01 | Hoje eu queria apenas escrever-te…

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Á você,

 

Hoje eu só queria escrever-te… para falar qualquer coisa minha, como nos acostumamos a fazer, no tempo de ontem. Te dizer que o correr dos dias vai organizando as cores da primavera e setembro está no fim. Os ipês floresceram na última semana… e está bonito espiar o tapete de flores, pelo chão.
Tenho escrito tanto e tanto… aos outros. Mas, eu queria mesmo, era escrever à você… para te contar do novo livro, que não pretendia existir mas, que se escreve aos poucos. Para dizer que estou bem e me acostumei ao silêncio que ficou depois que se foi.
Como não existe um remetente para onde enviar um punhado de linhas rascunhadas enquanto percorro calçadas, sem ter seus passos encaixados aos meus… observo envelopes-papéis e suspiro como quem morre.
Eu já pensei, um sem-fim de vezes, em reinventá-lo, meu caro… mas não seria justo com você, com a sua vida.
Ontem, no fim da tarde… recordei nosso último momento. Seu aniversário… você escolheu ler ‘passagem das horas’ em voz alta, na mesa da cozinha. Eu reparei em seus olhos marítimos — parecia saber que os dias seguintes seriam outra coisa.
“o que me conforta, é saber que depois de tudo que nos aconteceu, nós dois somos felizes. Conseguimos” — eu senti algo se romper em meu íntimo, naquele exato segundo! Não disse palavra. Guardei para mim aquele nó, em minha garganta.
Resolvi não considerar! Pareceu impossível — depois de tudo — algo novo nos acontecer. Nós dois já tínhamos sobrevivido a tantas coisas. Era o momento de aproveitar as coisas boas… o teu sorriso-alegria. A casa-vida nova. O amor, que sempre quis, com o qual sempre sonhou… e durante um tempo, pensou ser impossível. Temia que não fosse para você.
Ainda me lembro da sua voz emocionada a dizer-me: ‘eu conheci alguém’. Fiquei em silêncio, do outro lado da linha, enquanto pensava em entrar num avião e conhece-lo.
Em nosso último instante… você achou engraçado pensar em seus trinta e dois anos como sendo algo inteiro… e depois de comer uma fatia de bolo e revisitar a sua vida, disparou: “parece tão pouco. Nem parece certo dizer inteiro”.
Mas foi tudo… sua porção inteira de vida e, eu concordo com você: não parece certo.

 

Até sempre,

 


Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
 Adriana AneliMaria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega

 


 

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18 | que tal um café?

Meio da tarde. O vento. Qualquer coisa de sol. Folhas avulsas-alheias. O futuro acena. Espero pela noite… para ver as sombras escorrerem pela parede. A xícara sobre a mesa. O último gole. Sempre café… preto-forte-denso. Observo o desenho de Mário preso a parede e me lembro que há um projeto sobre ele na gaveta.  Respiro fundo… ligo o com. Andrea Bocelli me devolve a paz por alguns instantes. Volto para casa. Viro páginas de livros.  Escrevo um texto pequeno sobre o movimento desse dia. Caderno vermelho. Folhas amarelas. Pés descalços. Vou até a janela. Fecho cortinas. Água na chaleira. Fogo aceso. Pó de café. Xícara. Passos pequenos por cômodos de ontem. Certos diálogos que trago na memória emergem. Me devolvem à realidade das coisas-horas-dias. Penso em Whitman. Mas o calendário me lembra que é abril… dias de Eliot. Releio ‘manhã à janela’. Tic tac. Ainda é dia-tarde-pelo-meio. Tenho uma última missiva a escrever. Já se foram três! São quatro. Os autores com quem trabalho já estão acostumados aos convites que faço — cartas para abril — foi um chamado, mas eles chamam de provocações. É sonoro… eu gosto. Me faz rir, como se alguém me fizesse cócegas. Escrevemos à Baudelaire, Ana C., Borges… falta escrever à Sophia… qual escritor recusaria esse convite? Escolher o lugar, a hora, a cidade, o poeta… chegar antes, esperar. Que tal um café?


 

Manhã à janela
T.S.Eliot

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

Tradução: Ivan Junqueira


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20. Não só de café vivem os loucos…

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene
que eu é que sou translúcida morta.

Cecília Meireles


Caríssima A,

…sua missiva chegou num momento de caos. Estou sem tempo para pausas nessa minha realidade movido a agulhas e linhas. Há tanto para fazer antes de me sentar para me dedicar ao prazer de alinhavar livros. Não há tempo — como disse Cecília Meireles na última missiva enviado ao amigo Mário. Suspiro só de lembrar a despedida que ela entoa naquele punhado de linhas.

Não há tempo — insisto… e me sinto como se tivesse recebido uma sentença de não-vida, com dias contados nos dedos de uma das mãos — cinco — é o que diz o médico com seu olhar traiçoeiro a me impor urgências. Tudo é para ontem porque não há tempo e contamos os dias nos calendários e nos preparamos para as ansiedades que se misturam à minha figura.

Me preparo para viver contrários porque sou centauro e empunho o arco e disparo a flecha… uma semana sem sonos, repleta de ansiedades e pressa — justo eu que detesto certos movimentos, me vejo obrigada a eles mais uma vez.

Ainda é domingo e para me preparar para os dias que virão me deixei em estado de abandono. Li livros, vi alguns filmes e dormi horas inteiras no claro e no escuro.  E agora, enquanto aguardo a água ferver… escrevo-te e penso: quantas sentenças de não-vida recebemos ao longo da vida?

As pessoas se preocupam tanto com o ‘fim do mundo’… anunciam datas e conclamam estar próximo do fim.

Será que não percebem que o mundo se acaba todos os dias? Quantos de nós ficaram pelo caminho? Quantos de nós não conseguiram viver o dia seguinte as suas emoções mais agudas?

O mundo se acaba, minha cara… e nem sempre há tempo bastante para uma simples xícara de café preparar, porque o trabalho, a cidade e seus muitos elementos, a casa, a realidade, as pessoas — tudo isso no ocupa e povoa e suga e nos estraga, feito um vírus que anula a nossa imunidade.

E a gente se acostuma a deixar as pequenas coisas para depois — como se existisse algum prazer em dizer ‘não há tempo’. Mas aqui, eu me permito repetir as linhas de Cecília num abrir e fechar de aspas… enquanto sirvo o café feito na lentidão que existe dentro da espera.

Ao menos sou tua amiga…

02 | No interior do silêncio mais silêncio

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Carissima A.a,

…sento-me aqui nesse ‘meu canto de mundo’ — esse lugar entre esquinas — para onde fujo quase que diariamente, em busca de paz. Aqui sinto minha alma ser povoada com todos os elementos que preciso para existir nesse meu espaço-tempo. Uma espécie de halo se forma na realidade e eu mergulho — a cada gole — nesse abismo que sou! Na pele acontece a simbiose… tudo que me tocou até chegar aqui: emerge.

Ouço Mercedes Sosa — ‘todo cambia’ — enquanto re-visito suas linhas — ainda frescas em minha memória: “acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro…  e não seus autores é que contam“…

Fecho os olhos, me afasto de sua escrita e fico dentro da canção… sinto o efeito da música na pele: ‘cambia, todo cambia — cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’…

Volto à realidade… repouso em meus vazios. Passei algum tempo sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse espaço, que é parte da minha anatomia. Meu Lado B., escreve aqui… sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural… sem compromisso algum com a realidade e suas academias. Gosto e preciso desse escrever livre — sem amarras, solto no ar-espaço-tempo. Uma frase escapa e eu refaço meus mapas particulares. Narro minhas vivências-conflitos-dúvidas… ralho com meus desaforos! Afronto vontades-desejos. Dou risada de meus questionamentos e das perguntas que não preciso fazer por não estar interessada em obter respostas. Gosto do impossível… do não saber.

Gosto imenso de escrever-me, sabendo que se trata de um diálogo com alguém, feito uma garrafa atirada no mar, com um bilhete dentro. Alguém há de encontrar e percorrer o caminho de volta.  Se a onde chegar até você, hei de saber!

Au revoir

 

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| MISSIVAS DE PRIMAVERA |

20. Possuo a doença dos espaços incomensuráveis

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Caríssima A.a,

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O dia vai longe… já é quase hora do almoço do lado de fora dessa janela aberta que sou. Mas, do lado de dentro da pele, ainda estou a amanhecer. Acordei há pouco e fiquei a flutuar diante do livro esquecido aberto, na noite de ontem.

Eu sempre me demoro um pouco mais nas primeiras horas do dia… enquanto, à noite, me precipito… em movimentos muitos. É tão fácil ser-existir quando o breu se estabelece ao meu redor .

A bordo das manhãs banhadas de sol… respiro fundo, atravesso ruas, dobro esquinas — quase sem consciência alguma dos passos que dou. Vou no automático dos movimentos humanos, esbarro em multidões — uma manada humana — que me ultrapassa porque tem pressa, enquanto eu sou como uma xícara de chá.

Aprendi com uma amiga — na minha segunda década de vida — a preparar o famoso ritual do chá. Ela era uma figura solar… tinha imenso apreço pelas manhãs douradas de sol — para cuidar de seu jardim sempre verde — e por fins de tarde aquecidos.

Me ensinou a introduzir uma pequena pausa nos movimentos de vida… abrir uma brecha no tempo-espaço para escolher as ervas e macerá-las entre as mãos, com algum cuidado-calma. Sentir o aroma e impulsionando-o para dentro de si.

— ‘o tempo de espera é essencial’ — disse ao me pedir para apreciar o mundo, o lugar, a realidade e a mim… enquanto ouvia o som oco da água quente-borbulhante cair dentro da xícara — como se fosse o meu próprio íntimo.

Um ritual que repito desde então… curiosamente, às vezes, é como se ouvisse o tic tac do relógio em paralelo ao pulsar do mio cuore. Fecho-me dentro, como se deixasse de existir e de repente, me sinto emergir do fundo — em busca de ar — voltando a vida em pequenos goles.

Impossível não pensar: de quantas esperas é feita uma vida? São tantas pausas necessárias-obrigatórias… porque temos essa maldita mania de acelerar tudo? E o mais engraçado é que sempre nos falta tempo. Sempre deixamos coisas por fazer, acumulamos coisas e mais coisas…

Será que é mesmo o contemporâneo que nos demanda coisas demais ou somos nós mesmos?

Quando criança — eu me lembro — tudo era tão lento-calmo. Eu sabia o lugar dos dias-semanas-meses e o ano tinha seus trezentos e tantos dias. As horas em sala de aula eram intermináveis e eu vivia querendo agilidade. As voltas dos ponteiros, no entanto, não se deixavam seduzir por minhas vontades. Ocupavam-se — lentamente — de cada um dos impiedosos segundos-minutos. Tudo era inteiro-cheio, enquanto hoje tudo é metade…
se dissolve e acaba antes mesmo de começar. E eu já não sei dizer quantos dias tem o ano.

…faz pouco que acordei e os ponteiros já cospem suas onze horas. Tudo é para ontem. O hoje é essa sinuca sem tacos ou bolas nas caçapas! Para onde será que vamos? Me parece tão impossível traçar um mapa para uso próprio, nessa velocidade…

O dia mal começa… e termina. Ao menos há tempo o bastante para essas linhas e uma xícara de chá.

Au revoir