6 on 6  |  Em 2021 eu…

6 on 6

Eu aterrissei em 2022… segundo o calendário. Mas lá fora nada mudou. O mundo continua impregnado pelo caos humano, embora a causa seja um vírus, somos nós o problema… a causa e a consequência. Fui dormir antes da meia-noite e não ouvi fogos, o estouro das rolhas, as comemorações. Não estava em paz comigo e queria o silêncio do travesseiro, a quietude dos lençóis. Preparei uma xícara de chá pela manhã e tentei me entender com Janeiro — não deu certo. Essa maldita idéia de ser um mês que olha para frente e para trás, me deixa em suspenso, como se eu tivesse misturado todas as bebidas num único copo e levado à boca para um gole único.
Mas, hoje eu acordei disposta a fazer as somas — das coisas que fiz e fiquei a olhar para a prateleira de livros à minha frente, com um vaso de violetas, uma coruja, alguns selos italianos, uma frasco vazio de jujubas, um sapinho com uma moeda na boca e um novelo de fios.  

1 – Percebi que li mais que nos outros anos… desci a maioria dos livros que estavam nas minhas caixas de feira e conclui que tenho livros em excesso. Alguns não estão com prazo de validade vencido. Percebi que já não gosto mais de Dostoievski — não como antes. Eu tinha paixão pelo estilo do homem e suas misérias tão bem pontuadas. Mas, vivendo nesse tempo de negacionistas, não dá para ler Crime e castigo e acompanhar as notícias da terra brasilis. Ainda tenho algum apreço pelos Irmãos Karamazov, mas percebo que começa a se liquefazer…

2 – Eu evitei as ruas… e o caminhar que sempre foi um meio de organizar os pensamentos ficou no ontem. Nas poucas vezes em que fui às ruas, optei por horários-outros. Mudei a minha rotina de sono e eu dormi bastante no ano que passou: pela manhã, no meio da tarde e à noite. Cansaço da realidade, provavelmente. Se em outros tempos a minha própria ficção era capaz de me socorrer, nesses tempos pandêmicos e comportamentos tão estranhos, ficou difícil…  

3 – Eu me despedi de pessoas-lugares-livros… tive dias mais longos, outros mais curtos e nada teve a ver com a estações do ano, que se misturaram aos dias, as horas e escaparam dos calendários humanos. Teve a ver comigo e a minha capacidade de ainda me espantar com alguns humanos-personagens. Pela primeira vez eu senti o sabor amargo da decepção e não gostei. Prefiro mesmo fechar os olhos e saborear o aroma do chá e o silêncio que apenas uma xícara é capaz de pontuar.

4 – Eu desaprendi o caminho da cozinha e a alquimia dos ingredientes e ainda não recuperei. A mão perdeu o jeito e a alma já não acena mais com a vontade de fazer pães e bolos. Tenho feito refeições no automático — arroz branco, macarrão branco — tudo com o mesmo sabor, sem graça. Se antes uma receita de pão era resposta para um momento, um dia… deixou de ser.

5 – Eu não planejei absolutamente nada… deixei tudo acontecer às vésperas e fui reagindo às emoções, aos fatos. Não houve novidades… mas houve surpresa ao chegar novembro e perceber que havia uma dúzia de projetos de livros prontos, resultado de um ano inteiro de trabalho.

6 – Eu participei novamente do NaNoWriMo… e rascunhei um novo romance, o sol em sagitarius. Nos primeiros dias, achei que não conseguiria ritmo para escrever 2500 palavras por dia porque orientei a minha escrita — exclusivamente — pela idéia que tinha em mente: escrever um thriller, que não é o lugar da minha pena. Mas, com o passar dos dias, escrevi mais de 5000 palavras e concluí o objetivo dias antes. O rascunho está lá… em estado de abandono e sem previsão de retomado. Talvez amanhã… esse lugar inexistente.  

Darlene ReginaIsabelle BrumMariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

10 comentários em “6 on 6  |  Em 2021 eu…

  1. Lunna, que ano não é mesmo? Mas, cara mia, estamos sobrevivendo. Que 2022 possa traçar narrativas vividas mais alegres que esse. Que a escrita e leitura continue a nos salvar e que as amizades se fortaleçam. Bacio

  2. Para alguém com projetos de véspera, você foi bastante ativa, Lunna! Participei de algumas dessas viagens e agradeço por ter me ajudado a sobreviver ao meu soterramento mental!

  3. Tive a alegria de participar do seu projeto de escrita, ainda que não tenha conseguido desenvolver a contento meu romance.
    Também estou revendo meus livros e me apaixonando por outros livros.
    Apesar da pandemia, ano passado foi um ano de redescobertas, afinal, me vi forçada a retomar atividades de trabalho presenciais e isso fez com que eu me expusesse a novas experiências também, naquela lógica quase suicida de “se posso me expor pra trabalhar, vou com todos os cuidados me expor para viver um pouco também”.

    Beijos!

  4. Mesmo que digamos que nada mudou com a entrada do novo ano, ao menos para mim sempre aquela pontinha de fazer algo mais brota. E que tenhamos todos um 2022 cheio destas pontinhas e algo a mais para fazermos e para experenciarmos!

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