No interior do silêncio mais silêncio

latte para dois


Carissima A,

…sento-me aqui nesse ‘meu canto de mundo’ — esse lugar entre esquinas — para onde fujo quase que diariamente em busca de paz. Aqui sinto minha alma ser povoada com todos os elementos que preciso para existir nesse meu espaço-tempo.

Um halo se forma na realidade e eu mergulho — a cada gole — nesse abismo que sou! Na pele acontece essa simbiose de tudo que me tocou até chegar aqui. Sou uma substancia que sofre alterações a cada novo segundo: o que eu era ontem já não sou mais.

Hoje me sinto impulsionada por uma emoção que não me pertence e, no entanto, arde-pulsa-se-agiganta-e-me-reduz-a-nada. Ouço Mercedes Sosa: ‘todo cambia’…enquanto visito novamente suas linhas — ainda frescas em minha memória.

Faço uma pausa aqui dentro e penso seu discurso: “acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro…  e não seus autores é que contam“… repito incontáveis vezes essa frase, preciso ouvir-me dentro dessa fala que é sua.

Me disperso por alguns segundos… os olhos se fecham, a alma e o corpo se fecham e fico com o refrão da música que parece suor a varar os meus poros: ‘cambia, todo cambia – cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’…

Volto a realidade dos dias e suas coisas… repouso em meus vazios. Passei algum tempo sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse espaço, que é parte da minha anatomia. Meu Lado B., escreve aqui… sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural, como quem sai para uma caminhada pelas calçadas e encontra um amigo — real ou imaginário — pelo caminho e aceita o convite para um gole de café… aqui mesmo: entre esquinas, onde servem latte em copos brancos de papelão.

De gole em gole… uma frase escapa e eu refaço meus mapas particulares. Conto de meu dia, meus desafios de dar sentido as frases alheias. No momento trabalho em quatro livros… que me conduzem por viagens insólitas. Vou de São Paulo à Americana, do Rio à Amsterdã em poucos segundos. Deliro e me perco de mim mesma — sem saber se voltarei a me encontrar.

Gosto do impossível… do não saber, de não estar e, de voltar a mim apenas quando a ponta da  lapiseira repousa sobre o papel como quem caminha calçadas, atravessa ruas, dobras esquinas…

Há pouco, eu percorria as páginas de Auster — ‘diário de inverno’ — onde ele escreve como quem conversa e me deparei com esse diálogo ‘para fazer o que você faz, é necessário caminhar. São as caminhadas que trazem as palavras até você, que lhe permitem ouvir os ritmos das palavras à medida que as vai escrevendo mentalmente. Um pé para a frente, depois o outro, a batida dupla do coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isso, depois aquilo. Aquilo, depois isso. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham sentido, ainda que as palavras possam, às vezes, ter sentido, a música das palavras é onde os sentidos começam‘.

E volto ao meu silêncio, ao meu gole de latte, aos meus olhos fechados, ao refrão da música, a sua missiva e a minha resposta…

Au revoir

{TAG: MISSIVAS DE PRIMAVERA}

Adriana Aneli | Chris Herrmann | Emerson Braga | Ingrid Morandian
Mariana Gouveia | Manogon | Tatiana Kielberman

O que o café lhe faz lembrar?

 “AMANTE DA LITERATURA acreditou que bastavam: caneta, moleskine e uma xícara de café durante horas sobre a mesa do bar. Ela, ambiciosa, exigiu-lhe a vida inteira em troca de um bom livro. Foram felizes para sempre”.pág. 13 – amor expresso, Adriana Aneli

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O AROMA E O GOSTO DO CAFÉ DESPERTAM A MEMÓRIA
E PROJETAM NA IMAGINAÇÃO ANTIGAS SENSAÇÕES…

 

Ainda que o relógio não despertasse… ele acordava mesmo assim. A tarefa que o despertava toda manhã, o mio nono dominava como poucos: preparar o café. Era sua Arte favorita!
Antes de o sol apontar o dia, a chaleira cantava na cozinha e o cheiro ia levantando um por um da família. Alguns afobados, a correr contra o tempo. Para estes, ele deixava o café com leite pronto em cima da mesa. Enquanto havia os desprovidos de pressa, a meditar as primeiras horas sonâmbulas da manhã, numa calma invejável que apenas a infância permite… para esses, o café ficava um pouquinho de tempo a mais no bule.
A gente se servia à vontade da bebida fresquinha e ficávamos ali, se bobeasse o dia todo, de gole em gole, a papear a vida e suas coisas demasiadamente humanas…
De tudo fica um pouco, disse Drummond em sua poesia… e do café fica muito mais… porque assim como minha lembrança tem cheiro de café e me transporta para dentro de um tempo que segue a acontecer cá dentro, o mesmo acontece para muitos de nós.
Pergunte a qualquer um: o que o café lhe faz lembrar? E a resposta virá lentamente… tanto no paladar quanto na memória.
E ao ler o livro de Adriana Aneli – amor expresso – que tive o prazer de editar e costurar… comecei a folhear sensações conhecidas, mas não da pessoa e sim da autora, que descobriu nos Cafés entre esquinas das cidades, um lugar para o corpo, a alma, a memória e também as palavras. Quando dei por mim estava a fazer uma singular lista dos Cafés que ficaram em mim:


Em primeiro… Paris, na companhia dos meus pais… minha primeira viagem para a cidade de Baudelaire. Descobri que o que eles serviam em xícaras não era exatamente café… e era horrível. Eu tinha apenas nove anos. Fiz careta e cuspi fora!
Mas voltei inúmeras vezes ao Montparnasse para conversar-rascunhar e conhecer personagens… menos para beber a “chicorée“, uma bebida à base de raízes de chicória, que tem gosto similar ao do café, introduzida no país no período de grande desabastecimento provocado pelas duas guerras mundiais.

Em segundo… Starbucks Broadway, com Pr durante as férias de verão de noventa e sete… ele me apresentou a famosa ‘sereia de duas caldas’… “você que adora a baleia branca de Dick Herman, vai adorar esse lugar”…
Para variar, ele estava certo: me apaixonei pelo que veio a se tornar o meu lugar favorito em muitas cidades. O meu eterno “café entre esquinas”. Amor no primeiro latte

Em terceiro… certo dia C., me disse “hoje você não vai à escola, temos coisa melhor para fazer” e fomos a Barcelona… onde compramos um tapete para a porta e depois nos sentamos à mesa do “la caixa”… o café era servido na companhia de biscoitos de gengibre e gotas de chocolate.

Em quarto… São Paulo, uma padaria antiga no velho bairro do Bixiga… imediatamente ao dia seguinte a minha chegada a Paulicéia do Mário…
Eu e “meu menino” saímos para um café, caminhamos pelas ruas do velho bairro, esbarrando num punhado de curiosas anatomias… e enquanto tentava saber de onde o conhecia (totalmente clichê, mas e daí?) caminhamos até esse lugar que tinha as paredes revestidas por velhas fotografias da Metrópole antiga.
O café não era dos melhores, mas a companhia…

Em quinto… Café Cartola, em Coimbra… na companhia da minha eterna Mestra das letras, que me disse certa vez “a psicanalise entrará em ti, mas você não viverá para ela”… gostávamos de caminhar lado a lado até o velho na Praça da República com nossos livros, em silêncio… com os olhos a dizer o que os lábios não eram mais capazes. Sorriamos a cada gole e, depois fazíamos o caminho de volta… a passear por entre uma multidão inconsciente de nós duas. Ela fazia como o nono, provava o primeiro gole de café como se fosse sopa, para sorver melhor os aromas…
Em sexto… estávamos todos à casa e quase que ao mesmo tempo, decidimos em conjunto, como se fosse combinado… ir a Marrocos. E lá fui eu na companhia dos meus. Foi a última vez que estivemos todos juntos…

[uma pausa para respirar fundo que essa bateu forte cá dentro]

Brindamos o pôr-do-sol – o mais lindo que eu já vi em toda a minha vida – com uma caneca de café requentado (horrível) e prometemos nunca nos perder. Nos esquecemos, contudo, que promessas são feitas para não serem cumpridas.
Entre sorrisos espaçados-entrelaçados… silenciamos um a um, e guardamos para todo o sempre o momento. Foi a nossa promessa mais sincera. E queríamos que fosse uma conquista, mas não foi…
Não acredito que haja arrependimento, afinal, o momento sobreviveu. E nós também. Mas eu nunca mais consegui voltar ao Café de France, que é o mais famoso da cidade, cosmopolita de Marrakesh.

Em sétimo, [estou em dúvida] — mas fico com São Paulo (novamente).
Era uma tarde de terça e eu me preparava para deixar o lugar, quando uma figura recém-saída de uma tempestade adentrou o recinto do café entre esquinas. Ela fugia da chuva que caia forte pelas ruas… estava toda molhada e reagiu como um cão ao entrar. Acho que fui a única a não esbravejar dos respingos da chuva. Nos olhamos a distância. Eu sorri suas fisionomias inteiras: provei-devorei-e-a-decorei… ela devolveu o sorriso. E eu que estava de saída, com a desculpa de esperar a chuva passar: fiquei um pouco mais. Acabei surpreendida com um gesto. A estranha me propôs um brinde – ao erguer seu copo de latte no ar – e eu embarquei no gesto. Brindamos uma a outra… à distância. Duas estranhas numa tarde-quase-noite… e, ela nunca vai saber o que me deu. Parte dela foi embora… mas uma parte-inteira ficou comigo para todo o sempre.

25. Encontros & desencontros

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Caríssima A.,

Sentei-me aqui, nesse fim de tarde, nessa mesa de café… a esquerda de minhas ousadias para concluir algumas linhas. Queria escrever-te… há dias que esse desejo habita minha pele, mas aprendi — faz algum tempo — que é preciso respeitar o momento e esperar por ele sem ânsia. Embora nem sempre seja fácil.

Mas quando comecei a pensar em você — vislumbrando nossos encontros — desde o primeiro… o belo ragazzo que atende esta mesa, trouxe minha xícara de café, com cioccolata e crema… e, biscoitos de gengibre… e eu me dispersei completamente.

Respirei fundo e para dentro foi também o aroma do café… esse articulador de memórias. Eu nunca soube ao certo se gosto de fato da bebida ou do aroma. Eu sou — desde sempre — uma pessoa sensorial… os cheiros animam o meu paladar. Dependo dele para degustar qualquer cominação insólita de ingredientes. E quando busco na memória uma espécie de resposta… me deparo com novos questionamentos que não me orientam — pelo contrário.

Eu gosto de ter os grãos em minhas mãos para macerá-los e depois “saborear” o aroma até cessá-lo… é um hábito que aprendi com o Nono — na infância. Foi com ele, que aprendi a sorver o líquido negro… junto a mesa — numa espécie de ritual.

Começava sempre pela pausa para observar o líquido quente ser derramado na xícara… ele  dizia que a melhor maneira era fechar os olhos para a vida, a realidade e também para os sonhos. Ser apenas matéria diante da essência: o café. Estabelecer contato com o aroma… a xícara entre as mãos… para que o calor se espalhe e estabeleça essa união sagrada. Respirar fundo… como se fizéssemos uma prece  e pronto. Levar para dentro o café — num pequeno gole, porque os excessos são imperdoáveis! E perceber finalmente o gosto, o tato, a substância… a vida e suas ilusões existir. Quando o café é forte-ristreto… o sabor se diluí rapidamente porque nos faz salivar… uma das expressões mais adoráveis porque apenas os melhores sabores são capazes de provocar tal sensação.

E enquanto repetia esse velho e delicioso ritual, que sempre fez a menina que vive em mim… sorrir! Me lembrei de seu livro e pensei que seria lúdico — uma coisa para a alma — sentar-me aqui: com linhas, agulhas e as folhas ainda soltas em mãos… me faz companhia?

Bacio

L.

…a pessoa que não somos!

café

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —

 

…esbarrei em tua figura no meio do passo — dentro da tarde quente. Quase me escapa do olhar… distraída que estava — como sempre — alheia ao mundo, a vida, as coisas todas… com meu passo errático — feito marcha que não sai do lugar — desviando dos humanos que insistem na contramão, apenas para dizer que a errada sou eu…

Como de costume, estava atenta — apenas — a todas essas coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco e o desejo de ter em mãos um copo branco — grande — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…você seguia a passos largos — com pressa — desviando do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si mesma nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto suas mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis.

Foi engraçado observá-la dentro da pequena distância… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde de outubro que já se perdeu tanto quanto o cenário que você, ao tomar para si… acabou tirando-o de mim. Voltei a ocupar a velha mesa no canto — do lado de dentro — com livros e folhas espalhadas. Antevi o gole de café, sentindo escorrer para dentro… numa espécie de afago entregue ao meu imaginário…

E você lá em sua mesa — do lado de fora — junto a árvore de minha infância, a embalar seu par de horas confusas… voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. E agora me ocorre: e quando foi que fomos algo diferente disso?

Oração para esse dia em catarse

Sony 044

A mesa ao canto a minha espera… o livro que carrego comigo para as horas em que a mente já não deseja mais organizar uma única frase. O copo branco de café. A esquina a dizer a pressa dos homens que nada sabem de si mesmos e tampouco dos caminhos que tem para os pés.

O azul cru no céu… com suas nuvens esbranquiçadas a chegar — promessa de chuva? Talvez — o vento frio, vindo do norte a espalhar folhas da estação pelo chão… E as flores? Pelo visto ficaram para depois. O outono finalmente resolveu se aconchegar, mas pode ser coisa de momento… tudo muda tão rapidamente por aqui.

A jabuticabeira — atrapalhada com o desmando das estações — não fez frutos esse ano, mas permitiu um ninho em seu galho. A futura mamãe espia de longe os movimentos humanos de um lado para o outro. Parece tranquila-segura…

Hoje eu fumaria um cigarro se tivesse vícios… culpa da autora que insiste em mim, com sua figura esfumaçada. Vontade que passa… Amém!