seu dourado existir…

 


 

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Adoro vestir pijama antes de o dia despertar… caminhar entre os espaços da casa, com meias nos pés para sentir o ambiente e meditar as horas passadas na companhia das páginas brancas de um caderno ou de um velho livro-parceiro. Gosto de travar contato com o lençol e perceber o breve desligar-se do dia-vida-realidade-corpo. Dormir pela manhã é uma das coisas que me causa imenso prazer…

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Depois de água fria no rosto e uma xícara de café... gosto de passar pela porta e ir as ruas… sentir os lugares com o sabor da primeira vez. Recordo a infância, quando era levada pelas mãos de C.  — que apontava o caminho-pessoas-casas-prédios-jardins-praças. Ela tinha um mapa particular de suas coisas prediletas… e eu nunca me desprendi desse gesto, que trago como herança dentro dos meus gestos. 

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Não é todo dia… porque nem sempre quero mesa pronta, coisas nos seus devidos lugares. Mas, às vezes, eu acordo e quero xícara, pires, talheres, um cesto com pães recém chegados da padaria ou saídos do forno, um pote com a manteiga bem batida e as cores do dia na janela da cozinha…

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A cama pronta e o virar das páginas… gosto de voltar para casa, tomar um banho de minutos, vestir apenas uma camiseta e me jogar na cama com um livro em mãos. É minha maneira sutil de sonhar acordada…

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Arrumar a cama… eu nunca me entendi com essa história de cama arrumada. Gosto da bagunça dos lençóis e travesseiros.  Do rastro que o corpo deixa e do silêncio-quietude que as cobertas amontadas emanam. É uma poesia de T.S.Eliot a qualquer hora do dia. Só houve um instante em que gostei de arrumar a cama… quando Patrick — um cão da raça boxer — vivia conosco. Ele se sentava no meio do caminho e esperava pacientemente que tudo estivesse no seu devido lugar para saltar e arrumar tudo a sua maneira — como se soubesse das minhas preferências.

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Buongiorno!  — aqui em São Paulo city… se diz ‘bom dia’ mas, eu nunca me entendi com essas duas palavras, como outras tantas. Gosto de acordar com a casa vazia, perceber os cômodos, dar pelos espaços e sentir falta do que não está lá. De relembrar outras vidas — eu já tive tantas  — , preparar uma xícara de café e ser tragada pelo aroma desse líquido poderoso… ir de encontro a coisas que alimentam o meu pulsar. Celebrar o tempo presente através de ingredientes  que misturados , são somas de todas as pessoas que sou. E ver a cadeira vazia a minha frente ser ocupada por esse menino que me sorri com os lábios-olhos, que me conquista um pouco mais a cada dia com suas formas inusitadas de silêncio. 

 


 Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega


 

6 on 6 | O que te inspira?

Eu  me lembro que, ainda na infância, entendi — com a ajuda dos meus — que cada momento tem a sua cor-som-textura-formas-inéditas-repetidas… mas tudo depende do nosso grau de atenção. C., sempre me dizia: ‘somos desatentos por natureza. Perdemos milhares de instantes, deixamos de provar centenas de coisas e a mente, de tão arteira que é, inventou o deja vu para ver se a gente entende que há coisas que não podem passar por nós sem receber de nós a devida atenção‘.

Obviamente que guardei sua fala e passei a me dedicar aos movimentos de vida ao meu redor. Muitas vezes me esquecia da vida-tempo-lugar… e ficava a admirar uma folha em seu vôo final até tocar o chão… ou o vento nas cortinas… o vôo das gaivotas por cima do mar… um caminhar despreocupado de duas pessoas de mãos dadas.

E tudo isso me toca-alcança-revira-faz-outra… e inspira!


 

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A cidade… e suas formas controvérsias. Dia e noite são um só quando as tempestades se anunciam repentinamente… com o breu inesperado por cima dos prédios-ruas-calçadas. O som dos trovões faz tremer a anatomia humana e também a arquitetura urbana… faço silêncio e aprendo. É meu instante de paz… o antes e o depois da vida urbana que é sempre tão movimentada-intensa-imensa e eu não sei existir sem todos esses recortes.

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Um dia de chuva… sou fascinada por vidraças úmidas de chuva, o som do asfalto molhado, o movimento dos guarda-chuvas e a forma das poças no caminho.  O cinza-céu… as ruas a esvaziar-se gradativamente e as luzes das casas a denunciar o recolhimento.

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Os personagens em movimentos de idas e vindas pela cidade que os recebe-atropela-expulsa-impulsiona… e os trazem para dentro de mim. Gosto de provar de diálogos pela metade… a fúria que vem em minha direção e deixa qualquer coisa de rastro para o imaginário que segue no encalço de cenas inteiras… como a um filme que se assiste incontáveis vezes.

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Uma pausa nas enfermidades diárias para ir a cozinha… combinar ingredientes: leite, pão, açúcar, ovos, fermento, óleo, trigo e lembranças em pares. O tempo de espera — esse mágico instante — que deixa no ar um rastro de significados. Adoro o instante que antecede a retirada do pão do forno…

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Nós dois em nossos momentos de pausa… gosto quando o meu olhar tropeça no dele, a mão esbarra em encontros não programados e a voz de um ressoa na anatomia do outro.  Reconhecer o tato, a temperatura… perceber os traços e se precipitar em sorrisos…

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Meu rituais de escrita… preciso do livro, da xícara-taça-copo de chá-vinho-café. De um bom livro a me oferecer realidades alternativas a minha. Meu caderno vermelho e minhas canetas coloridas a marcar o papel de amarelecido tom com premissas-nunca-promessas de prosas. O computador que há anos se tornou meu melhor amigo nessas horas… às vezes, me aborreço e o deixo de lado porque os dedos se cansam de seu silêncio de teclas, recordando o desaforo do teclado da velha remington e seus calhamaços de papéis a esquerda (pronto para o uso) e a direita (com suas frases impressas)

 


 

 Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega | Tatiana Kielberman