45 — Um elogio à sombra

As ruas de Buenos Aires | já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas | incômodas de turba e de agitação,
mas as ruas entediadas do bairro, quase invisíveis

 Jorge Luiz Borges

Caro Obdulio,

Saí para caminhar pelas ruas, há pouco! Precisava ir ao mercado — algo que ensaiei fazer durante a semana, mas fui postergando. Não estava disposta a enfrentar filas e multidões. Resultado? Noite de sábado e eu a me vestir para ir às ruas e transitar por calçadas irregulares.

As coisas no bairro estão mudando… Ontem, mais duas casas da rua foram para o chão e sabemos que em breve, outro empreendimento de luxo subirá aos céus, mudando a paisagem local, sem qualquer estudo ou cuidado. Coisas do tal plano diretor que permitiu tudo isso. Mas há quem aplauda essa estupidez.

Sinto-me como se estivesse a presenciar o espetáculo promovido pelo Haussmann em Paris, que a desconstruiu e destruiu, inventando uma cidade para burgueses por excelência, vendendo a Napoleão III a idéia de “culto do Belo, do Bem, das grandes coisas, da bela natureza inspirada na grande arte”. O que agradou em cheio a nova burguesia. A paixão era absoluta. Zola dizia, dos personagens de sua novela La Curée, que “os amantes sentiam o amor da nova Paris” — ironizando os que se curvaram ao modelo de cidade luz, que atraía exposições e turistas estrangeiros.

Por aqui, um quarteirão inteiro foi demolido no mês passado. O projeto não foi exibido, mas dá para imaginá-lo, tanto quanto o público ao qual se destinará.

A casa de uma senhora baixinha, meio chata, que colecionava cães e um sem-fim de coisas em seus cômodos, foi ao chão. Fiquei a imaginar como conseguiram convencê-la a desocupar a casa… e para onde ela foi?

Quando passava pela casinha de quatro cômodos, com quintal de cimento e paredes desbotadas, assustava-me com a quantidade de coisas que a janela aberta de um cômodo na frente, exibia. Ela era uma moradora antiga do bairro… uma acumuladora de coisas e lembranças. Sabia dizer cada casa que havia antes dos primeiros prédios subirem.

Ela testemunhou a primeira mudança. A que Haussmann fez em Paris teve três etapas…

Eu nunca tinha visto uma acumuladora de tão perto… Estudei a respeito, mas nunca travei contato na vida real. E, como não gosto de juntar coisas, imaginava que seriam criaturas estranhas, esquisitas. Ela parecia comum-igual.

Patrick a conheceu e não gostou dela. Toda vez que se aproximava, ele rosnava e se afastava. E ela dizia gostar de cães. Tinha vários… a maioria estava doente e não sei se recebiam cuidados.

Descobri a casa dela, no acaso dos passos e ela, que durante as feiras de domingo, era tão simpática, disposta ao diálogo… mostrou-me o seu avesso. Fingiu não ver… Deveria ter os seus motivos. Há diferentes formas de malucos na cidade.

Eu nunca me interessei por ela e, às vezes, mudava de calçada… Incomodava-me com a pergunta que se repetia em sua boca: cadê o seu cachorro caramelo? Na primeira vez, disse o que havia acontecido e ela não parou mais de falar. Tinha dúzias de conselhos a me dar a respeito do meu luto e de um novo animal. Nas vezes seguintes, em que a pergunta foi feita novamente, preferi dizer que estava em casa e fim.

Faz algum tempo que meus passos não ultrapassam certas ruas… Há uma parte do bairro, apenas com ruas com casas dos dois lados. O tenho evitado… por temer encontrar placas de demolidoras grudadas no portões e muros. Depois que limpam a área, sobem muros metálicos e a informação da área adquirida por uma construtora.

Seja em Paris ou em São Paulo, um mesmo elemento se repete: a burguesia, que trata tudo e todos como marionetes com fios presos aos dedos de uma turma pequena e mesquinha.

Mas o pior tipo de burguês é aquele que finge consciência social, se mostra preocupado com a política e o país, clama pela educação do povo, não gosta de leis e não as respeita, principalmente quando interfere em seus hábitos peculiares. E ao se sentar à mesa, se farta de iguarias que o seu dinheiro pode bancar: tudo do melhor, preparado por serviçais, que não vivem, passam a maior parte do tempo dentro de meios de transportes para chegar ao lugar que a cidade reservou para os que prestam serviços e são mal remunerados.

Baudelaire — um conhecido flâneur — estava certo em contestar o arquiteto-político e lamentar o que nomeou de pacto com o diabo, que resultou na perda da alma… Resta saber o que São Paulo perderá … porque Alma a cidade não tem há muito tempo.

Au revoir

Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “45 — Um elogio à sombra

  1. Você fez uma ode às cidades reinventadas.
    Também não gosto do que fizeram com Paris e seo mesmo se repete em São Paulo, é triste e lamentável.
    Faz ano que não visito a cidade onde nasci, mas ouvi falar a respeito do tal plano diretor e torci o nariz quando passei os olhos pelas propostas. Certamente foi resultado de gente com dinheiro e burguesa. Quem será o Haussmann daí?

    Bisous

  2. Que linda a sua correspondência falando do lugar em que reside.
    Gosto muito dessa maneira como descreve os cenários.
    Lamento o que acontece com São Paulo.
    Acho que isso aconteceu em grandes cidades, poucas escaparam e o processo se deu na França de Napoleão com esse senhor Haussmann a dar palco para a burguesia.

    As cidades se parecem, você tem razão, mas elas se diferem pelos humanos que as povoam.

    baci baci

  3. Uau, que texto forte, Lunna.
    O seu olhar para o bairro e as transformações que ele sofre.
    Não conheço Paris e pouco li a respeito das mudanças ocorridas por lá.
    Li apenas o que acontece em São Paulo e acho muito triste.
    O bairro de Pinheiros está sendo destruído, descaracterizado e recentemente o processo atingiu a Augusta. Um cinema de rua dará lugar a um desses investimentos de alto padrão.

    muito triste o que dinheiro é capaz de fazer com essa cidade.

  4. Ao ler-te eu pensei no poema do Mário de Andrade, que você tanto gosta e na maneira como ele fez seu testamento em vida, através de seus versos.

    Quando eu morrer quero ficar
    Quando eu morrer quero ficar,
    Não contem aos meus inimigos,
    Sepultado em minha cidade,
    Saudade.

    Meus pés enterrem na rua Aurora,
    No Paissandu deixem meu sexo,
    Na Lopes Chaves a cabeça
    Esqueçam.

    No Pátio do Colégio afundem
    O meu coração paulistano:
    Um coração vivo e um defunto
    Bem juntos.

    Escondam no Correio o ouvido
    Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
    Quero saber da vida alheia,
    Sereia.

    O nariz guardem nos rosais,
    A língua no alto do Ipiranga
    Para cantar a liberdade.
    Saudade…

    Os olhos lá no Jaraguá
    Assistirão ao que há de vir,
    O joelho na Universidade,
    Saudade…

    As mãos atirem por aí,
    Que desvivam como viveram,
    As tripas atirem pro Diabo,
    Que o espírito será de Deus.
    Adeus.

    beijokas

  5. Lunna, háuns dez dias, fui fazer um evento no bairro de Santo Antônio, na região Sul. Eu o conheci antes e a transformação pela qual está passando está descaracterizando um típico lugar de casas baixas e simpáticas, de ruas estreitas e com o comércio local com os seus bares de esquina, mercearias e pizzarias caseiras. Enormes edifícios, frio de concreto, aço e espelhos, jogam imagens distorcidas de uma cidade que se deforma e perde a memória de sua origem proletária. Enfim, a mesmisse da grana mal empregada.

  6. Assustador o crescimento imobiliário que visa só lucro, que destroi memórias e expulsa vidas sabe sá para onde. Ações destrutivas em prol de que mesmo? Realidades distorcidas que você captura tão bem, Lunna. Não só o seu intelocutor está atento, seu alerta nos atinge também.

  7. Ao ler sua missiva lembrei-me de Patrick e fiquei feliz porque ele me aceitou. lembro-me que ele me deu um abraço na primeira vez que o vi. Me senti tão acolhida e feliz.
    Ainda tenho o calor do afago dele na memória.
    Grazie por isso!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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