Tag: café

…a pessoa que não somos!

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —

…esbarrei na figura de A., no meio do passo — dentro da tarde quente. Quase que ela me escapa do olhar… distraída que estava com as coisas do meu-mundo-vida… que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco — e o desejo de ter em mãos um copo branco — grande — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…ela seguia a passos largos — com pressa — desviando do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto as mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis.

Me diverti com a cena… que assistia de dentro da pequena distância… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde qualquer, no conhecido cenário ‘entre esquinas’… que, ao tomar para si… acabou por tirá-lo de mim. Ela era espaçosa… estava sempre disposta ao diálogo, sempre a gesticular, a vasculhar superfícies.

Era apenas mais um dia na minha realidade… trabalhava no ‘livro dois’ de ‘lua de papel’. Ouvi quando pronunciaram o nome dela, e prestei atenção em seus movimentos de lady-cobra. Foi uma espécie de afago entregue ao meu imaginário… acompanhei o que era passo até o lado de fora, vi quando se sentou, cruzou as pernas e articulou seus movimentos irrequietos. Embalou seu par de horas confusas… virou páginas de revistas, digitou linhas e mais linhas. Parou para espiar o nada e reverenciar a fumaça que fugia do cigarro aceso afundado entre seus dedos.

Dias depois ela veio dividir a mesa comigo… falou de si, da vida — coisa que disse não ter o hábito de fazer. Reclamou da solidão, dos desejos de fêmea e do fato de não poder fumar na parte interna do Café. Percebi que ela tinha necessidade de reconhecimento… tato e de falas sem pontuações, sempre um tom acima. Algumas de suas frases ficaram em mim ‘fosse em outros tempos, eu iria contigo‘  ‘não estava preparada para essa novidade que é você’… outras se perderam. Confesso que aproveitei muito dela em minha personagem, com quem curiosamente se identificou, como se fosse uma continuidade uma da outra…

Passado tanto tempo entre o ontem e o hoje… ao vê-la atravessar a rua para escapar do encontro comigo… percebi que voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. Se bem que, nunca fomos algo diferente disso!

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Ninguém sabe dos mundos que cada um habita…

Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração.

Helder

2017-03-05 14.12.58-1

 

Estava sentada na mesa do café entre esquinas quando ouvi a tradicional frase ‘quantos anos você tem?’. Levantei a sobrancelha e sorri… já me acostumei ao estado e espanto que vejo no meu interlocutor quando anuncio a soma dos anos que trago em mim.

A maioria das pessoas me julga pelo diálogo — sem gírias e alcunhas, bem pontuado e parafraseado por memórias que trago em mim. Um conjunto de significados que eu acalento com prazer.

Eu não me preocupo com essa coisa de idade… tenho outros silogismos para me ocupar e definitivamente: idade, peso, tipo de roupa, a cor de meus cabelos e outros itens supérfluos não fazem parte da minha lista de coisas a considerar…

Gosto das somas que faço em silencio… que servem para contabilizar o que realmente importa. Quantos lugares visitei? Estive em inúmeras cidades. Algumas foram para sempre, outras para nunca mais. Quantas pessoas coleciono? Quase nenhuma, pouquíssimos são humanos que considero interessante. Quantos livros eu já li? Bem menos do que gostaria. Quantos eu já re-li? Uma dúzia e meia… talvez.

Mas, se alguém se atrevesse a me perguntar: quantas canecas/xícaras eu já tive? Seria necessário percorrer cidades-momentos-pessoas-livros… para tecer uma resposta sonora e agradável. Iria me sentar num canto da mesa — como fazia a casa, no meio de uma tarde qualquer… vagar cenários e traçar um diálogo sobre certas vivências.

Na minha infância eu tinha uma daquelas canequinhas de ágata… e sempre que chegava à cozinha pela manhã, lá estava ela sobre a mesa, com meu leite caramelizado — delicioso. Sentava-me na cadeira com ajuda de C., e sentia meus pés balançarem no ar. Adorava a sensação de liberdade que esse movimento me proporcionava por ainda não alcançar o chão. Entre as mãos: a caneca que aquecia meus vãos. Naqueles dias… eu podia adicionar canela ao leite e adorava lamber os bigodinhos brancos que o leite ‘pintava’ pouco acima dos lábios.

Desde pequena que me demoro a despertar pelas manhãs, mas é que eu sempre achei — não pergunte a razão — que as manhãs pertenciam aos pássaros… e não a mim. Muitas vezes eu acordei à mesa, com um gole mais quente a queimar a língua… marca que me acompanhava o resto do dia.

Alguns anos depois… ganhei uma caneca de louça, toda colorida. Minhas mãos estavam mais firmes e não causariam algum possível acidente. Precauções maternais… e a prova definitiva de que eu tinha crescido, embora continuasse a ser a ‘bambina’ da casa.

Anos mais tarde, eu e mio babo saímos para caminhar no final de uma tarde de sol ameno… pelas ruas cheias de subidas e poucas descidas — da nossa cidade. Era um hábito comum… engatar as mãos para passeios sem compromissos — em silêncio para melhor apreciar a paisagem.

Nessa tarde que vive em minha memória… encontramos e entramos numa lojinha cheia de “badulaques”, com sininho na porta. Compramos ali três canecas. Foi a primeira vez que escolhi minha própria xícara, que trazia um verso de Eliot. O babo achou graça da minha empolgação e em sorrisos disse assim que voltamos a caminhar pelas calçadas — “certas coisas fazem a gente perceber que os filhos crescem mais rápido do que nós somos capazes de acompanhar”…

O formato das xícaras é um das coisas que sempre chama a minha atenção nos cafés que visito… recentemente, ao ir ao Mirante 9 de Julho… esbarrei numa xícara de ágata — adquirida com uma bebida, um latte muito bem preparado, por $25 — e o lugar — um belíssimo cartão postal da cidade… me ganhou com isso.

Já tive muitas xícaras… umas se quebraram, outras eu perdi, algumas eu me desfiz porque o tempo delas em minhas mãos passaram. Não sou uma colecionadora. Não gosto de objetos amontoados, a juntar pó. Gosto de sentir uma xícara em mãos… sabê-la em uso… a trocar energia comigo.

Azuis, pretas… com desenhos, riscos… diferentes tamanhos — umas são apenas para tomar o cappuccino… outras para o chá. Mas nunca mais consegui tomar leite caramelizado com canela. O sabor e a sensação do calor entre as mãos permanecem em minhas vilas… mas é algo que pertence a esse templo sagrado que foi a minha infância e lá permanece: intocável.

 

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | A ROTINA DO MEU DIA…

Eu costumava dizer que não suporto rotinas… mas, ao admirar meus movimentos de vida, percebi que minha realidade é como minha música favorita — ligada no repeat. Atualmente, vivo na companhia de Carly Simon…

Saio para as ruas, percorro calçadas, escrevo notas mentais-textos futuros. Bebo café-chá-vinho e aprecio os cenários, as pessoas e espero pelo toque de midas, que irá transformar tudo em argumento para as coisas que faço-vivo-sinto…

No mais amanheço, entardeço, anoiteço entre encontros e desencontros… cada dia tem o seu sopor que eu aprecio e admiro.


WhatsApp Image 2017-05-06 at 14.49.50Perceber o dia, a manhã… em seus diferentes estágios de vida-realidade!

WhatsApp Image 2017-05-06 at 15.03.39Alinhavar combinações possíveis-impossíveis… e tentar extrair dela o melhor. Ser como as abelhas — na poesia de Dickinson: ‘uma ambição em pleno vôo de vida’…

WhatsApp Image 2017-05-06 at 15.04.39Rever narrativas antigas-e-novas — novas-e-antigas… rascunhar realidades alheias!

whatsapp-image-2017-05-06-at-14-51-29.jpegPerceber novos personagens… possíveis ensaios futuros! Porque é na realidade que eu alimento o meu imaginário!

whatsapp-image-2017-05-06-at-15-09-52.jpegAbraçar o outro, através das linhas que escrevo… quando a noite se aconchega em meu íntimo com seus matizes insanos…

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Fazer pausas no meio do passo para compreender o ritmo da realidade, que nem sempre é o mesmo do mio cuore! Mas em algum momento acertamos os nossos ponteiros…


Participam desse desafio
Avesso da CoisaFrasco de MemóriaO lado de dentro — Retratos e Diários

No interior do silêncio mais silêncio

latte para dois


Carissima A,

…sento-me aqui nesse ‘meu canto de mundo’ — esse lugar entre esquinas — para onde fujo quase que diariamente em busca de paz. Aqui sinto minha alma ser povoada com todos os elementos que preciso para existir nesse meu espaço-tempo.

Um halo se forma na realidade e eu mergulho — a cada gole — nesse abismo que sou! Na pele acontece essa simbiose de tudo que me tocou até chegar aqui. Sou uma substancia que sofre alterações a cada novo segundo: o que eu era ontem já não sou mais.

Hoje me sinto impulsionada por uma emoção que não me pertence e, no entanto, arde-pulsa-se-agiganta-e-me-reduz-a-nada. Ouço Mercedes Sosa: ‘todo cambia’…enquanto visito novamente suas linhas — ainda frescas em minha memória.

Faço uma pausa aqui dentro e penso seu discurso: “acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro…  e não seus autores é que contam“… repito incontáveis vezes essa frase, preciso ouvir-me dentro dessa fala que é sua.

Me disperso por alguns segundos… os olhos se fecham, a alma e o corpo se fecham e fico com o refrão da música que parece suor a varar os meus poros: ‘cambia, todo cambia – cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’…

Volto a realidade dos dias e suas coisas… repouso em meus vazios. Passei algum tempo sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse espaço, que é parte da minha anatomia. Meu Lado B., escreve aqui… sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural, como quem sai para uma caminhada pelas calçadas e encontra um amigo — real ou imaginário — pelo caminho e aceita o convite para um gole de café… aqui mesmo: entre esquinas, onde servem latte em copos brancos de papelão.

De gole em gole… uma frase escapa e eu refaço meus mapas particulares. Conto de meu dia, meus desafios de dar sentido as frases alheias. No momento trabalho em quatro livros… que me conduzem por viagens insólitas. Vou de São Paulo à Americana, do Rio à Amsterdã em poucos segundos. Deliro e me perco de mim mesma — sem saber se voltarei a me encontrar.

Gosto do impossível… do não saber, de não estar e, de voltar a mim apenas quando a ponta da  lapiseira repousa sobre o papel como quem caminha calçadas, atravessa ruas, dobras esquinas…

Há pouco, eu percorria as páginas de Auster — ‘diário de inverno’ — onde ele escreve como quem conversa e me deparei com esse diálogo ‘para fazer o que você faz, é necessário caminhar. São as caminhadas que trazem as palavras até você, que lhe permitem ouvir os ritmos das palavras à medida que as vai escrevendo mentalmente. Um pé para a frente, depois o outro, a batida dupla do coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isso, depois aquilo. Aquilo, depois isso. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham sentido, ainda que as palavras possam, às vezes, ter sentido, a música das palavras é onde os sentidos começam‘.

E volto ao meu silêncio, ao meu gole de latte, aos meus olhos fechados, ao refrão da música, a sua missiva e a minha resposta…

Au revoir

{TAG: MISSIVAS DE PRIMAVERA}

Adriana Aneli | Chris Herrmann | Emerson Braga | Ingrid Morandian
Mariana Gouveia | Manogon | Tatiana Kielberman

12. Encontros & desencontros

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Caríssima A.,

Sentei-me aqui, nesse fim de tarde, nessa mesa de café… a esquerda de minhas ousadias para concluir algumas linhas. Queria escrever-te… há dias que esse desejo habita minha pele, mas aprendi — faz algum tempo — que é preciso respeitar o momento e esperar por ele sem ânsia. Embora nem sempre seja fácil.

Mas quando comecei a pensar em você — vislumbrando nossos encontros — desde o primeiro… o belo ragazzo que atende esta mesa, trouxe minha xícara de café, com cioccolata e crema… e, biscoitos de gengibre… e eu me dispersei completamente.

Respirei fundo e para dentro foi também o aroma do café… esse articulador de memórias. Eu nunca soube ao certo se gosto de fato da bebida ou do aroma. Eu sou — desde sempre — uma pessoa sensorial… os cheiros animam o meu paladar. Dependo dele para degustar qualquer cominação insólita de ingredientes. E quando busco na memória uma espécie de resposta… me deparo com novos questionamentos que não me orientam — pelo contrário.

Eu gosto de ter os grãos em minhas mãos para macerá-los e depois “saborear” o aroma até cessá-lo… é um hábito que aprendi com o Nono — na infância. Foi com ele, que aprendi a sorver o líquido negro… junto a mesa — numa espécie de ritual.

Começava sempre pela pausa para observar o líquido quente ser derramado na xícara… ele  dizia que a melhor maneira era fechar os olhos para a vida, a realidade e também para os sonhos. Ser apenas matéria diante da essência: o café. Estabelecer contato com o aroma… a xícara entre as mãos… para que o calor se espalhe e estabeleça essa união sagrada. Respirar fundo… como se fizéssemos uma prece  e pronto. Levar para dentro o café — num pequeno gole, porque os excessos são imperdoáveis! E perceber finalmente o gosto, o tato, a substância… a vida e suas ilusões existir. Quando o café é forte-ristreto… o sabor se diluí rapidamente porque nos faz salivar… uma das expressões mais adoráveis porque apenas os melhores sabores são capazes de provocar tal sensação.

E enquanto repetia esse velho e delicioso ritual, que sempre fez a menina que vive em mim… sorrir! Me lembrei de seu livro e pensei que seria lúdico — uma coisa para a alma — sentar-me aqui: com linhas, agulhas e as folhas ainda soltas em mãos… me faz companhia?

Bacio

L.