9 | A poesia me ensinou a ler…

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“a palavra escrita me encarnou em um corpo onde eu podia viver. O corpo-letra. Ao fazer marcar no papel, com a ponta dura da caneta, entrei no território das possibilidades. As manchas da minha pele primeiro rarearam, em seguida desapareceram. A literalidade que assinala meu estar no mundo, fazendo de mim uma geografia em que os sentimentos escavavam quase mortes, encontrou uma mediação. Pela escrita eu tornava-me capaz de transcender o concreto, transformar impotência em potência. Fui salva pela palavra escrita quando comecei a ler — e (talvez) em definitivo quando escrevi. E — importante — quando fui lida”.
— Eliane Brum —

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Não me lembro dos detalhes, aliás, de nada me lembro… o que tenho é coisa alheia. Eu acordei cedo. Era sábado. Uma manhã colorida. Primavera… e o cheiro de laranja vem em ondas do passado… que é meu, mas não vive em mim.
Fecho os olhos, respiro fundo e sinto o aroma, vejo as cores, as formas e o cenário da cozinha… mesa quadrada ao meio e os armários escuros por toda parte. No alto estão as panelas penduradas e eu gosto de ouvir o som do aço — como sinos — quando o vento passa pela janela.
Estou preguiçosa… ainda é cedo. Me sento na cadeira com almofada — deixada ali para que eu possa alcançar a mesa. Era figura miúda-pequenina. Pernas e braços curtos. Diziam que eu iria crescer… e isso de fato aconteceu — anos mais tarde, com certo atraso.
Olho para a figura dourada nebulosa da mulher mais incrível do mundo, vejo seu sorriso branco e a ouço dizer — ‘buongiorno bambina‘ — num sem-voz cuidadoso. Ela sempre soube que abrir os olhos e acordar eram coisas diferentes em mim.
Eu ainda durmo… ela me entrega uma xícara de leite quente-caramelado e volta aos seus afazeres… tecer uma missiva para um de seus velhos amigos de envelope. Eu gostava de espiar os movimentos da caneta no papel, que eram como trilhos… e eu sempre imitava o som da locomotiva em seu ritual de chegadas-e-partidas. Ela achava graça… e repetia comigo aquele som bobo cin cin pon pon, cin cin pon pon ritmado, como se tivéssemos embarcado em uma viagem-particular.
Me distraio com alguma coisa… nessa idade, meu imaginário estava insaciável. Pouso o olhar em um livro de poesias em cima da mesa, por cima de outras tantas coisas e faço como os cães, viro a cabeça para espiar o título. Reconheço as letras e num esforço particular… consigo pronunciá-las enquanto palavras — repetindo-a em voz alta. Título e Autor.
C., sempre prestava atenção a todos os meus gestos… e ao contar essa história, revela que fez enorme esforço para não transbordar. Calou-se e apreciou a primeira leitura, sem me incomodar. Foi, segundo ela, o ponto de início… não parei mais. Lia tudo que encontrava… nas paredes-muros-pedaços-de-papel.
Do que eu realmente me lembro? — de um poema numa manhã de sábado, mesmo cenário. Aos cinco anos… escrito num pedaço de papel. Chamava-se ‘felicità‘ — felicidade — e o autor falava naquelas linhas, de suas emoções mais sinceras.
Depois de ler aquela espécie de lista de coisas particulares… fiquei a deriva, com a sensação de que o poeta tinha tentado arrancar beleza onde parecia não haver nenhuma. Eram coisas simples, que eu fazia todos os dias… que todos fazem, de maneira quase mecânica-natural — “escovar os dentes, molhar o rosto com água fria, enxugar na toalha felpuda, por água no fogo e preparar o café, cortar o pão, passar manteiga, abrir a janela e espiar a cidade feia“.
Fiquei um punhado de minutos a pensar naqueles versos… a sentí-los em mim. Peguei um pedaço de papel, caneta… e rabisquei minhas emoções. Me lembrei das palavras de C., — a poesia é uma pausa na realidade. O poeta respira fundo enquanto fecha os olhos e sente. Cada vírgula é uma generosa porção de ar que leva para dentro. Cada verso é algo que ele escolhe guardar, como se fosse um baú de madeira.
A poesia me ensinou a ler e a escrever… a prestar atenção nas coisas feias-bonitas-alegres-tristes. Me ensinou a respirar e a fechar os olhos. A ficar quieta… fazer silêncio e compreender que símbolos podem ser atribuídos por outros e são, mas os significados.. são apenas nossos.

9 comentários sobre “9 | A poesia me ensinou a ler…

  1. denise barbosa agosto 9, 2019 / 17:04

    que lindo amei o texto, eu adoro poesia. que lindo que a poesia pode te proporcionar tudo isso.

  2. Ane Carol agosto 9, 2019 / 21:34

    Que bonito ler sobre os ensinamentos que a poesia de trouxe. Realmente a poesia tem o poder de transformar vidas.

  3. Leitura Enigmática agosto 9, 2019 / 22:50

    É maravilhoso ir além da leitura da poesia, mas senti-la em nossa alma. E você consegue perfeitamente, pois sua escrita é incrível, adoro ler suas publicações, você escreve com a alma.

    Bacio

  4. Rubyane agosto 10, 2019 / 14:22

    Acho fantástica a forma como você escreve, é tão único cheio de emoção, parabéns!
    Nunca dei muita atenção para a poesia e lendo seu texto penso que talvez eu devesse mudar esse meu costume.

  5. Fernanda Akemi Podette agosto 10, 2019 / 17:14

    Que texto intenso! Eu me transportei para esse momento e estive lá. Muito bom!
    Amo poesias! Aprendi a gostar delas com uma professora e com elas aprendi a ficar quieta também, a silenciar e a olhar para dentro de mim.
    Amei o post!
    Bacio

  6. Jull Palmer agosto 10, 2019 / 18:02

    Caríssima
    A poesia me fez olhar de outra maneira para a escrita.
    Eu simplesmente amei o seu texto.
    Adoro a escrita da Eliane Brum!!
    E esta foto?! Você quer me matar??
    Fiquei aqui salivando. Foto linda
    Bacio

  7. Erika Monteiro agosto 10, 2019 / 19:05

    Lunna, que viagem.
    Amei. Amei. Amei.
    Vivi cada linha, conheci a menina e senti todas as emoções desse momento.

    bacio

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