02 — Não só de café vivem os loucos

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene
que eu é que sou translúcida morta.

Cecília Meireles

Cara mia,

Penso em escrever-te há dias, mas os ponteiros do relógio não sossegam e os dias no calendários avançam impiedosos. Disseram-me que Agosto era um mês empacado-lento que demorava a passar. Talvez com tanto a fazer — livros por costurar, outros por inventar e tanto por escrever-anotar-revisar-rasurar — o ritmo que dou aos meus dias faça com que o meu Agosto seja diferente dos outros.

É estranho dizer que estou sem tempo para pausas… As coisas vão se acumulando em algum lugar e eu vou deixando para depois — esse lugar inexistente.

Não há tempo — foi o que disse Cecília Meireles na última missiva envaida ao amigo Mário, em seus últimos instantes de vida. Era um lamento… não pelo passar dos dias, das horas… Para o desfecho que ela sabia estar próximo.

Não há tempo — repito em voz alta e procuro a xícara para um último gole de café. Respiro fundo e releio Cecília e sua despedida. É como se eu tivesse recebido uma sentença de não-vida, com dias contados nos dedos das mãos — cinco dias é tudo que me resta.  E tudo se transforma e passa a ser para ontem — outro lugar inexistente. É preciso viver… chegar ao último capítulo-página-linha…

Uma pessoa disse-me há algum tempo — a morte é sempre gentil, avisa… ao contrário da vida. E eu fiquei existindo dentro dessa frase por alguns segundos. Fui trazida de volta à vida pelo ressoar do sino da Igreja do bairro, que apenas nas manhãs de domingo se faz ouvir.

As pessoas se preocupam com o fim — de tudo… do mundo, inclusive. Marcam datas… algumas causam delírios coletivos. Lembra-se do ano de 2012? Uma data supostamente Maia. E o tal do ano 2000 que muitos acreditaram ser o ponto final — segundo a bíblia, esse livro com tantas interpretações possíveis e impossíveis. Tudo ali depende da fé… É preciso acreditar. E eu não sou boa com isso, minha cara.

Eu já vivi muitos fins… O meu mundo acabou algumas vezes. É assim mesmo… você desperta para mais uma manhã e dá corda nos movimentos. Mio nonno, espreguiçava o corpanzil na porta do quarto, de onde avistava o seu velho amigo carrilhão. Abria a portinhola de vidro, pegava o pequeno instrumento e dava corda nas horas do dia. Eu gostava do zumbido que fazia — o som das engrenagens. Pouco depois, soava os acordes do bichano. E o mio cuore ía no mesmo ritmo — como se uma coisa dependesse da outra. Uma ilusão infantil… Claro! 

É tão bonita a voz do tempo, bambina. Basta fechar os olhos para ouví-lo. Ele se referia ao cuore e eu sabia. Sorríamos juntos e de mãos dadas, com o passos bem encaixados… íamos para a cozinhar preparar o café. Naquele tempo eu não bebia do líquido escuro. Não via graça naquele sabor-amargo-ácido. Mas o aroma pela casa me fazia esticar o nariz no ar — como fazem os cães.

Adorava quando a casa inteira cheirava a café. E foi ali, na mesa da cozinha, com a porta aberta para os quintais de fruta e a manhã de sol a despontar no horizonte, ouvindo o som dos cavalos nos estábulos, do garfo afundando no feno e dos pássaros nas árvores… que eu ouvi a respeito de Kairós… um dos deuses gregos do tempo.

E ao avançar do passado ao presente — em que estou e de onde escrevo-te, penso em Caetano e sua voz ressoa — peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, tempo, tempo, tempo, quando o tempo for propício — e respondo a Cecília. Tempo há…

Au revoir

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana AneliClaudia Leonardi Darlene Regina
Mariana Gouveia Obdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

7 comentários em “02 — Não só de café vivem os loucos

  1. Que beleza de carta! Na casa de meus avós também tinha um carrilhão desses que badalava suas horas por toda a casa. Lembranças boas de um tempo que não retorna lembrando-nos que o tempo, sempre voa nos contrariando sempre.

  2. Uau, que delícia de carta.
    Estou adorando essa volta dos envelopes por aqui
    Que lindo esse observar do tempo a partir de Cecília em carta a Mario e a voz de Caetano e suas referências de infância. Não tive nonno e sinto falta. Quando nasci o meu já não estava mais entre nós. Só o via em fotografias e sempre imaginei como seria colo de avô. Bem, lendo você, dá para sentir um aconchego na alma.

    bisous

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