Beda | reticências…

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O ano era dois mil e treze… e eu tinha finalizado “reticências”… publicando-o em formato artesanal-alternativo — uma espécie de zine, que foi entregue nas mãos de insanos leitores naquele agosto-outro…

Eu acreditei que iria voltar para casa com minha pequena coleção de vinte exemplares para serem guardados dentro de meu baú de madeira, arquitetado por meu menino…

Eu ainda nem tinha terminado minha breve-fala sobre a escolha do título e as cento e poucas páginas impressas em papel reciclado, alinhavadas com barbante branco… quando as reclamações começaram — “Fiquei sem. Quero um… como faz?”

Me desorientei… não estava preparada para a mesa vazia e aquela espécie de fila a espera de autógrafos. Quem resolveu o dilema… foi o meu menino, que colheu nomes numa lista-futura… satisfeito com o resultado da noite, que para ele não poderia ser outro.

Ocupei o meu lugar à mesa… e escrevi um punhado de palavras — duas-três-quatro —, para cada leitor. Não faço idéia do que escrevi. Nunca faço. Escrevo por escrever somente… em linha reta.

E num sem-voz… li — como quem tropeça — trechos escolhidos pelos leitores, que abriam numa página qualquer… enquanto os garçons apertavam o botão da máquina de expresso, deixando no ar aquele som reconfortante… e o supremo aroma embriagante do ristretto doppio.

 


beda interative-se

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Ontem amanheceu de novo…

“É porque existe o desejo, o olfacto, e o medo, e os vivos apaixonam-se
por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos;
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias
um orçamento incomportável”.

Gonçalo M. Tavares


 

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Julho era o tempo das pausas… de viajar com a família, reencontrar os meus… e me perder pelos quintais de frutas. Era tempo de ouvir o carrilhão na sala… com seu som agudo a se esparramar por todos os cantos da casa quando a noite se impunha. Aquele som sempre deslocava a alma do corpo, nas primeiras noites. Meu sono era intercalado por sustos sonos-robustos…

Julho sempre foi premissa de gargalhadas sonoras… dentro da noite e sua escuridão menos severa, menos intensa — pela metade. Os dias de verão prolongavam os dias e encurtavam as noites… combinavam com a infância e a intensidade das vontades, impregnadas de coisas menores.

Eram dias dourados, de céu azul e vôos de pássaros no infinito blue… de ausentar-me do quarto e ir para fora, visitar a paisagem. Tempo de acordar cedo… com o cheiro gostoso do café feito com grãos colhidos no ‘quintal’ e moídas no velho moedor caseiro de ferro, preso a mesa da cozinha… e dos pães feitos pela nona e a moça — cujo nome eu me esqueci.

Mas não consigo me esquecer do problema que ela tinha na perna… o que fez dela — segundo as falas adultas — uma moça solteira e infeliz porque houve um tempo em que a felicidade das mulheres dependia das alianças feitas em vida.

Todos que olhavam para ela… enxergavam apenas a perna torta, mais curta. Sua bota preta-pesada e os ferros que subiam pela perna — uma geringonça que lhe permitia ficar em pé como o resto de nós. As crianças — em referência ao mágico de Oz — a chamavam de: mulher de lata.

Ela teve paralisia aos oito anos — a única vítima da poliomielite que conheci — e se acostumou a conviver com os desiquilíbrios de seu corpo. Era uma figura triste, de poucas falas, que falseava os passos, enroscava-se nas coisas… e acusava cansaço ao ir de um cômodo ao outro. Mesmo assim, limpava a casa com esmero e ameava as crianças — que não se cansavam de importuná-la. Havia quem sentisse pena de sua solteirice… e quem dissesse que ela tinha o que merecia.

Foi ela quem me deu uma sonora bronca por gastar meu tempo a espiar os pássaros no quintal: ‘não seja estupida, você não tem asas, não pode voar. Vá procurar algo melhor para fazer’. Ela se aborrecia por me ver imóvel-quieta-sentada-no-muro, tendo pernas e podendo correr, escalar árvores com as outras crianças. Eu sempre fui quieta, tinha preferência por livros e conversas de adulto, com os quais me misturava com imenso prazer. Ela não conseguia entender-aceitar, fechava a cara, apertando bem os olhos e, furiosa, tentava me acertar com sua muleta de ferro.

Mas, ao contrário dela, eu tinha asas… e sempre consegui escapar de seus ataques!

18 | sobre os dias de maio…

Depois de escrever trinta textos, um a um, durante o mês de abril… desacelerei, como quem precisa de ar após percorrer uma maratona. E maio, esse mês vazio de trovoadas até aqui… seco, sem chuvas-nuvens-trovões  — vai vivendo dias de silêncio nos céus-terras-folhas. Até houve premissas-promessas… uma ou duas linhas, que não avançaram. Amassei o papel e seu branco existir apenas para ouvir qualquer coisa de som.

Há tempos que o som do papel a deformar-se entre os vãos de meus dedos é trilha sonora dos meus dias.

Os textos ficaram pelo caminho… como as previsões da moça do tempo que dizia chuvas fortes nas tardes passadas.

Não chove.
Não escrevo.
E maio avança no calendário com seus dias azuis.

Há outras coisas a fazer… com as quais me ocupar. Hoje eu li Rupi Kaur e sua poesia-pele. O livro novo ‘o que o sol faz com as flores‘ posou em minhas mãos e povoou os meus cinco sentidos. Gosto dessa ingenuidade na escrita. O escrever por escrever somente, sem compromisso com escolas-críticos, apenas diálogo que começa dentro… para si e vai alcançando o outro…

Tomei café a cada verso que deixava em meus olhos uma vida inteira-outra, tão longe e próxima… de mim. Fechei o livro e fui andar pelas ruas do bairro… esbarrei em idas e vindas  — esse movimento repetido a exaustão todos os dias. Guardei a figura de uma mulher no ponto do ônibus, com lágrimas nos olhos… encolhida. Tentava desaparecer. Não ser. Ela só queria não conjugar verbos.

Eu passei por ela como tenho passado por Maio… guardando um pouco de tudo e nada para depois, mais tarde  — nunca mais. Daqui a pouco acaba. Daqui a pouco se desfaz ainda que sem trovões. Daqui a pouco será junho… metade do ano, da laranja. Fim de estação. Novas-antigas-velhas-mesmas previsões.

Haja café!

BEDA |do verbo: transbordar…

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…abril chegou, passou e acabou! Foi um a.b.r.i.l diferente por aqui, com posts diários, por causa do B.E.D.A (blog every day april).

Foi como pensar-escrever um livro-diário… com “apenas’ (?) trinta páginas. Escolhi o caderno vermelho, o tema… o lugar, a xícara de café e me pus a pensar os dias de Abril — e claro que nada saiu conforme o planejado-pensado porque faz tempo que a minha escrita tem vida própria.

Escrevo por escrever somente… um exercício natural-rebelde de palavra no papel. Um transbordar de sensações acumuladas. Eu preciso esvaziar-me de coisas que vão entrando e se acumulando pelos cantos da pele-alma-mente… e é exatamente o que eu faço.

Cheguei a conclusão de que sou como uma esponja — colho cenas dentro do Coletivo-trem… a cada passo dados pelas ruas-calçadas-esquinas. Falas inteiras ou pela metade. Uma janela que se abre no alto de um prédio. Uma criança que escapa do controle da mãe e atravessa — sem preocupação — a rua. Um estranho que se senta ao meu lado no café e fala de si, como se fosse eu um conhecido em que se pode confiar uma vida inteira.

Eu nunca sei quando-onde irei usar cada movimento que guardo e se de fato irei usar… mas não sou dada ao desperdício — guardo tudo.

E escrever, no entanto, me faz dialogar e traçar mapas de possibilidades futuras-secretas. Nesse Abril, eu abri essa caixa de pandora e os rascunhos de minhas vivências — que sempre guardo em pastas organizadas diariamente — transbordaram nessa página.

 


beda

BEDA | sempre em movimento…

Há pessoas com quem me encontro na realidade das coisas e causas, que me fazem cair tão dentro de mim, que emergir dessa porção mais funda, leva tempo. Recorro aos passos e dou aos pés o traçado irregulares das calçadas… me desoriento, me perco dos mapas conhecidos e vou desbravando essa ilha de ninguém, enquanto percorro o caminho de volta.

Na noite de ontem… orientada pela Lua Cheia amarelada-imensa, dobrei esquinas, avancei avenidas e tropecei no velho Centro Cultural São Paulo… e sua geografia única-mutante-mutável. Foi como voltar no tempo… regressar aos meus primeiros dias em Sampa.

O Centro Cultural foi um dos primeiros cenários que descobri na Paulicéia. Me senti a casa… em meio aos meios. Nunca me esqueci do cartão de visitas que recebi ao atravessar seus espaços… um signore, om sua voz rouca-cansada-gasta lia Fernando Pessoa. Soube depois se tratar de um morador de rua, que ganhava trocados recitando para os que por ali passava.

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Fazia tanto tempo que não pisava seu chão que me senti estrangeira no meio de artistas-arteiros-humanos.

Ali se pode ser tudo e nada. A turbamulta se ocupa de si e seus movimentos urbanos-contemporâneos-de-vanguarda. Uns dançam. Outros cantam. Há quem encene a própria peça. Quem dirija seu próprio monólogo ou afine seu instrumentos. De um lado são eruditos. Do outros malditos-circenses-mambembes. Artistas e Público se misturam e se confundem numa fusão de matéria que em qualquer outro lugar seria impossível.

Desde que o conhecei… o apelidei de ‘berlim paulistana’… um elegante espaço sem portas, apenas entradas que exibem tudo e nada e conectam as calçadas com seus caminhos internos. Um jardim em suspenso para as noites de lua, salas projetadas para exposições, bibliotecas, anfiteatros e os vãos, onde se pode sentar e ser ninguém. Meditar. Exorcizar. Morrer e viver.

Inaugurado em 1982 com uma Proposta de liberdade…  os arquitetos responsáveis pelo projeto, visavam repetir e fazer jus a fama da cidade Paulista: mutante-mutável-instável-antiga-e-moderna… insana. Nunca pronta. Eternamente inacabada. Sempre disposta a novos moldes.

Centro Cultural São Paulo

Erguido num terreno situado entre a Rua Vergueiro e a Vinte e Três de maio. A região antes de ser permeada por grandes vias de asfalto e construções de concretos… e o próprio centro cultural, inaugurado em plena Ditadura Militar brasileira — era margem da nascente do Rio Itororó, berço de vales, palco de casinhas de taipas e um possível caminho para Santos.

Quando a pedra da ideia do Centro Cultural foi lançada, a região já estava bastante alterada, principalmente graças a construção das estações do metrô que desapropriou o que encontrou pela frente. Era preciso preservar o pouco de verde que havia sobrado na região, para ser um ponto destonante no meio de tanto cinza claustrofóbico.

Centro Cultural Vergueiro — escada vermelha

O Centro Cultural São Paulo — ou Vergueiro como ficou conhecido, graças a estação do metrô que fica ali, bem em sua esquina — segue mutante. Na noite de ontem…um show de Rock começava a ensaiar seus pesados metais. Um grupo de street repetia exaustivamente seus passos não tão sincronizados. No piso superior uma exposição de fotografias te convidava a olhar para si. Turistas se acotovelavam para espiar espantados a realidade múltipla-única, enquanto aguardavam — como eu — o retorno para suas realidades.

 



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