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09. Eu me lembrei de você… em mim!

Caríssima C.,

 

Fui para a cozinha preparar um pão na chapa… e enquanto cortava o pão ao meio e passava a manteiga, para em seguida debruçá-lo na frigideira quente — dourando-o dos dois lados, como me ensinou a fazer… me lembrei de nossas conversas no meio da tarde, do seu silêncio e seu olhar agudo-guloso-sempre-atento.

Gosto quando você chega sem avisar, com seus rituais de vida — que repito no automático — e se mistura a minha realidade… feito tempestade — a me ocupar-povoar… sem escolher dia-hora-lugar. Apenas me pega pelo braço e me leva pelos seus caminhos primaveris… caminhar a sua cidade, espiar suas pessoas, tragar do ar úmido e perfumado por suas flores de laranjeira. Te ouço falar em mar, céu azul enquanto planeja o fim de semana e aprecia os movimentos humanos-urbanos.

Recordo nós duas… sentadas à mesa daquela padaria na rua de seu trabalho… e, você a pedir dois pães na chapa. Foi preciso desprender tempo e palavras para explicar como deveria ser feito. O rapaz em seu primeiro dia de trabalho se atrapalhou todo… e você, com sua paciência rotineira ensinou a nós dois a ser sempre gentil com as pessoas: “não importa o quanto elas te desafiem, sempre ofereça o seu melhor sorriso. Do lado de dentro você esbraveja e, pronto”.

Nunca consegui imaginar o seu interior em estado de fúria. Raiva nunca foi uma palavra sua. Seu corpo sempre transbordava paz… e seus movimentos uma calma invejável. Enquanto eu era tempestade, você sempre foi calmaria. Até o meu silêncio fazia imenso barulho perto de ti, que sorria… como se reconhecesse todos os meus tumultos — herdados de ‘seu menino’. Você me dizia com a voz, os gestos e o corpo inteiro: ‘menos’ — e eu latejava fúria — bufava.

Sempre que estou prestes a perder a calma e transbordar… me lembro de sua lucidez e acabo por me perder em incontidos sorrisos. Me reorganizo em míseros segundos. Acho que você acharia graça de meus movimentos dentro do dia e por saber-me: ‘menina das palavras’, como disse que eu seria, e eu retrucava — insistia no contrário. Você tinha razão… mas, não me arrependo por ter tentado outros caminhos — porque aprendi com você que o importante é caminhar… e foi exatamente o que eu fiz. Aprendi lugares. Desaprendi pessoas… fui barco a deriva, em busca de cais. E sempre que atraco em algum porto, me lembro de ti…

 

À tout à l’heure!

5. Tenho uma almofada feita de memories…

“Nós somos os homens ocos
os homens empalhados
uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca”

— T.S.Eliot —

Caríssima M.,

Essas linhas surgiram durante o ‘nosso pequeno diálogo entre janelas’ — é o que seu blogue é para mim: uma janela aberta para a sua realidade, que daqui… me parece singular e deliciosa… eu tenho paixão por janelas, desde a infância. Não para espiar realidades alheias, e sim para imaginá-las. Lembro-me que na infância, certa vez… um forte vento fez voar as cortinas pelos ares e essa cena me encantou. Fiquei a observar aquele movimento enquanto pude, arrastada que eu era pelas ruas por A., sempre ligeira em seus passos.

Enquanto lia suas linhas, em movimento pela cidade — dentro do ônibus — embaralhei as realidades… e, me pus a tatear algumas de minhas lembranças. Recordei, e não sei dizer a razão, duas personagens ‘folclóricas’ de minha infância.

Elas eram irmãs-vizinhas-e-tagarelas… abriam suas janelas para as ruas — todas as manhãs — sempre no mesmo horário… para fazer o que mais gostavam: tomar conta da vida alheia. Eu acenava para elas — sempre que passava por lá — com minha mão direita e seus cinco dedos pequeninos. E elas devolviam — em pares — o aceno. Pareciam felizes por ter a quem acenar.

C., por sua vez, não se dignava a fazer movimento… não tinha nenhum tipo de sentimento pelas “velhas alcoviteiras”. Fingia não percebê-las em seus espaços particulares. Olhar reto, passos mais firmes e no ar a indiferença de quem não se importa com a figura do outro. Eu, enquanto menina de meio metro — se tanto — achava aquelas duas senhoras, muito engraçadas. Mas, era a única na rua a me divertir com elas.

Elas causaram muitas desavenças… por ouvir o que lhe interessavam e contar apenas o que que desejavam. Muitas de suas falas eram inventadas-aumentadas… e os estragos contabilizados na vizinhança.

Eu gosto de me ocupar dessas lembranças, como se estivesse a transitar pelos espaços urbanos, a caminho do cinema para mais um filme no melhor estilo ‘sessão da tarde’. Aliás, adoro ir ao cinema no meio da tarde… como se nada mais tivesse eu para fazer, apenas tomar o meu lugar numa confortável cadeira. O cinema praticamente vazio. A realidade guardada no bolso… e a ilusão a se propagar a estibordo.

Quando vier a Sampa, vou te levar para essas caminhadas… será como refazer os passos, numa espécie de re-viver. Você vem?

Bacio

1. Nada é tão líquido assim…

Meu Caro P.,

…remexia coisas antigas nesse fim de tarde, com a alma afundada em melancolia quando encontrei uma velha caixa que fez abrir o casulo da memória em meu corpo. Primeiro por me fazer refazer a viagem na companhia de C., pelas ruas de uma pequena cidade alemã onde comprei a caixa, onde guardei suas linhas… que hoje me devolveram à você…

Quando foi que nos perdemos? Lembro-me que nos escrevíamos com frequência voraz. Você aconteceu para mim depois de nosso encontro nas férias de verão de um ano qualquer. Já vai longe… eu tinha dez anos e tinha acabado de me apaixonar por Eliot e seus versos de vida e morte, cortantes. Uma lâmina afiada a me fazer sentir senhora de si: ‘A meia-noite chacoalha a memória / Como um louco chacoalha um gerânio morto’

Ainda me lembro – como se fosse ontem – de sua chegada… guardei o seu sorriso, seu olhar curioso. Provei da sua voz e de cada um de seus gestos. Você sempre teve sabor de chá silvestre… nunca vou me esquecer de seu olhar sem susto ao reconhecer o livro que eu tinha em mãos. Você foi o único a não questionar a minha pouca idade, a não me dizer ‘isso não é leitura para uma criança’. E quando, a casa, recebi o envelope azul artesanal, endereçado à ‘tua bambina’… eu soube que coisa sua.

Na primeira folha você acenou com um poema de Eliot e frases eufóricas de um menino-homem que nada sabia do lugar onde eu morava.

Eu que nunca tinha escrito uma missiva, esperei pelo sábado seguinte para repetir um gesto conhecido… escolhi as folhas de meu melhor caderno e contei à você… com alguma euforia e também tristeza, o que eram os meus dias naquela cidade.

Iniciamos nossa troca, que durou até que o silêncio se impôs entre nós dois. Você não me escreveu mais… nem eu à você. O hábito de escrever missivas se perdeu em algum lugar. Guardei suas linhas dentro dessa caixa para um dia revê-lo… e agora que folheio nós dois, repito-me em palavras porquê eu, de outro modo, não conseguiria alcança-lo… e para dar um nó nessa saudade que cresce e floresce em mim… voltei a escrever missivas…

Adomani, caro mio