28 — Sinto falta de mim, em mim

Cara M.,

Eu sei que o silêncio é uma excelente forma de diálogo — para não dizer, não chegar. Sei que um quarto escuro tem ruídos sinceros. Enquanto no espaço de um café — entre esquinas — com suas mesas cheias — numa noite de sexta — é cenário comum para a solidão de muitos. As ruas não são silenciosas e de passo em passo, recolho diálogos pela metade… restos que recolho e guardo para o consumo. Há cenários, na cidade, em que os ruídos se avolumam. 

Já reparou que as pessoas inventaram uma nova forma de comunicação? — diálogos sem palavras. Os olhares estão sempre atrelados as paisagens, feito locomotivas a mover-se por trilhos invisíveis.

Quando foi que a vida-realidade virou esse vagão com paradas orientadas por um ecrã — onde mapas virtuais guiam os nossos pés? Quando foi que esse tempo descarrilou?

Se isso é ser contemporâneo-moderno… eu prefiro ser antiga. Não pretendo me adequar as essas aldeias de ninguém, onde se discute tudo e nada sem propriedade alguma. São todos marionetes presos por fios e não se dão conta disso…

Repetem frases alheias, como sendo coisas próprias. Vociferam incontáveis asneiras com o dedo em riste. Tenho a sensação de que estão a reproduzir a famosa figurinha das redes sociais o emoji de vômito no ar.

É impressionante como as pessoas fazem questão de ter opinião sobre tudo e sentem-se à vontade para questionar a opinião do outro e, enfatizam como se fossem grandes conhecedores das leis, que estão no seu direito. Estufam o peito e engrossam o coro dos asseclas.

Escuto o silêncio de porta em porta. O vazio de boca em boca. A pressa de pés em pés… e os dedos das mãos a gritar misérias. Lembro-me da nudez de um homem em uma exposição que tanto barulho provocou. E de lá para cá, aconteceu a exposição Queers, no Sul, que foi causa de tumultos, gritos por toda a parte e acabou cancelada. O Masp se viu obrigado a cobrir telas

Qualquer coisa vira faísca para grupos especializados no que o outro deve ver-fazer-acontecer. Eu parei de me perguntar o que virá amanhã-depois…

Já tivemos fogueiras de livros, no passado e parece que querem repetir tal horror. Não passa um dia sem que alguém se manifeste a respeito de livros que não devem ser lidos. Filmes classificados como impróprios. Recentemente, a guerra entre dois países virou partida de futebol com torcidas escolhendo o lado certo e o errado. 

Na tentativa de escapar de todos esses ruídos… fui espiar a cidade da varanda e tomei um susto  a alma quase deixou o corpo e por pouco não volta. A vizinha do oitavo andar, do prédio da frente crispava desaforos janela afora… Não sei contra quem ou o que reclamava. Arregalei os olhos e fugi para dentro. Fechei janelas-cortinas, os olhos e liguei minha trilha sonora para escrever-me…

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “28 — Sinto falta de mim, em mim

  1. eu suspirei forte aqui… parece que você adivinhou meus pensamentos nessa segunda esquisita aqui. Me misturo aos seus silêncios enquanto tento me adequar à rotina. Os dias estão estranhos e as fogueiras voltaram – tu disse isso hoje – e já me antecipo a elas.
    Bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: