03 | Aquele ontem amanheceu de novo…

“É porque existe o desejo, o olfacto, es o medo, e os vivos apaixonam-se
por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos;
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias
um orçamento incomportável”.

Gonçalo M. Tavares


Eu nem sabia que gostava tanto de quando julho representava o tempo das pausas… de viajar com a família, reencontrar os meus… e me perder pelos quintais de frutas.  Era tempo de ouvir o carrilhão cantar dentro da noite, durante aquele momento de silêncio das primeiras colheradas de caldo de massa… quando acontecia uma espécie de pausa indefinível naqueles sabores-antigos. Então ressoavam… primeiro era uma espécie de advertência… como um zunido de abelha e então o estalo maior. E a hora se dissolvia no ar. Aquele som sempre deslocava a alma do meu corpo. Me lembro que alguém, certa vez, se engasgou à mesa… e correram todos, levantar os braços da criatura-menor, dando suaves batidas nas costas até vê-lo restabelecido.
E tudo acontece de novo… estou do outro lado da mesa, a acertar os óculos nos olhos e a me ausentar da cena. Observo as paredes, as telhas de barro queimado, as vigas de madeira do telhado.
Julho era tempo de céu azul e vôos de pássaros no infinito blue… de acordar devagar e espreguiçar gostoso-lento… de sentir no ar o cheiro do café feito com grãos colhidos no ‘quintal’ e moídos no velho moedor caseiro de ferro, preso a mesa da cozinha… e dos pães feitos pela nonna e a moça — cujo nome eu me esqueci. Mas não consigo me esquecer do problema que ela tinha na perna… o que fez dela — segundo as falas adultas — uma moça solteira e infeliz… porque houve um tempo em que a felicidade das mulheres dependia das alianças feitas em vida.
Todos que olhavam para ela… enxergavam apenas a perna torta, mais curta. Sua bota preta-pesada e os ferros que subiam pela perna — uma geringonça que lhe permitia ficar em pé como o resto de nós. As crianças — em referência ao mágico de Oz — a chamavam de: mulher de lata.
Ela teve paralisia aos oito anos — a única vítima da poliomielite que conheci — e se acostumou a conviver com os desiquilíbrios de seu corpo. Era uma figura triste, de poucas falas, que falseava os passos, enroscava-se nas coisas… e acusava cansaço ao ir de um cômodo ao outro. Mesmo assim, limpava a casa com esmero e ameava as crianças — que não se cansavam de importuná-la, gritando seus defeitos em voz ao alta, ao redor dela. Sempre torcia para que o aparato de ferro atingisse a um deles.
Havia quem sentisse pena da solteirice da moça… e quem dissesse que ela tinha exatamente o que merecia.
Foi ela quem me deu uma sonora bronca por gastar meu tempo sentada na mureta da varanda… a espiar os pássaros no quintal: não seja estupida, você não tem asas, não pode voar. Vá procurar algo melhor para fazer.  Ela se aborrecia por me ver imóvel-quieta-sentada-no-muro, tendo pernas e podendo correr, escalar árvores com as outras crianças.
Mas eu sempre fui quieta… tinha preferência por livros e conversas de adulto, com os quais me misturava com imenso prazer. Ela não conseguia entender-aceitar… fechava a cara, apertando bem os olhos e, furiosa, me cutucava com ponta de sua muleta de ferro.
Soube através da nonna que ela não sabia ler… fugiu da escola por não suportar as outras crianças e eu decidi que naquele verão eu iria lhe dar asas. Passou a existir em mim qualquer coisa de expectativa pelas quatro horas da tarde. Sentava na mesa da cozinha e esperava por ela… que no começou resistiu. Considerou bobagem aprender a ler naquela idade. Sentia vergonha por ser analfabeta e afirmava ser burra. Aquilo era coisa dita por outra pessoa e não por ela.
Ainda me lembro que estava a fazer as malas, no quarto… o coração falseava no peito. Era sempre a mesma sensação de fim de férias. Quando ouvi o canto frágil do carrilhão — era engraçado como em meus últimos minutos naquela casa, ele perdia a força, o encanto e virava um velho resmungão.
Ela entrou no quarto e me mostrou o caderno. Parecia satisfeita… tinha escrito o próprio nome dezenas de vezes. E o leu — com alguma dificuldade — em voz alta… e leu de novo e de novo e de novo. Quando já estava no carro, pronta para partir, ela aparece e disse: vou cuidar dos teus pássaros para você… até o próximo verão!


| leia com a trilha sonora |

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

12 comentários em “03 | Aquele ontem amanheceu de novo…

  1. Ahhh, que lindo isso. Você a ajudou a descobrir que tinha asas e que independente dos ferros nas pernas, poderia voar. Imagino a emoção dela ao ler o próprio nome para você e o tempo das badaladas do verão a ensinar a ela as vogais e consoantes. Que mágico isso. Cadê a música para a gente acompanhar.

    Lindo post!! Amei! Amei! Amei!

  2. Como sempre, um texto reflexivo e nostálgico. Incrível a força de vontade de sua nonna para escrever e ler seu nome, isso prova que quando temos um desejo, temos que nos esforçar para conquistá-lo.

    Bacio.

  3. Caríssima
    Que alegria esta moça ter percebido que poderia voar.
    Me identifico muito com sua menina…somos parecidas
    Julho para mim sempre foi muito especial, por dois motivos, mês de férias escolares e aniversário do meu pai amado.

    AMO a escrita do Gonçalo!
    Quero ler mais…
    Bacio

  4. Nossa, que texto lindo, fiquei emocionada! A leitura deve ter possibilitado um grande despertar na vida dessa moça, que era tão triste e cinzenta.
    Também conheci apenas uma pessoa vítima de poliomielite e era justamente uma médica. Foi minha pediatra e dos meus irmãos, era muito competente e simpática.

  5. Quando se dá asas a alguém, muitos poderão dizer: “agora essa pessoa poderá cair de seu voo”. Antes isso – a queda ainda será muito melhor do que viver no abismo.

  6. Ler nos parece tão corriqueiro, mas ainda hoje é uma atividade distante da realidade de tantas pessoas. Que bom que você esteve na vida dessa moça, que ela tenha aprendido a voar bem alto através da leitura.

    Beijos!

  7. Quem tem imaginação e sensibilidade pode alcançar voos altos, longos, ir para mundos distantes, mágicos…uma limitação física não limita os sonhos. Que bom que você fez a moça perceber isso.

    Como sempre, mais um belíssimo texto ❤

  8. Consegui visualizar todo o cenário enquanto lia suas palavras. Parecia cena de filme, não sei. Estava lá a apreciar as badaladas do relógio e vi a mesa posta na cozinha. Você menina sentada na mureta a voar.
    Adoro textos que conseguem me transportar assim.
    Senti pena da moça, por viver nessa época em que “a felicidade das mulheres dependia das alianças feitas em vida.” Consigo entender até as “broncas” que ela dava, imagino que na cabeça dela era absurdo alguém com as pernas saudáveis não desfrutar delas correndo por aí, ainda mais um criança.
    Mas fiquei feliz por ela ter se permitido aprender a voar.

    Linda história…

  9. Eu confesso que embaçou o olhar ao final do texto. Que lindo, Lunna.
    Lindo texto, apensar de não conhecer nenhuma moça com ferros na perna (na minha infância) seu conto me fez regressar aos meus dias de menina. Sensação gostosa. 🙂

    Adorei!

  10. Sempre que leio algo aqui fico a te imaginar, criança pequena, a fazer esses afazeres de criança lá no outro continente… (e desconsidere ou considere, se quiser, as repetições…) É engraçado como a mente viaja e eu sempre levo segundos ou minutos antes de começar a tecer um comentário depois que leio. Imagino o cheiro do café moído na hora até o barulho dos passos pesados da moça sem nome na lembrança. Imagino a menina no muro, a olhar o azul imenso, quase como se eu fosse sombra a espreitar tudo aquilo que nunca vivi em corpo, mas que, em imaginação, fluiu como se transpusesse a memória aqui.
    Sempre soube que tu era pássaro, dos que voam e por vezes, pousam, e observam a vida dos fios de eletricidade ou dos galhos de árvore. Cada leitura que faço de suas palavras escritas da leitura da vida, fico a espichar as asas e querer sair a voar também…

    xoxo

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