27 — Pedras no caminho de ninguém

São Paulo, mais um ontem que vai longe…

Meu caro,

Hoje eu escrevo desse meu novo cenário… Cores e sombras se multiplicam pela paisagem. Estou gostando desse “retângulo” com móveis e tapete marrom na porta. Eu queria um vermelho, mas não consegui encontrar. E você sabe como tenho pouca — ou nenhuma — paciência para compras. Aborreço-me facilmente…

Ao voltar para casa, me deparei com um desses mercados de bairro, com caixas de fruta empilhadas ao lado da pequena porta na calçada e acabei por recordar a nossa infância. Resolvi experimentar uma antiga receita de pães, guardada no sótão da memória. E fiquei feliz por perceber que ainda sei misturar ingredientes.

Eu achava que jamais iria me esquecer de certas coisas. Mas começo a duvidar disso porque algumas coisas não estão mais em mim. Momentos inteiros, pessoas, lugares… Não estão mais nítidas como como antes e temo que a qualquer momento, tudo desapareça. No outro dia, precisei fazer enorme esforço para lembrar o desenhos de alguns rostos…

Enquanto esperava pela fornada de pães, meu caro… fui buscar o livro de Whitman na prateleira. O descobri graças ao signore Campos que o citou em um de seus poemas. Que descoberta meu caro. Tenho para mim que iria gostar de leaves of Grass/folhas da relva. É um exemplar bilíngue, emprestado da Biblioteca Mário de Andrade — creio que tenha lhe falado desse lugar-cenário paulistano.

O bom do livro em dois idiomas… é que me permite insistir nesse idioma que, às vezes, me causa certo cansaço. É uma confissão que faço. Sei que não te surpreendo: vivo perdida em sons e algumas palavras, simplesmente, não fazem sentido algum, em minha boca, quando pronunciadas. Chego a evitá-las por considerá-las qualquer coisa que eu mesma não entendo. Acho que por isso embalo o silêncio… Todos os idiomas tem bélissimas palavras, mas um sem-fim são desnecessárias por serem opacas-rasas… tolas!

“gingando pela calçada ou trotando por estradas rurais eu vejo rostos, / rostos de amizade, precisão, cautela, suavidade, idealismo, / o rosto espiritual previdente, o sempre bem-vindo rosto comum benevolente, / o rosto de quem canta, os rostos ilustres dos advogados naturais e juízes de costas largas, / rostos de caçadores e pescadores, sobrancelhas salientes… o rosto pálido e escanhoado dos cidadãos ortodoxos, / o rosto puro e extravagante e ansioso e interrogativo do artista

(…) Walt Whitman (trecho de “rostos/faces” – folhas da relva/leave of Grass)

Whitman com seus versos, me fez questionar a minha escrita. Ainda estou em dúvidas quanto as minhas escolhas. Faz três anos, meu caro… e ainda não escrevi o meu primeiro romance. Sei o que você pensará ao ler isso: nunca se preocupou com o tempo, sempre viveu alheia a ele. Tens razão! Mas, nesse caso, pesa…

Meus escritos são erráticos e a maioria não passa de rascunhos para serem esquecidos em gavetas. Estou a espera de descobrir a história que eu quero contar. Mas, por enquanto, parece que estou experimentando realidades alheias. Descubro personagens aqui e ali, mas nada me atinge em cheio, feito um raio.

Queria que estivesse aqui para conhecer T. — uma dessas figuras curiosas que me faz questionar se ele é real ou imaginário. Talvez pudesse me ajudar com isso. Na semana passaeu quase tive certeza. Mas, ocorreu um fato novo-estranho… e pronto. A dúvida voltou a habitar a minha pele. Ele tem paixão pela cultura mexicana e pelo festival dos los murtos. Quer fazer algo parecido aqui em São Paulo e sempre que se encontra comigo, delira a respeito. Eu quase contei a ele de nossa visita ao México — isso foi coisa sua… uma dessas viagens sem mapas-horários. Como se mudar de país fosse o mesmo que ir ao armário e escolher uma roupa para sair.

Sinto falta disso, meu caro!

Vou colocar a chaleira no fogo para apitar… e voltar para o canto do sofá, com o meu livro para apreciar as mudanças da estação. Sinto no ar qualquer coisa de “outono”. Se bem, meu caro, que as estações do ano por aqui, não passam de rumores. Você sente a mudança no ar, num minuto e no outro… acabou! Coisas da paulicéia nada desvairada do seu Mário…

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “27 — Pedras no caminho de ninguém

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